terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Nós e o cansaço da superpotência (08/01)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (08/01/2008) no Correio Braziliense.

Decadência material combinada a angústias existenciais, tudo indica que o vento contestatório é sintoma de que vem aí um ciclo isolacionista na política americana. “America first”, como diria Mike Huckabee

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

O vento anti-establishment começa a soprar com força na sucessão presidencial americana. Hoje é dia de decisão nas primárias de New Hampshire. Uma nova derrota deixará a democrata Hillary Rodham Clinton em situação ainda mais difícil. Aritmeticamente, ela vai bem. O problema é que Barack Obama ameaça virar uma onda. Do lado republicano, a antes aparentemente favorita candidatura de Rudolph Giuliani dá sinais crescentes de debilidade. O sonho de uma disputa “novaiorquina” vai ficando cada vez mais distante e improvável.

Se é verdade que os americanos olham o resto do mundo com óculos que caricaturam a realidade, a recíproca também vale. Barack Obama é negro de pai africano e Mike Huckabee é o favorito dos evangélicos. E daí? Para além dos arquétipos ou dos estereótipos, é preciso saber quais fenômenos da sociedade americana alimentam o desejo de mudança e a pressão anti-establishment. Uma pressão que se manifesta, paradoxalmente, após quase duas décadas de prosperidade econômica. É como se a história estivesse a pregar uma peça no ex-presidente William Jefferson Clinton. Cuja vitoriosa campanha à Casa Branca em 1992 imortalizou o “É a economia, estúpido”, de seu assessor James Carville.

Quais são as raízes da contestação nos Estados Unidos? Uma pergunta a fazer é se a sociedade americana não estaria dando sinais de desagrado e esgotamento diante do custo de seu país manter-se como superpotência. Depois do ataque às torres do World Trade Center em 11 de setembro de 2001, a explosão dos gastos militares na gestão republicana aposentou a política de responsabilidade fiscal posta em prática pelos democratas. E a bomba-relógio dos déficits gêmeos (externo e fiscal) continua seu tique-taque, com a previsível conseqüência sobre o dólar, cada vez mais fraco.

Em resumo, os Estados Unidos são hoje um país no qual: 1) os bens tangíveis são preferivelmente importados, 2) a sociedade industrial vai sendo deslocada pela sociedade de serviços, 3) a abolição do serviço militar obrigatório empurrou a defesa da pátria para as mãos dos filhos dos excluídos — especialmente negros e latinos, 4) se vende como objeto de desejo um modo de vida inviável — antes de mais nada pelas incertezas sobre as fontes de energia e pelos custos ambientais envolvidos e 5) a abundância e a fartura convivem com a incapacidade crônica de solucionar questões primárias relacionadas ao bem-estar, como, por exemplo, o direito a uma saúde pública universal e de qualidade.

Analistas respeitados apontam que os ventos anti-establishment sopram também a partir da insatisfação popular com os sinais de declínio do poder nacional. Há dúvidas e frustração sobre os custos e os resultados das guerras no Afeganistão e no Iraque, sobre a incapacidade de desnuclearizar o Irã e a Coréia do Norte, sobre a fragilidade financeira desencadeada pela crise do mercado imobiliário, sobre o alto preço do petróleo, etc.

Decadência material combinada a angústias existenciais, tudo indica que o vento contestatório é sintoma de que vem aí um ciclo isolacionista na política americana. “America first”, como diria Mike Huckabee. Perspectiva de risco crescente para governos e grupos políticos que apostam no suporte dos Estados Unidos para consolidar e perpetuar projetos de poder. As dificuldades de Pervez Musharraf no Paquistão são apenas a ponta de um iceberg global.

E o Brasil? Diante desse cenário, será prudente afastar a latente tentação de voltar as costas aos vizinhos e colocar as fichas no aprofundamento das relações bilaterais com Washington. É uma cantilena atlantista que volta e meia ressurge das entranhas do Itamaraty, permanentemente consumido pela luta interna entre terceiro-mundistas e americanófilos. Que estes últimos nos perdoem, mas o mar não está para o peixe que tentam nos vender.

Melhor a gente se entender bem com a vizinhança e aprofundar a integração comercial, política e militar. Vamos olhar legal a nossa casa e assumir com responsabilidade nosso papel de potência regional, cuidando sempre de não melindrar coadjuvantes como a Argentina. A América do Sul é um continente livre do terrorismo e das armas de destruição em massa. Um continente que cresce em paz e na democracia. Preservemos esse statu quo. Parece a atitude mais prudente e adequada ao que parece vir por aí, no grande irmão do norte.


Acrescento no blog: para uma interessante e bem-humorada caracterização dos candidatos à eleição nos Estados Unidos, vale ler o post Eleições americanas: um ABC, do Idelber Avelar, no blog O Biscoito Fino e a Massa.

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8 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

O isolacionismo sempre foi avaliado a cada crise pelas muitas que periodicamente assolam os EUA. Ao que consta, como contrapartida, não há na Al qualquer arremedo de união política, econômica, cultural e militar. Exceto por aspectos retóricos das pretensas maravilhas de populações autócnes aparecendo no espectro político. Dai a surgir algo sólido vai uma grande distância.
Sotho

terça-feira, 8 de janeiro de 2008 11:38:00 BRST  
Anonymous J Augusto disse...

Especulando um pouco, será que os estadunidenses não estão se sentindo mais ou menos como os ingleses pós II Guerra, que preferiram abandonar Churchil nas urnas do que ir à guerra contra a independência da Índia?
Churchil justificava-se: não queria entrar para história como o liquidante do império britânico. Não precisou dar-se ao trabalho. Os súditos se encarregaram de afastá-lo desse papel.
As mudanças climáticas, o aumento dos furacões que, literalmente, batem à porta dos estadunidenses, o empobrecimento via desvalorização do dólar, deve estar fazendo muitos norte-americanos a reverem as "vantagens" da manutenção do império na formatação atual.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008 14:54:00 BRST  
Blogger FPS3000 disse...

Alon, toda eleição acaba se resolvendo em torno dos problemas locais - foi assim que reelegeram o Bush, pela segurança e pelos "valores morais" que ele encarnava, e assim será com qualquer um deles - a diferença é qual o fator que será mais importante, se a mudança radical que Obama prega ou se a continuidade de valores morais de um McCain ou um Huckabee (isso se não pensarmos na cobra criada chamada Hillary Clinton que pode ressurgir das cinzas amparada nos bons tempos do maridão).

Não deixa de ser interessante: briga boa ...

terça-feira, 8 de janeiro de 2008 16:14:00 BRST  
Blogger Renan disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008 16:35:00 BRST  
Anonymous hugo albuquerque disse...

Calma lá quando fala de "vinte anos de prosperidade", Alon.
De Reagan pra cá a economia americana cresceu concentrando renda como ocorreu poucas vezes na história daquele país.
Aliás, na contramão dos países desenvolvidos que dos anos 60 para cá têm atendido a demanda social através do aumento do Estado enquanto os os EUA não fizeram isso.
Qual o resultado? Hoje o PIB per capta americano é maior que a maioria dos países europeus ocidentais, mas seus índices de qualidade expectativa de vida, educação e afins são baixos de mais para um país desnvolvido.
Nos anos 90 os EUA disputavam com o Canadá a ponta do ranking de IDH, hoje o país está fora até dos top 10 (12ª colocação).
Em outras palavras os EUA estão pagando o preço pelo crescimento economico desacompanhado de investimentos sociais que enganou muita gente e hoje está fazendo o povo arcar com um preço muito alto.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008 16:52:00 BRST  
Anonymous Idelber disse...

Grato sempre pela leitura e pelo link, Alon. Fraterno abraço,

terça-feira, 8 de janeiro de 2008 19:05:00 BRST  
Anonymous Paulo disse...

"3) a abolição do serviço militar obrigatório empurrou a defesa da pátria para as mãos dos filhos dos excluídos — especialmente negros e latinos,"

Totalmente falso.
http://fyiblog.wordpress.com/2006/11/04/who-are-the-recruits/

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008 21:24:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Obrigado pela contestação, Paulo.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008 21:48:00 BRST  

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