terça-feira, 22 de janeiro de 2008

O sonho de um FHC barbudo (22/01)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (22/01/2008) no Correio Braziliense.

Em 2002, o eleitor médio estava saturado dos anos de Fernando Henrique Cardoso, com sua herança de crescimento baixo e estagnação. Daí a esperança oposicionista de que, em 2010, a crise americana tenha transformado Lula II numa versão barbuda de FHC II

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Todos os cálculos políticos em Brasília estão com o olho pregado nos efeitos da crise americana sobre nós. A oposição não admitirá publicamente sua torcida para que batam fortemente aqui as ondas de choque de destruição da riqueza, mas é precisamente disso que se trata. A turma do “quanto pior, melhor” sabe que a hora é agora. Para os que têm pesadelos povoados pela possibilidade de Luiz Inácio Lula da Silva chegar muito forte em 2010, não haverá provavelmente outra oportunidade como esta. É agarrar ou largar.

Lula reelegeu-se 15 meses atrás após um quadriênio marcado por idas e vindas no crescimento econômico. Depois da estagnação de 2003, veio um 2004 bom. A ele seguiram-se um 2005 medíocre e um 2006 um pouco melhor. Reeleito, o presidente da República erigiu o crescimento acelerado como marca do segundo mandato — para substituir o carro-chefe do primeiro, os programas sociais. Significativamente, as três letras mais marteladas no esforço comunicacional do governo do ano passado para cá juntam-se na sigla do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Sem o PAC, a administração Lula II resumir-se-ia à espera dolorosa de seu próprio fim.

Os planos supostamente revolucionários na Saúde foram abortados na decolagem, quando a incompetência política do governo deu o gás de que a turma do “quanto pior, melhor” precisava para derrubar, no Senado, a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Na Educação, a promessa das autoridades é que as medidas cosméticas agora lançadas terão efeito em no máximo 20 anos. Não é piada. É isso mesmo. Vinte anos. A reforma agrária está atolada nas vacilações de um presidente que se recusa a modernizar os índices de produtividade da terra — o que reduz em muito as áreas disponíveis para a democratização da propriedade rural. O programa do etanol, grande aposta de Lula para alavancar o agronegócio brasileiro à condição de fornecedor global de combustíveis, encontra pela frente as previsíveis resistências dos protecionismos europeu e americano. E patina.

A esperança é o PAC. Tranformar o Brasil num canteiro de obras, nas palavras do próprio presidente. Em 2010, os programas sociais estarão de tal modo incorporados institucionalmente ao cotidiano da população mais pobre que sua influência no processo eleitoral será relativa. O povo não é bobo. Nem a oposição. PSDB e Democratas resmungam em Brasília contra o que chamam pejorativamente de “bolsa-esmola”, mas aplicam com fúria em suas próprias administrações fórmulas para redistribuir renda a partir de impostos cobrados das classes mais altas. Como se sabe, antipopulismo e modernidade nos olhos dos outros são refresco.

A parada daqui a três anos vai ser decidida mesmo é no crescimento da economia. Segundo dados oficiais não contestados, criaram-se ano passado no Brasil quase 1,7 milhão de empregos com carteira assinada. Se Lula mantiver a média, serão quase 7 milhões de vagas em quatro anos. É um número invejável. Mesmo que o resultado final venha a ser um pouco pior, algo como 6 milhões, ainda assim poderá ser erguido como bandeira eleitoral poderosíssima. Para que mudar o time que está ganhando? Para que arriscar um crescimento que vem melhorando a vida da maioria das pessoas? Mesmo a discurseira sobre a falta de “portas de saída” para os programas sociais perderá sentido. Como dizer que faltam portas de saída se o país cria empregos como não se via há quase quatro décadas?

Existe, na oposição, quem preveja que um candidato da base de Lula pode ser derrotado mesmo com a economia andando bem e com o país politicamente pacificado. Mas não é essa a avaliação predominante. Nas conversas reservadas, políticos do PSDB e do Democratas admitem o medo do que pode acontecer quando a corrida eleitoral para a sucessão do presidente da República se polarizar e o eleitor for instado a escolher entre a continuidade de algo que está dando certo e a ruptura em direção a algo que talvez seja melhor. Ou talvez não seja.

O eleitor médio não é revolucionário. Há quem ache que Lula se elegeu em 2002 por causa da trajetória radical do PT. É mais provável que o petista tenha vencido apesar de seus defeitos — e dos de seu partido. Tanto que, como se recorda, o eleitorado só pendeu para Lula depois de inviabilizadas alternativas como Roseana Sarney e Ciro Gomes. É que o eleitor médio estava saturado dos anos de Fernando Henrique Cardoso (FHC), com sua herança de crescimento baixo e estagnação. Daí a esperança oposicionista de que a crise americana transforme Lula II numa versão barbuda de FHC II.

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13 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

A crise americana é muito forte, difícil não ter impacto aqui. Mas acredito que o impacto será menor do que em outras épocas, pelo próprio momento do país. Mas uma boa: o negócio vai ser forte.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008 12:27:00 BRST  
Anonymous J Augusto disse...

Alon, hoje finalmente me cadastrei no ibest, e votei neste blog no prêmio ibest.
Dica aos demais colegas comentaristas: quem gostar de mais de um blog tem direito a votar em mais de 1. Só não pode é votar 2 vezes no mesmo blog. Então se alguém já votou em outro blog e quiser votar no Alon também, pode retornar lá e votar. (Estou dando esta dica porque me foi útil. Não sabia disso e no ibest não há muitas explicações fáceis a respeito).

Sobre a nota, concordo com a crítica à via prussiana na Educação, Saúde e Reforma Agrária.
Só abro um parenteses quanto à reforma agrária. O Ministério que dela cuida, no ano passado despendeu mais verbas do que nos anos anteriores. Só que foi em apoio e assistência técnica aos assentados já proprietários, e menos nas novas desapropriações. Não se deu bons resultados, mas tem fundamento. Quando os recursos são escassos, é melhor conduzir metade das pessoas até o fim da viagem da inclusão social, do que conduzir todos somente até a metade da viagem que não leva a lugar nenhum.
Assentamentos sem viabilidade econômica, acaba levando à venda do lote, e devolvendo os assentados à condição anterior de exclusão social. É claro que melhor seria arrancar recursos de outras áreas (e não há área mais vistosa no orçamento da união do que o pagamento do serviço da dívida) para atender à todos.

Outra frente que beneficia a reforma agrária é a ação fiscalizadora do Ministério do Trabalho contra o trabalho escravo, e também a renda mínima proporcionada pelo bolsa família, que dá uma estabilidade melhor ao trabalhador rural contra remunerações degradantes.
Tem muito agronegócio que não se viabiliza sem a mão de obra aviltantemente barata. Na ausência dessa mão de obra, torna-se interessante à usinas e indústria de processamento de alimentos, comprar a produção de pequenos produtores em vez de empregá-los. Não deixa de ser uma política de incentivo à reforma agrária, feita "pelas bordas".

Um segundo senão, é quanto ao etanol. Nunca foi fácil para o Brasil conquistar mercados. Hoje, todos temem a competitividade do Brasil. Foi difícil com suco de laranja, com algodão, com a carne, com o frango, e até com a lagosta e camarão, e não seria diferente com o etanol. Então é um jogo que tem seu tempo de duração. Não dá para ganhar antes da hora. Assim como no futebol é preciso seguir uma tática para alcançar o resultado e esperar os 90 minutos.

Porém o etanol já está produzindo benefícios colaterais para o Brasil. Se os produtores do etanol não estão ganhando o que esperavam, quem está ganhando são os produtores de grãos com aumento do preço dos alimentos. Ganharam os produtores de milho, soja, etc. Essa pressão mundial no preço dos alimentos, obrigará a abertura de mercados ao Etanol brasileiro nos EUA e outros países. É questão de tempo.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008 13:21:00 BRST  
Anonymous insougud disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008 13:47:00 BRST  
Anonymous André K disse...

Imagino que na cabeça de alguns dirigentes o que de fato elegeu Lula foi a dinheirama do caixa 2 e o Duda Mendonça. Sem isso, seria mais uma derrota no curriculo.

A crise vai ter algum impacto por aqui, sim. Mas afinal, qual era a "vantagem" de se adotar uma política monetária tão cautelosa e conservadora? Exatamente estar melhor preparado para uma situação dessas. Em outras administrações o BC estaria agora prestes a aumentar os juros para conter a fuga de capitais. Isso não parece necessário agora.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008 15:21:00 BRST  
Anonymous Hugo Albuquerque disse...

Não será exatamente a crise americana que fará o governo Lula chegar em 2010 numa situação complicada, vai ser a própria política econômica do governo, com uma política de juros altos que se converteu numa valorização cambial irreal que não foi abortado por conta de propósitos populistas na campanha de 2006.
Não precisava ser muito inteligente para perceber há dois anos que os déficits gêmeos levariam o dolár a declinar, tornando desnecessário os juros altos no controle da inflação; Ali poderíamos ter cortado juros porque a queda do dolár contrabalancearia as coisas e a inflação se manteria estável. Poderíamos ter aproveitado a bonanza pra crescer mais, no entanto, Lula jogou isso no lixo se rendendo ao populismo cambial e se esgotou em si mesmo.
2010 ainda é difícil de prever, mas se o filme se repetir (e é bem provável que isso ocorra) teremos uma eleição com as forças políticas completamente esgotadas.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008 21:04:00 BRST  
Anonymous cfe disse...

A versão original da turma do “quanto pior, melhor” tá no governo.

A atual é cópia pirata.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008 22:25:00 BRST  
Blogger Julio Neves disse...

Acho muito pobre esse pensamento do "quanto pior, melhor". Como se o Brasil fosse uma maravilha...

Você disse que "na Educação, a promessa das autoridades é que as medidas cosméticas agora lançadas terão efeito em no máximo 20 anos. Não é piada. É isso mesmo. Vinte anos". Infelizmente é a verdade.

Quem dera se o Sarney antes de querer entrar na ABL priorizasse a educação do povo. Hoje...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008 05:44:00 BRST  
Blogger Fernando disse...

Uma grande questao que tenho desde a batalha da CPMF.

Nao seria a sua derrubada (da CPMF) uma antecipaçao prevendo uma crise que se aproxima?? Fizeram o que podiam. Assim como a Fidelidade Partidaria foi imposta pelo STF (sem pedido de vista por nenhum Ministro!!!) na vespera da votação !

Pra mim o FHC pode ser ruim de voto, mas é um otimo estrategista. Lula, abre o olho !

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008 09:55:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Só que, talvez, ainda vejamos como estão os nossos subprime. Com a melhoria relativa na renda e a expansão do crédito nos últimos anos, pode até ser que operações desse tipo tenham ocorrido por aqui. Manter o otimismo difere de não olhar para a realidade. A economia globalizada é um fato, a emergente e capitalista economia brasileira idem: escassez de enrgia, gargalos na infra-estrutura, restriçoes orçamentárias. São aspectos que demandam cautela mesmo com os fundamentos exibindo melhores performances. Quem pode garantir que a pequena marola será pequena mesmo para o tamanho de nossa economia?
Sotho

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008 09:55:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Isso é muito antigo, confundir fortuna com virtu.
Mas não se apavorem, petistas. Como disse o assassino em os imperdoáveis: "E quem falou que a vida é justa?"

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008 10:03:00 BRST  
Anonymous J Augusto disse...

Errata: Eu quis dizer "Não SEI se deu bons resultados"
Engoli a palavra "SEI" no comentário anterior.

Discordo que o dólar esteja artificial. Hoje o câmbio é flutuante e obedece à lei da oferta e da procura. Seria artificial se o BC estivesse intervindo mais intensamente, ou se o governo decretasse controle de saída capitais. O dólar despencou no mundo inteiro. O Real não está muito valorizado em relação ao Euro.

A crise dos EUA, por afetar a todos é "briga de cachorro grande", o que obriga ao mundo todo desenvolvido tomar providências e rápidas. Isso que tira o Brasil do olho do furacão. Como há estabilidade nas contas brasileiras, o impacto aqui deve ser menor, se tomar os devidos cuidados e não fizer extravagâncias.
Quando o Bush pai viveu tempos ruins na economia dos EUA, a China, Índia e outros continuaram crescendo vertiginosamente.
O Brasil está inserido na economia global, mas tem sua próprio governo que não pode ficar apenas a reboque dos EUA, ou de outros países.
Crises para uns sempre representaram oportunidade para outros. A decadência da Inglaterra abriu espaço para os EUA.
O Brasil disputa mercados internacionais onde os estadunidenses são fortes e agora ficam momentaneamente fragilizados. O Brasil tem incrementado muito suas exportações para a América Latina, Oriente Médio, África e Ásia. O Mercosul fez até acordo de livre comércio com Israel, um tradicional aliado dos EUA. Em outros tempos os EUA pressionariam por interesse na ALCA.
Os EUA representavam em 2002 25% das exportações brasileiras. Hoje, mesmo as exportações para os EUA tendo ampliado em valor absoluto, representam apenas 15%, devido às novas parcerias comerciais com o resto do mundo. Isso torna o Brasil muito menos vulnerável, tanto quanto uma empresa que não depende de um só cliente.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008 12:55:00 BRST  
Anonymous el chavo del ocho disse...

alon, dá a impressão que os petistas são vestais que sempre quiseram o melhor para o país.
lembro a satisfação de uma delas, quando surgiu a crise energética em 2001.
o quanto pior, melhor sempre foi o lema petista, até mesmo na administração do partido quando a facção oposta era hegemônica na prefeitura.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008 23:05:00 BRST  
Anonymous Agrimaldo Moreira disse...

A crise americana ainda não atingiu o Brasil porque o dolar se mantem relativamente estável. Desde o inicio do ano que a bolsa cai, mais na maior parte do tempo o dolar não ganhou valor abruptamente.

No ano passado , quando começou a crise, o dolar utrapassou as barreira dos 2,10 em meados de Setembro.

Apesar de que logo voltou para níveis mais aceitáveis.


Mas agora que o alarmismo está muito maior, o dolar tá praticamente quietinho lá no canto dele.


Quando uma crise desta pipoca de verdade é pelo dolar que começar a por fogo em tudo.

Dolar sobe, inflacao sobe. Banco central aumento os juros para conter a inflacao. Com juros altos a economia fica estagnada. Menos empregos, menos renda. E a violência explode. Foi assim nos anos FHC.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008 20:55:00 BRST  

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