sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O escorregão gerencial do governo e o legalismo da oposição contra os pobres. Mas só contra eles. (29/02)

Se o governo tivesse trabalhado um pouco mais e lançado o programa Territórios da Cidadania no ano passado teria evitado a atual polêmica sobre a legalidade da ação, que vai cuidar de promover o desenvolvimento humano nas áreas mais pobres do interior do Brasil. Para uma administradora que faz da competência gerencial sua bandeira para 2010, a ministra Dilma Rousseff pisou na bola. Lá atrás ela deveria ter ido para cima dos ministros preguiçosos, cobrado prazos e exigido rapidez. Coisa que sabe fazer bem. Mas a ministra dormiu no ponto. Agora o assunto está no Supremo Tribunal Federal, pois a oposição diz que em ano de eleição a lei proíbe ações desse tipo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu contra a oposição, como é natural. Ainda que, convenhamos, é muito provável que o PT também recorresse aos tribunais numa situação assim se estivesse ele próprio na oposição. O empesteamento crônico do ambiente político nacional pelos gases malcheirosos do udenismo, do macartismo e do farisaísmo é uma obra histórica executada a quatro mãos pelo PT e pelo PSDB, há anos. Foi o PT, aliás, quem inventou a moda de ir toda hora à Justiça para recorrer de decisões políticas do Congresso que lhe desagradavam. Agora é a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar. O Territórios da Cidadania parece ser um ótimo programa e torço para que não seja interrompido. É uma evolução em relação ao Bolsa Família. Além disso, fortalece politicamente o Ministério do Desenvolvimento Agrário. A reforma agrária é até o momento o grande fracasso de um governo Lula marcado por belas realizações na economia e na esfera social. Vamos ver se agora vai. Mas esse episódio da luta da oposição contra o Territórios da Cidadania mostra como o Brasil é mesmo um país reacionário na alma. Nos mesmos dias em que colocou o Territórios para andar, o governo anunciou que vai propor a redução do dinheiro que as empresas pagam à Previdência Social. Já comentei o assunto aqui no blog:

[Lula] enfiou na reforma [tributária] um docinho dos sonhos dos empresários (que financiam as campanhas eleitorais): a diminuição da contribuição patronal à Previdência Social. O Brasil é mesmo um país exótico. Durante anos ouvimos falar do déficit previdenciário, dos desequilíbrios atuariais, da necessidade de fechar um buraco que ameaça as contas nacionais e impede a elevação do país ao tal "investment grade". Nesse esforço para equilibrar os números, o governo Lula implantou inclusive a contribuição dos inativos no setor público. Agora, nem bem se começa a discutir a reforma dos impostos e já aparece uma proposta para aumentar o rombo previdenciário. Proposta patrocinada pelo governo e apoiada pelos mesmos ideólogos que há anos anunciam a chegada do Juízo Final no sistema nacional de aposentadorias.

Clique aqui para ler Entreter a oposição e o Congresso e veja também o post anterior a este. Contra dar mais dinheiro a quem já tem muito a oposição não chia. Mas dar dinheiro para o pobre do interior em ano de eleição não pode. Já diminuir o imposto do empresário que vai financiar a campanha eleitoral, isso pode sim. Não só pode. Deve. Os mesmos que apontam a suposta ilegalidade na implantação do Territórios da Cidadania em ano de eleição exigem que a redução da contribuição patronal à Previdência Social aconteça o mais rápido possível. Essa é a nossa oposição. Por isso é que escrevi em Sobre a fisiologia e os papagaios, em junho do ano passado, quando comentava a pendenga entre o Senado e Hugo Chávez:

E depois se espantam quando as pesquisas dão a popularidade de Lula lá em cima. O nosso governo pode até não ser aquela brastemp. Mas, comparado com a nossa triste oposição (oposição?), vocês hão de convir que ele dá de dez.

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9 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

A ministra é excelente gerente. Sua passagem pelas Minas e Energia garantiu ao País o excedente de energia que nos permite exportar eletricidade e gás para a Argentina. O 3º Aeroporto de São Paulo, cujo local de construção seria divulgado um mês depois do anúncio da intenção do governo federal de construí-lo, está a pleno vapor.
Ela é competente demais.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008 13:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

As pessoas confundem o jeitão autoritário e a cara de má da ministra com competência. Resultado, que é bom, ela não tem nenhum prá mostrar.
Quem discordar que mostre o contrário. Mostre alguma tarefa ou realização importante que ela tenha tido.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008 15:25:00 BRT  
Anonymous Cfe disse...

"Lá atrás ela deveria ter ido para cima dos ministros preguiçosos, cobrado prazos e exigido rapidez."

"...convenhamos, é muito provável que o PT também recorresse aos tribunais numa situação assim se estivesse ele próprio na oposição.."

"Foi o PT, aliás, quem inventou a moda de ir toda hora à Justiça para recorrer de decisões políticas do Congresso que lhe desagradavam."

Alon,

Meus sinceros cumprimentos pela coragem. É desse tipo de atitude que precisamos: reconhecer as nossas fraquezas ainda que nos doa, por serem da nossa cor política.

Não concordo muitas vezes com o que você diz, mas tenho de reconhecer que está faltando a TODOS os quadrantes da vida política brasileira coragem para dialogar e não só espernear.

Saudações.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008 17:02:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

Alon,
Eu compreendo sua obsessão em querer evitar a concentração de poderes excessivos nas mãos do PT. Isso sufocaria pojetos políticos de outras opções à esquerda, como PCdoB, PSOL, PSTU, etc.

Eu só pergunto até que ponto isso não é brigar com uma realidade inexorável, em um momento de transformação e recomposição de forças políticas na história do Brasil.
Brizola passou os últimos anos de sua vida fazendo o mesmo contra o PT que a cada a dia ocupava espaços de seu PDT, antigo PTB pré-64. Hoje o PDT alia-se pragmaticamente ao governo Lula, até como estratégia de crescimento do próprio PDT.
Será que não é melhor remar a favor da corrente do que contra (desde que isto não fira seus princípios)?

Dizer que o PT fazia o mesmo que o PSDB quando estava na oposição é piada (de mau gosto).

Uma coisa é lutar e fazer a oposição que o PT fazia contra as privatizações, contra o PROER, contra programas de demissões no serviço público, e uma ou outra oposição em causa equivocada.

Outra coisa é entrar na justiça contra programas sociais (Se o tucanos de democratas fossem inteligentes, entrariam na justiça puxando verbas para seus municípios, e não contra os programas).

Não me consta que o PT algum dia entrou na justiça contra o bolsa-escola na época de FHC, contra o PRONAF, e outros programas do gênero.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008 18:31:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

Quanto à Dilma, além de estar sobremaneira ocupada em fazer decolar o PAC no ano passado, a mesma oposição que quer paralizar o governo, andou enchendo demais a agenda dela no ano passado com o tal apagão aéreo. E na virada de ano com a tentativa de materializar um fastasma de um apagão elétrico.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008 18:37:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

"Se o governo tivesse trabalhado um pouco mais e lançado o programa Territórios da Cidadania no ano passado teria evitado a atual polêmica sobre a legalidade da ação..."

Lula não é candidato a nada, portanto não há nada de ilegal.
E pedir para oposicionistas não contestarem governo,com razão ou sem razão, é um pouco demais, não acha? Falo de qualquer oposição, obviamente.
Deixando de lado a eterna briga entre oposição e governo, a única novidade nesse caso é o engajamento politico cada vez mais indiscreto do Sr Marco Aurélio de Mello.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008 23:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Prezado Alon,
Existem muito mais donos de butequins do que abiliosdiniz. Eses são raros, aqueles fazem a realidade do dito "empresariado" nacional. Pouquíssimos ganham bilhões. A maioria tostões. Pode comprovar isso facilmente. É verdade que todos correm 100% dos riscos, ao contrário dos servidores públicos, por exemplo. No entanto, (quase) todos são iguais perante a Previdência. Os grandes beneficiários pouco contribuem e muito recebem. O empresariado - de qualquer porte - paga muitíssimo e recebe o mínimo. Quando custa, contudo, custa igual a qualquer outro cidadão. É duro sustentar azelites. Alguns até são aposentados como servidores públicos ainda que nunca tenham saído do setor privado. O presidente da república é um exemplo.
Quero crer, meu caro, que o tema previdência mereça um olhar mais aberto. Pelo menos não preconceituoso ou desinformado.
Obrigado.

sábado, 1 de março de 2008 09:47:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Apesar do discurso humanista, o PT sistematicamente já trabalhou contra o pobres quando era oposição./Tanto que foi até o STF contra o Plano Real, que tirou milhares de pessoas na linha da miséria. Desculpe a expressão chula, Alon, mas não há virgem na zona.
Fernando Silva

sábado, 1 de março de 2008 10:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"Ainda que, convenhamos, é muito provável que o PT também recorresse aos tribunais numa situação assim se estivesse ele próprio na oposição."
O problema é que seria improvável o PSDB realizar projetos dessa natureza e amplitude no governo. Então, o PT na oposição não teria chance de 'rela' a cara no pó, de tão baixo que iria chegar.

sábado, 1 de março de 2008 15:24:00 BRT  

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