domingo, 30 de setembro de 2007

A pergunta do capitão Nascimento, o prestígio de Che Guevara e a violência para o bem (30/09)

Tropa de Elite é um filme espetacular. É um Vidas Secas do Brasil urbano. Como na obra de Graciliano Ramos, transportada para o cinema por Nelson Pereira dos Santos, a vida dos personagens não tem progressão real. São, literalmente, vidas secas, só que desta vez no asfalto e no morro do Rio de Janeiro da virada do século. Os personagens de Tropa de Elite são somente peças de um mecanismo, que sobrevive para garantir o conforto e o vício da classe dominante. No Brasil rural de Vidas Secas, ela se confundia com uma oligarquia insensível e desumana. No filme de José Padilha, assume os ares de uma burguesia e uma classe média drogadas e filantrópicas. Trata-se de um ecossistema. Há os playboys que consomem a droga. Há os traficantes que garantem o abastecimento da droga para os playboys. E há o BOPE (tropa de elite da Polícia Militar), que entra em ação quando transborda a violência gerada por essa parceria, quando os playboys são vítimas da brutalidade do mecanismo. Ou quando a sociedade "da paz" sente-se ameaçada pelo monstro que cultiva ao lado de casa. No meio dessa fauna, ninguém está nem aí para a pergunta que faz num dos primeiros episódios do filme o capitão Nascimento, do BOPE (na foto de cima, reproduzida do cartaz promocional do filme, o personagem em ação na pele de Wagner Moura; se o filme fosse americano, Wagner seria fortíssimo candidato ao Oscar de melhor ator),:

"Eu sempre me pergunto: quantas crianças a gente tem que perder para o tráfico só para um playboy rolar um baseado?"

A classe dominante já achou uma resposta a essa indagação fundamental. Propõe legalizar o câncer da droga. Legalizar o hábito que destrói nossos jovens. Eu penso ao contrário. Que além de radicalizar no combate ao consumo da droga deveríamos ter uma estratégia para reduzir radicalmente a apologia do consumo de álcool. Do jeitinho que vem sendo feito com o fumo. Meu ponto de vista está no post Os financiadores do terror, de janeiro:

O crime está presente em todo o território nacional, mas é mais agudo e mais violento nas regiões metropolitanas. Na sua configuração atual, o crime está indexado ao tráfico de drogas. E só se traficam drogas onde existe mercado. Então, para combater o crime na sua versão mais moderna (a criminalidade terrorista), o melhor a fazer é achar um jeito de travar a guerra total ao tráfico de drogas. Aí aparece um problema: não há como combater radicalmente o tráfico de drogas sem atacar o mercado de consumo da droga. O terreno para que prosperem o crime e o terrorismo no Brasil vem sendo adubado pela tolerância ao consumo das drogas. Você, que além de desfilar de branco pedindo paz também gosta de consumir sua droga na intimidade, é o principal financiador da barbárie que ameaça os seus entes queridos.

Tropa de Elite mata (literalmente) a pau quando expõe, sem limites politicamente corretos, a anatomia e a fisiologia de uma sociedade cínica e doente, que se recusa a encarar a própria doença. Estão ali, desenhadas, as organizações não-governamentais que articulam a classe dominante e o crime, por meio da droga e da filantropia -esta patrocinada pelo sistema político-empresarial. Está ali, retratada, uma polícia corrupta. Está ali, maravilhosamente exposto, como uma caricatura sem sê-la, o arcabouço supostamente intelectual que serve de alucinógeno "literário" a quem deseja viver mergulhado nessa podridão sem carregar culpa. E ainda por cima vomitando Foucault. Está tudo ali, em fatos. Irrespondível. Fatos são irrespondíveis. Bem, eu já estava disposto a escrever sobre Tropa de Elite quando li a reportagem de capa da revista Veja sobre Ernesto "Che" Guevara. Além da habitual catilinária anticomunista, a Veja desceu a lenha no Che (na foto de baixo, a imagem clássica dele) principalmente porque o argentino 1) teria dado sinais de fraqueza diante da morte iminente, 2) teria sido um mau ministro da Indústria e 3) teria sido um executor frio e sanguinário dos adversários políticos da sua revolução. A violência liga os dois assuntos, Tropa de Elite e o texto sobre o Che. Comento rapidamente os pontos de crítica da Veja. No ponto 1, não enxergo muita valentia em tripudiar sobre alguém que supostamente deu sinais de fraqueza diante da morte inevitável. Do mesmo modo que não vejo coragem em fazer ironia com o eventual (mau) comportamento de quem esteve submetido a tortura. Não cabe a nós, mortais, julgar o limite do sofrimento suportado por nossos semelhantes. Tem algo de antihumana a arrogância de quem se coloca de um ponto de observação "superior" para fazer o juízo do comportamento de alguém prestes a ser privado da vida. Ou para fazer o juízo de alguém submetido à humilhação de implorar a seu algoz que interrompa seu sofrimento. Sobre o ponto 2, eu consideraria mais as críticas à suposta incompetência do Che ministro se fosse hábito dos críticos de Che julgar unicamente pela competência. No Brasil, por exemplo, os responsáveis por todos os desastres econômicos dos anos 60 para cá são tratados nos círculos dominantes como sábios, são ouvidos e respeitados como sumidades. Escrevem artigos de destaque em jornais e revistas e são figuras permanentes nas entrevistas de rádio e televisão. Enquanto isso, o governo atual, que conduziu o país à melhor situação econômica da nossa História, é tratado como um bando de incompetentes e trapalhões -na versão benigna da crítica. Por isso é que eu vejo o ponto 2 com reservas. Quanto ao ponto 3, diferentemente do que pretende a reportagem da Veja, Ernesto "Che" Guevara não virou mito porque a propaganda o despiu dos seus prováveis muitos defeitos. O Che virou mito porque sobreviveu e sobreviverá como símbolo da luta por mais justiça. Infelizmente, a direita sul-americana não tem um símbolo para contrapor ao Che. E dizer, como diz a revista, que Che foi um executor frio e sanguinário, nem faz cosquinha na imagem do argentino. O fato é que as pessoas talvez estejam dispostas a agüentar executores sanguinários e frios, se a ação deles for para "o bem". Não é isso, por sinal, que nos vendem todos os dias na política? Dia após dia justifica-se o assassinato "branco" de políticos em nome do "bem". Ou da "ética". Por essas e outras é que o capitão Nascimento é o novo herói brasileiro. Quando você vir o filme, você entenderá. Eu não vi, acredite em mim, mas quem viu me contou tudinho.

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A marca do reacionarismo (30/09)

Há poucas dúvidas nesta altura do campeonato de que a política fundiária de Luiz Inácio Lula da Silva é não apenas conservadora, mas corre o risco de ser classificada como reacionária, pelo seu prussianismo. Dois trechos de reportagens do Jornal do Brasil esta semana:

1) Desenfreada invasão estrangeira

Governo não controla compras de terras por grandes multinacionais

Vasconcelo Quadros

BRASÍLIA - O esforço do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em vender o Brasil como futuro pólo mundial do biocombustível está provocando uma explosão no mercado de terras, mas desnudou uma realidade grave para a soberania do país: o governo não tem qualquer controle sobre quem são e quantos milhões de hectares de terras estão nas mãos de estrangeiros hoje. Nem tem mecanismos legais para controlar a voracidade de grupos estrangeiros que, segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), estão investindo pesado na compra de terras no Oeste da Bahia, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Tocantins, Maranhão, Pará e em São Paulo. (...)

2) Brasileiros perdem o interesse

BRASÍLIA. O presidente do Incra, Rolf Hackbart, disse que o aumento da procura e compra de terras por estrangeiros pelo interior do Brasil está afastando do mercado os investidores nacionais e criando dificuldades ao governo na aquisição de propriedades para formação de estoques destinados à reforma agrária um dos eixos do programa de inclusão social do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Há uma competição forte com a reforma agrária porque os compradores estrangeiros pagam em cash, enquanto o governo usa Títulos da Dívida Agrária (TDAs) quando desapropria uma área conta o presidente do Incra. Além de dinheiro em espécie, os estrangeiros aparecem com moedas mais fortes, como o euro e o dólar e, em muitas regiões, quando não encontram terra barata, aumentam a oferta. (...)


Clique aqui para ler algumas coisas que escrevi sobre a mistificação patrocinada por Lula quando diz que o Brasil tem terras sobrando para a cana do etanol. A começar de Governo vegetariano e terras finitas, de abril. Nada a acrescentar. Apenas a lamentar.

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sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A pulga do terceiro mandato (28/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (28/09/2007) no Correio Braziliense:

A derrota do governo na votação da medida provisória que criava o ministério de Roberto Mangabeira Unger é sintoma de uma doença grave. Como um tumor que ao se expandir pressiona os tecidos vizinhos, o apetite irrefreável do PT por posições políticas volta a causar lesões orgânicas na aliança que sustenta Luiz Inácio Lula da Silva. A bancada do PT no Senado cobiça a cadeira de Renan Calheiros (PMDB-AL). Já os deputados petistas querem para si o posto do coordenador político, ministro Walfrido Mares Guia (PTB). E, da Casa Civil, a ministra Dilma Rousseff ocupa o máximo de espaço possível na nomeação de cargos governamentais – sob o olhar atento do presidente da República.

Talvez a maioria dos políticos brasileiros não saibam quem é Andy Grove, um dos fundadores da Intel, mas é provável que concordem com a convicção mais conhecida de Grove, a de que só os paranóicos sobreviverão. Grove escreveu um livro de sucesso sobre o assunto. Empenhados em sobreviver, aliados e adversários do PT enxergam nos últimos movimentos do partido a tentativa de impor à base governista um candidato do próprio PT à sucessão de Lula. Mas os mais paranóicos entre os paranóicos vão além: interpretam a sofreguidão petista como o primeiro ensaio para tentar construir condições institucionais que permitam introduzir na agenda o terceiro mandato para Lula.

Uma das raízes da crise política que consumiu a segunda metade do primeiro mandato de Lula era que a oposição não tinha um nome para batê-lo na campanha da reeleição. O problema que ameaça a paz política já na primeira metade do segundo mandato de Lula é parecido, mas diferente. Agora, é o PT que não tem por enquanto um nome para herdar a cadeira de Lula. Como o poder tem horror ao vácuo, vem confusão por aí. E os vetores da confusão são dois: 1) o PT pressionando por espaço e 2) os grupos organizados dentro do PT buscando cada um o melhor lugar no grid para os seus próprios presidenciáveis potenciais.

A esse cenário somam-se os projetos externos ao PT, como o que se articula em torno de Ciro Gomes (PSB), e os movimentos, ainda que discretos, de possíveis nomes peemedebistas, como o governador do Rio, Sérgio Cabral, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim. Trata-se, portanto, na base do governo, de um cenário caracterizado pela fragmentação. Do outro lado, na oposição, a dúvida é mais simples. Quando o PSDB decidir entre os governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG), o quadro estará montado. Mais ainda: se a pajelança tucana resultar numa aliança entre os dois, de perfil nacional, estará criado um pólo com expectativa de poder, que passará a exercer atração sobre os insatisfeitos da base do governo. Matéria-prima que, convenhamos, não deverá faltar.

Aí é que entram os temores (ou esperanças) dos mais paranóicos entre os paranóicos. Os leitores de sinais de fumaça em Brasília já perceberam duas coisas. A primeira é que Lula deixa claro o desejo de ter no seu campo político um único candidato competitivo para disputar 2010. A segunda é que Lula trabalha sistematicamente para impedir que qualquer outro nome, fora o dele, consolide-se para cumprir o papel. Os menos paranóicos sustentam que Lula opera assim para impedir a eclosão precoce de sua própria sucessão. Já os adeptos mais ferrenhos de Andy Grove olham para Lula e enxergam nele alguém que, ao estimular a pulverização de sua própria base para 2010, aposta em continuar no poder. Por esse cálculo, haveria uma hora em que o condomínio governista olharia em volta e chegaria à conclusão de que ou vai de Lula ou será derrotado.

Quem está certo entre os paranóicos? Os mais ou os menos? Enquanto a poeira não baixa, a intriga e a desconfiança correm soltas no Congresso Nacional. Os mesmos leitores de sinais de fumaça já detectaram que a oposição não tem mostrado entusiasmo diante do surto ético que tomou a bancada dos senadores do PT depois da absolvição de Renan Calheiros. A oposição não quer que Renan seja substituído por um petista. Mas há uma pulga maior ainda atrás da orelha dos caciques oposicionistas. A situação foi resumida ontem por um prócer do DEM no salão azul no Senado: “Essa conversa de mudar a Constituição para qualquer coisa pode ser bonita na hora em que você está pensando em cassar o Renan. O problema é que pau que dá em Chico dá também em Francisco. Temos que tomar cuidado para não irmos buscar a lã da saída do Renan e voltarmos tosquiados, tendo que engolir o terceiro mandato do Lula.”


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quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Desnuclearização (26/09)

A República Democrática e Popular da Coréia chegou, faz algum tempo, a um acordo com a comunidade internacional e decidiu interromper o seu programa nuclear. O desejável é que o Irã siga pelo mesmo caminho. Há poucas dúvidas de que um planeta com o Irã desnuclearizado é preferível a um planeta com o Irã nuclearizado. Esse é o ponto de vista dos Estados Unidos, da Europa, da China e da Rússia. Vê-se, portanto, que o debate em torno do tema não apresenta fronteiras propriamente ideológicas. É uma questão de ordem prática. O Irã tem o direito de decidir soberanamente a respeito de sua política interna. Do ângulo das relações externas, o Irã não é alvo da cobiça de nenhuma nação vizinha. Nenhum país tem ambições territoriais em relação ao Irã. A única nação que poderia promover um ataque militar com objetivos territoriais ao Irã, o Iraque, deixou de existir como uma potência militar regional. Vamos comparar, por exemplo, com a situação da Índia e do Paquistão. É razoável que ambos tenham a bomba, pois isso estabelece um equilíbrio estratégico que funciona como elemento de dissuasão. Paquistão e Índia acumulam contenciosos territoriais desde que foram fundados, quando o Império Britânico decidiu que era hora de cair fora. O Irã não está em situação semelhante. Nem a Arábia Saudita nem Israel, os dois principais aliados dos Estados Unidos no Oriente Médio, representam uma ameaça militar ao Irã. As outras potências militares regionais, Síria e Turquia, menos ainda. Os sírios estão ocupados em achar um caminho para retomar de Israel as colinas do Golan, anexadas pelos israelenses após serem conquistadas na Guerra dos Seis Dias. E os turcos só se envolverão num conflito com o Irã se este decidir apoiar a formação de um estado curdo. Não há sinal de que Teerã vá se meter por essa senda. Um argumento para que o Irã tenha armas nucleares é que Israel as têm. O argumento é fraco. Israel não irá atacar o Irã se não for ameaçado pelo Irã. O poderio nuclear israelense é estratégicamente defensivo, para contrabalançar a desvantagem territorial em relação a vizinhos potencialmente hostis. O caminho para o Oriente Médio não é nuclearizar os vizinhos de Israel, mas promover a desnuclearização israelense no âmbito de um tratado de paz regional que estabeleça um estado palestino pacífico e que reconheça o direito de Israel existir em segurança. A defesa da nuclearizaçào do Irã embute a ilusão de que o conflito entre Israel e Palestina pode ter uma solução no terreno puramente militar. Não terá. Se tiver, não será favorável ao campo antiamericano, a não ser num quadro de colapso planetário da hegemonia militar dos Estados Unidos. Coisa que, convenhamos, não está à vista. Então, a solução está necessariamente na mesa de negociações. Até porque faz muito tempo que nada se passa no front militar que seja capaz de alterar radicalmente o mapa territorial da região. A constatação de que uma solução militar é inviável está na base da cisão entre a Fatah e o Hamas na Palestina. Mas voltemos ao Irã. Há quem acredite que o programa nuclear iraniano tem fins pacíficos. Eu não acredito. Mas essa é uma diferença fácil de resolver. Basta o Irã abrir-se irrestritamente para inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e seguir as resoluções do Conselho de Segurança da ONU. O melhor é o Irã adquirir primeiro a confiança do planeta e só depois pensar em desenvolver o uso da energia nuclear para fins pacíficos. O desfecho do caso iraniano terá importantes conseqüências geopolíticas para a América do Sul. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, desenvolve parcerias com o Irã nos terrenos político e econômico. Chávez busca aliados entre os adversários dos Estados Unidos, num movimento legítimo de defesa. As digitais dos Estados Unidos estão bem marcadas no golpe que tentou derrubar Chávez em 2002. Estrategicamente, a Venezuela considera-se um alvo militar potencial dos Estados Unidos, pelo seu papel como fornecedor de petróleo para os americanos. Se os venezuelanos estão certos ou errados nessa avaliação, é problema deles. Mas as conseqüências regionais da política deles são assunto nosso, ainda que não apenas nosso. Também por esse motivo é urgente acelerar a entrada da Venezuela no Mercosul. O ideal seria ampliar a integraçào e estendê-la ao terreno militar. Uma América do Sul integrada econômica, política e militarmente, com uma política de defesa comum, será a garantia de que os venezuelanos precisam para não ceder ao canto de sereia de quem deseja transformar o território do país numa plataforma hostil aos Estados Unidos. A América do Sul não precisa de uma versão local da crise dos mísseis soviéticos em Cuba. Para recordar, a crise dos mísseis aconteceu porque Cuba era um alvo militar americano e e União Soviética decidiu instalar ali mísseis nucleares para evitar um ataque à ilha de Fidel Castro. Por causa disso, o mundo esteve à beira de uma guerra atômica. O problema só foi resolvido depois que, entre outras coisas, os Estados Unidos aceitaram assumir o compromisso de não invadir Cuba. Em troca, a URSS mandou os navios com os míssesis darem meia volta e retornarem ao lar. O acordo foi tão bom para as partes que vigora até hoje. A América do Sul é um continente livre de armas de destruição em massa. Deve continuar assim. Além do mais, uma América do Sul democrática e pacífica é o melhor cenário para que as demandas e anseios majoritários, de populações secularmente oprimidas, encontrem plena expressão no processo político.

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Mercadores de ilusões (26/09)

da Agência Senado:

Brasil foi mantido entre os países com melhor nível de segurança de vôo, informa superintendente da Anac

Durante audiência pública na Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT) nesta quarta-feira (26), o superintendente de Infra-Estrutura da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Luiz Kazumi Miyada, informou que a Organização de Aviação Civil Internacional (Oaci) manteve o Brasil no Grupo 1, dos países com melhor nível de segurança de vôo. (
Continua...)

Clique aqui para ler a íntegra da reportagem. Pouco a pouco as coisas vão entrando nos eixos. A "grave crise" no controle do tráfego aéreo nacional era mesmo uma artificialidade. Produto de um cruzamento, como se dizia antigamente, do jacaré com a cobra d'água. Os mortos do acidente da Gol de setembro do ano passado foram usados como escada pelos mercadores de ilusões para vender ao país a tese de que o controle do tráfego aéreo nacional precisa ser urgentemente privatizado ("desmilitarizado"). Entre os mercadores de ilusões incluem-se controladores de vôo interessados em criar para si o melhor emprego do mundo. Um que daria a eles simultaneamente o poder de 1) decidir se os aviões vão decolar ou não e 2) fazer greve sem sofrer qulquer conseqüência. Incluem-se também os vendedores de equipamento e software que procuram impor ao país uma despesa de bilhões de reais para duplicar o sistema de controle aéreo -já que ninguém propõe, pelo menos até o momento, que os sindicatos de controladores de vôo se encarreguem também da defesa aérea nacional. Mas o lobby privatista não saiu de mãos abanando. Ganhou no relatório final da CPI aérea da Câmara dos Deputados uma menção à necessidade de abrir o capital da Infraero. Já estava no script (leia Bravata e dinheiro).

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terça-feira, 25 de setembro de 2007

Brasília e Macondo (25/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (25/09/2007) no Correio Braziliense:

A Câmara dos Deputados aprovou a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e da Desvinculação das Receitas da União (DRU). Aprovou do jeitinho que a coisa veio do Executivo. Como se trata de emenda constitucional, ou o Senado passa a prorrogação sem mexer no texto ou então ele volta para a Câmara dos Deputados. Se os deputados também resolverem alterar o aprovado pelo Senado o processo retorna à apreciação dos senadores. Dá até para imaginar o que seria uma Câmara dos Deputados recebendo de volta um texto mexido pelo Senado. Ou este analisando a CPMF e a DRU uma segunda vez. Em resumo, é o seguinte: ou o Senado aprova o que Luiz Inácio da Silva mandou ou a prorrogação da CPMF e da DRU corre o risco de cair no buraco negro. Mais ou menos onde repousa a reforma tributária desde o fim de 2003.

O governo não vai querer correr o risco. É provável que, diante do problema, Lula decida finalmente construir no Senado uma base de apoio para atravessar o mandato sem muitos sobressaltos. Tivesse feito isso em 2002-2003, o Senado não teria transformado o primeiro quadriênio lulista em festa de peão de boiadeiro. Com o governo montado no lombo do touro bravo e torcendo para o tempo passar. Mas as informações palacianas dão a entender que o movimento para a formação da maioria está em curso, com um lote de senadores da oposição, especialmente do DEM, prontos a embarcar na arca de Noé do lulismo.

Um fator que retarda esse movimento é a dúvida sobre a decisão final do Supremo Tribunal Federal (STF) a respeito da fidelidade partidária. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu que os mandatos pertencem aos partidos, o que coloca em risco os deputados e senadores que trocam de legenda. Na esfera do STF, o procurador-geral da República opinou que a decisão do TSE é inconstitucional, já que a Carta garante a todo cidadão brasileiro o direito de não se filiar a associações. Espera-se pela decisão final do STF. Se os juízes acompanharem o parecer da PGR, estará criada a situação ideal para Lula aplicar um ippon na oposição.

Um elemento que agrava a situação de parte dos senadores oposicionistas, especialmente dos mais radicais no seu oposicionismo, é a eleição que irão enfrentar daqui a três anos. O leitor atento poderá fazer o seu próprio mapa e concluir que o radicalismo de próceres no Senado tem sido diretamente proporcional à sombra que paira sobre o futuro eleitoral de cada um. Com exceções raríssimas, vencer eleição para cargos majoritários nos estados, especialmente no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste, é também função da capacidade que o político tem de trazer para seu estado vantagens decorrentes da força que detém em Brasília. O voto, como se sabe, tem horror à fraqueza política. Que o diga o exemplo da Bahia nas eleições do ano passado. Por isso, cada um faz o máximo para ocupar da melhor maneira possível seu espaço de poder.

Outro fator que pesa a favor do governo na queda-de-braço da CPMF e da DRU é que os governadores da oposição não querem nem ouvir falar em ficar sem dinheiro para a saúde e para investimentos com recursos federais. Especialmente os governadores que têm projeto para 2010. Ou seja, todos os governadores. Do outro lado, há uma facção oposicionista no Congresso a quem só restaram, em termos de poder, os holofotes da mídia. E sua contundência verbal anti-CPMF já foi longe demais e não permite recuos. Para quem transformou a CPMF no principal símbolo da “sanha arrecadatória” da União, será difícil apresentar como “vitória” uma eventual redução de 0,02 ponto percentual na alíquota da contribuição.

E a vida segue. Depois do caso Renan Calheiros e da CPMF, virá a batalha campal em torno da entrada da Venezuela no Mercosul. O PSDB já mandou avisar que travará uma guerra santa para evitar que o país de Hugo Chávez adira ao bloco econômico integrado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Mais curioso é que a aproximação entre Chávez e o Mercosul começou ainda no governo Fernando Henrique Cardoso. Só que isso parece ser o de menos. E a última declaração desastrada atribuída a Chávez sobre o Congresso brasileiro simplesmente não aconteceu, segundo informa o jornalista Sergio Leo, colunista do Valor Econômico. Mas na Brasília árida destes dias os fatos vão, pouco a pouco, perdendo importância para a necessidade compulsiva de se travar a luta pelo poder. É a versão verde-amarela do realismo mágico aplicado à política. Pena que, ao contrário da Macondo de Gabriel García Márquez, onde choveu um tempão, aqui tenhamos ainda por cima que encarar uma seca. Que parece não ter dia para acabar.


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segunda-feira, 24 de setembro de 2007

De Leon Trotsky a Adam Smith (24/09)

Comentaristas questionaram meu post sobre o livro de História que ensejou a polêmica da semana passada (Quando a mediocridade pede salvo-conduto). Hoje mesmo um leitor enviou crítica em que me intima a apontar erros factuais nos trechos do livro por mim citados. Pois segue o primeiro (a polêmica vai longe). Diz o autor do livro, quando se defende das acusações de que teria sido condescendente com Josef Stálin, que sua obra traz as seguintes passagens (já reproduzidas por mim no post citado):

"A URSS era uma ditadura. O Partido Comunista tomava todas as decisões importantes. As eleições eram apenas uma encenação (...). Quem criticasse o governo ia para a prisão. (...) Em vez da eficácia econômica havia mesmo era uma administração confusa e lenta. (...) Milhares e milhares de indivíduos foram enviados a campos de trabalho forçado na Sibéria, os terríveis Gulags. Muita gente foi torturada até a morte pelos guardas stalinistas...'' (pp. 63-65).

A criança ou o jovem que deram o azar de ter um professor que adotou tal livro vão aprender uma coisa errada, com graves conseqüências. Para começar, não vão conseguir compreender como é que um país com essas características conseguiu ser o único da Europa continental a não se dobrar diante da máquina de guerra da Alemanha nazista. "Em vez da eficácia econômica havia mesmo era uma administração confusa e lenta." Que bobagem! O período de consolidação do poder de Stálin, nos anos 1930, foi uma época em que a União Soviética cresceu e se desenvolveu aceleradamente. Eu sugiro a leitura de Russia and the Soviet Union then and now, de Stanley Fischer, do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Foi escrito em 1992. Eu levei o fim de semana inteiro para achar na internet o texto, que tinha lido anos atrás. Gastei o meu tempo procurando porque sei que tem gente que só acredita numa tese se ela tiver sido formulada por um scholar americano. Se for do MIT, então, melhor ainda. Pois aí está. Clique aqui para baixar o estudo (atenção: o pdf tem quase 4 megas). Na página 6, Fischer descreve o cenário pós-revolucionário, quando a guerra civil contra a reação branca já tinha sido vencida pelos bolcheviques:

Foreign capital was invited in; however, despite well-known exceptions, there was very little response, with less than one per cent of industrial output being produced in foreign owned firms by 1928.

No final da década de 1920, a União Soviética era um país cercado politicamente, ainda que a ameaça contra-revolucionária tivesse sido vencida no plano militar. A hiperinflação havia sido liquidada em meados da década, por um mecanismo familiar a nós, brasileiros, especialmente a partir do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, com os superávits primários e a Lei de Responsabilidade Fiscal:

Stabilization took place in march 1924, based in part on an improving fiscal performance. The budget for fiscal year 1924 (starting the previous October 1) was close to balance, with the assistance of excise, income, wealth, and a variety of other taxes, and the budget was in surplus in the next fiscal year. In april 1924 the ruble exchange was restored to its pre-War parity against the dollar (...) (pp. 7-8).

Eis um bom exemplo de como as políticas de ajuste fiscal não são necessariamente "de direita". Bem, mas o grande desafio soviético no final dos anos 1920 era a industrialização -e, como se viu na primeira citação, não havia disposição dos países capitalistas para financiar o crescimento acelerado da indústria soviética. Sabe-se hoje que eles preferiram financiar o rearmamento alemão, proibido pelo Tratado de Versailles. Dito isso, e numa visão retrospectiva, é razoável afirmar que uma União Soviética essencialmente agrária não teria conseguido resistir ao avanço do III Reich. É bastante razoável concluir que uma União Soviética essencialmente agrária teria sucumbido diante da Alemanha nazista, e que a própria nação russa teria deixado de existir como tal -já que os eslavos eram considerados pelos alemães uma raça inferior e as terras agricultáveis das nações eslavas eram cobiçadas pela nação alemã na sua busca de "espaço vital". Passada a guerra civil, e depois da Nova Política Econômica (NEP), em que os bolcheviques deram um fôlego aos capitalistas para que o país se recuperasse das imensas perdas decorrentes das guerras (em 1921, a produção industrial tinha, segundo Fischer, caído quase 70% em relação ao pré-1914, p.5), era necessário correr com a industrialização. O fracasso das revoluções européias fechara a porta das alternativas externas, das fontes externas de cooperação e financiamento, e os comunistas soviéticos debatiam como avançar. Melhor dizendo, dividiam-se sobre como sobreviver. Debatiam se seria possível o socialismo num só país. Fiz um paralelo aqui no ano passado com o debate atual sobre o ambientalismo (O ambientalismo num só país, de dezembro). Da intensa luta interna no Partido Comunista da URSS, saiu vitoriosa a corrente liderada por Stálin, para quem a ditadura do proletariado deveria buscar a industrialização com base no planejamento, na centralização e em capitais próprios, provenientes principalmente do excedente da produção rural. Com a submissão e se necessário a neutralização da burguesia e da pequena-burguesia rurais. Segue Fischer:

The protracted debate over economic policy that took place between 1924 and 1927 ended with the adoption of the first five year industrialization plan in 1928. The private sector declined rapidly, reflecting not only the disappereance of the Nepmen but also the collectivization of the agriculture, which had not been part of the firs five-year plan. Between 1930 and 1936 virtually all of agriculture was collectivizated. The state succeeded in procuring more food from the farm sector, even though grain production did not rise and the livestock population declined by half as peasant preferred eating them to giving them to the collectives. The conseqüences of collectivization were devastating. Millions died in the famine of 1933. (...) At the same time, industrial output was increasing by more than 10 per cent a year (p.9).

Aí está. A "administração confusa e lenta" citada no tal livro de História era uma que fazia a indústria crescer mais de 10% ao ano. Sem mais comentários. Teve gente que não gostou de eu ter escrito no post anterior sobre o assunto que

Virou moda nos últimos tempos o sujeito atacar personagens históricos relacionados à luta pelo socialismo para tirar uma espécie de alvará.

Pois é isso mesmo. Certos ramos do esquerdismo aliam-se à direita para difundir que nos anos 30 a União Soviética tinha diante de si todas as opções e que escolheu a mais "sangrenta" porque os bolcheviques e Stálin eram "maus". Nessa capitulação à ideologia da direita, compram até a idéia de que a economia soviética era "ineficiente" porque sua condução era planejada e centralizada. De supostos admiradores de Leon Trotsky, acabaram como adoradores de Adam Smith. Trotsky (no retrato), um grande revolucionário, não merece alguns seguidores que tem. Na página 11 do estudo de Stanley Fischer, uma tabela mostra que, segundo dados da Central Intelligence Agency (CIA), a economia soviética cresceu quase 6,0% ao ano entre 1928 e 1941, cresceu 6,0% ao ano nos anos 1950 e cresceu 5,2% nos anos 1960. A partir daí começou a desacelerar. Possivelmente porque não tenha conseguido fazer uma transição "à chinesa" para a expansão da indústria leve, com a atração de capitais externos e com a adoção de mecanismos de mercado para o crescimento acelerado da produção rural. São os paradoxos da História. As decisões adotadas na União Soviética dos anos 1930 impediram o país de desaparecer como nação independente e deram um contribuição decisiva para a eliminação do nazi-fascismo. Repito: uma a uma, todas as democracias liberais e capitalistas do continente europeu capitularam diante de Adolf Hitler. A ilha britânica resistiu, verdade, mas também é honesto dizer que a Batalha da Inglaterra, com todo seu belo heroísmo, foi um piquenique de jardim botânico quando comparada à Operação Barbarossa. Mas eu falava do paradoxo: o modelo de industrialização rápida que salvou a Rússia soviética de desaparecer nos anos 1940 está na base das dificuldades econômicas da União Soviética dos anos 1970 em diante. Talvez tenha faltado um Deng Xiaoping russo. É a tal dialética. Ela funciona. De vez em quando a favor e de vez em quando contra. Mas sempre funciona. Ah, sim, houve também nos comentários quem propusesse debater o assunto à luz do humanismo. Eu topo. Mas quero discutir também, pelo mesmo critério, o do humanismo, outros fatos históricos. Como por exemplo as Cruzadas e a imposição do catolicismo espanhol aos índios do que viria a ser a América Latina. Parecem-me dois belos momentos de fundação da nossa civilização ocidental e cristã. Vocês topam meu desafio? Acho que seria um debate bem interessante.

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Uma bela reconstituição do martírio de Tiradentes (24/09)

Uma bela reportagem (dramatizada e crítica) do Fantástico, da TV Globo, mostrou ontem como foram as últimas horas de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. O tom empregado foi completamente diferente do visto no programa que tratou da Independência. Não foi bajulatório nem engraçadinho. Foi correto.

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domingo, 23 de setembro de 2007

Culpados por definição. E o senso de oportunidade do PT (22/09)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi entrevistado pelo The New York Times. Clique aqui para ler a íntegra. Não há grandes novidades. Aliás, quem está atrás de novidade deve apurar. Entrevista é para isso mesmo (que fez o NYT), para saber o que o entrevistado tem a dizer. Uma frase de Lula ao NYT merece destaque, na minha opinião:

“I don’t believe that there is any evidence that Mr. [José] Dirceu committed the crime that he is being charged with,” the president said. “He will be judged.”

Eu penso exatamente como o presidente. Não há prova de que José Dirceu tenha cometido qualquer crime dos a ele atribuídos. Eis por que eu defendo faz tempo a anistia política de José Dirceu. Eu não estou dizendo que ele não cometeu os crimes atribuídos a ele. Eu afirmo que não há provas de que ele os tenha cometido. As acusações de corrupção adquirem vida própria na política brasileira, também por causa da anemia orgânica e programática da oposição ao governo federal. E essa vida própria tem propósitos políticos bem definidos. O método é simples e conhecido: causar o máximo possível de danos ao alvo político da vez. Depois, mesmo se nada for provado, a meta política já terá sido atingida. Pouco a pouco, vamos ingressando num ambiente surreal. Há, por exemplo, quem queira aprovar no Senado Federal uma norma para que todo senador alvo de investigação/processo pelo Conseho de Ética seja compulsoriamente afastado de qualquer cargo de comando que eventualmente exerça. Assim fica fácil. Todo senador tem em seu estado pelo menos um veículo de comunicação que lhe faz oposição. Aí um adversário (todo senador tem também pelo menos um adversário) faz uma acusação, que é publicada pelo dito veículo. Aí um partido que faz oposição ao senador (todo senador tem também pelo menos um partido que lhe faz oposição) move uma representação contra o senador. A Mesa do Senado, com a faca da turma da "ética na política" encostada no próprio pescoço, corre para lavar as mãos e encaminha a representação ao Conselho de Ética. Pronto. O senador será removido de seu cargo, para que a cadeira possa ser ocupada por algum inimigo que provavelmente está por trás da acusação inicial. São os nossos "processos políticos". Eis para o que eles evoluíram. Para uma modalidade verde-amarela de golpismo branco. Um fascismo "constitucional". Nos "processos políticos", a "pressão da opinião pública" acaba por fundir num único ato a acusação, a denúncia e a aceitação desta. Ou seja, o sujeito vira réu sem ser investigado, sem ter sido ouvido e sem que os acusadores precisem mostrar indício ou prova. Basta a acusação vinda de um adversário político. Aliás, a expressão "réu" é bondade minha. O sujeito vira mesmo é culpado, por definição. Depois, mesmo se for absolvida, a geni da vez deverá arcar com a suspeita, difundida à larga, de ter sido ajudada por um "acordo" assado em alguma "pizzaria". Este é outro hábito recente do jornalismo: se o que você escreveu não aconteceu, culpe algum "acordão", algum "conchavo", e vá em frente. Pessoas por quem tenho grande respeito profissional e de quem gosto pessoalmente defendem que o princípio da culpa presumida é aceitável no caso dos políticos, pois no Brasil a Justiça não funciona. Então, eu pergunto: se é assim, por que os jornais não fazem editoriais defendendo a execução sumária de criminosos comuns? Afinal, também no caso deles a Justiça apresenta falhas. Não se faz mesmo omelete sem quebrar os ovos. Daqui a pouco vai ter gente defendendo os esquadrões da morte. Mas fiquemos por aqui. Para terminar, um registro apenas. É notável o, digamos, senso de oportunidade do PT. O colega Josias de Souza informa em seu blog que o PT está de olho no cargo do ministro das Relações Institucionais, Walfrido Mares Guia, arriscado a perder o lugar por causa das acusações sobre o caixa 2 em 1998 do então candidato tucano a governador de Minas Gerais, Eduardo Azeredo. Sabe-se também que senadores do PT estão flertando com a oposição no Senado para ver se um petista consegue abocanhar a cadeira do presidente Renan Calheiros (PMDB-AL). O PT é assim mesmo. Emite vagidos ruidosos contra a "mídia golpista". Mas não perde a oportunidade de pegar uma carona na primeira onda de ataques políticos contra aliados do PT, se isso representar a possibilidade de o PT abocanhar um cargo a mais que seja. Haja senso de oportunidade. Nesse aspecto (o senso de oportunidade), o PT é um partido de tirar o chapéu.

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sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Quando a mediocridade pede salvo-conduto (21/09)

Corre solta a polêmica sobre o livro didático de História criticado pelo jornalista Ali Kamel, da TV Globo. Antes de eu entrar no assunto propriamente dito, aproveito para sugerir que ele dê uma olhada em algumas coisas veiculadas pela tevê em que trabalha. Como, por exemplo, o quadro do Fantástico criticado aqui e também pelo prefeito Cesar Maia (em seu ex-blog) por ridicularizar a Proclamação da Independência. Segundo o Fantástico, Dom Pedro (que viria a ser Primeiro) proclamou a Independência em 7 de setembro de 1822 porque, entre outras coisas, estava com diarréia e tinha levado um fora de uma mulata. É engraçadinho, mas não deixa de ser uma grossa estupidez. Bem, o fato é que o livro criticado pelo Ali Kamel parece ser mesmo bem ruim. Na preliminar, é um escândalo que livros didáticos adotados pelo Ministério da Educação contenham erros de português. A editora deveria ser multada, para aprender a fazer as coisas direito. Mas voltemos ao conteúdo do livro. Eu não formei minha opinião sobre ele por causa dos trechos destacados na crítica do Ali Kamel. Eu cheguei às minhas conclusões pelos trechos que o autor do livro pinçou para responder aos ataques sofridos, e também por declarações do autor. Como, por exemplo,

"Nosso grande ideal não é o de Stálin ou de Mao Tsetung, mas o de Kant: que os indivíduos possam pensar por conta própria, sem serem guiados por outros."

Eu não levo a sério, ideológica ou intelectualmente, pessoas supostamente de esquerda que pedem salvo-conduto à direita para contrabandear opiniões também supostamente "progressistas". Virou moda nos últimos tempos o sujeito atacar personagens históricos relacionados à luta pelo socialismo para tirar uma espécie de alvará. "Eu sou legalzinho, vejam como eu ataco Stálin e Mao Tsetung. Como eu sou bonzinho, vocês não deveriam me criticar quando eu defendo que o socialismo é bacana."

Alguns trechos do livro, destacados pelo autor para mostrar "eqüidistância":

"A URSS era uma ditadura. O Partido Comunista tomava todas as decisões importantes. As eleições eram apenas uma encenação (...). Quem criticasse o governo ia para a prisão. (...) Em vez da eficácia econômica havia mesmo era uma administração confusa e lenta. (...) Milhares e milhares de indivíduos foram enviados a campos de trabalho forçado na Sibéria, os terríveis Gulags. Muita gente foi torturada até a morte pelos guardas stalinistas...'' (pp. 63-65).

"O Grande Salto para a Frente tinha fracassado. O resultado foi uma terrível epidemia de fome que dizimou milhares de pessoas. (...) Mao (...) agiu de forma parecida com Stálin, perseguindo os opositores e utilizando recursos de propaganda para criar a imagem oficial de que era infalível.'' (p. 191) ''Ouvir uma fita com rock ocidental podia levar alguém a freqüentar um campo de reeducação política. (...) Nas universidades, as vagas eram reservadas para os que demonstravam maior desempenho nas lutas políticas. (...) Antigos dirigentes eram arrancados do poder e humilhados por multidões de adolescentes que consideravam o fato de a pessoa ter 60 ou 70 anos ser suficiente para ela não ter nada a acrescentar ao país...'' (p. 247)

É isso aí. O autor resolveu recorrer ao anticomunismo para ser simpático à direita. Deu errado. Ressalte-se que eu divirjo frontalmente do Ali Kamel na crítica que faz ao socialismo. As posições dele sobre o tema são rigorosamente reacionárias. Entre erros e acertos, as experiências socialistas na Europa e na Ásia significaram e significam grandes avanços para a humanidade. Terei a oportunidade de discutir o assunto daqui a alguns dias, por ocasião do nonagésimo aniversário da Revolução Russa. Por enquanto, vamos aproveitar para dizer as coisas como são. Ao longo de anos, o PT e arredores abraçaram o anticomunismo como o passaporte que lhes abriria as portas para serem aplaudidos pela direita. E a direita retribuiu com os esperados aplausos, além de generosos espaços nos aparelhos com que a direita constrói a sua hegemonia ideológica na sociedade. Sim, a direita também usa Antonio Gramsci, ainda que o aponte como o belzebu que inspira a tomada "pacífica" do poder pela esquerda. O problema é que a direita quer Gramsci só para ela. Quer falar sozinha. De volta ao PT. O que a direita não poderia supor era que o bichinho criado com tanto cuidado chegaria ao poder. Pois ele chegou e vai bem. A vida das pessoas tem melhorado e o presidente da República desfruta de sólido apoio político. E as idéias de esquerda vão penetrando na consciência coletiva, pois encontram referência na vida material. Para a direita, sobraram os resmungos e as lamentações. Por ver como a chegada do PT ao governo no Brasil abriu novas possibilidades para o avanço da luta dos trabalhadores, aqui e nos países vizinhos. É aquela história, o papel objetivamente desempenhado pelo indivíduo não se confunde com o papel que o indivíduo imagina para si. No futuro, as diatribes anticomunistas do PT serão esquecidas, mas ficará o registro do processo histórico desencadeado pela emergência social e política dos grupos sociais trazidos ao poder e ao protagonismo com a ajuda do PT. Isso compensa o fato de sermos obrigados a suportar as bobagens ditas pelo PT e arredores sobre o socialismo. Como fez hoje o ministro da Educação, Fernando Haddad, n'O Globo:

"(...) No caso específico do sistema soviético, eu escrevi um livro sobre o assunto e tenho uma visão inteiramente crítica sobre aquele processo. Defini aquele regime, tanto o soviético quanto o chinês, como despotismos modernos. Com a contradição que o próprio termo revela. É uma posição pessoal minha. Há pessoas que pensam diferente. Aliás, quase todas as pessoas pensam diferente. Essa caracterização do sistema soviético e chinês desagrada, de um lado, a stalinistas e maoístas e, de outro, a neoliberais."

É o velho truque do petismo em ação. Eu acho arriscado um ministro da Educação no Brasil falar mal da União Soviética ou da China. Corre o risco de ser confrontado com a distância entre a excelente qualidade do ensino nas escolas chinesas e russas e a péssima qualidade do ensino nas escolas públicas do Brasil. Por falar nisso, li na BBC Brasil que

China e Brasil lançam 3º satélite em parceria

(Marina Wentzelde, de Hong Kong) - Brasil e China lançaram nesta quarta-feira (19/09) o terceiro satélite produzido em parceria. O equipamento saiu da base de Taiyuan, província de Shaanxi, sudoeste da China levado pelo foguete chinês Longa Marcha 4B. O Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS-2B) deverá tirar fotografias da superfície da Terra que serão utilizadas para estudos ambientais. "Cedemos as imagens para instituições que monitoram o desmatamento da Amazônia e que pesquisam programas agrícolas e climáticos", explicou à BBC Brasil o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Gilberto Câmara, que veio à China acompanhar o lançamento do satélite. O lançamento contou com a presença de autoridades brasileiras e chinesas. A delegação do Brasil foi liderada pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Machado Rezende. (Continua...)

Eis a vida real. Enquanto o ministro da Educação, responsável pelas escolas em que os estudantes brasileiros não conseguem aprender Português ou Matemática, discorre sobre sua ojeriza ao "stalinismo", ao "maoísmo" e, claro, ao "neoliberalismo", um satélite brasileiro vai ao espaço levado por um foguete chinês de nome Longa Marcha. A situação constrangedora deve-se ao fato de as universidades brasileiras sob a responsabilidade do ministro não serem capazes de produzir um foguete que consiga decolar. A mesma razão explica que o Brasil tenha celebrado um acordo com a ex-república socialista da Ucrânia para operar a base de Alcântara (MA). A divisão de tarefas no acordo é bem definida, segundo o ministério da Ciência e Tecnologia:

O Brasil vai entrar com a área de lançadores, situada em Alcântara (MA), e a Ucrânia com a tecnologia do lançador, que foi desenvolvida por eles.

Clique aqui para ler a reportagem no site do MCT. Ou seja, nós entramos com o que Deus nos deu, a geografia, e os ucranianos entram com o que o socialismo permitiu que alcançassem, o domínio da tecnologia de foguetes. Mas nem tudo está perdido. Felizmente, o nosso ministo da Educação é contra o "stalinismo" e o "maoísmo". Ainda bem.

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Corrosão no núcleo da popularidade (21/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição de hoje (21/09/2007) do Correio Braziliense:

A pesquisa CNI-Ibope divulgada ontem deve acender a luz amarela no Palácio do Planalto. A preocupação das pessoas com a inflação e o desemprego está em alta, enquanto o prestígio do governo entre a população mais pobre desce a ladeira. Em junho, 40% achavam que a inflação iria aumentar. O número foi agora para 52%. Um ano atrás, apenas 30% apostavam na aceleração dos preços.

As taxas relacionadas ao desemprego são menos agudas, mas também apontam para cima. Chega aos mesmos 52% o número dos que prevêem mais desemprego. Eram 48% em junho, mas em setembro de 2006 atingiam apenas 37%. E o governo perdeu 12 pontos entre os que recebem até um salário mínimo. Nessa faixa, o “ótimo+bom” da administração Luiz Inácio Lula da Silva desceu de 54% para 42%, mesma queda da aprovação do governo (58% para 46%).


As novidades na pesquisa da entidade empresarial não chegam a provocar mais do que oscilações na avaliação geral de Lula e de seu governo, como informa a reportagem na página 2 desta edição. Por que então a luz amarela? Porque os sinais de corrosão política do presidente e de sua administração localizam-se em atributos e faixas de renda que compõem o núcleo duro do ativo político lulista.


O prestígio de Lula resistiu aos tufões da crise política e ao crescimento baixo da economia. Nenhum dos dois fatores foi suficiente para impedir a reeleição de um presidente que contava com apoio maciço entre os mais pobres. Há alguma polêmica sobre por que os pobres estão com Lula. A oposição tem preferido centrar as baterias nos programas sociais, o que talvez seja um equívoco. É mais provável que a popularidade do presidente esteja assentada principalmente na inflação baixa. Na vida real dos mais pobres, ela significa, em primeiro lugar, comida e material de construção mais baratos.


Os índices inflacionários das últimas semanas indicam não apenas que os preços estão acelerando. Eles mostram que a arrancada é maior nos itens mais importantes do portfólio de gastos das camadas populares. A comida está encarecendo mais rapidamente do que as outras coisas. Qualquer um que freqüente a feira ou o supermercado percebe. Só o governo parece não se dar conta. O ministro da Fazenda tem culpado a sazonalidade e procurado acalmar as pessoas. Parece pouco provável que consiga evitar a tempestade com discursos.


A inflação é hoje uma preocupação mundial. No caso dos alimentos, o temor está associado à insaciável demanda do crescimento asiático e também à substituição de lavouras destinadas a comida por outras voltadas à produção de matérias-primas de biocombustíveis. Até agora, o presidente da República vem repetindo o discurso ufanista de que não há motivo para preocupações, de que no nosso caso a abundância de terras vai evitar a pressão altista nos alimentos. Uma abundância que parece algo virtual. Lula diz que a cana para o álcool vai ocupar apenas terras de pastagens pouco produtivas. Mas, se é assim, se temos sobrando áreas de baixa produtividade, por que está faltando terra para a reforma agrária?


Na passagem do primeiro para o segundo mandato, Lula deixou um pouco de lado a obsessão com os preços e decidiu concentrar seu esforço principal no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A inflação baixa deu ao presidente mais quatro anos no planalto, mas agora é preciso mais. Por isso as obras do PAC. Por isso o aparente relaxamento presidencial e governamental com a inflação.


Entretanto, como não há mesmo almoço grátis, começam a aparecer as conseqüências políticas. Ninguém sabe até onde a deterioração do poder de compra dos mais pobres vai afetar politicamente Lula e seu projeto. Será que os beneficiados pelo PAC vão inclinar-se para o PT em 2010? E como vão votar os mais pobres? Para os curiosos, a História do Brasil oferece um exemplo paradigmático a respeito de como a inflação pode alterar rapidamente o humor do eleitorado. Em 1972, a Arena do presidente Emílio Médici colheu resultados brilhantes na eleição municipal. Dois anos depois, a mesma Arena do presidente Ernesto Geisel foi atropelada pelo azarão chamado MDB.


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quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Antiprotagonismo (19/09)

Confesso a vocês que escrevi pouco nos últimos dias porque ando meio enfastiado, meio cheio dos assuntos sobre os quais me sinto obrigado a escrever apenas para não me omitir. Eu gostaria de poder escrever apenas sobre coisas realmente relevantes, como por exemplo a abertura ampla e irrestrita na internet dos arquivos no The New York Times, desde 1851. Sim, o NYT digitalizou todas as suas edições e elas estão agora disponíveis. Bem como o conteúdo diário do jornal, em sua plenitude. Pela importância histórica do fato, transcrevo o comunicado do NYT aos seus leitores contando a boa nova:

A Letter to Readers About TimesSelect

Dear NYTimes.com Readers:


Effective Sept. 19, we are ending TimesSelect. All of our online readers will now be able to read Times columnists, access our archives back to 1987 and enjoy many other TimesSelect features that have been added over the last two years – free.

If you are a paying TimesSelect subscriber, you will receive a prorated refund. For more information, please go to our TimesSelect FAQ.

Why the change?

Since we launched TimesSelect in 2005, the online landscape has altered significantly. Readers increasingly find news through search, as well as through social networks, blogs and other online sources. In light of this shift, we believe offering unfettered access to New York Times reporting and analysis best serves the interest of our readers, our brand and the long-term vitality of our journalism. We encourage everyone to read our news and opinion – as well as share it, link to it and comment on it.

We welcome all online readers to enjoy the popular and powerful voices that have defined Times commentary – Maureen Dowd, Thomas L. Friedman, Frank Rich, Gail Collins, Paul Krugman, David Brooks, Bob Herbert, Nicholas D. Kristof and Roger Cohen. And we invite them to become acquainted with our exclusive online journalism – columns by Stanley Fish, Maira Kalman, Dick Cavett and Judith Warner; the Opinionator blog; and guest forums by scientists, musicians and soldiers on the frontlines in Iraq. All this will now reach a broader audience in the United States and around the world.

This month we mark the 156th anniversary of the first issue of The New York Times. Our long, distinguished history is rooted in a commitment to innovation, experimentation and constant change. All three themes were plainly evident in the skillful execution of TimesSelect; they will be on full display as NYTimes.com becomes entirely open.

Sincerely,
Vivian Schiller

Senior Vice President & General Manager
NYTimes.com

Bom proveito às novas gerações de leitores. Mas, como o título já deixa claro, este post não é sobre o NYT. É sobre o protagonismo jornalístico, que citei dois posts atrás. Vocês sabem que é raríssmo eu escrever sobre jornalismo. Em primeiro lugar, porque penso que jornalismo deveria ser como o futebol. Cada um bate a sua bola. E a torcida decide se é o caso de aplaudir ou de vaiar. Claro que vai ter sempre os que jogam melhor e são contratados pelo Milan. Como o gaúcho Alexandre Pato [corrijo: ele é paranaense, de Pato Branco]. Vai ter também o que não joga tão bem assim, mas dá para o gasto. E sempre existirá ainda quem consiga o supremo privilégio de, vestido inteiramente de branco, pisar o gramado da Vila Belmiro, onde jogou aquele que jamais será igualado. Jornalismo, assim como o futebol, é bola na rede (ou evitá-la). Não sei de boleiro que tenha se dado bem falando mal dos outros. A profissão de jornalista não se confunde com o ofício de comentarista jornalístico. Por isso é que resisto a discorrer sobre jornalismo. Quando o faço, procuro limitar-me ao conteúdo do trabalho jornalístico. Um debate que tento sempre evitar (e deleto um monte de comentários com essas características) é sobre por que fulano escreveu tal reportagem (ou comentário, ou editorial). Quem poderá afirmar certezas absolutas sobre as motivações últimas do jornalista? Ninguém. Nem ele próprio. De tempos para cá, virou moda dizer que fulano escreveu (ou deixou de escrever) isso ou aquilo para não melindrar suas fontes de renda -reais ou imaginárias. Parece-me uma discussão perigosa. Todo jornalista é pago por alguém para exercer a sua profissão. Por exemplo, tem jornalista que dia sim outro também escreve coisas com as quais o patrão dele concorda. E daí? Significa que ele só escreve aquilo só porque o patrão vai gostar? Nada disso. O sujeito escreve porque acha que deve escrever. E ponto final. Você consegue saber se a pessoa tem um compromisso verdadeiro e orgânico com a liberdade de imprensa quando ela não apenas defende que o sujeito tenha o direito de escrever o que quiser, mas quando respeita o que o sujeito escreveu, ainda que discorde. É fácil para qualquer um encher a boca e se declarar um paladino da liberdade de imprensa. O duro é você evitar sistematicamente a tentação de desqualificar o outro, o oposto, o adversário. Mas vamos ao protagonismo [Houaiss: diz-se de ou o personagem mais importante do teatro grego clássico, em torno do qual se constrói toda a trama]. Jornalista não é notícia. Quando passa a ser, é porque algo está fora do lugar. Jornalistas enganam-se quando imaginam que os leitores-consumidores estão ansiosos para saber a opinião dos jornalistas sobre os assuntos. Colocando as coisas com clareza, o jornalismo é apenas a arte de contar uma história com o objetivo de fazer o leitor ficar sabendo de alguma coisa que não sabia. E o jornalismo opinativo? E o jornalismo interpretativo? Os melhores professores dessas disciplinas sempre ensinam que a opinião e a interpretação, para serem eficazes, exigem de quem opina ou interpreta que alinhave informações e fatos que possam sustentar a opinião ou interpretação. O protagonismo é uma doença infantil do jornalismo. É o jornal ou o jornalista querendo ser mais importantes do que a notícia. É o jornal ou o jornalista querendo ser mais notícia do que o personagem da notícia. O que é mais relevante: saber se 1) o jornal "x" acha que o político "y" deve ser cassado ou 2) o leitor de "x" conhecer em profundidade os fatos que envolvem o pedido de cassação e a evolução do processo contra "y"? Naturalmente, você sempre poderá argumentar que a coexistência entre as duas coisas é possível. Eu tenho dúvidas. Jornais ou jornalistas excessivamente preocupados com sua própria opinião ou com suas próprias "causas justas" tornam-se "militantes" em excesso. Isso os empurra mais ainda para a subjetividade, além da conta. E a subjetividade é a mãe do arbítrio. Meu ponto de vista é que o bom jornalista deve relatar qualquer assunto com o máximo de frieza e distanciamento. Mesmo nos casos em que é quase impossível não ter opiniao forte e definida. Aliás, quando você tiver opinião sobre um assunto, diga claramente qual é, se for o caso de dizer. Vamos imaginar o repórter que acompanha tropas que encontram um campo de extermínio. O repórter vai chorar, vai sentir vontade de vomitar, vai revoltar-se. Mas, quando for fazer a matéria (expressão em desuso), sua tarefa central será descrever o que viu, contar o que viu. Com bem mais acertos do que erros, com bem mais vitórias do que derrotas, é isso o que o NYT faz há um século e meio. Agora que eles abriram os arquivos, vai ficar mais fácil para quem deseja estudar e aprender o que é jornalismo. Com a vantagem de que os materiais de 1987 para cá são de graça. É só se cadastrar.

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terça-feira, 18 de setembro de 2007

O PT de olho na cadeira de Renan (18/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição de hoje (18/09/2007) do Correio Braziliense:

Não faltam teorias a respeito de como pacificar o Senado. Uma delas afirma que é necessário convencer Renan Calheiros (PMDB-SP) a transformar sua vitória em derrota e licenciar-se da presidência da Casa. Seria uma maneira de a oposição parlamentar conseguir na mesa de negociações o que não obteve no campo de batalha. Vamos ver se o presidente do Senado aceitará a capitulação que lhe é proposta, entre outros, por segmentos do PT interessados em ter o petista Tião Viana (AC) na cadeira de Renan.

O debate sobre a pacificação do Senado sofre de um mal comum na política, que se manifesta quando lados opostos utilizam a mesma palavra com significados antagônicos. Para o governo, pacificar o Senado é fazê-lo votar os projetos de interesse do governo — em primeiro lugar a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e da Desvinculação das Receitas da União (DRU). Para a oposição parlamentar, a paz ideal estaria desenhada se o governo dependesse dela para aprovar qualquer coisa no Senado.

Vê-se, portanto, que tem dias difíceis pela frente a recente atividade neuronal em busca de um caminho do meio na luta política sem tréguas que consome o Senado. A não ser que o próprio Renan baixe as armas, contando com a garantia (?) do PT de que lá na frente as coisas se acalmarão. Se Renan não ceder ao canto de sereia das ambições petistas, a oposição no Senado estará encalacrada, pois ela foi longe demais para agora aceitar qualquer solução que implique manter o senador alagoano na cadeira de presidente do Senado.

Se Renan resistir às “garantias” do PT, o DEM e o PSDB pouco ou nada terão a oferecer ao Palácio do Planalto em troca de um acordo de bastidores para depor o alagoano. A oposição parlamentar cometeu o erro clássico de definir dois objetivos dos quais não pode abrir mão. A oposição quer afastar Renan e quer também derrubar a CPMF e a DRU. É a história do gato que deseja capturar dois ratos. O risco maior é deixar ambos escaparem.

O comando da oposição no Senado não tem, por exemplo, condições políticas de apoiar o governo na renovação da CPMF em troca de um empurrão do governo para que Renan saia. Nem o governo tem condições de oferecer à oposição o prêmio da derrubada da CPMF e da DRU em troca de a oposição recuar de sua intransigência e aceitar a permanência de Renan Calheiros na presidência do Senado até o fim de 2008.

Ou seja, a única opção que a oposição parlamentar oferece ao governo é derrotá-la, nos dois casos. Ela já foi derrotada na não-cassação de Renan e agora corre o risco real de ser batida na renovação da CPMF e da DRU, provavelmente com a ajuda de dissidentes da própria oposição e dos governadores do PSDB e do DEM. Quem conversa com os governadores da oposição sabe que eles não querem nem ouvir falar de verbas federais cortadas por falta de dinheiro que deixou de entrar no caixa do Tesouro Nacional.

A lógica dos movimentos recentes do comando da oposição no Senado indica que ela talvez esteja decidida a concentrar suas apostas na perenização da crise política. Há porém uma pedra no caminho dessa estratégia. Dois terços do Senado serão renovados em 2010 e as experiências eleitorais mais recentes dos adversários figadais de Lula e do governo não têm sido especialmente animadoras.

Decorre daí a distância prudente que os governadores do PSDB e do DEM com projeto para 2010 vêm mantendo em relação à tática de terra arrasada de seus correligionários no Senado. Claro que interessa aos presidenciáveis da oposição para 2010 que o governo e a base governista sofram corrosão política. O que não lhes interessa é serem confundidos com o antilulismo e o antigovernismo radical. Para desalento dos senadores do DEM e do PSDB, que agora esperam por uma vitória que lhes sorria de presente. No caso, a troca de Renan Calheiros por Tião Viana. Foi isso que sobrou para a oposição: torcer para que a presidência do Senado caia nas mãos do PT. Incrível.

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domingo, 16 de setembro de 2007

"O Senado não existe para carimbar decisões tomadas pela opinião pública ou por parlamentares e jornalistas que se consideram seus porta-vozes" (16/9)

Em seu artigo dominical, Elio Gaspari faz referência ao discurso do senador Francisco Dornelles (PP-RJ) na sessão secreta do Senado que absolveu Renan Calheiros (PMDB-AL). Dornelles é a um tempo parente de Getúlio Vargas e Tancredo Neves. É, portanto, produto de uma linhagem de políticos de primeira. De gente que, entre erros e acertos, marcou com dignidade e patriotismo sua passagem pela História do Brasil. Nesta semana, Dornelles assumiu a presidência de seu partido. A tese central do senador Dornelles para defender a absolvição de Renan Calheiros foi a inexistência de provas de que tivesse havido quebra de decoro parlamentar. Com seus votos, os senadores em sua maioria deram razão a Dornelles. Mas voltemos ao texto de Gaspari. Há coisas ali de que discordo. Discordo especialmente do título "Há 46 senadores no lixo, mas não o Senado". Ninguém está "no lixo". Houve uma disputa política, com vencedores e perdedores momentâneos. Só isso. Aliás, o próprio texto de Gaspari sintetiza bem o que deve ser a relação entre o Senado Federal e a opinião pública num regime democrático:

O discurso de Dornelles poderia ter moderado a catadupa de adjetivos. Afinal, trazia a "voz do outro", coisa incômoda para quem prefere ser ouvido sozinho. (...). O Senado não existe para carimbar decisões tomadas pela opinião pública ou por parlamentares e jornalistas que se consideram seus porta-vozes.

Muito adequada essa observação do Elio. Ela ajuda a entender por que alguns senadores mentiram a jornalistas quando disseram no que tinham votado. Deu no G1:

Um dia após absolvição, senadores declaram votos suficientes para cassar Renan

Na sessão secreta, painel eletrônico registrou 40 votos pela absolvição e 35 por cassação. Ao G1, 46 dos 81 senadores declararam voto na cassação.

Do G1, em São Paulo e em Brasília

Na sessão secreta do Senado desta quarta (12), Renan Calheiros (PMDB-AL) foi absolvido. Mas, a julgar pelo que disseram os senadores ou as assessorias deles ao G1 nesta quinta (13), o presidente do Senado teria sido cassado. Dos 81 senadores que votaram na sessão, à qual somente parlamentares tiveram acesso, o G1 falou diretamente com 12 e com as assessorias de 69. Do total, 46 afirmaram à reportagem ter votado a favor da cassação do mandato de Renan (o mínimo necessário para isso eram 41 votos) e dez, contra. Três disseram ter optado pela abstenção e 22 que não iriam declarar o voto.


Ou seja, os senadores não disseram a verdade quando falaram ao G1. Eu aposto que mentiram alguns senadores que disseram ter absolvido Renan e também alguns que afirmaram ter condenado o alagoano. Houve espanto e revolta com o fato de os nobres parlamentares terem mentido aos jornalistas. Eu não me espantei nem me revoltei. São os ossos do ofício. Quando, numa determinada disputa, o jornalismo decide que o certo é adotar ele próprio o papel de protagonista político, o jornalismo deve saber que será tratado pelos agentes políticos como um deles. Como um igual. Políticos não têm a obrigação de serem sinceros com os adversários e inimigos. Eu até imagino o repórter chegando para o senador e perguntando:

- Senador, obrigado por aceitar participar da nossa pesquisa. Nosso jornal acredita que o presidente do Senado, Renan Calheiros, é culpado de quebra de decoro parlamentar e, portanto, deveria ter sido cassado. Nós também consideramos que os senadores que votaram para absolvê-lo são cúmplices dele. Também pensamos que a decisão dos senadores atirou o Senado na lama onde chafurdam os corruptos que desgraçam a vida do nosso país. Inclusive, senador, nós vamos fazer um quadro para contar aos nossos leitores quem são os senadores que votaram contra o Brasil. E então, senador, como o senhor votou? O senhor votou para condenar Renan, para absolver ou absteve-se? Aliás, senador, esse negócio de abstenção é uma vergonha. É uma atitude covarde. O senhor não acha?

Trata-se, obviamente, de uma caricatura. Entretanto, como dizia um folclórico presidente do Corinthians já morto, quem sai na chuva deve sempre ter em mente que pode se queimar.

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sexta-feira, 14 de setembro de 2007

A ditadura do Executivo e os candidatos a Robespierre (14/09)

O radicalismo político não convive bem com o poder. Ainda quando o poder seja (ou pareça) radical, tal radicalismo é invariavelmente resposta a alguma situação de anormalidade. O poder tende a convergir para o centro e para o equilíbrio. Quando ele cede a pressões centrífugas é porque está sofrendo de desarranjo, ou está sob ameaça mortal. E sob pressão o risco de errar cresce muito. Vejam por exemplo o caso do Senado Federal. Toma impulso agora na Casa um movimento para estabelecer o voto aberto em todas as decisões. É um movimento radical. Os senadores parecem sedentos para dar uma satisfação à opinião pública depois que decidiram não cassar Renan Calheiros. Se o voto aberto for adotado em todas as decisões, significará, na prática, o fechamento branco do Senado Federal e da Câmara dos Deputados. O voto aberto dos vetos presidenciais, por exemplo, eliminaria um aspecto essencial da independência entre os poderes. O mesmo se daria com o voto aberto para a escolha de ministros do Supremo Tribunal Federal. Que senador votará contra um candidato ao STF sabendo que no futuro poderá ser julgado pelo mesmo juiz a cuja nomeação se opôs publicamente? E o voto aberto para eleição de presidente nas duas Casas do Congresso? Caros amigos, nunca mais o candidato do Palácio do Planalto perderá uma disputa para a presidência da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal. O voto secreto é uma arma do parlamento para defender-se dos demais poderes. Bem, há a questão do voto aberto para cassação de mandato por quebra de decoro parlamentar. Assisti ontem na TV Senado a uma série de pronunciamentos em defesa da tese. Eu sou rigorosamente contra essa coisa de "processos políticos", que considero um traço primitivo e selvagem da nossa jovem democracia, e portanto não vou mais me manifestar sobre a conveniência de estabelecer o voto secreto nesse caso. Eu considero a questão prejudicada na preliminar. Mas a minha opinião pessoal pouco importa. O que me espanta é que o Senado Federal esteja tão desarranjado políticamente que pense em impulsionar uma tese cujo resultado prático será colocá-lo de joelhos diante do Executivo. Diante da ditadura do Executivo. Aliás, apenas para registro: os que sonham com a ditadura da opinião pública deveriam abrir o olho e pensar se o resultado prático de sua ação não poderá ser uma outra ditadura, a do Executivo. É uma coisa para os candidatos a Robespierre matutarem durante o fim de semana. No retrato acima, copiado da Wikipedia e de autoria desconhecida, o revolucionário francês Maximilien François Marie Odenthalius Isidore de Robespierre. O retrato é da época em que a cabeça dele ainda se julgava inseparável do seu roliço pescoço. Aliás, Robespierre foi guilhotinado sem sequer ter sido submetido a julgamento. Terror é terror. Tudo bem que, tempos depois, a Praça da Revolução virou Praça da Concórdia. Para o Maximilien, entretanto, isso não adantou muito. Para ele, infelizmente, já era tarde demais.

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Sustentado pelo poder de fato (14/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição de hoje (14/09/2007) do Correio Braziliense:

É improvável que Renan Calheiros abra mão da Presidência do Senado, temporária ou definitivamente, depois de vitorioso na batalha de plenário da última quarta-feira. É legítimo que a oposição mantenha a intenção de removê-lo da cadeira. Tal desejo é componente natural da luta pelo poder. Assim como a resistência oposta pelo senador de Alagoas. Entretanto, a oposição só poderá alcançar seu objetivo se fatos novos ensejarem rearranjos políticos entre os senadores. Em outras palavras, ou a oposição consegue dar um jeito de dividir a base do governo e transformar o caso Renan numa guerra santa ou Renan Calheiros continuará sentado em sua cadeira presidencial até o final de 2008.

Quais são as armas da oposição para rachar a base governista e tentar retomar a onda anti-Renan? A mais vistosa delas é a ameaça de não votar a renovação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e da Desvinculação das Receitas da União (DRU). Trata-se, entretanto, de uma ameaça relativa. Melhor dizendo, é uma ameaça ao contrário. Como o governo sabe que as bancadas do DEM e do PSDB não querem votar a favor da prorrogação da CPMF e da DRU, o Palácio do Planalto naturalmente já concluiu que vai depender mesmo é de sua base, ainda que vitaminada por defecções pontuais no campo tucano-democrata, eventualmente estimuladas por governadores. Ou seja, se Luiz Inácio Lula da Silva quer mesmo a CPMF e a DRU, não seria hora de o Planalto desestabilizar a aliança PT-PMDB.

Outra possibilidade é a oposição enveredar pelo caminho da obstrução sistemática, negar-se a votar qualquer coisa, colocar fogo no circo. Os termômetros do Congresso Nacional não indicam que a temperatura tenha chegado a tal ponto. Pode chegar um dia, mas ainda não chegou. Dois vetores operam em sentidos contrários nesse caso. À oposição parlamentar pode eventualmente interessar o quanto pior melhor, mas não há indícios de que tal seja o desejo dos governadores oposicionistas.

Aliás, não se notou antes da votação sobre Renan Calheiros qualquer movimento dos principais governadores do PSDB e do DEM para colocar lenha na pilha de madeira em que se pretendia queimar o presidente do Senado. Ou seja, nem o poder federal nem os estaduais (que se confundem com a expectativa de poder para 2010) moveram-se para incinerar Renan. E ele não foi incinerado. Talvez seja o caso de relacionar uma coisa com a outra. O fato é que Renan pode estar mal avaliado pelo poder da opinião pública, mas está sustentado pelo poder de fato. E o divórcio entre a opinião pública e o poder de fato não parece ainda suficientemente litigioso para deixar o poder de fato com a pulga atrás da orelha.

Diante do processo contra ele, Renan Calheiros decidiu pela tática do aparente imobilismo. Ficou parado onde estava, na certeza de que os potenciais adversários não se entenderiam sobre os cenários de sua substituição. Pelo resultado da votação da última quarta-feira, o presidente do Senado moveu corretamente, até agora, as peças no xadrez mortal em que se decide o seu futuro. Mas, como o jogo ainda não terminou, resta aos que desejam remover Renan construir uma alternativa que seja satisfatória ao poder de fato.

É difícil, pois nem o Palácio do Planalto nem os governadores parecem estar interessados em desequilibrar e desestabilizar o jogo nesta altura do campeonato. Lula e os chefes políticos estaduais querem mais é administrar, investir e ter realizações materiais para mostrar em 2010. Aliás, o que o poder de fato menos deseja é ver emergir um presidente do Senado com força e brilho próprios para dividir a mesa e desarranjar o quadro para 2010. Para sorte de Renan Calheiros.

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quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Não funcionou (12/09)

Escrevi dias atrás no post Nas mãos do PT (coluna publicada no Correio Braziliense), sobre a votação do processo contra o senador Renan Calheiros (PMDB-AL):

A pista para descobrir como se comportará o PT está nos cenários de um eventual pós-Renan. Por exemplo, se o PSDB e o DEM assumissem o compromisso de apoiar o candidato de Luiz Inácio Lula da Silva numa hipotética sucessão no Senado, é possível que o dedo de senadores petistas fizesse cosquinha na hora da votação. Mas é preciso saber se, depois de todo o esforço investido, a oposição vai se contentar com uma vitória moral e deixar o prêmio político para o Palácio do Planalto. Se é verdade que a História se repete como comédia, seria um remake da queda de Severino Cavalcanti. Quando a oposição nadou, nadou e morreu na praia.

Depois, revelei como eu próprio votaria, no post Epílogo:

Para você não dizer que fiquei em cima do muro, se eu fosse senador eu votaria contra a cassação de Renan Calheiros, pelo simples fato de que a representação em tela aponta-o como suspeito de receber dinheiro da Mendes Júnior e não há, até o momento, prova de que ele tenha recebido dinheiro da empreiteira.

Hoje Renan Calheiros foi absolvido por 40 a 35 no plenário, com seis abstenções (na foto o placar do Senado com o resultado da votação). Faltaram, portanto, seis votos para que ele fosse cassado. Por que Renan não foi cassado? Em parte pelo que escrevi em Epílogo. É complicado para os senadores cassar alguém sem que haja prova definitiva de quebra de decoro parlamentar. Aos olhos da maioria do Senado, seria fragilizar-se perigosamente diante dos aparelhos externos de pressão. Mas o que pesou decisivamente foi o que escrevi em Nas mãos do PT. Publicamente, a guerra para depor Renan era (e é) uma batalha pela ética. Nas sombras, ela parecia mais uma luta de morte pelo poder. A oposição parlamentar tucano-democrata apostou tudo numa onda da opinião pública que constrangesse a base do governo até o ponto de rachá-la. O que abriria as portas para que a oposição parlamentar pudesse sonhar com o terceiro cargo da República. Pelo menos desta vez, não funcionou.

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O prefeito tem razão (12/09)

Um comentário do prefeito Cesar Maia em seu "ex-blog" merece registro. Eu tinha visto o Fantástico e pensei em escrever, mas o prefeito foi mais rápido:

"FANTÁSTICO": DESMORALIZANDO A HISTÓRIA BRASILEIRA!

1. No domingo o Fantástico da TVG iniciou uma série de quadros sobre a história brasileira, começando com a Independência do Brasil. Uma verdadeira chanchada, onde o historiador E. Bueno se prestou a um papel ridículo que o deixa muito mal. Essa chanchada com deformações da história em nome de uma comédia de mau gosto, começou com o filme repulsivo de Carla Camurati sobre Carlota Joaquina e seguiu com uma mini-série da TVG na mesma lógica.

2. Será que nossos irmãos americanos fariam a mesma chanchada no dia de suas independências, com Bolívar, Sucre, Moreno, San Martin, Nariño, Santander, George Washington, Lafayette, Thomas Jefferson, Bernardo O'Higgins... e numa emissora de TV com a audiência e o alcance da TVG? Nesses países um quadro destes de 13 minutos, em programa popular, como seria recebido pela população, pelos professores, pelos historiadores?

3. Qual o objetivo? Um país sem heróis? Um país sem história? O que uma criança, adolescente ou jovem levará como imagem da história de seu país?

4. Triste, muito triste! Espera-se que no próximo domingo esta chanchada termine e se passe a contar a História de Nosso País de forma adequada, mesmo que com uma linguagem suave e não debochada.

Clique aqui para ver o quadro do Fantástico a que se refere Cesar Maia
. Apenas como complemento, reproduzo o que escrevi aqui alguns dias atrás, em A boa notícia e a esquizofrenia ideológica:

São teorias que servem ao discurso estéril da ultraesquerda, para quem nunca o povo foi protagonista de nada decisivo no Brasil. Para quem, até o surgimento do sindicalismo de São Bernardo, a História do Brasil era um desfile de movimentos elitistas destinados unicamente a ferrar os de baixo. Uma ficção estúpida e paralisante, que serve também (de novo) à direita cosmopolita, empenhada diuturnamente em nos provar que a busca de identidade nacional (e portanto popular) seria pura perda de tempo. Que somos supostamente um país fracassado, que a nossa cultura "nacional-estatista" está na raiz do nosso atraso e precisa ser eliminada. Da minha parte, estou cheio de tudo isso. Por mim, todo esse lixo ideológico deveria ser imediatamente varrido da nossa vida, do nosso pensamento e da nossa cultura.

Nada a acrescentar, por ora.

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Perfumaria (12/09)

Do Globo Online:

Febraban vai divulgar as tarifas bancárias através de serviço on-line

SÃO PAULO - A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) vai lançar, na próxima terça-feira, um sistema de consulta on-line das tarifas cobradas pelos bancos. A idéia é ajudar o consumidor a comparar os valores das tarifas, que de um banco para outro chega a ter diferença de mais de 70%. Em princípio, o serviço permitirá a comparação entre 46 tarifas de 10 dos maiores bancos do país. Elas serão divididas em sete tópicos: cadastros, contas correntes, movimentação de recursos, cheques, cartões, extratos e empréstimos. De 1994 até 2006, a receita dos bancos com tarifas cresceu 734%, contra 157% da inflação (IPCA) no mesmo período.

Clique aqui para ler a reportagem completa. Vai ser legal consultar esse sistema da Febraban na internet. Vai ser fonte para boas pautas dos colegas da economia. E só. A solução para as tarifas bancárias não será dada pelo mercado ou por perfumarias como essa da Febraban. Você não muda de banco assim, como quem muda de barraca de frutas na feira. Os números da reportagem são impressionantes. 734% de aumento nas tarifas de 1994 a 2006, contra 157% de inflação. A solução para esse problema é uma só. Tabelar as tarifas bancárias. Pela base. Ou seja, pela menor tarifa praticada hoje no mercado. Aplicando-se, é claro, um bom desconto. Que os bancos ganhem dinheiro emprestando dinheiro, e não praticando a esfola compulsória nos clientes.

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terça-feira, 11 de setembro de 2007

O embaixador da inflação - ATUALIZADO (11/09)

Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva percorre capitais nórdicas (na foto de Ricardo Stuckert, da Agência Brasil, Lula cumprimenta o presidente do parlamento finlandês, Sauli Niinistö) como garoto-propaganda do etanol brasileiro, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) lança mais um alerta sobre os efeitos da massificação dos biocombustíveis. Está na Agência Reuters:

Biocombustíveis podem ser remédio pior que doença, diz OCDE

Por Sybille de La Hamaide

PARIS (Reuters) - Os biocombustíveis, festejados por reduzir a dependência energética, aumentar a receita agrícola e ajudar a combater as alterações no clima, na verdade podem acabar sendo prejudiciais ao meio ambiente e encarecendo os alimentos, indicou um estudo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). No relatório sobre o impacto dos biocombustíveis, divulgado nesta terça-feira, a OCDE disse que eles podem "promover uma cura pior que a doença que tentam tratar". "A pressão atual para ampliar o uso de biocombustíveis está criando tensões insustentáveis que vão abalar os mercados sem gerar benefícios ambientais significativos", disse a OCDE. "Quando se levam em conta a acidificação, o uso de fertilizantes, a perda de biodiversidade e a toxicidade dos pesticidas agrícolas, o impacto geral do etanol e do biodiesel sobre o meio ambiente podem superar fácil os do petróleo e do diesel mineral", afirmou a organização. (...)

Clique aqui para ler a reportagem completa, no UOL
. Claro que Lula e adeptos poderão sempre argumentar que as advertências sobre os efeitos nefastos da expansão desenfreada de culturas voltadas à produção de biocombustíveis são parte de uma conspiração planetária para impedir que o Brasil entre no primeiro mundo. Se você acredita nisso, paciência. Mas os fatos são os fatos. Os últimos números da inflação chinesa preocupam. Veja reportagem de hoje do site (sítio) português diarioeconomico.com:

China regista maior inflação mensal desde 1996


Rita Paz

A China registou em Agosto a inflação mais alta dos últimos 11 anos, chegando a 6,5%, devido ao aumento do preço de alimentos básicos como a carne de porco, informou hoje o Escritório Nacional de Estatísticas do país. Os preços do porco e outras carnes aumentaram 49%; o dos ovos, 23,6%, e o do óleo de cozinha, 34%. A média do aumento do índice de preços ao consumidor (IPC) dos alimentos ficou em 18,2% em comparação com Agosto de 2006. O IPC dos produtos de consumo subiu 8% em Agosto. A inflação é a mais alta desde Dezembro de 1996, quando o indicador chegou a 7%. O resultado de Agosto supera as expectativas da maioria de economistas, segundo o jornal oficial "China Daily". Segundo os analistas, a pressão inflacionista chegou a um ponto de inflexão, passando do sector do consumo para outros âmbitos da economia. O aumento do índice de preços de produção (IPP) foi de 2,6% em Agosto, 0,2 pontos percentuais acima do resultado de Julho.

Clique aqui para ler a reportagem completa do diarioeconomico.com. A inflação chinesa (ou o vetor chinês da inflação) tem raízes bem conhecidas. O crescimento econômico de dois dígitos não dá sinais de arrefecer (centenas de milhões de chineses ainda esperam sua inclusão no mercado de consumo de massa). A pressão chinesa por commodities, inclusive alimentos, impulsiona os preços, sem que o mercado mundial consiga suprir a demanda num ritmo que reduza as pressões inflacionárias. Aliás, a onda inflacionária já está entre nós. Alavancada exatamente pelos preços dos alimentos. O que pune em primeiro lugar os mais pobres. Mas Lula e adeptos têm uma teoria conveniente sobre a suposta ausência de relação entre o etanol e a inflação. Segundo o presidente, o Brasil e o mundo têm terras sobrando, ocupadas por atividades de baixa produtividade. Por isso, sempre de acordo com Lula, o etanol poderá expandir-se sem ferir o meio ambiente, sem implicar mais desmatamento e sem afetar culturas voltadas à alimentação (e portanto sem pressionar a inflação). Eu considero essa tese uma ficção (Governo vegetariano e terras finitas), destinada a jogar uma cortina de fumaça sobre os bons negócios do poderosíssimo lobby do etanol, que infelizmente parece ter feito a cabeça do presidente da República do Brasil. Afinal, quem melhor do que Lula para sair por aí dizendo aos pobres africanos e latino-americanos que eles não precisam se preocupar, que as críticas são infundadas, que o preço da comida não vai subir e que a pobreza não vai aumentar? Lula tem moral para defender essas coisas. O risco é desmoralizar-se logo adiante. Como agora, quando os números da inflação mostram uma realidade bem diferente da desenhada no discurso presidencial. É uma pena. Lula começou seu mandato em 2003 apresentando-se como o embaixador do combate à fome. Corre o risco de terminá-lo em 2010 como o embaixador da inflação.

Atualização às 10:54 de 12/09/2007: Estava a ler o artigo de Delfim Netto hoje na Folha de S.Paulo sobre o relatório anual do BIS e resolvi olhar o que o relatório traz sobre a inflação mundial. Vejam que interessante (em inglês mesmo):

In the second half of 2006, the restraining effect of lower energy prices was partly offset by accelerating food price inflation. This was especially visible in emerging market economies, where food typically accounts for more than 30% of the consumption basket, compared to about 15% in advanced industrial countries. Food prices increased by about 7% in emerging market economies, primarily due to a drop in supply. For instance, despite easing in early 2007, wheat prices remained about 25% higher in dollar terms than one year previously because drought reduced the crop in major producer countries such as Australia. To some extent, however, the increase in food prices might herald another more secular change in relative prices, similar to the observed rise in the prices of oil and base metal commodities vis-à-vis manufactured consumption goods. Prices of maize and soybeans have risen sharply because of strong demand growth. One important factor behind this development seems to be policies aiming at reducing oil dependence through the production of biofuel. Another factor which could gain importance over time is that rising income in emerging economies is lifting demand for high-quality food that is relatively scarce (such as fish) or whose production requires high feed input (such as meat).

Para fazer o download do relatório do BIS, clique aqui (arquivo de cerca de 7M).

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