sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Duas táticas da socialdemocracia? (04/01)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (04/01/2008) no Correio Braziliense.

O PSDB, ora bolas, é um partido de oposição. Os tucanos farão de tudo para evitar que o condomínio reunido em torno de Lula chegue com trunfos a 2010. O resto é conversa

Por Alon Feuerwerker
http://www.blogger.com/alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Os analistas políticos estamos em dívida com nossos leitores. Volta e meia, trazemos considerações sobre como o PSDB seria um partido dividido a respeito de sua atitude em relação ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Uma ala, a dos governadores, seria favorável ao entendimento com o Palácio do Planalto. Esse grupo mover-se-ia, em tese, pela ânsia de benesses federais e pela avaliação de que será melhor para o PSDB herdar em 2011 uma administração e um país em bom estado. Já a outra ala, a dos pejorativamente chamados de “sem-voto”, políticos sem posições de poder real, estaria empenhada na tática do quanto pior, melhor. Para enfraquecer o governo federal ao ponto de poder tutelá-lo e, assim, ajudar a evitar a reprodução do projeto chamado de “lulista” em 2010.

Ano novo, vida nova. Nada de repetir os velhos bordões. Abaixo a inércia. A verdade é que essa teoria das duas táticas da socialdemocracia não bate com a realidade já faz algum tempo. E os analistas políticos devemos ter a humildade de ajustar o velame quando o vento dos fatos torna inviável a navegação inicialmente planejada. Os fatos, como os ventos, são sempre soberanos. Curvemo-nos a eles. Livrar-se do entulho intelectual é sempre uma coisa boa. É como uma dieta alimentar saudável. Você deixa de consumir produtos a que estava habituado e sofre um pouco no começo. No final, porém, sente-se bem melhor.

A visão retrospectiva sem preconceitos a respeito de um possível entendimento entre o governo petista e o PSDB é francamente desfavorável à teoria das duas táticas da socialdemocracia. Em 2003, por exemplo, o presidente da República recém-empossado reuniu os governadores, incluídos os do PSDB, e fechou com eles a reforma da Previdência que enviou ao Congresso Nacional. Apenas para que ela fosse torpedeada pelo próprio PSDB no Legislativo. Os deputados e senadores tucanos, aliás, dedicaram-se especialmente a tentar derrubar a contribuição dos inativos, que entrara na proposta também a pedido dos governadores do PSDB, enrolados eles próprios com as despesas com aposentados em seus estados.

O mesmo comportamento observou-se na sucessão na Câmara dos Deputados em 2005. O candidato do PT, Luiz Eduardo Greenhalgh (SP), fora escolhido por supostamente não enfrentar resistência nas bancadas do PSDB e do então PFL. Essa premissa revelou-se afinal inútil. Na largada da campanha, o PSDB estimulou a candidatura alternativa de Virgílio Guimarães (PT-MG). No fim, diante da ida de Greenhalgh e Severino Cavalcanti (PP-PE) ao segundo turno, descarregou entusiasticamente os votos no “rei do baixo clero”, por orientação direta e explícita de seus caciques. Como no episódio da contribuição dos inativos, prevaleceu ao final o desejo de impor uma derrota ao governo e de criar o máximo de dificuldades possíveis ao presidente da República.

Um político do PT que sempre apostou no diálogo com o PSDB é o ex-ministro da Fazenda e hoje deputado federal Antonio Palocci (SP). Suas convicções de nada lhe adiantaram quando o PSDB decidiu que era hora de degolá-lo, para enfraquecer um Lula que sobrevivera ao escândalo desencadeado pelas acusações de Roberto Jefferson (PTB-RJ).Um Lula que se preparava para concorrer em excelentes condições à reeleição. Outro petista de carteirinha que sempre namorou uma aproximação com o PSDB foi o ex-ministro da Secretaria de Comunicação Luiz Gushiken. Também ejetado a seu tempo. Sob os aplausos estrondosos do tucanato.

O episódio mais recente foi o das negociações para a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), já analisado à exaustão nesta coluna ano passado. O PSDB apresentou suas exigências para aprovar a continuidade da taxa. O governo aceitou-as. Mesmo assim o PSDB votou contra, por unanimidade. Um episódio bizarro, mas que de todo modo ajudou a remover viseiras ideológicas que perturbavam o olhar político e distorciam a realidade.

O PSDB, ora bolas, é um partido de oposição. Conformem-se com isso. Os tucanos farão de tudo para evitar que o condomínio reunido em torno de Lula chegue com trunfos a 2010. O resto é conversa.

A notícia auspiciosa deste começo de ano é que o governo decidiu, como era previsível, deixar o PSDB para lá e ajustar o Orçamento Geral da União com os meios de que dispõe. A novidade pode não ser exatamente boa para os atingidos pelo aumento de impostos. Mas contribuirá para poupar o tempo e as energias de analistas e leitores. Que poderão, assim, ocupar-se com assuntos mais frutíferos do que a sempre decantada e nunca realizada aproximação entre o governo Lula e o PSDB. Feliz 2008.


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6 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Cerca de 40% dos eleitores escolheram outro candidato em 2006 e a representação deles é a oposição. O importante é não confundir continente com conteúdo: oposição faz parte da Democracia, por mais vida boa que esteja dando ao Governo desde 2002. Apesar da grita em contrário, em que momento a oposição criou obstáculos reais às propostas do Governo? Fazem cinco anos que o Governo nada de braçada em lago tranqüilo, bate penalidades sem goleiro. Até o Secretário-Geral do PSDB foi para o PMDB da base do Governo. Oposição assim atrapalha quem?
Sotho

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008 10:55:00 BRST  
Blogger Briguilino disse...

O que venho escrevendo no meu blog é exatamente isso, chega do governo querer negociar com a oposição.
Tá mais que na hora de delimitar e muito bem os campos.
Governo, governa. Oposição faz oposição.
E nos eleitores decidimos quem vamos eleger.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008 11:42:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Então, o Palocci caiu porque o PSDB quis? Não foi porque ele violou o sigilo bancário do caseiro? Ah, então tá.
E se o governo não negociar com a oposição, vai fazer o quê? Vai instaurar uma ditadura? Democracia é negociação, tolerância e bom senso. O resto é ditadura.
Sds.,
de Marcelo.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008 14:56:00 BRST  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Marcelo: se o governo não negociar com a oposição, vai para o VOTO. Como, aliás, manda a democracia nesses casos.

O problema é que uma boa parte do petismo alimentou a expectativa da 'grande aliança' com o PSDB, da volta aos 'bons tempos' da aliança antimalufista de 1978. Precisou de uma derrota forte como a da CPMF para essas ilusões caírem. Mas aí se perderam 5 anos à procura do rei Sebastião...

sábado, 5 de janeiro de 2008 11:40:00 BRST  
Anonymous Francine disse...

"Os analistas políticos estamos em dívida com nossos leitores"

essa frase está estranha!!!

sábado, 5 de janeiro de 2008 14:10:00 BRST  
Anonymous Zeno José Otto disse...

Corinthians x São Paulo político.
Imagine que existissem no Brasil alguns veículos de comunicação descaradamente torcedores do Corinthians. Seria fácil prever que seus comentários seriam sempre favoráveis ao Timão e de críticas ao adversário. Chegariam a inventar fatos para derrubar a diretoria do São Paulo (como um suposto dossiê, ou dinheiro na cueca, ou gestos obsceno de um diretor, ou...).
Estariam mais interessados em deixar o São Paulo menor do que lutar por um Corinthians maior. Com essa linha de raciocínio esses veículos estariam perdendo a credibilidade dos corintianos e a torcida do São Paulo ficaria ainda mais são-paulina. Pesquisas mostrariam que o índice de aprovação ao São Paulo cresceria cada vez mais. Seria a lógica: ninguém gosta de ser enganado, injustiçado ou tratado como uma manada de burros.
Esses veículos deveriam criticar a diretoria do Corinthians por não ter um planejamento com idéias e propostas inteligentes para montar um time campeão.
Não sou corintiano nem são-paulino. Mas tenho uma boa experiência sobre comunicação de massa. Usei o exemplo acima para ilustrar o que está acontecendo com os principais veículos do país.
Se adotam essa tática para aumentar os índices de aprovação ao Lula, são sem caráter, mas geniais. Mas se a intenção é o contrário...
Acho que esses veículos estão apostando seu principal patrimônio (credibilidade) sem considerar que democracia dá liberdade de expressão, mas o bom senso não.

sábado, 5 de janeiro de 2008 18:54:00 BRST  

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