terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O cenário dos pessimistas (29/01)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (29/01/2008) no Correio Braziliense.

Vê-se, portanto, que nem o cenário negativo é tão negativo assim. A não ser que sobrevenha algo catastrófico que não está no momento no horizonte dos analistas

Por Alon Feuerwerker
http://www.blogger.com/alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Um estudo distribuído esta semana pela consultoria Tendências a seus clientes afirma que há 30% de chances de um cenário pessimista para a economia brasileira em 2008, em decorrência da crise financeira nos Estados Unidos. Analistas prevêem dois trimestres de contração da economia americana, até meados deste ano, seguidos de uma retomada da expansão. Para compor o cenário pessimista no Brasil, trabalhou-se com duas premissas: 1) o forte impacto da desaceleração estadunidense nos preços das commodities e 2) a deterioração interna do cenário fiscal, em decorrência do fim da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e da resistência do governo, do Congresso e do Judiciário em ajustar, para baixo, seus orçamentos à nova realidade.

Vamos alinhavar os indicadores desse suposto cenário negativo. Para um crescimento mundial de 3,0%, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceria 3,2%. A inflação (IPCA) seria de 5,5%, contra os 4,5% de 2007. O superávit primário bateria em 3,2% do PIB (contra os 3,9% do ano passado) e o risco Brasil iria para 300 em dezembro, em vez dos 214 com que fechou 2007. Mas o quadro pessimista traz também boas notícias, para os críticos do câmbio. Se tudo der errado, dizem os consultores, o dólar encerra 2008 valendo R$ 2,30, contra os R$ 1,79 de dezembro último. O que levaria a dívida líquida sobre o PIB a uma queda de 5,5 pontos percentuais (de 42,7% a 37,2%). Mas, como nada é perfeito, nessa projeção pessimista o juro Selic iria para 14 %, quase três pontos percentuais de alta ao longo do ano.

Quais seriam as conseqüências políticas desse desempenho apenas medíocre? O ajuste brasileiro se daria às custas de alguma inflação adicional e de uma nova elevação de juros. Em troca, os beneficiários dos programas sociais do governo teriam o seu garantido, bem como o capital financeiro e o setor exportador, cujos aplausos certamente encobririam na opinião pública os protestos dos que estão ali pelo meio da pirâmide, gente que vive de salário e depende de crédito e emprego para melhorar de vida.


Assim, nesse cenário ruim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva viveria um momento desfavorável em seu segundo mandato, ao absorver todos os custos do ajuste. A oposição não perderia a oportunidade de debitar na conta do petista essa aterrissagem medíocre, e certamente cobraria dele uma suposta perda de oportunidades no ciclo de crescimento anterior à crise. Tudo isso teria efeitos políticos lá pelo fim de 2008, coincidindo com as eleições municipais. Diferentemente do primeiro mandato, quando o ano da disputa nas prefeituras (2004) foi bom, especialmente na comparação com o doloroso 2003 do ajuste antiinflacionário e fiscal.

Se esse é o cenário pessimista, qual é o otimista? O Brasil escapará mais um menos incólume se 1) a economia americana der uma freada rápida, mas pontual, 2) o crescimento chinês provar-se não tão dependente assim dos Estados Unidos e, em conseqüência, 3) a demanda mundial por matérias-primas e comida continuar aquecida. Claro que sempre nos sobrará explicar por que estamos derrubando árvores na Amazônia para plantar soja e criar gado, mas esse ônus é preferível a responder diante dos eleitores brasileiros por que faltam empregos e crédito. Este último problema derruba governos, enquanto o primeiro apenas cria problemas na esfera das relações públicas.

Há um certo consenso de que num cenário otimista na economia será muito boa a perspectiva eleitoral das forças políticas agrupadas em torno do Palácio do Planalto. A novidade é outra. Se estiverem corretos os dados expostos pelos analistas para um cenário desfavorável, estaríamos diante de um tranco suave neste ano, o que deixaria uma margem de pelo menos mais um ano e meio para que o governo conseguisse reacelerar a economia e chegar ao final de 2010 com ventos novamente otimistas.

Vê-se, portanto, que nem o cenário pessimista é tão pessimista assim. A não ser que sobrevenha algo catastrófico que não está no momento no horizonte dos analistas, as chances de o Brasil alcançar bem ou razoavelmente bem a próxima sucessão presidencial são consideráveis. Do que se deduz que a oposição precisará dar um jeito de escapar do discurso catastrofista se quiser chegar a algum lugar diferente dos que chegou em 2002 e 2006.


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10 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Pelo que se pode depreender do raciocínio, só há uma força com elevado grau de catástrofe que pode abalar tudo: o próprio Governo. Nunca se viu tanto apoio empresarial explícito ao Governo: confiável, moderado, responsável são as palavras mais ditas quando das apresentações dos balanços de 2007. Assim, só o próprio Governo é que pode fazer tudo dar errado.
Sotho

terça-feira, 29 de janeiro de 2008 11:00:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Pôxa. Quatro dias sem uma notícia sequer. Vc nunca leu O Pequeno Príncipe, não?
Escreve alguma coisa diária aqui pros alonadictos, nem que seja um necrológio do George Habasch, um comentário sobre o Papa não ter ido à Universidade La Sapienza, sei lá, algo.

Ig

terça-feira, 29 de janeiro de 2008 11:31:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Será que a oposição consegue escapar do discurso catastrofista?

Será que ela já não investiu demais nisso para retroceder?

Creio que a política "gosto de sangue na boca" do Virgílio, FH e do DEMo já é um caminho sem volta, não?

Paulo

terça-feira, 29 de janeiro de 2008 11:43:00 BRST  
Anonymous insougud disse...

Tendência é a agência ou coisa parecida ,que tem se destacado ,não por suas "análises",mas por críticas ao governo Lula.Faz previsões catastróficas,e irrealizáveis, já há algum tempo.É a preferida da/do "Globo" e dos néo-liberais.Observe, que mesmo na versão "otimista",pouco tem a oferecer.Não se trata de uma consultoria,mas de uma torcida.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008 11:44:00 BRST  
Anonymous Marcos disse...

Concordo com o Inougud. Seria interessante rever as previsões da referida agência em 2007.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008 12:44:00 BRST  
Anonymous J Augusto disse...

Inougud,
É justamente porque a referida consultoria ser uma das preferidas da oposição, que o assunto mereceu a nota.
Observe as projeções mais catastróficas são bem suaves para os padrões de crises.
A leitura é: a economia do Brasil está muito bem, para não dizer bem governado.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008 13:38:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, postei este comentário em um artigo do Nassif: "... há alguns dias houve um debate acerca da arbitragem dos juros (Selic) - que não basta querer baixar a selic na raça que o mercado joga para cima o juros na troca imediata dos títulos que o Tesouro faz diariamente ( só entrega o dinheiro se receber com títulos com juros arbitrados acima da selic). Lembra. Pois bem, hoje, após o Copom ter mantido a taxa selic na semana passada (quando havia financistas apostando na alta), houve uma inversão de espectativas: como a selic não subiu, o juros futuro também caíram para se adequar a sinalização de que a selic talvez não suba e o mercado não pode bancar uma aposta de subida em face do poder financeiro do BC. Ora, voltamos ao teorema inicial. Se houver uma decisão política que arbire nosso juros no patamar intermediário dos emergentes, a probabilidade será que o mercado tende a acompanhar e reduzir as espectativas dos juros futuros. No curto prazo, inclusive, não vejo o mercado com opções de ganho no mercado internacional com juros nominais superiores a 8% ao ano e com garantias iguais a fornecida pela economia brasileira. Como não sou economista queria sua repercussão sobre este fato (redução dos juros futuros após a reunião do Copom) narrado nos cadernos de economia dos principais jornais". Também concordo com o Inougud e J Augusto acima, e também recomendo as previsões da referida consultoria publicada em maio/2007 (quando já era de conhecimento de todos o novo PIB) para o ano de 2007.

Rosan de Sousa Amaral

terça-feira, 29 de janeiro de 2008 14:23:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

OK. Bem governado. Uma coisa é ser ortodoxo na condução da economia para manter a estabilidade. Outra é administrar a estabilidade de forma ortodoxa e favorecer o crescimento. O problema está na heterodoxia da gestão política. Vide as pressões sobre a área de energia. Pode ter dado relativamente certo até agora. A dupla de zaga popularidade alta e oposição sem discurso segura o resultado da peleja. Caso os índices de popularidade apresentem viés de queda, em qualquer grau, mesmo com a economia (o terceiro zagueiro que joga como líbero) segurando o solavanco dos ventos externos, só vai faltar combinar o restante do jogo com a base aliada. Os alas e o meio de campo poderão ficar embolados, sem conseguir municiar o ataque. E sem gols pró, podem ocorrer gols contra.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008 15:22:00 BRST  
Anonymous Moses disse...

Uma boa maneira de esfriar a oposição seria deslocar o debate da esfera partidária e de Brasília. Por exemplo, promovendo a reforma tributária, "estadualizando" os debates. De quebra, daria para tentar arrecadar mais com menos impostos, no mole, sem alertar os gansos, apenas alargando a base de contribuição e reduzindo a litigiosidade judicial em matéria tributária. Seria uma grande cartada.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008 17:16:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon : seus comentários me lembraram o doutor Pangloss e da
máxima "tudo está melhor no melhor
dos mundos possíveis" !

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008 11:07:00 BRST  

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