quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

De volta ao americanismo (16/01)

Quatro questões sobre a política exterior do Brasil:

1) Que presidente brasileiro reatou relações diplomáticas com a Cuba de Fidel Castro?

a) O tucano Fernando Henrique Cardoso
b) O ex-arenista e eventualmente peemedebista José Sarney
c) O general Ernesto Geisel
d) O petista Luiz Inácio Lula da Silva
e) O mineiro Itamar Franco

2) Que presidente rompeu relações diplomáticas com Formosa (China Nacionalista) e estabeleceu-as com a China Popular (comunista)?

a) O tucano Fernando Henrique Cardoso
b) O ex-arenista e eventualmente peemedebista José Sarney
c) O general Ernesto Geisel
d) O petista Luiz Inácio Lula da Silva

e) O mineiro Itamar Franco

3) Que presidente foi responsável pela estruturação do Mercosul em seu formato atual?

a) O tucano Fernando Henrique Cardoso
b) O ex-arenista e eventualmente peemedebista José Sarney
c) O general Ernesto Geisel
d) O petista Luiz Inácio Lula da Silva

e) O mineiro Itamar Franco

4) Que presidente foi responsável pelos acordos iniciais para suprimento de gás boliviano ao Brasil?

a) O tucano Fernando Henrique Cardoso
b) O ex-arenista e eventualmente peemedebista José Sarney
c) O general Ernesto Geisel
d) O petista Luiz Inácio Lula da Silva

e) O mineiro Itamar Franco

O gabarito está no final do post. Uma coisa eu posso garantir. Nenhuma das respostas corretas é "d". Ou seja, Lula segue em linhas gerais uma política externa que vem dos governos militares (mais precisamente dos tempos do general Artur da Costa e Silva) e atravessou quase incólume as eras Sarney, [Fernando] Collor, Itamar e FHC. O assunto já foi discutido aqui em Reconhecer os fatos do mundo, coluna publicada no Correio Braziliense em novembro. Ou seja, a política externa brasileira não tem, há quase meio século, viés preponderantemente ideológico. Já que percorreu, com certa homogeneidade, governos de matizes bem distintos, como se verifica nas alternativas colocadas ao leitor nas questões que abrem este post. Agora Lula esteve em Cuba e anunciou investimentos na ilha. Recebeu críticas, dos mesmos que também o criticam por supostamente deixar espaço excessivo para que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, amplie a influência venezuelana no hemisfério. Mas os investimentos do Brasil em Cuba, assim como a sabedoria brasileira de consolidar as posições da Petrobrás numa Bolívia etnicamente e regionalmente conflagrada, é exatamente um movimento que ajuda a solidificar o Brasil como liderança hemisférica. Do mesmo modo deve ser vista a nossa infinita paciência diante dos espasmos protecionistas que costumam vir da Argentina. A diversificação e pluralização das nossas relações internacionais mostra seu valor especialmente em momentos como o atual, quando nuvens bem escuras acumulam-se sobre a economia americana. É bom que possamos enfrentar essa turbulência sem depender excessivamente de um único parceiro comercial. Isso nada tem a ver com antiamericanismo. Peguemos, por exemplo, o caso das Forças Armadas Revolucionárias (Farc), guerrilha que combate o estado colombiano. Nenhum governo brasileiro até hoje, que eu saiba, declarou formalmente o grupo como "terrorista". Até porque me parece não ser um hábito da diplomacia brasileira meter-se politicamente nos conflitos em outras nações. Trecho de reportagem da revista Veja em março de 2003:

O governo de Fernando Henrique Cardoso também manteve distância do conflito colombiano. Vez por outra, deixava vazar críticas ao Plano Colômbia, como é chamada a estratégia de combate ao narcotráfico financiada pelos Estados Unidos.

Poderíamos deduzir, a partir dessa constatação, que o governo FHC concordava com os meios empregados pelas Farc para conduzir a luta guerrilheira? Parece-me que não. Vejam a bizarrice de chamar essa orientação do Itamaraty, essencialmente continuísta, de "ideológica". Por supostamente -pasmem!- recusar a aliança automática com os Estados Unidos no que os americanos acham ser conveniente e adequado a eles em determinado momento. É o caso de perguntar aos detratores do Itamaraty se não seria exatamente o contrário. Se eles não estão a propor um alinhamento ideológico com o governo da hora nos Estados Unidos, enquanto acusam os herdeiros do Barão do Rio Branco de abusar da ideologia. E o incrível é que se há um país no mundo que não dá a mínima para a ideologia quando se trata de discutir as relações internacionais esse país são os Estados Unidos. O negócio dos Estados Unidos são os negócios. Lembrem-se sempre disso. Quem é mais democrática, a Arábia Saudita ou a Venezuela? E quem é mais amigo dos americanos, o governo de Riad ou o de Caracas? Uma bobagem, querer ser mais realista que o rei. A não ser que o objetivo seja outro. Escrevi em Também para o bem dos americanos, vamos rejeitar o que os americanos nos propõem:

Há por certo quem no Brasil tente reavivar as chamas da guerra fria e fazer do nosso país uma plataforma para provocações contra a Venezuela e também contra Cuba. Com o propósito de buscar lá fora a força política que não conseguem reunir aqui dentro.

Ciclicamente, grupos políticos brasileiros com anemia de votos tentam colocar um pé no americanismo para ver se conseguem alavancar-se. De vez em quando dá certo. É disso que se trata.

Gabarito: 1 - b, 2 - c, 3 - e, 4 - a. E uma observação: para Alexandre Porto, a resposta à pergunta 4 deveria ser Fernando Collor de Mello. Leia nos comentários.

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7 Comentários:

Blogger Julio Neves disse...

Vou tentar chutar as respostas sem "ouvir" o google.

1) Qual presidente brasileiro reatou relações diplomáticas com a Cuba de Fidel Castro?

b) O ex-arenista e eventualmente peemedebista José Sarney. O ministro que foi visitar Cuba foi o ACM. Fidel retribuiu a visita ao "comunista" ACM.

2) Qual presidente rompeu relações diplomáticas com Formosa (China Nacionalista) e estabeleceu-as com a China Popular (comunista)?

c) O general Ernesto Geisel. É um chute.

3) Qual presidente foi responsável pela estruturação do Mercosul em seu formato atual?

b) O ex-arenista e eventualmente peemedebista José Sarney. Já ouvi o senador discursar que não quer o bolivariano no Mercosul por não ser democrático.

4) Qual presidente foi responsável pelos acordos iniciais para suprimento de gás boliviano ao Brasil?

a) O tucano Fernando Henrique Cardoso. Geisel não quis para não ter que invadir depois. Ele visualizou um Morales no poder.

Em 2003 o único que sabia que as FARC eram amigas do PT era o Olavo de Carvalho.

A dúvida: investir ou doar?

O americano ao INVESTIR, com letras maiúsculas, sempre plantam a semente da LIBERDADE. Já o Brasil recebe "bolivarianismo" dessas ditaduras.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008 19:58:00 BRST  
Anonymous Cfe disse...

Dúvida: eu desconheço que o Itamaraty tenha normalizado em lei categorizar grupos doutras nações como terroristas ou não. Parece-me que apenas responde a pedidos doutros países caso a caso. Se alguem puder esclarecer isso agradeço desde já.


Alon,

Então quer dizer que o Lula não fez nada e só segue a política de governos anteriores? Assim eu fico sem saber porque há tanta gente orgulhosa dele se, afinal de contas, ele exerce o continuismo duma "herança maldita".

De fato nunca nenhum governo brasileiro classificou as Farc como terrorista mas tambem nenhum os considerou como força política!

Só os participantes do Foro-de-São-Paulo é que alçaram esse grupo, bem como o Mir chileno, à condição de força política. O presidente Lula tem um assessor para assuntos aleatórios feito o "Dêrico" do Jô Soares: dá pitaco em tudo! O que é que o Marco Aurélio Garcia entende de relações internacionais? Lá por ele ter mantido contatos com diversas forças políticas alienígenas e ter sido o ministro-sombra do PT durante a oposição, isso não o qualifica a substituir o Itamaraty.

E foi esse mesmo indíviduo que foi lá pro meio do mato, com autorização de não-sei-quem, para legitimar as Farc como força política.

Isso não é antiamericanismo: é petulância de achar que não se pode alinhar com os EUA mas pode com Cuba, Venezuela, etc.

Só quero esclarecer de que concordo que o governo brasileiro deva continuar investindo na Bolívia, pois caso contrário iríamos entregar aquele país de mão beijada ao Chavez (que já tem soldados naquele território). Lá de Caracas ele não representa perigo militar expressivo para o Brasil, mas de território boliviano sim.

Cordialmente,

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008 22:26:00 BRST  
Anonymous J Augusto disse...

O problema da oposição, é que esses grupos políticos com anemia de votos que recorrem ao americanismo para alavancar-se, são as pessoas erradas, no lugar errado, na hora errada.
No momento que o mundo apresenta a conta (incluindo o próprio mercado financeiro estadunidense) aos equívocos das políticas de Bush, esses brasileiros americanistas querem se apoiar nelas.
É um fracasso anunciado.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008 23:38:00 BRST  
Anonymous Alexandre Porto disse...

A resposta para a pergunta 4 é Collor

http://ecen.com/eee10/gasp.htm

O gasoduto Bolívia-Brasil, hoje em construção, tem seu marco inicial na Carta de Intenções sobre o Processo de Integração Energética entre Bolívia e Brasil de novembro de 1991 [...]

[...] O Contrato de Compra e Venda entre Petrobras e YPFB foi, finalmente, assinado em 17/02/93.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008 00:27:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Alexandre: registrei seu comentário lá no post. Obrigado.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008 08:45:00 BRST  
Blogger Julio Neves disse...

Essas suas questões num concurso seriam facilmente anuladas. Há perguntas subjetivas para respostas objetivas.

Sobre a pergunta quem "foi responsável pela estruturação do Mercosul em seu formato atual?", se alguém respondesse Dom Pedro II estaria errado?

Mas sei que sua intenção não é aprovar candidatos para uma "Faculdade do Alon". Como disse, a idéia é mostrar que "Lula segue em linhas gerais uma política externa que vem dos governos militares". Ou seja, o "nunca antes neste país" é só bordão de propaganda eleitoral.

OBS.: No "vestibular do Alon" acertei 3 de 4. Aprovado?

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008 19:44:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Claro!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008 19:57:00 BRST  

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