domingo, 17 de fevereiro de 2008

Fora do cercadinho (17/02)

Tropa de Elite ganhou o Urso de ouro, o grande prêmio do festival de cinema de Berlim. Ganhou porque é um filme espetacular (leia A pergunta do Capitão Nascimento, o prestígio de Che Guevara e a violência para o bem, de setembro de 2007). No Brasil, infelizmente, muita energia foi desperdiçada na polêmica inútil sobre o suposto viés ideológico da obra. Até hoje os atores e o diretor sentem-se na obrigação de "explicar" o que o filme "quis dizer". Que importância tem isso? Nenhuma. Se se fizer um balanço de todas as críticas dirigidas ao filme, ele não foi acusado em nenhum momento de deficiência estética ou técnica. Nem foi dito que retrata uma realidade inexistente. Tropa de Elite é mais uma prova da superioridade do realismo sobre escolas artísticas de inspiração subjetivista e abstrata. Tropa de Elite é o nosso Resgate do Soldado Ryan. E o José Padilha (na foto, recebendo o prêmio) é um Steven Spielberg, só que com menos dinheiro e fazendo filmes falados em português. Se Machado de Assis tivesse produzido em inglês, seria um Shakespeare. Pouco ou nada tenho a acrescentar ao que escrevi a respeito de Tropa de Elite, antes mesmo de seu lançamento oficial:

Tropa de Elite é um filme espetacular. É um Vidas Secas do Brasil urbano. Como na obra de Graciliano Ramos, transportada para o cinema por Nelson Pereira dos Santos, a vida dos personagens não tem progressão real. São, literalmente, vidas secas, só que desta vez no asfalto e no morro do Rio de Janeiro da virada do século [21]. Os personagens de Tropa de Elite são somente peças de um mecanismo, que sobrevive para garantir o conforto e o vício da classe dominante. No Brasil rural de Vidas Secas, ela se confundia com uma oligarquia insensível e desumana. No filme de José Padilha, assume os ares de uma burguesia e uma classe média drogadas e filantrópicas. Trata-se de um ecossistema. (...)

Clique aqui para ler o post de setembro. Bem, o filme não fica melhor por ter abocanhado o Urso de ouro. Só que num país como o nosso, de mentalidade colonizada, sempre é bom o cara obter o que aqui, sintomaticamente, é reverenciado como "reconhecimento internacional". Vê lá se o americano ou o europeu estão preocupados com "reconhecimento internacional". O fato é o seguinte. Os americanos fazem cinema como ninguém. Só que desta vez, nesse assunto, alguém criou um filme melhor do que eles jamais haviam feito. E o prêmio de Berlim é superior ao Oscar. O festival alemão é internacional. É na capital alemã, mas poderia ser em Pyongyang ou em Buenos Aires. O Oscar é um troféu dado à indústria cinematográfica americana. De vez em quando, premia-se um filme em inglês feito fora dos Estados Unidos. O Oscar é tão americano que tem uma categoria de "melhor filme estrangeiro". Que deveria se chamar "prêmio ao melhor filme chato". Como tem filme chato concorrendo ao Oscar de melhor filme estrangeiro! É um cercadinho, um puxadinho para a periferia saborear os restos da festa maior.

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15 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon,

você acha justo cobrar coerência de pessoas viciadas, doentes do ponto de vista psiquiátrico? Ainda mais diante do show de incoerência ideológica que os políticos brasileiros dão todos os dias, anos a fio?

Você não acha que está sendo muito duro com os viciados e muito leniente com os políticos?

domingo, 17 de fevereiro de 2008 22:24:00 BRT  
Blogger Leonardo Bernardes disse...

Eu concordo com a avaliação positiva sobre o filme, mas isso

"Tropa de Elite é mais uma prova da superioridade do realismo sobre escolas artísticas de inspiração subjetivista e abstrata"

é ir longe demais. Prova? Que prova? Quais os critérios? Quem os definiu? Onde eles estão explicitados? Essa expressão tem um tom profundamente retórico. Fala em termos de algo definitivo como a conclusão de uma demonstração, mas mobiliza apenas desconexas referências internacionais como analogias aos componentes do filme -- o que, aliás, parece um contra-senso para quem denuncia a mentalidade colonizada.

Esse post ficou realmente muito confuso!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008 01:26:00 BRT  
Anonymous 01 disse...

Tão com medinho do meu urso?

FALA!

Pede pra sair senão eu chamo o urso!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008 01:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

De fato, o realismo socialista fincou profundas raízes na história da arte. Só se fala nisso, hoje em dia...
Eles estão até pensando em demolir a Tate Gallery e o MoMA.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008 08:53:00 BRT  
Blogger FPS3000 disse...

Tropa de Elite é um filme bom, bem feito, com uma história coerente; é a nossa tradição de querer ver moral da história em tudo que torna essa discussão sobre o valor do filme chata.

Pede pra sair, chato de galocha, pede pra sair ...

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008 09:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Nossa Alon, revoltou geral hein?

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008 10:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Seja socialista ou não, dizer que o realismo é superior a outras escolas artísticas é algo profundamente equivocado e tendencioso. Daí a rejeitar toda e qualquer experimentação, mesmo que realista, como fazia Lukács, que não se cansava de repetir esse absurdo, é um pulinho. O surrealismo é muito bom como literatura, e foi prestigiado por alguns revolucionários, ate marxistas-leninistas. Mas não é o caso de defendê-lo.
Schoenberg é superior ou inferior a Beethoven? E os dois, são superiores ou inferiores a Bártok? E afinal, existe realismo em música?
O abstracionismo concreto dá uma enorme contribuição à modernidade e à contemporaneidade, nas áreas de design e construção. Deve bastante aos socialistas, como Malevitch. Ele é superior ou inferior ao figurativismo exibicionista de Salvador Dalì (um surrealista de araque)?. E as figuras distorcidas do Picasso, contribuem em algo para a História de Arte?
É verdade que o realismo socialista produziu obras magistrais, como O Don Silencioso, de Cholokhov, mas Kurt Vonnegut também era socialista e sua obra dificilmente poderia ser qualificada como realismo, embora o seja, em grande medida.

Seria o mínimo informar os leitores deste prestigioso blog quais e o que seriam as "escolas de inspiração subsjetivista e abstrata"!

Senão fica com aquela imagem zhdanovista identificada pelo Anônimo aí de cima.

Ignotus

PS. Pra não dizer da posição em relação às drogas, também batante one way, mas sobre isso já comentamos, sem sucesso pelos vistos.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008 11:29:00 BRT  
Anonymous Abraao disse...

O filme é bom o suficiente para sobreviver a qualquer tipo de crítica ideológica ou política. Foi capaz de mostrar com tamanha exatidão a realidade travestida de ficção. Mostra o que, quem, quando, como, onde e o porquê. É uma obra completa!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008 13:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A propósito, relendo o post vejo que há uma citação do Machado de Assis, nosso maior escritor, segundo muitos, que tem um livro narrado por um defunto, que o dedica ao primeiro verme que roer seus despojos.
Vejam só o que é o realismo... Mortos não narram, justamente porque estão mortos.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008 18:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"No Brasil, infelizmente, muita energia foi desperdiçada na polêmica inútil sobre o suposto viés ideológico da obra. Até hoje os atores e o diretor sentem-se na obrigação de "explicar" o que o filme "quis dizer". Que importância tem isso?"
Alon, imagine se alguém tivesse o privilégio de dirigir pergunta semelhante a Machado de Assis logo após a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Será possível que um romance como aquele não interessa pelo viés como fala/retrata a vida dos abastados brasileiros do fim do século XIX???? Uma obra de arte não deve ser encarada pelo "conteúdo"??? O que dizer, então, a respeito de tanta crítica (boa ou não) a respeito de Hamlet? ou Macbeth? Um artista nunca "quer dizer" algo? Então, para quem a obra é realizada??/
Abraços,
A. Sales

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008 18:36:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro A Sales:

Juízes falam por meio de suas sentenças. Jogadores de futebol, por meio de suas jogadas. Artistas, por meio de sua obra. É só isso. Obrigar atores e diretores de cinema a ssumirem o papel de "cientistas políticos" é uma deformação dirigista.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008 19:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É por ai, mesmo. Um adendo: talvez pelo fato de ser um bom filme e por isso, levar milhares de pessoas aos cinemas, pode ter provocado tais polêmicas sobre postura ideológica etc. Há filmes nacionais que pretendem descobrir a pólvora. São considerados geniais só que ninguém suporta assistí-los. Por quê? Porque na realidade são ruins e ainda levam de roldão os patrocinadores. Se fossem bons filmes muita gente os assistiria, consumiria em DVDs, reuniria amigos e família para vê-los, falaria deles nas rodas dos botecos. E trariam patrocínios para novas obras. Foram os casos de Central do Brasil, Cidade de Deus e agora é o caso de Tropa de Elite. Não faz tanto tempo, um filme baseado em Qarup, levou para um festival internacional a atriz protagonista vestida de índia...só que os paramentos eram de uma tribo dos EUA. Outro mostrou uma cena também com uma índia, só que com paramentos que lembravam uma azteca, surgindo do nada, sem nenhuma função na trama, andando pelas praias de Ipanema ao som de bossa nova, parece. Acho que ninguém entendeu nada, mas deve ser o tal de subjetivismo estético. Alguns autores de cinema nacional deveria passar a considerar o estarrecimento objetivo de quem paga o financimento público de tais filmes.
Sotho

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008 11:09:00 BRT  
Anonymous Roberto Baginski disse...

Prezado Alon,

"Tropa de Elite é mais uma prova da superioridade do realismo sobre escolas artísticas de inspiração subjetivista e abstrata."

Dentro em breve você vai incluir o José Padilha no panteão dos mestres do realismo socialista, Alon. Ainda bem que você não é daqueles que queimam os frutos da arte degenerada.

Só para ficar na URSS, Tarkovsky é um mestre do cinema não-realista. Muita gente dorme assistindo seus filmes chatos? E daí? Muitos soviéticos também não deviam compreender as obras revolucionárias (estética e politicamente) dos formalistas russos da década de 1920.

Menos, Alon, menos.

Saudações e um forte abraço,
Roberto Baginski

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008 13:02:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Nenhum imbecil criticou "...Era Uma Vez na América" do Sergio de Leone, como um filme fascista de incentivo a drogas, ou qualquer outro comentário sem sentido como esse. É um filme fantástico, com violência pra caramba. Trope de Elite é ótimo. Diretor não tem que ficar explicando nada pra brasileiro ressentido. É o velho complexo de vira-lata.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008 14:14:00 BRT  
Blogger Pablo Pamplona disse...

Só não concordo que o José Padilha seja como o Steven Spielberg; acho que o diretor tupiniquin merece muito mais mérito. O prêmio e a fama que o filme conquistou (um pouco também graças à pirataria, que acaou sendo um privilégio) foram MUITO merecidos! :D
No mais, é só. Acabo de conhecer seu blog... muito bom! abs,

domingo, 24 de fevereiro de 2008 22:47:00 BRT  

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