quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Pressão sobre a floresta e um ministro com razão (24/01)

D'O Estado de S.Paulo:

Desmatamento na Amazônia dispara e põe governo em alerta

Foram derrubados 3.233 km2 de floresta de agosto a dezembro; total pode chegar a 15 mil km2 em doze meses

João Domingos e Nelson Francisco

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou reunião de emergência hoje para tratar do aumento da área desmatada na Amazônia nos últimos cinco meses de 2007. Pelos cálculos da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe), o desmatamento pode ter atingido cerca de 7 mil quilômetros quadrados no período - o equivalente a cerca de 700 campos de futebol. Confira a evolução do desmatamento na Amazônia. Um levantamento do Inpe mostrou que, de agosto a dezembro, foram derrubados 3.233 quilômetros quadrados de floresta, dos quais 1.922 quilômetros quadrados em novembro e dezembro, quando normalmente não há desmate por causa das chuvas. (Continua...)

A aceleração do desmatamento é função direta da expansão da produção brasileira de carne bovina e de soja. É também função indireta da expansão da cana de açúcar para a produção de álcool. É o que venho escrevendo aqui há um ano, repetidamente. Faça uma busca por "etanol" no blog (clique aqui). Em Governo vegetariano e terras finitas, de abril, escrevi:

Nossas terras produtivas, grosso modo, distribuem-se entre: 1) áreas de proteção ambiental e reservas legais, 2) territórios indígenas, 3) lavoura e 4) pecuária. O governo afirma que a expansão da área plantada de cana de açúcar vai se dar preservando os itens 1 e 2. Sobrariam então terras em que hoje se planta ou se cria gado. Mas o governo diz também que as áreas destinadas à produção de alimentos tampouco serão afetadas, "apenas os pastos". Pelo visto, o governo brasileiro aderiu ao vegetarianismo, pois não considera a carne um alimento. Vejam como o argumento governamental não pára de pé. Suponha que a cana de açúcar para a produção de etanol avance nas áreas de pastagens e de grãos. Qual será a conseqüência imediata? Queda de produção de carne e grãos. Mas o Brasil é um campeão mundial na produção de carne e grãos. Hoje, o The New York Times traz reportagem sobre a pressão de demanda chinesa pela soja brasileira. Demanda em alta e produção em baixa significam aumento de preços. E preços de commodities em alta significam estímulo à produção. Ou seja, se a expansão da cana se der à custa de pastos e plantações de grãos, as vacas, os bois e a soja serão empurrados para onde existir terra disponível. Para as áreas de proteção ambiental, para as reservas legais e para as terras indígenas.

Algo a objetar? E qual é a solução? Em primeiro lugar, esquecer da idéia de que será possível manter a Amazônia como um santuário natural. Em segundo, buscar um modelo de ocupação da área em bases civilizadas. Que só pode alicerçar-se na agricultura familiar. Como também escrevi em Esquerda e direita, sócias. Está ali:

Se quisermos encontrar terra disponível em grandes quantidades para fazer a reforma agrária no Brasil, basta olhar para o norte. Mas o destino que as grandes potências enxergam para a Amazônia é o de reserva intocada. Para que, naturalmente, eles a explorem de acordo com as suas conveniências no futuro –quando a água se tornar um bem mais escasso ainda e quando a biotecnologia adquirir o protagonismo previsto. Toda a pressão sobre o nosso país é para que deixe a Amazônia como está. E a esquerda e os movimentos sociais brasileiros, que construíram sua identidade recente na “luta contra o neoliberalismo”, são hoje reféns da agenda neoliberal para o Brasil. Qual é o coração dessa agenda? Crescer pouco, em nome de nossas “responsabilidades planetárias”. Sacrificar o futuro dos jovens de nossas periferias em troca de recebermos uma medalha de honra como bons guardadores de jardim zoológico e jardim botânico.Um governo verdadeiramente patriótico e popular colocaria no primeiro ponto da agenda nacional a colonização da Amazônia, centrada na agricultura familiar, no cooperativismo e no crescimento ambientalmente sustentável da produção agropecuária. A Amazônia não é um problema. Ela é a mãe de todas as soluções. A expansão ordenada na Amazônia será a oportunidade de uma vida mais próspera para milhões de brasileiros. Teremos uma base demográfica para consolidar nossa soberania sobre a fronteira norte do Brasil. Criaremos uma base material para melhor integrar os países e povos do continente. E estaremos munidos de uma política ambientalmente eficaz. Hoje, por não oferecer alternativas econômicas para a maioria, o preservacionismo cego anda de mãos dadas com a devastação.

Outro dia assisti no Jornal das Dez, da Globonews, a uma entrevista do ministro Roberto Mangabeira Unger, do Planejamento Estratégico. Eu tenho cá minhas críticas ao ministro (Uma preocupante vocação para o golpe), como você já sabe, mas ele defendeu um ponto de vista razoável sobre a Amazônia. Enfatizou também a importância da atívidade agrícola familiar, centrada na pecuária intensiva. Isso para as áreas já desmatadas. E onde ainda há floresta, explicou que ela só será preservada se houver possibilidades de exploração econômica que faça a mata em pé valer mais do que a mata derrubada. O ministro tem razão.

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12 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, como você bem sabe , tudo no
Brasil(menos a corrupção) anda a
passos de tartaruga.
Não vi até o momento nenhuma
atitude concreta e eficaz, para
combater o criminoso desmatamento
na Amazônia.
As picuinhas e armações políticas ,
parecem ter maior importância !
Saudações

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008 11:23:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Fala-se disso desde os tempos da Transamazônica, a cereja do bolo do Programa de Integração Nacional: o mote era "são desmatados diariamente áreas eqüivalentyes a tantos campos de futebol". Tudo para construção de agrovilas, assentamentos de populações do NE na Amazônia com assistência técnica etc. Além de ser o passdo que sempre volta, na realidade não sabe-se o que fazer com a Amazônia. Exceto propor coisas mirabolantes como fez o futurólogo do Hudson Institute, Hermann Kahn, em O Ano 2000 ou a transposição de rios da Amazônia para o Nordeste, como propôs recentemente o Ministro das Ações de Longo Prazo.
Sotho

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008 11:56:00 BRST  
Anonymous J Augusto disse...

Querem atitude mais concreta do que o monitoramento pelo INPE por satélite em tempo real?
Hoje estamos combatendo o que aconteceu de 5 meses para cá.
Antigamente tínhamos que esperar relatórios internacionais que eram feitos de tantos em tantos anos.
O próximo passo é tornar a repressão eficiente. E é muito fácil. Compara-se uma foto da área de floresta 5 meses atrás. Apareceu soja ou gado, basta entregar quem está cuidando da plantação (se for terra pública) ou o dono da terra (se for privada) à justiça.
Não se esqueçam que o judiciário também precisa fazer sua parte. Porque todos que são indiciados e autuados pelo executivo, recorrem ao judiciário. E enquanto a justiça é lenta, o desmatamento é rápido.
A chacina dos fiscais do trabalho escravo em Unaí fará 4 anos dia 28, e um dos acusados é prefeito e está livre.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008 12:53:00 BRST  
Anonymous Alexandre Porto disse...

>ela só será preservada se houver
>exploração econômica que façam a
>mata em pé valer mais do que a
>mata derrubada.

É o que propões a concessão de Florestas Públicas;

Mas Alon, vc que é jornalista aí em Brasília poderia fazer às autoridades umas perguntas básicas:

O que acontece com as terras desmatadas? Mesmo se multados os caras podem usar as terras? Porque o governo não proíbe qualquer atividade nessas áreas identificadas?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008 13:09:00 BRST  
Blogger Paulo Lotufo disse...

alon, por falar em meio ambiente, um dos motivos do aumento da utilização de terras para aumento da produção é a imobilização da ciência agrária e biomédica pelos fundamentalistas contra a bioengenharia e os transgênicos.
Uma decisão da CNTBio sobre milho está sendo bloqueada pela ANVISA e outros do governo. O representante do Ministério da Saúde foi trocado por causa a favor do milho transgênico.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008 16:17:00 BRST  
Anonymous J Augusto disse...

Alon, seria bom atualizar o post comentando o resultado da reunião ministerial com o Presidente feita nesta 5a. feira, já divulgada, com as medidas repressivas tomadas.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008 16:37:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro J Augusto,

Vai ser a coluna de amanhã do Correio Braziliense.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008 18:55:00 BRST  
Anonymous Alexandre Porto disse...

De importante é bom avaliar que ações como essas há cinco anos demorariam meses, já que essas informações vinham de forma muito lenta. Hoje, no mês seguinte o governo tem informações confiáveis e pode agir com mais precisão.

De negativo é que mesmo assim corremos atrás do desmatamento, sem conseguir evitá-lo de forma sustentável.

O paso anunciado hoje pelo governo que é a punição tem que ser rotina.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008 20:26:00 BRST  
Anonymous Alexandre Porto disse...

"nos 36 municípios da Amazônia com maiores índices de desmatamento estão proibidas emissões de novas autorizações de derrubada da mata, e que o embargo de propriedades em que ocorreram desmatamentos ilegais será obrigatório."

Medida correta, mas na reunião que o presidente quer fazer com os 36 prefeitos seria interessante a imprensa ficar na cola deles para ouvir o que eles têm a dizer.

É preciso que a gente saiba, pelos agentes locais, os motivos do desmatamento. Tenho certeza que todos vamos aprender bastante.

Ou eles são coniventes e devem ser punidos ou saberão, como ninguém, oferecer soluções. O que possivelmente passaria por novas opções econômicas.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008 20:40:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, para preservar florestas e o meio ambiente é necessária fiscalização. Para uma fiscalização eficiente, além da tecnologia em tempo real, também é necessário o fator humano - os barnabés. Não existe Estado sem funcionário público (no caso os fiscais ambientais, e mais agentes federais). Ocorre que os agentes do sistema financeiro (os especialistas)defendem "um ajuste fiscal do Estado" (reduzir imposto e cortar despesas - menos barnabés). A conta da insensatez da classe média não fecha: que saúde, quer segurança, quer educação, quer meio ambiente, quer boas estradas, que o paraíso, mas também quer menos impostos, menos Estado, etc. Se Serra ganhar, e não fizer esta mágica só não irá para o poste se tiver a proteção do sistema.

Rosan de Sousa Amaral

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008 22:30:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A produção de soja e cana não implica obrigatoriamente em diminuiçào da produção de carne. A questào é resolvida pela tecnologia. na Amazônia ocidental, a simples introdução de uma leguminosa em consórcio com a pastagem aumentou a capacidade de pisoteio (alimentação do gado) de 1 para 3 ou 4 animais por hectare. O que não pode é criar boi extensivamente, com um mundão de terra para poucas cabeças de gado ou ampliando o desmatamento para implantar pastagens, que são a forma mais frequente de marcar posse de terra na Amazônia. Ou seja, não vamos reeditar Malthus, prevendo fome no futuro, pois a resposta está na tecnologia: aumentar a produtividade tanto da agricultura como da pecuária e ocupar cada vem menos terras para produzir cada vez mais. A Embrapa já tem essa tecnologia para a região, tanto para o gado como para a soja. A agricultura familiar na Amazônia é uma boa idéia, mas uma má perspectiva. O solo, em geral, é pobred e exige grandes investimentos em correção, adubos e pesticidas para aumentar a produçào e evitar a degradação. O exemplo dos assentamentos do Incra prova que essa não é a melhor saída. Talvez o cooperativismo ou consórcio de produtores em áreas de tamanho médio e grande, de mil a dez mil hectares, possa ser uma alternativa melhor e já está sendo tentada em algumas iniciativas pioneiras. Outra opção e a exploração florestal controlada, que começa a ser feita em Rondônia e no Acre, com racionalidade, em módulos que depois de explorados, com a retirada de madeiras nobres que tenham "filhas" e "netas" ao lado para crescerem, ficam 20 ou 30 anos se recompondo. É isso aí. Sua tese é correta: a Amazônia não pode ser o zoológico do mundo, mas é preciso saber cuidar dela. E a ciência é a solução.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008 03:01:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O que fica sem explicação é o fato do monitoramento do INPE ser em tempo real e só agora faz-se alarde sobre algo grave que estava ocorrendo diariamente e observado nas telas dos monitores do satélite. Parece, ainda, que não se descobriu que a economia brasileira é capitalista e emrgente: quando os preços de commodities alimentícias ou outras está em baixa, a expansão reduz, quando os preços apresentam perspectivas de alta, a expansão aumenta, com pressões sobre as fronteiras agrícolas. Se há abusos, isto deve-se à falta de gerenciamento eficaz, uma vez que tais movimentos podem ser previstos.
Sotho

domingo, 27 de janeiro de 2008 10:20:00 BRST  

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