sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

De onde vêm os Obama (11/01)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (11/01/2008) no Correio Braziliense.

O que se discute é a total incapacidade de os políticos, pelo menos, simularem que seus movimentos visam a atender alguma ambição que não a deles próprios

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Ninguém sabe até onde pode chegar a candidatura alternativa de Barack Obama, o senador negro de Illinois que convulsiona a indicação dos Democratas para a sucessão de George W. Bush. Postulantes alternativos costumam ter fôlego limitado nos Estados Unidos, país de establishment forte e enraizado. Desta vez, entretanto, parece que a roseira está a balançar com mais força, para usar a expressão de um conhecido. Vamos comprar a pipoca e o refrigerante e sentar na poltrona para assistir.

Não se sabe até que ponto Barack Obama vai, mas sabe-se com certeza de onde ele vem. O movimento contra o statu quo, encarnado na candidatura dele, vem do cansaço sentido nos Estados Unidos diante dos custos de manter o país como uma superpotência, a única aliás. Nasce também, e talvez principalmente, da exasperação do eleitor americano médio diante de um panorama político em que os representantes do povo dançam a música do poder unicamente de acordo com as próprias conveniências. Sejam eles do governo ou da oposição. Nós, o povo, ora bolas, que se dane.

Impossível não associar com o que vai pelo Brasil nas últimas semanas. É só observar a refrega entre o governo e a oposição em torno dos ajustes orçamentários necessários depois da derrubada da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Vejam se em alguma hora, em algum momento, é possível ter a impressão de que a oposição ou o governo estão em busca de qualquer solução voltada a algum tipo de interesse público. Isso sem falar no Judiciário, cujos próceres só dão as caras para dizer que não têm gordura para cortar.

A impressão é que os nossos políticos e os nossos juízes não estão nem aí para o interesse geral, que só se preocupam com o próprio poder e o próprio conforto. No caso específico dos políticos, o único desejo que transparece é o de atazanar a vida dos adversários. A única obsessão parece ser como chegar à próxima eleição com boas chances de emplacar o seu projeto.

Aqui, um parêntese. Analistas políticos não podem ter o defeito da ingenuidade. Pelo menos não em excesso. Esta coluna não está a tratar dos desejos íntimos dos políticos. O que se discute aqui é a total incapacidade manifestada por eles, neste período mais recente, de ao menos simularem que seus movimentos visam a atender alguma ambição que não a deles próprios.

Eis um dos segredos do político competente. Buscar incansavelmente os próprios objetivos, enquanto simula desprendimento e dá a impressão de que só tem olhos para as preocupações dos outros. Como dizia o ex-presidente Janio Quadros, o político esperto é como um remador: faz muita força para chegar onde quer, mas sempre de costas para o seu verdadeiro alvo.

A oposição conseguiu derrubar um imposto, a CPMF, razoavelmente justo e cujos recursos estavam comprometidos com gastos sociais, especialmente da Saúde. Até hoje, porém, não se sabe qual é a proposta da oposição para financiar a Saúde e os programas sociais, agora que não existe mais o dinheiro da contribuição.

Já o governo diz que vai cortar no Orçamento Geral da União (OGU), mas preservará os investimentos de interesse político do Palácio do Planalto. Enquanto os congressistas admitem que é preciso enxugar, mas não querem nem saber de mexer na verba reservada para as emendas parlamentares individuais.

E a prometida redução de preços decorrente do fim da CPMF, por causa da ausência do efeito-cascata? Evidentemente que não ocorreu. Nem vai ocorrer, ao contrário do que garantiam os especialistas em “planejamento tributário”, que no Brasil virou o outro nome das estratégias de sonegação. Os preços não caíram, mas ficou, é lógico, o abacaxi para o país descascar.

Depois aparece um Barack Obama, como que saído do nada, e deixa todo mundo estupefato. Não há razão para espanto. As condições são propícias. Lá e cá.


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3 Comentários:

Anonymous J Augusto disse...

Acho que o Obama repete mais ou menos, a ascensão de Carter pós-Nixon. Os EUA mostravam decadência e Nixon corporificava um tipo de poder que representava essa decadência.
O Governo Bush assemelha-se ao Governo Nixon. As conspirações de Watergate lembram os recentes relatóriopos que atestavam haver armas de destruição em massa no Iraque. Bush apenas não foi flagrado como Nixon fora.
No caso brasileiro, não vejo paralelo, pois o governo goza de popularidade alta e levou o país à ascensão econômica e social. A situação é inversa à dos EUA.
É verdade que um "Obama" qualquer pode ser eleito em 2010 no Brasil, porém, o mais provável, é que seja condição sina qua non para isso, que tenha a indicação do Presidente Lula, tal qual aconteceu com Itamar Franco, que saiu nos braços do povo, elegendo um então desconhecido FHC em 94.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008 13:04:00 BRST  
Blogger Renan disse...

Não precisamos de Obama nenhum, aqui. Precisamos de um pulso firme, para peitar a Globo como Brizola peitava.

Viva Lula!

Viva Ciro Gomes!

sábado, 12 de janeiro de 2008 04:57:00 BRST  
Anonymous Maria disse...

É verdade que no país, em se tratando de política e judiciário, tem-se que "tirar leite das pedras"... Foi demasiado cansativo ver/ouvir políticos adversários em Brasília se engalfinhando para não deixarem passar a CPMF, criação deles. Mas com certeza, o público foi olvidado de propósito porque não há interesse em melhorar a saúde pública. Por que não se discutiu para que ralo vai a verba do SUS? A 13a Conferência Nacional de Saúde, realizada em novembro, demonstrou que o SUS está privatizado. Então, pode-se concluir - sem medo de errar - que as verbas do SUS sempre foram distribuídas para os mesmos privatistas.

domingo, 13 de janeiro de 2008 21:42:00 BRST  

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