sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

O enésimo erro e a burrice (18/01)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (18/01/2008) no Correio Braziliense.

Vão longe os dias em que o PT subestimava a importância de sua aliança com o PMDB. Sempre é bom acautelar-se (já que o lobo perde o pêlo mas não o vício), mas os fatos indicam que o pessoal do partido da estrela vermelha guardou o sapato de salto alto no armário das roupas que não irá usar

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

A indicação do senador peemedebista Edison Lobão (MA) para Minas e Energia é mais um ponto na sistemática e obsessiva costura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no tecido de sua aliança com o PMDB. Se a crise política de 2005-06 teve o papel de fazer Lula cair em si sobre os riscos de estar em minoria no Congresso Nacional, a recente derrubada, pelo Senado, da prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) consolidou no presidente outra convicção: de que sem maioria parlamentar ele corre o risco de, a qualquer momento, ver a oposição ir com tudo para cima do presidencial pescoço.

Há quem enxergue na aliança entre o PT e o PMDB um requisito para a reprodução, em 2010, do projeto de poder do atual grupo palaciano. Um que pensa assim é Lula. O presidente, porém, está preocupado sobretudo com algo mais imediato: ou completa a sempre adiada consolidação de sua base parlamentar ou pode acordar belo dia mergulhado numa crise política fora de controle. Ainda que desencadeada por algum factóide que depois se revelará vazio de significado. Exemplos não faltam de como o ânimo beligerante da oposição tem tudo para só crescer daqui até a hora da nova disputa pela sucessão no Planalto.

Está pacificada a situação da base governista na Câmara dos Deputados, desde o pacto entre PMDB e PT para eleger Arlindo Chinaglia (PT-SP) à presidência. A paz nasce da convicção peemedebista de que terá, a partir de fevereiro do próximo ano, um dos seus sentado na cadeira hoje de Chinaglia. É o que prevê o acordo firmado, por escrito, entre as partes. E, como o PMDB tem a maior bancada no Senado, há a possibilidade real de o último biênio lulista encontrar o partido solidamente instalado no comando absoluto do Congresso Nacional. O que, convenhamos, não será nada mau para o cacife dos vários grupos peemedebistas em 2010.

O PMDB na presidência da Câmara dos Deputados e do Senado abre ainda outra via de especulação. Eventualmente, o PT poderia oferecer ao assim chamado “bloquinho” PDT-PSB-PCdoB a posição de vice na chapa presidencial em 2010. E mesmo assim manter o PMDB na caravana, com o compromisso de que a legenda continuará instalada no comando das duas casas legislativas. Uma aliança indigesta para o condomínio PSDB-PFL-PPS encarar. Um candidato apoiado por Lula e montado numa coligação representando dois terços do Congresso não será mesmo bolinho.

Na política, uma coisa leva a outra e não há gestos vazios de significado. Nem realidades que não possam ser transformadas por atos. No primeiro mandato de Lula, o então deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) foi um dos principais líderes da dissidência oposicionista na bancada federal. Hoje Geddel é ministro da Integração Nacional e um dos homens-chave do presidente para a articulação política. Outro adversário feroz de Lula I que virou aliado fiel de Lula II é o presidente do PMDB, o deputado federal Michel Temer (SP). Que em 2004 teve o desprazer de ver seu nome vetado pela então prefeita petista Marta Suplicy como vice da chapa em que ela concorreria à reeleição na cidade de São Paulo.

O final não foi feliz para nenhum dos dois. Marta perdeu a eleição e Temer virou vice de Luiza Erundina, cuja candidatura naquele ano perdeu-se na irrelevância. Mas hoje um revigorado Temer pode muito bem ser ele próprio o próximo presidente da Câmara dos Deputados. Com o direito de tentar a reeleição em 2011. O que também será o caso do presidente do Senado que suceder a Garibaldi Alves (PMDB-RN). Personagem que eventualmente pode atender pelo nome de José Sarney.

Vão longe os dias em que o PT subestimava a importância de sua aliança com o PMDB. Sempre é bom acautelar-se (já que o lobo perde o pêlo mas não o vício), mas os fatos indicam que o pessoal do partido da estrela vermelha guardou o sapato de salto alto no armário das roupas que não irá usar. Salto alto que, por sinal, parece ter sido tomado de empréstimo pelo PSDB, visto a inacreditável condução que os tucanos têm dado à sucessão na prefeitura que tomaram de Marta Suplicy quase quatro anos atrás.

Claro que tudo pode desandar. O PT pode sempre ter uma recaída e reexibir sua genética arrogância. É porém pouco provável. O partido e seu líder maior parecem ter enfim compreendido, após a degola em massa de seus quadros dirigentes, que querer governar sozinho pode ser gostoso, mas é muito perigoso. Errar é humano. Mas errar pela enésima vez seria mesmo uma burrice e tanto.


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8 Comentários:

Blogger cid disse...

alon

Seu raciocínio e sua análise me parecem acertados, se considerado o PT nacional, acomodado aí no Congresso, com o lombo curtido pelas agruras de 2005 para cá. E como é a direção nacional quem manda - companheiro Lula-lá incluso -, é mesmo improvável uma recaída aos velhos tempos das certezas absolutas.

Quanto aos tucanos e aos demo-pefelistas, vão continuar batendo cabeça, especialmente em São Paulo, pois não têm mais o velho pretexto do inimigo comum, o fantasma dos comunistas comedores de criancinhas assombrando os valores da família e os direitos da propriedade. Ou alguém acha que essa geléia geral denominada base parlamentar do governo tem, mesmo remotamente, qualquer compromisso com o ideário de esquerda?

cid cancer
mogi das cruzes - sp

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008 11:12:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Concordo ! tem que se fortalecer e deixar a arrogância de lado !

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008 12:54:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Pô. No momento tem tanto assunto interessante prá falar relacinado à area de energia e o Alon vai escolher logo a arrogância do PT? Meio off the record esse post. A maioria das pessoas está comentando o aumento explosivo dos preços da energia no mercado a vista.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008 13:42:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A esfinge da eleição é o atual Prefeito: parece que não recuará em ser candidato. Sua candidatura dividirá o PSDB/DEM e Marta surgirá como favorita, uma vez que a rejeição a ela recuou. Assim, não é o salto alto dos tucanos que deve chamar a atenção: é a estratégia petista de ficar na muda, podem esperar o momento certo para colocar sua candidatura e nadar de braçada com o PMDB. O PSDB/DEM vai entregar a Prefeitura ao PT/PMDB.
Sotho

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008 17:05:00 BRST  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Anônimo 1: imagino que o Alon não se sinta preparado pra conjecturar sobre a IMENSA farra-do-boi especulativa que se tornou o mercado spot de energia.

Voltando ao post em si...
1) o grande problema do condomínio PSDB-DEM-PPS é o fato de que o PSDB está numa violenta guerra interna entre o grupo fernandista e o grupo não-fernandista. Se o grupo não-fernadista vencer a batalha, duvido que Aécio e Serra cheguem em 2010 dizendo que nunca ouviram falar de FHC.

2) começo a achar que a crise de 2005 foi um achado para Lula: ele pôs cabresto na máquina do PT. Não duvido nadinha de uma onda de coligações PT-PMDB espalhadas pelo País afora. E acho que o 'bloquinho' só morde se Ciro Gomes chegar à conclusão de que tem chance de vitória; senão, nada que uma vice não resolva.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008 19:20:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

É, o Alon visivelmente tem certa dificuldade de comentar coisas que não existem.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008 20:11:00 BRST  
Blogger Julio Neves disse...

Está simples demais essa sua análise. E discutir dinâmica social não é simples e fácil assim.

Eu diria que se o PMDB se aliar com o PSDB-DEM não perderia nada. Aliás, acho uma união mais sólida do que PMDB-PT-Blocos.

Quem tem mais chance de vencer 2010? Hum, vamos pensar...

Mas, você analisa com olhos de petista. Então é natural querer arrumar as coisas para o PT. Agora, como você disse há a arrogância. O "nunca antes" sempre aparece.

A verdade é que a turma de Brasília se ajeita. A questão é que plano essa gente tem para o Brasil. Transposição de água do Amazonas para o Nordeste?

Há crise lá fora...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008 20:23:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Julio Neves tem razão Alon. Há hoje garantidos duas variantes: a distância para o ano eleitoral (02 anos em política é muita coisa); e a natureza política do homem e, especialmente, o político brasileiro clássico (representado pelos quadros do PMDB). O PMDB vai se contentar apenas com as presidências da Câmara e do Senado? Ora, uma vez conquistadas por que não tentar a presidência da república? A garantia dos atuais postos no executivo o PMDB praticamente já a tem, seja qual partido que ganhar a eleição. Não podemos esquecer que hoje, junto com dos candidatos tucanos, há o nome de Ciro Gomes. Este tem a vantagem de não ser previsível e até adotar o slogan do Obama de ser o único capaz de mudança política no cenário nacional (no qual os partidos mais parecem as castas indianas).

Rosan de Sousa Amaral

sábado, 19 de janeiro de 2008 19:12:00 BRST  

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