sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Cedo demais para julgar - ATUALIZADO (22/02)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (22/02/2008) no Correio Braziliense.

Há situações em que os povos estão dispostos a enveredar por caminhos extremos sob o impulso do orgulho nacional, ainda que isso vá lhes trazer imensos sofrimentos. A Revolução Cubana de 1959 não foi um fato isolado, um raio em céu azul no Caribe.

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Não sei se é só piada ou tem algo de verdade, mas consta que em 1989 certo líder político da China recusou-se a dar opinião sobre a Revolução Francesa, quando desembarcava em Paris para participar da comemoração do bicentenário dela. “É cedo demais para uma avaliação”, ponderou. Ainda que seja só lenda, faz sentido. Pouco mais de dois séculos depois, a insurreição que acabou por levar Luís XVI e Maria Antonieta à guilhotina ainda é objeto de controvérsia.

A historiografia antiliberal, por exemplo, debita a emergência do marxismo e das revoluções proletário-socialistas do século 20 na conta dos rebeldes que derrubaram a Bastilha em 14 de julho de 1789. Sem, é claro, esquecer de jogar parte da culpa nos intelectuais iluministas, que forneceram o substrato teórico e filosófico para questionar coisas sagradas, como o direito divino dos reis, a servidão e a ausência de igualdade de direitos.

Já quem enxerga a História do pólo oposto afirma que o Terror, simbolizado em Maximilien de Robespierre, foi um mal necessário, a demonstrar que a violência revolucionária é a parteira da História. E que sem o Comitê de Salvação Pública não teria havido Napoleão Bonaparte. Ao qual por justiça, devem ser creditados muitos dos méritos pelas atuais taxas democráticas na Europa Ocidental. Ainda que o serviço tivese que ser completado por americanos e russos, mais de um século depois.

Fazer julgamentos históricos é mesmo complicado. Vamos tomar, por exemplo, a Grande Revolta Judaica contra a dominação do Império Romano, cerca de quatro décadas após a crucificação de Jesus. Um de seus episódios mais famosos foi o cerco a Masada, fortificação no topo de um plateau no deserto da Judéia, às margens do Mar Morto. Ali, um punhado de radicais, os zelotes, coroaram com o suicídio coletivo a feroz resistência que vinham antepondo às legiões romanas.

Os resultados práticos da revolta foram desastrosos para os judeus. O Templo de Jerusalém foi destruído e teve início uma diáspora de quase 20 séculos. Ainda hoje, quem visita Roma vê no arco de Tito a imagem esculpida dos legionários a carregar, como um troféu, o candelabro principal retirado do Templo. Sobre cujos restos repousam agora dois dos mais importantes lugares santos do Islã: as mesquitas da Rocha (a de cúpula dourada, lugar de onde Muhammad subiu ao céu) e de Al-Aqsa (onde se deflagrou a segunda Intifada).

Fidel Castro deixou definitivamente nesta semana as funções de Estado em Cuba. Sua saúde precária precipitou a decisão. Tudo indica que o gesto do líder cubano marca a culminância de uma transição interna de poder no Partido Comunista, uma página virada. Fidel agora é História, ainda que — diferentemente de Getúlio Vargas — tenha entrado nela antes mesmo de deixar a vida.

Eu prefiro aderir à piada do chinês em Paris e fugir de um juízo histórico sobre a Revolução Cubana. Até para não ver cobradas conclusões definitivas sobre outros fatos, anteriores. Como os dois casos citados no começo desta coluna.

O uso indiscriminado do terror, por exemplo, deveria levar-me a condenar decisivamente a Revolução Francesa. Já as tragédias humanas decorrentes da Grande Revolta Judaica do início da Era Cristã na Judéia não deixariam alternativa: por um ângulo puramente pragmático, afrontar Roma foi mesmo uma grande estupidez, decorrente de certo fanatismo incompatível com a lógica política fria e até com a civilização.

Há situações, entretanto, em que os povos estão dispostos a enveredar por caminhos extremos sob o impulso do orgulho nacional, ainda que isso vá lhes trazer imensos sofrimentos. A Revolução Cubana de 1959 não foi um fato isolado, um raio em céu azul no Caribe. A trajetória da ilha na sua luta pela independência antes de Fidel é uma sucessão de sonhos que se alternam com frustrações, de promessas e traições vindas do grande irmão que repousa poucas milhas ao norte.


O processo político cubano tem mais a ver com o patriotismo do que com o socialismo — ainda que nas circunstâncias de países como Cuba seja difícil separar os dois vetores. A simpatia que a revolução liderada por Fidel desperta está relacionada com a resistência heróica ao domínio colonial e com o avanço inegável de conquistas sociais num país caribenho que tinha tudo para repetir as trágicas experiências nas nações marcadas pela escravidão, pela monocultura e pela dominação externa.

É um bom debate, e que tem tudo para se estender por largo tempo. Como recomenda a sabedoria oriental, trata-se de travá-lo com paciência.

Atualização, 29/02 às 9:30: Um leitor manda trecho do Washington Post com a conhecida história de que o primeiro chinês a dar essa resposta foi Chou En lai. Diz o jornal que

"When, in 1972, Henry Kissinger asked Chinese leader Chou En Lai his opinion of the French Revolution, Chou is reported to have said, "It is too soon to tell." But even by speedier American standards, it takes a while to put such momentous events in perspective and roust out all the relevant facts and opinions. Sixty years after the end of the Second World War -- with the newsreels long archived and the newsprint faded, and decades after the last of the contemporary high- level leaders have (...)

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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Que tal incluir nesse artigo as consequências para o México depois de acordos com o Imperador.
Miséria, miséria e miséria.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008 10:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

e antes o méxico era melhor?

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008 20:06:00 BRT  
Anonymous Antônio Luiz Calmon Teixeira Filho disse...

Alon:

Os mesmos cometários que você fez sobre Pinochet deveria ter feito sobre Fidel.
São duas faces da mesma moeda; dois ditatores cruéis e sanguinários, apesar de no final das contas Fidel ter sido muito mais nefasto do que Pinochet.
Vocêr deve ter esquecido dos paredões e dos campos de prisioneiros mantidos em Cuba.
A falácia de que pelo menso em Cuba há educação e saúde não se sustenta com a mínima análise.
Nada, mas nada mesmo, substitui o regime democrático, a liberdade de expressão, a alternância de poder.
Triste é ouvir Niemeyer defender Fidel; como analista político ele é um excelente arquiteto.
Na verdade você prefere fechar os olhos a condenar um ditator mosntruoso que um dia deve ter sido seu ídolo (de adolescente, provavelmente).
Imaginar que o povo cubano apoia o ditator Fidel é crer que todo povo quer ser oprimido, ou seja, "sair resistência heróica ao domínio colonial" para entrar em um mundo de trevas - não é razoável.
Defenda seus "heróis", mas não queira distorcer a realidade. Não é visão de mundo - esquerda, direita, liberal, conservador - é a realidade.

sábado, 23 de fevereiro de 2008 09:38:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Fidel é certamente ,um ditador monstruoso:mede 2m .Seu apelido desde Sierra Maestra, é "El Caballo".Justiça
Revolucionária,quando executada,é bem diferente da protelações,chicanas e venalidades ,nossas conhecidas.Os julgamentos ,na época foram filmados e televisionados, e a população cubana participou, como testemunha.JUstiça mais clara e transparente ,impossível.Desafiem os "pais da liberdade e democracia",a revelar que acontece em Guantânamo?Órgão mundial ou americano, nenhum,sabe quem está lá preso, nacionalidade,acusação, estado de saúde e se lá realmente se encontram.
.Quem conhece um mínimo de história,de Cuba e do Caribe, e sua dependência,por 53 anos dos Estados Unidos,acha que que o "paredón", foi muito condescendente e modesto, com o número de execuções .As barbáries perpetradas contra o povo cubano,são inenarráveis. A Ilha, dirigida pela máfia americana e convertida num imenso bordel, com direito a cassinos e prostituição.
Era uma BIafra moral.Para quem conhece história,sabe o significado.

domingo, 24 de fevereiro de 2008 15:10:00 BRT  
Blogger Rafael disse...

A Revolucao Cubana, sem duvidas, trouxe muitos beneficios ao povo de Cuba. Por outro lado, no entanto, tornou-se desgastada. Fidel sem Duvidas � um Heroi. Mas o povo nao pode ser obrigado a "engolir" herois. Talvez se ela (a revolucao) tivesse melhores meios de se auto-sustentar a situacao pudesse ser diferente. Asitucao em Cuba transporta suas fronteiras.
Por fim, gostaria de salientar que se houvesse um pouco mais de originalidade, mais entendimento entre as partes envolvidas e menos adversidades que provieram de fora, talvez a revolucao obtivesse mais sucesso e ate, quem sabe, servisse de modelo a outros paises, uma alternativa ao capitalismo que eterniza a miseria e a depencia dos paises em relacao aos outros.

domingo, 24 de fevereiro de 2008 15:56:00 BRT  

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