sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Capitalismo de ouvir falar (31/08)

Meu post sobre a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) despertou reações iradas. Fui "acusado" de estatista. Eu me recuso a debater esse assunto pelo ângulo da ideologia. Ideologia demais emburrece. Eu quero discutir o caso da CVRD pelos critérios do management e do business na iniciativa privada. Eu não tenho MBA nem estudei em Harvard, mas uma armadilha do destino colocou-me certo dia em contato com as terminologias e os critérios do mundo dos negócios. Foi entre 1996 e 2002, quando pusemos de pé o Universo Online (UOL). Dia sim dia não conversava-se com banqueiros e investidores sobre market capitalization, IPO e coisas assim. Não sei se cheguei a aprender alguma coisa naquela época, mas pelo menos de uma piada eu me lembro. Quando você entrar numa reunião com banqueiros, procure, cuidadosamente, por um pato. Se não encontrar, cuidado redobrado. O pato deve ser você. Como eu disse, topo discutir a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, mas só pelos critérios do capitalismo. O que eu sei é o seguinte: se você for o acionista de uma empresa privada e o seu executivo lhe propuser a venda da empresa nas condições em que a CVRD foi vendida, demita-o. Imediatamente. Imagine que você é o acionista principal de uma companhia. Aí aparece um banco para medir o valor de mercado da empresa e organizar o processo de venda. O banco diz que a empresa vale "x" e, em seguida, o mesmo banco participa do consórcio de investidores que compra a empresa por cerca de "x". Poucos anos depois, a empresa está valendo vinte ou trinta vezes "x". Você vendeu o ativo para pagar dívidas e hoje suas dívidas estão maiores do que antes. E o banco comprador fez um dos melhores negócios do mundo, um verdadeiro Nobel de relação custo-benefício. Como eu disse, é no mínimo demissão. No mínimo. Se a CVRD fosse vendida hoje em bolsa ela traria para o caixa do Tesouro recursos suficientes para cobrir quase metade do dinheiro público previsto no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para os próximos cinco anos. Sim, você poderá argumentar que a valorização da CVRD deu-se pelo brilhante management da companhia depois de privatizada. Conversa. A Petrobrás é estatal e a trajetória dela nos últimos anos é tão brilhante quanto. Outro argumento é que a valorização da CVRD deu-se por causa do aumento de preço das commodities, coisa que não se podia prever. Não se podia prever? Mas como, se os encarregados de prever o futuro da empresa na época eram os maiores interessados em comprá-la? Tanto que acabaram comprando. Ah, sim, tem também o argumento de que se o negócio era previsivelmente tão bom teria aparecido no leilão da Vale um monte de gente disposta a fazer um negócio não necessariamente tão bom assim, mas ainda bom, o que teria elevado o preço da ação. Se você acredita nisso, se você acredita que um leilão dessa magnitude rege-se pelas "leis do mercado", então você entende mesmo de capitalismo. Do capitalismo de ouvir falar.

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Confederação dos vetos (31/08)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição de hoje do Correio Braziliense:

O PT permanece reunido de hoje até domingo em São Paulo. O tema de uma Assembléia Constituinte parece ter chances de entrar na pauta. Por que as reformas constitucionais empacaram no Brasil? Porque todo mundo quer mudar alguma coisa que lhe desagrada na Constituição, mas ninguém quer tocar no que lhe agrada. Aqui reside o impasse. A lista de reformas supostamente desejadas é grande. Reforma da previdência, reforma tributária, reforma sindical, reforma trabalhista, reforma política. Um observador que tenha chegado de outro planeta certamente se espantará com o fato de algo tão amplamente desejado (as reformas) encontrar tantas dificuldades para seguir em frente. E já se vão duas longas décadas desde a última Constituinte...

O período de Luiz Inácio Lula da Silva abriu-se com um grande impulso em direção às reformas. Começaram a andar as mudanças na previdência social e nos impostos. Mas o momentum reformista esgotou-se no já distante final de 2003. Sobraram, insepultos, um arremedo de reforma previdenciária e outro de reforma tributária. A primeira está empacada na regulamentação da previdência complementar para os funcionários públicos. A segunda, no desacordo entre governadores quanto à unificação nacional do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

Num balanço preliminar, o gigantesco esforço político realizado pelo governo federal em 2003 para fazer avançar essas duas reformas resultou em quase nada. Já em 2004 vieram os primeiros tornados da crise política, que acabou virando furacão nos dois anos seguintes. Desde então, estamos submetidos a uma espécie de confederação dos vetos. Nenhum ator político tem, sozinho, força parlamentar ou social para destravar o processo. E não há ator político disposto a fazer concessões para acabar com o impasse.

O PT, por exemplo, tem defendido uma Constituinte que trate somente da reforma política. Isso porque o PT quer a reforma política. Mas os petistas não aceitam mexer em outras coisas na Constituição, pelo risco que esse movimento representaria para conquistas muito caras à base social do PT. Já a oposição não quer nem ouvir falar em Constituinte para esse fim (reforma política), pois teme que a iniciativa levante a lebre de um terceiro mandato para Lula. Como alternativa, a oposição desenha um cenário em que ela vai ganhar as próximas eleições presidenciais e vai ter, então, a força necessária para destravar as reformas. Mas, ainda que a oposição vença, certamente herdará um país suficientemente dividido, do ponto de vista político, para que o impasse atual se estenda.

O presidente Lula elaborou uma estratégia para o segundo mandato com base na premissa de que nada vai andar mesmo no Congresso Nacional até 2010. O governo decidiu concentrar-se na execução orçamentária para tentar chegar com musculatura à sucessão presidencial. O máximo a que Lula parece disposto é montar uma base para votar a CPMF e a DRU. Uma base para que Lula possa caminhar nos próximos três anos e quatro meses sem mais dores de cabeça políticas do que já tem.

Do ângulo do interesse nacional, entretanto, talvez esteja na hora de pensar em saídas para o impasse. Ou bem se acredita que as reformas não são necessárias — e se for assim isso deve ser dito às claras —, ou então quem propõe as reformas deve dizer como conseguirá fazê-las. O que não dá é continuar jogando para a platéia, enquanto dentro de campo o time não sai do zero a zero.

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quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Com a faca no pescoço (30/08)

Reportagem de hoje da Folha de S.Paulo (Vera Magalhães) descreve conversa telefônica em que um ministro do Supremo Tribunal Federal falou que o tribunal atuou com uma "faca no pescoço" quando decidiu aceitar a grande maior parte das denúncias contra os acusados do assim chamado mensalão. Sinceramente, não vejo mal nenhum em qualquer poder da República decidir com a faca no próprio pescoço. As pressões externas são inerentes à função pública. E o STF é um tribunal cujos membros são indicados pelos políticos. O presidente da República define os nomes e o Senado os aprova (ou não). O importante, no caso do STF, é que os ministros ajam segundo os critérios de sua consciência. Ainda que estejam com uma faca encostada ao pescoço. Raramente escrevo aqui sobre decisões do STF. Não porque eu ache que elas não devam ser discutidas. O estado de direito obriga a aceitar as decisões judiciais (você pode, legitimamente, rebelar-se contra elas, mas aí você estará a caminho de romper com o estado de direito -ainda que seja para tentar colocar no lugar um outro estado de direito). Não obriga a concordar com elas. O que o STF decidiu foi aceitar as denúncias. Agora vem o julgamento, no qual os ministros certamente voltarão a sentir no pescoço o toque da lâmina gelada. E eles decidirão como acharem melhor. A oposição diz que a decisão do STF coloca o governo no banco dos réus, ainda que simbolicamente. O governo, naturalmente, discorda. Da minha parte, continuo impressionado com a capacidade demonstrada pela oposição para gastar energia com coisas que não vão lhe render nada do ponto de vista político-eleitoral. Até porque parece vir por aí um outro processo no STF, contra gente da oposição que supostamente alavancou recursos para campanhas eleitorais com base em empréstimos lastreados em contratos governamentais. Sim, há o argumento de que a oposição fez isso em campanhas eleitorais, e que a denúncia recém-analisada pelo STF recusa o argumento do "caixa 2 eleitoral". Eu acho essa distinção irrelevante. Se o que os acusados no processo atual fizeram foi criminoso, uma ação semelhante não deixa de ser crime só porque o objetivo era ganhar uma eleição. Aliás, a tese de recursos públicos desviados para comprar consciências com o propósito de perpetuar um projeto de poder (a tese central da denúncia da Procuradoria Geral da República no caso do suposto mensalão) cai muito bem quando o ato analisado é de gastos eleitorais irregulares, financiados ilegalmente por gente que tem negócios com o governo. Mas o universo jurídico não é minha praia. Por isso, vou esperar pelo que decide o STF nos diversos casos colocados para a sua apreciação. Ainda que, eventualmente, eu me dê o direito de discordar de uma ou outra decisão dos ministros. O que, definitivamente, tampouco terá qualquer importância.

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Uma proposta para a Vale (30/08)

De onde menos se esperava, acaba de chegar um argumento em reforço do pessoal que propõe a retomada pelo estado do controle da Vale do Rio Doce. Aliás, esse pessoal está organizando um plebiscito popular entre os dias 1 e 9 de setembro, para que os interessados opinem sobre o assunto. É democrático. Antes de tudo, uma advertência: eu não tenho posição de princípio sobre as privatizações. Eu tento analisar caso a caso. É evidente que tem algo de errado nesse caso da Vale. É óbvio que a coisa foi um péssimo negócio para o país. A empresa foi vendida por um valor trinta vezes menor do que ela vale (sem trocadilho) hoje. Eu não condeno o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso por isso. Todo mundo pode errar. FHC fez coisas boas pelo Brasil, mas na privatização da Vale ele escorregou. Então é legítimo que se reveja o que foi feito lá atrás, para consertar. Eu sei que quando a Vale foi vendida o PT liderou a turma que era contra. Sei também que de lá para cá o PT e o presidente da República construíram boas relações políticas e de amizade com o pessoal que comprou a Vale, inclusive com o Bradesco. Mas eu espero que esse aspecto não interfira na posição que o governo vai adotar no caso. Eu tenho certeza de que o PT e o governo vão colocar o interesse nacional acima de eventuais relações políticas ou de amizade. Eu, por exemplo, me dou superbem com o gerente da minha agência do Bradesco e mesmo assim estou aqui escrevendo este post. Uma coisa nada tem a ver com a outra. Vamos ver se o PT discute o assunto no seu congresso, que acontece neste fim de semana. Mas eu abri o post dizendo que os defensores da reestatização da Vale ganharam uma ajuda inesperada. Ainda que indireta. O Wall Street Journal traz hoje reportagem com um monte de elogios à Petrobrás. Clique aqui para ler. Eu li e pensei: se a Petrobrás (com acento) é controlada pelo estado e vai tão bem, por que não devolver o controle da Vale ao estado? Dois são os argumentos contra essa tese: 1) haveria quebra de contrato, o que geraria insegurança jurídica e 2) a Vale só se valorizou tanto porque foi privatizada. O primeiro argumento não me desce bem. Talvez eu tenha passado muito tempo trabalhando na iniciativa privada e convivido muito com empresários. Não conheço empresário que aceite levar até o fim um contrato que passou a ser um péssimo negócio. "Segurança jurídica" é um conceito que os empresários gostam de ver saindo do teclado de seus escribas, mas que deixam de lado na primeira ameaça a suas empresas. O segundo argumento tomou um tiro na asa com essa reportgem de hoje do WSJ. Eu tenho uma proposta para a Vale. O governo retoma 51% das ações pagando o que elas valiam quando a companhia foi privatizada, mais a inflação. Paga à vista, em dinheiro. Para evitar perdas para as pessoas que investiram seu FGTS em ações da Vale, o governo poderia indenizá-las retomando essas ações a valor de mercado (o atual) com um pequeno desconto, compulsoriamente. Quem absorveria a conta? Ora, os bancos. Quem tem ações da Vale compradas com o FGTS recebria ações dos bancos, sem custo adicional. Minha proposta é justa. Está na hora de os bancos fazerem um pequeno sacrifício pelo Brasil, país que tem lhes dado tantas alegrias.

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quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Uma bela iniciativa de reconciliação política (29/08)

Da Agência Brasil:

Livro atualiza versões oficiais sobre mortes e desaparecimentos durante a ditadura militar

Sabrina Craide

Brasília - Resgatar a memória, a verdade e a justiça sobre o que realmente aconteceu com os mortos e desaparecidos durante o período da ditadura militar é o objetivo da obra Direito à Memória e à Verdade, lançada hoje (29) no Palácio do Planalto. A cerimônia contou com a presença de diversos familiares de vítimas, recebidos antes pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em audiência reservada. A publicação é o resultado de 11 anos de trabalho da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e recupera a história de 479 militantes políticos, que foram vítimas da ditadura militar no Brasil durante o período de 1961 a 1988. Para cada militante, o livro traz a antiga versão para o que supostamente teria ocorrido com os desaparecidos e uma nova versão oficial, obtida depois da pesquisa realizada pela comissão. (Continua...)

Clique aqui para ler o pronunciamento do presidente Lula na cerimônia. Foi uma bela iniciativa de reconciliação política. A Lei de Anistia está em vigor, e assim deve continuar. E os familiares e amigos dos desaparecidos na ditadura têm o direito de saber o que foi feito de seus entes queridos. Têm o direito de enterrar os seus mortos. Esses direitos também estão em vigor. Chamou minha atenção na fala do presidente que ele tenha dividido com o antecessor, Fernando Henrique Cardoso, os méritos da iniciativa. Há certas coisas que estão acima das questiúnculas partidárias e das mesquinharias do dia-a-dia da luta pelo poder. Parabéns aos presidentes Lula e FHC. Parabéns ao Brasil.

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Teste ideológico - ATUALIZADO (29/08)

Quem pronunciou, em março de 1960, o seguinte discurso sobre a Revolução Cubana?

O poder popular representa hoje a quebra dos privilégios econômicos e sociais das antigas classes dominantes. O que não se pode conseguir sem resistência delas. O mal do conservadorismo reacionário é estar fora do tempo e não compreender isto. Não compreender que, ou aceitaremos e promoveremos a evolução da democracia para seus novos rumos, ou a estrangularemos, estabelecendo ditaduras de direita para sustentarmos privilégios incompatíveis com a nova ordem no mundo.

(a) João Goulart (trabalhista)
(b) Leonel Brizola (trabalhista)
(c) Luiz Carlos Prestes (comunista)
(d) Juscelino Kubitschek (pessedista)
(e) Affonso Arinos de Mello Franco (liberal)

Respondam nos comentários. Daqui a pouco, a resposta correta.

Atualização, às 10:32 de 31/08: Affonso Arinos de Mello Franco era senador da UDN quando foi a Cuba na companhia de um deputado chamado Janio Quadros. Na volta, fez esse discurso da tribuna do Senado. Tirei de uma orelha de livro do Osny Duarte Pereira. Três conclusões. 1) A condecoração dada por Janio a Che Guevara não foi um raio em céu azul. 2) Já não se fazem mais liberais como antigamente. 3) Na última vez que os liberais ganharam uma eleição presidencial no Brasil, há meio século, foi porque não apareceram com a cara 100% de direita.

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terça-feira, 28 de agosto de 2007

As conseqüências do "déficit ético" (28/07)

No começo do ano debateu-se aqui, acalorada e duramente, o caso do menino João Hélio Fernandes. Como se recorda, ele foi arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro e morto, preso ao carro roubado de sua mãe por bandidos -entre eles um menor de dezoito anos. Minha posição naquele caso foi a seguinte: nada justifica um crime hediondo, e ponto final. Post atrás de post, procurei rebater a tese segundo a qual dificuldades sociais podem, em algumas circunstâncias, justificar um crime hediondo. E, portanto, justificar penas diferenciadas para, por exemplo, menores de dezoito anos que tenham origem pobre. Aquele debate sobre a menoridade penal (faça um pesquisa por "joão hélio", entre aspas, na caixinha de busca no alto à esquerda desta página) rendeu-me muita dor de cabeça e alguns desafetos. Paciência. Mas vamos a este post. Façamos a conexão entre dois temas: 1) o estudo do professor Alberto Carlos Almeida sobre como supostamente funciona a cabeça do brasileiro (veja posts anteriores) e 2) o debate sobre a redução ou eliminação da idade antes da qual quem comete crime não pode ser acusado pelo delito que cometeu. Informo aos que defendem com tenacidade os pontos de vista do professor que sua posição conduz necessariamente à defesa da maioridade penal como princípio. Vamos aos argumentos. O estudo do professor e seu livro não foram feitos para provar que estudar é uma coisa boa (como tentou fazer crer Roberto DaMatta no Roda Viva). O professor não precisaria ter investido tempo e recursos para provar isso, para demonstrar o óbvio. A espinha dorsal da tese é que haveria correlação estatística entre ética e escolaridade. É isso que está no livro e em debate. O que seria essa correlação, na prática? Quem estudou mais teria supostamente mais arraigados os valores fundamentais que permitem distinguir o bem do mal, o certo do errado. Mas, se isso é verdade, então a recíproca também é verdadeira. Quem tem menos escolaridade tem (sempre supostamente) taxas menores de convicção quanto a esses valores. Ou seja, segundo o professor, a baixa escolaridade seria responsável por um "déficit ético" que variaria inversamente ao número de anos passados na escola. Mas, por que as pessoas passam menos tempo na escola do que o desejável? Eis um tema em que há pouca divergência. Raramente, muito raramente a culpa por estudar menos que o razoável é do próprio indivíduo. O responsável principal costuma ser o governo -que não deu ao estudante ou a sua família as condições para que o jovem tivesse permanecido na escola o suficiente. Ou então a culpa é da a família -que não cuidou desse jovem, que o obrigou a trabalhar desde cedo e não se empenhou para que ele adquirisse a escolaridade necessária. A conclusão é imediata. Se o governo e a família são os responsáveis pelo déficit de escolaridade, e se esse déficit responde pelo "déficit ético", então são o governo e a família -e não o indivíduo- que devem ser responsabilidados ou punidos quando a pessoa com poucos anos de estudo envereda pelo crime. De um ângulo diferente, se duas pessoas cometeram o mesmo crime mas têm escolaridade diferente, a pena deveria ser maior para o mais escolarizado e, naturalmente, menor para o menos escolarizado. Simples assim. Levando ao limite, em certos casos a falta de escolaridade formal deveria justificar a inimputabilidade. Esse é o problema com as idéias. Elas têm conseqüências. E que -como diria o Conselheiro Acácio- costumam vir depois.

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Tautologias (28/08)

Eu gostei de ter participado do Roda Viva de ontem (veja o post anterior), com o professor Alberto Carlos Almeida, autor de A cabeça do brasileiro. Também porque o professor debateu democraticamente, procurou responder a todas as dúvidas e críticas. Em nenhum momento ele foi arrogante ou se colocou como detentor do único saber legítimo. Ele defendeu sua pesquisa e suas conclusões, como era natural, mas ouviu com atenção o que lhe perguntavam, não tergiversou nem fugiu dos questionamentos. Além do mais, o debate-entrevista não teve meias medidas, foi desprovido tanto de solenidades quanto de fricotes. Ao longo da discussão, eu consolidei minhas diferenças com a visão de mundo que o professor apresenta, bem como minhas diferenças com a pretensão ética presente em sua obra e seu discurso. Começo pela metodologia. Eu lhe perguntei como ele explicava que os menos instruídos aceitem mais o jeitinho se os de instrução mais elevada, paradoxalmente, são quem mais pratica o jeitinho, como ele próprio observou em sua pesquisa. O professor respondeu que o jeitinho é uma coisa para o menos instruído e outra coisa para o mais instruído. Aí o Cláudio Weber Abramo percebeu o problema lógico-metodológico e disse que se os conceitos de jeitinho são diferentes não dá para dizer que uns aceitam mais o jeitinho do que os outros. Se você a partir de hoje chamar as maçãs de bananas isso não implicará que quem gosta de maçãs passe automaticamente a gostar de bananas. Eis o problema central da pesquisa do professor: ele adota a visão de mundo da elite escolarizada como referência de modernidade e a partir daí conclui que a elite escolarizada é moderna. A ciência dá lugar à tautologia. Duas perguntas que fiz no programa convenceram-me disso. Perguntei ao professor por que a pesquisa não tinha se preocupado em medir valores como solidariedade, desprendimento, altruísmo, disposição para a filantropia. Ele disse que não dá para pesquisar tudo, que é preciso fazer escolhas. A resposta diz bem sobre os valores que o professor considera mais modernos e menos modernos numa dada sociedade. A modernidade cultuada pela obra do professor é uma modernidade dos séculos 18 e 19, fundada no individualismo, no hedonismo, no agnosticismo e na crença absoluta de que o indivíduo é capaz de salvar a si próprio por cima de todas as coisas. Vejamos, por exemplo, a questão do estado. A elite escolarizada cultiva o horror ao estado. Porque acha que não precisa do estado que ela sustenta com os seus impostos. Os de escolaridade menor gostam do estado porque percebem que só o estado pode lhes oferecer serviços de saúde, educação e segurança. De acordo com a elite escolarizada, essa última seria uma visão arcaica e menos democrática. Com o que parece concordar o professor. Então, como ele e a elite escolarizada concordam, isso naturalmente deve ser verdade. De volta à tautologia. Outro ponto que me chamou a atenção na pesquisa foi quando se perguntou sobre religião e Deus (a outra pergunta decisiva para que eu formasse a minha opinião). Os menos escolarizados têm mais religiosidade do que os demais. O professor considera que religiosidade é um fator de arcaísmo, e esse é um ponto a reforçar sua tese de que os menos escolarizados representariam a parte arcaica da sociedade brasileira. Eu penso o contrário, penso que a religiosidade e o reforço da família são modernos, porque ajudam a mitigar os impulsos individualistas, hedonistas e consumistas que ameaçam as bases da convivência social em sociedades como a nossa, especialmente entre os mais jovens. Nesse sentido, eu penso que o povo talvez seja mais moderno do que a elite. São dois pontos de vista. Mas eu não pretendo escrever um livro para dizer que os que pensam como eu são definitivamente os modernos e os que pensam diferente, os arcaicos. Ainda sobre religião, eu disse ao professor no programa que todas as grandes religiões monoteístas proíbem roubar. Há um mandamento específico sobre isso. Se os menos instruídos são mais religiosos, qual é o sentido de esse grupo social ser, segundo a pesquisa, mais tolerante à corrupção, que é roubo? A religiosidade do brasileiro é de fachada? O professor escapou dessa colocando a culpa no catolicismo, que segundo ele estabelece uma cultura do perdão. Pelo visto, trata-se de um seguidor de Martinho Lutero. Sinceramente, penso que nesse ponto o professor chutou. Concluo, para pegar o avião de volta a Brasília. A ética subjacente à obra do professor Alberto Carlos Almeida é a ética do grupo social a que pertence o professor. Segundo a plataforma ideológica exposta em sua obra, alcançaremos o paraíso quando todos pensarem como ele. Só que isso não chegará a acontecer. Pela mesma razão por que não é possível a parte pobre do mundo atingir os padrões de consumo da parte rica sem destruir o planeta. O sonho ideológico de um mundo homogeneamente desenvolvido com base numa cultura e numa economia fundadas no individualismo, no racionalismo, no consumismo, na recusa a Deus e às formas coletivas de convivência, na recusa ao reconhecimento dos limites do homem, tudo isso não passa de um sonho louco e irrealizável, uma caricatura pós-iluminista. Nesse sentido, professor, ao contrário do que o senhor afirma, talvez a consciência dos seus limites torne as pessoas menos escolarizadas mais modernas do que a arrogante, arcaica e prepotente elite que o capitalismo produz e reproduz diariamente.

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segunda-feira, 27 de agosto de 2007

No Roda Viva (27/08)

Participarei hoje da banca de entrevistadores do Roda Viva, da TV Cultura (22:30). O entrevistado será o sociólogo Alberto Carlos Almeida, autor de "A cabeça do brasileiro". O livro motivou reportagem da revista Veja que foi comentada neste blog. Os demais entrevistadores serão 1) Roberto Damatta (antropólogo, professor emérito da Universidade Notre Dame, nos Estados Unidos e da PUC do Rio de Janeiro), 2) Cláudio Weber Abramo (Diretor Executivo da Transparência Brasil), 3) Fred Melo Paiva (editor do caderno Aliás, do jornal O Estado de S. Paulo), 4) Francisco Alambert (professor de história contemporânea da USP) e 5) Lobão (músico, compositor, idealizador da Revista Outracoisa e apresentador da MTV).

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domingo, 26 de agosto de 2007

Minha entrevista com o chanceler de Chávez (26/08)

O ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Nicolás Maduro Moros, esteve no Brasil para a 3a. Reunião Ministerial do Focalal (Foro de Cooperação América Latina – Ásia do Leste) e deu uma entrevista exclusiva ao Correio Braziliense. O tema da entrevista foram as relações bilaterais e assuntos internos da Venezuela, como a reforma da Constituição. Clique aqui para ler.

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Subjetividade jornalística (26/08)

Reportagem de hoje na Folha de S.Paulo:

O Brasil tornou-se um dos destinos prediletos de megatraficantes de cocaína. A principal evidência da mudança são as prisões dos colombianos Juan Carlos Ramírez Abadía e Gustavo Durán Bautista num período de 11 dias -o primeiro no último dia 7, o outro, no dia 18. Seesticar o prazo para o ano passado, pode acrescentar mais um traficante de porte internacional na conta: o também colombiano Pablo Rayo Montano, preso em maio de 2006 pela PF em São Paulo. A lista pode aumentar. A PF e policiais dos Estados Unidos têm indicações de que companheiros de cartel de Abadía podem estar no Brasil. Um dos suspeitos integra o grupo dos cinco traficantes mais procurados pelos EUA. Não há uma única razão para explicar por que os traficantes preferem o Brasil. Mas há um motivo que atravessa todas essas razões: a corrupção. O motivo é apontado por especialistas da Polícia Federal, por juízes federais e procuradores. Segundo eles, é a corrupção que facilita a lavagem de dinheiro em grande escala, o suborno de policiais, a cooptação de laranjas e a compra de bens com dinheiro vivo. (Continua...)

Para o meu gosto, a reportagem deveria ter começado assim:

Nas últimas semanas, o Brasil deixou de ser um refúgio seguro para megatraficantes de cocaína. A principal evidência da mudança são as prisões dos colombianos Juan Carlos Ramírez Abadía e Gustavo Durán Bautista num período de 11 dias -o primeiro no último dia 7, o outro, no dia 18. Se esticar o prazo para o ano passado, pode acrescentar mais um traficante de porte internacional na conta: o também colombiano Pablo Rayo Montano, preso em maio de 2006 pela PF em São Paulo. A lista pode aumentar. A PF e policiais dos Estados Unidos têm indicações de que companheiros de cartel de Abadía podem estar no Brasil. Um dos suspeitos integra o grupo dos cinco traficantes mais procurados pelos EUA. Não há uma única razão para explicar por que os traficantes preferem o Brasil. Mas há um motivo que atravessa todas essas razões: a corrupção. O motivo é apontado por especialistas da Polícia Federal, por juízes federais e procuradores. Segundo eles, é a corrupção que facilita a lavagem de dinheiro em grande escala, o suborno de policiais, a cooptação de laranjas e a compra de bens com dinheiro vivo. (Continua...)

Notem que eu só mudei a frimeira frase. O resto está igual. As duas notícias são verdadeiras. Segundo a Folha, a corrupção faz do Brasil um paraíso de narcotraficantes. Segundo o lide alterado por mim, a prisão de dois chefões do tráfico nas últimas semanas mostra que as coisas estão mudando. Quem tem razão, jornalisticamente falando, eu ou a Folha? Ambos. Depende do ponto do qual você observa a realidade, do ponto de observação. A objetividade jornalística é uma utopia e o jornalismo supostamente crítico é um pretexto. Na vida real, graças a Deus, não há como eliminar a subjetividade. A pretensão de dominar a objetividade jornalística é totalizante e autoritária. E o jornalismo supostamente crítico opera como braço armado dessa pretensão.

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sábado, 25 de agosto de 2007

Também para o bem dos americanos, vamos rejeitar o que os americanos nos propõem (25/08)

Na Folha de S.Paulo de hoje, o embaixador do Estados Unidos no Brasil nos faz uma proposta que devemos recusar. Em nome da defesa dos interesses nacionais e, por que não?, também dos verdadeiros interesses norte-americanos. Diz a Folha que

O Brasil poderá estreitar a colaboração com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e agir ao lado da organização como ator de uma "parceria global" -ao menos no que depender dos Estados Unidos. A idéia foi sugerida ontem em São Paulo por Clifford Sobel, embaixador americano no Brasil, que afirmou também que Brasília "poderá ajudar a convencer outros países com visões semelhantes a colaborar com a Otan". Criada em 1949 para se contrapor ao avanço da União Soviética, a Otan conta hoje com 26 países-membros ligados por acordos militares de proteção mútua e ação conjunta. Em palestra ontem na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em São Paulo, Sobel disse que não há um modelo para uma parceria com o Brasil, mas citou como exemplos colaborações da Austrália e do Japão. "Isso não significa trazer membros de fora do espaço euroatlântico para a aliança, mas facilitar a ação de uma Otan forte, que trabalha com parceiros globais."

Clique aqui para ler a reportagem completa. Eu proponho que o Itamaraty chame o embaixador Sobel e lhe diga algumas coisas. Uma delas é que o Brasil não tem interesse em se alinhar com a Otan, pois o objetivo estratégico do Brasil é manter a América do Sul fora da nova polarização militar Leste-Oeste (Estados Unidos contra a Rússia e a China). Seguindo a melhor tradição isolacionista da política externa norte-americana, o Brasil deve se concentrar na tarefa de co-liderar uma América do Sul democrática e pacífica e deixar que os Estados Unidos cuidem dos problemas dos Estados Unidos. Os norte-americanos acreditam que a maior ameaça de momento à sua segurança nacional é a combinação entre o terrorismo e as armas de destruição em massa. Pois bem, a América do Sul é o único continente livre desses dois vetores, e deve continuar assim. Esse é o interesse do Brasil e também -o embaixador Sobel certamente nos permitirá opinar- dos Estados Unidos. Ou será que o embaixador Sobel imagina ser possível que um dia soldados brasileiros estejam lutando ao lado dos marines em terras venezuelanas para garantir o fornecimento do petróleo daquele país caribenho para a superpotência da América do Norte? Se o embaixador Sobel pensa isso talvez esteja na hora de trocá-lo. Os Estados Unidos têm lá os seus problemas com a Venezuela. Eles se agravaram a partir do momento em que Washington adotou atitude no mínimo suspeita quando da tentativa de golpe contra o presidente Hugo Chávez, em abril de 2002. O que o Brasil tem a ver com isso? Nada. Rigorosamente nada. Há por certo quem no Brasil tente reavivar as chamas da guerra fria e fazer do nosso país uma plataforma para provocações contra a Venezuela e também contra Cuba. Com o propósito de buscar lá fora a força política que não conseguem reunir aqui dentro. Vide o caso dos dois boxeadores cubanos que desistiram de desertar e pediram para voltar ao seu país, no que foram prontamente atendidos pelo governo brasileiro. A mesma reportagem da Folha traz um trecho impressionante:

Presente na palestra ontem, o ex-embaixador brasileiro em Londres Sérgio Amaral afirmou que é preciso estudar a proposta de Sobel. Ele defendeu, porém, que as relações do Brasil com os EUA vêm melhorando ao lado da deterioração das relações dentro da América Latina. "[O presidente da Bolívia], Evo Morales, jogou na lata do lixo o mais promissor setor de integração da América do sul -o energético-, e Chávez desencadeou uma corrida armamentista sem precedentes."

Outro dia teve gente que se chateou quando eu falei dos embaixadores de pijama, uma turma do Itamaraty que depois de perder o poder redescobriu o alinhamento automático com os Estados Unidos como a maneira de permanecer no noticiário. Está em O "non-refoulement" e a liberdade individual, segundo o embaixador Celso Lafer. Deixa eu entender o que propõe o embaixador Sérgio Amaral. Ele pede que o Brasil se alie com os Estados Unidos contra a Bolívia e a Venezuela. Talvez o embaixador esteja pensando em apoiar, por exemplo, o movimento separatista da elite oriental da Bolívia, em Santa Cruz de la Sierra. O que o Brasil teria a ganhar se seguisse as orientações do embaixador Sérgio Amaral? Nada. Rigorosamente nada. O Brasil deve fazer é o contrário. Acelerar a entrada da Venezuela e da Bolívia no Mercosul e trabalhar por uma estratégia continental de defesa, por uma aliança militar regional que desfaça as nuvens de desconfiança criadas entre nós, sul-americanos, pelos Estados Unidos e por seus aliados. Na redemocratização conseguimos fazer isso com a Argentina. Vamos repetir aquela experiência exitosa. A Venezuela considera-se ameaçada pelos Estados Unidos e promove o reequipamento militar do país com armas russas e chinesas. Com especial atenção para uma eventual guerra assimétrica. Quem se concentra na possibilidade de uma guerra assimétrica é porque espera ser invadido -e não porque esteja pensando em invadir. Em vez de sairmos correndo para debaixo da asa do titio Bush, nós deveríamos fazer algo parecido com o que faz o presidente Chávez. Reequipar as nossas Forças Armadas com tecnologia a que pudéssemos ter acesso independentemente da vontade de Washington. Uma América do Sul militarmente forte, independente e coesa é a melhor maneira de preservarmos a paz na região. Como não vamos mesmo atacar os Estados Unidos, quem sabe eles deixam de lado a idéia de aventuras aqui. E todo mundo fica numa boa. E que a turma do pijama continue assim. De pijama. Para evitar que a América do Sul se transforme em território política e militarmente conflagrado. Querem voltar ao poder? Corram atrás dos votos, em vez de tentar nos empurrar para maluquices sem pé nem cabeça.

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quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Um debate interessante no Supremo Tribunal Federal (23/08)

Um debate quente entre os ministros marcou hoje o dia de sessões no Supremo Tribunal Federal (STF). Os juízes discutiram as circunstâncias em que informações em princípio protegidas constitucionalmente pelo sigilo podem ser apresentadas como provas pelo Ministério Público. Do site do STF (Plenário rejeita todas as questões preliminares da defesa de denunciados no mensalão):

(...) Ao final dos debates, a presidente da Corte proclamou o resultado nos seguintes termos: “No que diz respeito à preliminar autonomamente suscitada de ilicitude da prova do Bacen [Banco Central] de relatórios bancários por requisição exclusiva do procurador-geral da República, independentemente de ordem judicial, manifestaram-se pela ilicitude dessa prova os ministros Ricardo Lewandowski, Eros Grau, Gilmar Mendes, Marco Aurélio, Celso de Mello e a ministra Ellen Gracie. Todavia, esta preliminar é considerada prejudicada, na medida em que os referidos documentos não foram obtidos exclusivamente por esta fonte, mas ao contrário, por formas regulares de quebra de sigilo, ou seja, através da CPMI dos Correios e por decisão judicial do presidente do STF e, posteriormente, do próprio relator.”

Ou seja, seis dos dez ministros do STF disseram que o MP não pode pedir a abertura de processo contra alguém com base em informações que, protegidas pelo sigilo, não tenham sido obtidas a partir de decisão de autoridade judicial. É uma boa notícia para a democracia e para o estado de direito. Felizmente, o STF continua orientando-se pela Constituição.

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terça-feira, 21 de agosto de 2007

Os valores morais da elite e do povo (21/08)

A revista Veja que está nas bancas traz reportagem sobre um estudo acadêmico que analisa os valores da elite e do povo brasileiros. Clique aqui para ler a reportagem. O texto trata de um estudo/livro com o título A Cabeça do Brasileiro, do sociólogo Alberto Carlos Almeida. Segundo a revista,

O livro traz os resultados da Pesquisa Social Brasileira, um levantamento no qual se investigaram os principais valores presentes no cotidiano social, econômico e político nacional. Enfim, o que se pode denominar de "o pensamento do brasileiro". A parcela mais educada da população é menos preconceituosa, menos estatizante e tem valores sociais mais sólidos. (...) A Pesquisa Social Brasileira foi realizada pelo instituto DataUff (Universidade Federal Fluminense) e financiada pela Fundação Ford. Foram ouvidas 2.363 pessoas, em 102 municípios. Coordenador do trabalho, Almeida optou pela mesma metodologia utilizada pela General Social Survey, a maior pesquisa social dos Estados Unidos, realizada a cada dois anos, desde 1972, pela Universidade de Chicago. O levantamento expressa a opinião dos brasileiros sobre diversos temas. Não pretende, é importante ressaltar, revelar como agem. A pesquisa é sobretudo a respeito da ética nacional ou das várias éticas que convivem no interior do país.

Eu vou comprar o livro e ler. Mas, com todo o respeito pelo trabalho do professor, eu fiquei com algumas dúvidas a partir da leitura da Veja e da reportagem que o Jornal Nacional, da TV Globo, exibiu sobre o mesmo assunto. Segundo o professor Almeida, os mais instruídos têm valores morais mais arraigados do que os menos instruídos. Talvez essa conclusão seja algo precipitada. Há uma diferença entre o que as pessoas acham e o que elas dizem que acham. As pesquisas sobre o uso da internet são um bom exemplo. Qualquer pesquisa com usuários de rede dá que as atividades mais freqüentes são trocar emails, ler notícias, fazer buscas e participar de comunidades. Mas quando você analisa o tráfego na web a navegação em sites de sexo aparece sempre bem colocada. Só que as pessoas não gostam de admitir que navegam em sites de sexo. É arriscado ponderar a respeito do que vai pela alma humana a partir do que cada ser humano afirma a respeito de si próprio. Por isso, foi importante que a reportagem da Veja tenha ponderado que a pesquisa "não pretende revelar como agem" os brasileiros. Até porque, convenhamos, e já que se trata de discutir valores morais, o dinheiro usado para corromper agentes públicos sai é do bolso da elite econômica -ainda que a origem do dinheiro sejam os cofres públicos. Ou seja, quem pratica o grosso da corrupção ativa no Brasil, monetariamente falando, é a elite econômica. E é razoável fazer alguma correlação entre elite econômica e elite intelectual. Pode haver exceções, mas quem tem mais estudo no Brasil tem também mais dinheiro, como mostra qualquer estatística. Temos então um paradoxo. Segundo o professor Almeida, a elite brasileira, apesar de ser a responsável pelo grosso da corrupção, afirma que a corrupção é condenável. Enquanto o povo, apesar de participar da corrupção apenas marginalmente, admite com mais tranquilidade a existência da corrupção. Como explicar isso? Vou ler o livro antes de dar uma opinião definitiva. Mas não custa especular. Talvez a resposta esteja nas lições do velho (Karl) Marx. Desde o século 19 sabe-se que a ideologia dominante numa sociedade é a ideologia da classe dominante. Em miúdos, os pobres tendem a pensar mais ou menos do mesmo jeito que os ricos, quando se trata de valores. Você discorda? Veja que não estou falando de política (em quem o sujeito vota), mas de ideologia (o que o sujeito pensa). Minha hipótese é que os menos instruídos e os mais instruídos pensam do mesmo jeito, só que os mais instruídos pesquisados tiveram mais vergonha quando se tratou admitir o que pensam. De todo jeito, e mesmo se eu estiver certo na minha hipótese, apenas o fato de sentir essa vergonha já distinguiria os mais instruídos dos menos instruídos. As minhas dúvidas levam-me a adotar conclusões mais cautelosas e menos otimistas do que as da Veja. Ainda que fossemos todos mais instruídos, não sei se haveria menos corrupção e menos inqüidade no Brasil. Certamente estaríamos todos os brasileiros, das diversas classes sociais, mais preparados para responder a pesquisas de um modo politicamente correto. Talvez só isso.

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segunda-feira, 20 de agosto de 2007

A opinião pública, os ricos e o "Cansei" - ATUALIZADO (20/08)

Há uma hostilidade contra o "Cansei" que é compreensível. Ela provém do pessoal que apóia o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. É razoável que quem apóia o governo tente desqualificar quem é contra o governo, vocês não acham? Não é desejável, mas é compreensível. Especialmente num ambiente de radicalização política. Incompreensível, para mim, é a atitude das pessoas que vivem descendo a lenha no governo federal e também achincalham o "Cansei". Pensei um pouco antes de escrever este post, porque normalmente reluto quando é para discutir o comportamento da opinião pública. Mas como este texto tratará de generalidades e abstrações acho que ninguém vai se ofender. Aquela hostilidade contra o "Cansei" que nasce exatamente da oposição a Lula me deixa, como disse, com a pulga atrás da orelha. Matutando e tentando ligar as coisas. Faz tempo, por exemplo, que eu desconfio da tese de que a opinião pública (uso a expressão a partir do método gramsciano, o desenvolvido na cadeia) é vaquinha de presépio da oposição. É o contrário. A oposição é que está refém da opinião pública. Por sinal, nessa parceria entre a opinião pública e a oposição só quem tem se dado bem é a opinião pública -que de tempos em tempos exibe o seu poder, enquanto a oposição não consegue ganhar umazinha sequer. Na eleição do ano passado, por exemplo, a oposição foi atrás dos conselhos da opinião pública e se deu mal. A opinião pública vem com suas maluquices e acaba arrastando a oposição a situações que a oposição não planejou nem desejou. Dura tem sido a vida da nossa oposição, nesse cabresto que lhe foi colocado pela opinião pública. Não se sabe o que a oposição deseja ou propõe para o Brasil, pois ela se limita a reverberar os movimento espasmódicos da opinião pública. É nessa conjuntura que aparece o "Cansei", um movimento orgânico de oposição ao governo federal mas que não nasceu da opinião pública. Aliás, um registro. O "Cansei" conseguiu em poucas semanas mobilizar mais gente contra o governo do que dois anos de campanha da opinião pública contra Lula. Querem saber? Eu aposto que o problema da opinião pública com o Cansei é porque o "Cansei" não veio da opinião pública, e portanto não está encabrestado por ela. A opinião pública está com ciúmes do "Cansei", que não lhe pediu licença para ir às ruas gritar "Fora Lula". Eu me oponho politicamente ao "Cansei". Eu defendo que Lula está fazendo um bom governo e deve ficar no cargo até o fim do mandato. Se o governo fosse meu, eu faria coisas diferentes. Mas o fato é que os votos foram do Lula e não meus. É uma premissa fundamental. Eu me limito a analisar e criticar as realizações do governo Lula no âmbito do que Lula prometeu quando pediu os votos dos eleitores em 2002 e 2006. Não no âmbito do que eu acho que o Lula deveria fazer. Mas este post não é sobre o governo. É sobre as relações entre a oposição, a opinião pública e o "Cansei". Eu saudei desde o início o movimento, pois nada há de mais saudável do que as pessoas descontentes com o governo irem para a rua dizer que estão descontentes. Eu não estou nem aí para o fato de haver gente rica no "Cansei". O problema do Brasil não são os ricos. A China, por exemplo, tem hoje muito mais ricos do que tinha trinta anos atrás. E a China está muito melhor do que estava trinta anos atrás. Enriquecer é glorioso, afirmava o arquiteto da China contemporânea, Deng Xiaoping. Ele tinha razão. Quem é rico tem dinheiro sobrando para investir e, portanto, propiciar oportunidades econômicas a quem não é tão rico assim. O Brasil deveria copiar a China nesse aspecto. Precisamos de ricos em maior quantidade, e de ricos mais ricos. Acho que nisso o pessoal do "Cansei" concorda comigo. Onde é que talvez esteja a nossa maior discordância? Pode ser que a turma do "Cansei" ache que o Brasil estaria melhor se os ricos além de ficarem cada vez mais ricos também mandassem no país. Eu penso que não, que o melhor é os ricos cuidarem de enriquecer enquanto os não tão ricos assim governam. Mas é apenas uma diferença de pontos de vista. Não é motivo para ficar brigando. Até porque quem vai decidir a parada não somos nem eu nem a turma do "Cansei". Muito menos a opinião pública. É o povo, na urna. Esse, por sinal, talvez seja o maior problema do pessoal do "Cansei" e também da opinião pública: depois dos discursos, contar o voto na urna.

Atualização, às 18:29 de 21/08: Gente me pergunta se o termo "opinião pública" pode ser substituído neste post por "imprensa". Empobrece um pouco, mas não tira o sentido do que eu quis escrever.

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domingo, 19 de agosto de 2007

Eu prefiro aumentar a CPMF e reduzir o IRPF (19/08)

"Mitos e verdades sobre a CPMF" é o título de um .pdf que a assessoria do Democratas me enviou, com argumentos contra a prorrogação da Constribuição "Provisória" sobre Movimentação Financeira. Deixei-o à disposição dos leitores. O que eu acho da batalha em torno da prorrogação ou não da CPMF? A oposição quer evitar que o governo federal obtenha com a CPMF uma receita que já chega aos R$ 35 bi anuais. O DEM briga para eliminar a taxa, enquanto o PSDB deseja reduzir a alíquota e dividir o bolo. A oposição argumenta que só neste ano o governo terá um excesso de arrecadação de R$ 50 bi -e que portanto dá para revogar a CPMF sem grandes problemas. Já o governo discorda, pois diz que todo centavo é útil para 1) enfrentar a instabilidade dos mercados financeiros, 2) manter a austeridade fiscal e 3) alavancar o investimento público. Bem, escrevo este post para, gentilmente, dizer aos amigos do DEM que não poderei ajudar na luta deles para abolir a CPMF. Eu apóio a proposta do DEM de acabar com a estabilidade dos diretores das agências reguladoras. Tenho minhas dúvidas sobre se o poder de revogar os mandatos deveria ser do mesmo Senado, como propõe o DEM, mas saúdo a coragem do Democratas quando assume essa bandeira, que é do interesse do Brasil. Vi ontem na televisão (Fatos e Versões, da Globonews) meu amigo Cristiano Romero, do Valor Econômico, dizer que no mundo todo as agências reguladoras são capturadas pelas empresas que deveriam regular. Fiquei feliz ao ouvir o Cristiano dizer isso, pois reforçou minha convicção de que o melhor mesmo é fechar as agências. Eu achava que elas só não tinham dado certo aqui no Brasil, e mesmo assim já propunha acabar com elas. Agora então... Mas admito que não há consenso sobre a minha tese. Tanto que o senador Tasso Jereissati (CE), presidente do PSDB, quer que a Constituição Federal garanta o emprego de todos os diretores de agências. Por isso é que eu apóio, taticamente, a proposta do DEM, de colocar as agências sob a tutela do Congresso. Isso representará uma espécie de "fechamento branco" das agências reguladoras, o que de todo jeito será bom para o Brasil. Mas, voltando à CPMF, eu sou contra revogá-la por três motivos principais. 1) Sou favorável a vincular os gastos governamentais com a Saúde e sou também favorável a regulamentar a emenda 29, que garante para a Saúde incrementos de receita correspondentes ao crescimento do Produto Interno Brutto (PIB). Uma das coisas que permite a vinculação na Saúde é o dinheiro que vem da CPMF. 2) Conjunturalmente, sou favorável a que o governo federal arrecade o máximo possível com impostos, pois o mais importante agora é garantir a austeridade fiscal. Eu sou ortodoxo, do ângulo fiscal: o governo federal deveria fazer um enorme esforço de curto prazo para abater a parte ruim da dívida pública, a que está prefixada com taxas de juros muito altas para a realidade atual. 3) Last but not least (para os que me acham xenófobo), eu fiz as minhas contas. E descobri que o que eu pago de CPMF é fichinha perto do que eu pago de Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF). Faça você também as contas, especialmente se você está na alíquota de 27,5% no IR. Compare 0,38% sobre a sua movimentação financeira mensal com o tanto que é descontado do seu contracheque todo mês. Sinceramente, eu preferiria que os meus amigos do DEM e do PSDB estivessem empenhados numa luta para diminuir ou até revogar o IRPF, nem que para isso a CPMF tivesse que ser aumentada. O IRPF é um imposto que poucos pagam, e por isso quem paga paga muito. A CPMF é um imposto que quase todo mundo paga, e por isso a alíquota é pequena. Eu, como a esmagadora maioria da classe média, seria beneficiado com a abolição do IRPF. Compreendo que os políticos do DEM e do PSDB estejam focados na CPMF. Afinal, para prorrogá-la é o governo quem tem que juntar os três quintos na Câmara dos Deputados e no Senado. Politicamente falando, a renovação da CPMF é um elo fraco da articulação governista e a oposição faz bem quando tenta aproveitar sua chance de quebrar as pernas do Palácio do Planalto. Mas, do meu ponto de vista, do ângulo de um assalariado de classe média como eu, a revogação da CPMF não faz mesmo muito sentido.

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sábado, 18 de agosto de 2007

Ipsos: mais números e taxas de conhecimento (18/08)

Vamos mergulhar um pouco mais na pesquisa Ipsos (sucessão presidencial de 2010) cujos principais números foram revelados no post anterior. Como eu informei, foram primeiro apresentados ao entrevistado os nomes governistas. Depois, num segundo momento, apenas os oposicionistas. Ou seja, o total da amostra pôde opinar separadamente sobre os possíveis candidatos do governo e da oposição. Bem, como está na tabela inserida no post anterior, quando apenas políticos da oposição estão na cartela o resultado é o seguinte:

José Serra (PSDB) 27%, Geraldo Alckmin (PSDB) 24%, Aécio Neves (PSDB) 10%, Denise Frossard (PPS) 2%

Especialmente entre os tucanos, há diferenças quando se aplica o corte por instrução, renda e região. Serra atinge até 34% entre os que têm apenas o ensino fundamental (22% para Alckmin e 10% para Aécio). Na população com ensino superior, Alckmin (28%) e Aécio (22%) vão melhor do que Serra (18%). Entre os mais pobres, Serra atinge 30%, contra 20% de Alckmin e 9% de Aécio. Já nas classes A e B, Alckmin tem 29%, contra 22% de Serra e 15% de Aécio. No Nordeste: Serra 36%, Alckmin 21%, Aécio 2%. No Sudeste: Alckmin 29%, Serra 18%, Aécio 18%.

Serra x Ciro
No confronto direto entre Serra (39%) e Ciro Gomes (PSB, 27%), os números detalhados são os seguintes:

1) com até quatro anos de ensino fundamental, Serra 32% x Ciro 23%; 2) com até oito anos, Serra 43% x Ciro 27%; 3) com até o ensino médio, Serra 45% x Ciro 28%; 4) com ensino superior, Ciro 39% x Serra 37%;

5) classe D/E, Serra 38% x Ciro 25%; 6) classe C, Serra 40% x Ciro 27%; 7) classe A/B, Serra 38% x Ciro 31%;

8) região NE, Serra 38% x Ciro 28%; 9) regiões N e CO, Serra 36% x Ciro 28%, região SE, Serra 39% x Ciro 29%, região S, Serra 43% x Ciro 20%.

Alckmin x Ciro
No confronto direto entre Alckmin (33%) e Ciro Gomes (PSB, 29%), os números detalhados são os seguintes:

1) com até quatro anos de ensino fundamental, Alckmin 26% x Ciro 26%; 2) com até oito anos, Alckmin 35% x Ciro 31%; 3) com até o ensino médio, Alckmin 40% x Ciro 29%; 4) com ensino superior, Alckmin 39% x Ciro 36%;

5) classe D/E, Ciro 29% x Alckmin 28%; 6) classe C, Alckmin 37% x Ciro 29%; 7) classe A/B, Alckmin 39% x Ciro 28%;

8) região NE, Ciro 35% x Alckmin 24%; 9) regiões N e CO, Ciro 30% x Alckmin 24%, região SE, Alckmin 41% x Ciro 25%, região S, Alckmin 33% x Ciro 30%.

Aécio x Ciro
No confronto direto entre Aécio (15%) e Ciro Gomes (PSB, 39%), os números detalhados são os seguintes:

1) com até quatro anos de ensino fundamental, Ciro 33% x Aécio 11%; 2) com até oito anos, Ciro 42% x Aécio 16%; 3) com até o ensino médio, Ciro 45% x Aécio 16%; 4) com ensino superior, Ciro 40% x Aécio 27%;

5) classe D/E, Ciro 39% x Aécio 13%; 6) classe C, Ciro 40% x Aécio 16%; 7) classe A/B, Ciro 38% x Aécio 22%;

8) região NE, Ciro 47% x Aécio 4%; 9) regiões N e CO, Ciro 38% x Aécio 8%, região SE, Ciro 37% x Aécio 23%, região S, Ciro 34% x Aécio 18%.

A pesquisa testou também taxas de conhecimento. Somados o "conhece bem" e o "conhece um pouco", os números são os seguintes:

Serra 70%, Alckmin 62%, Ciro 51%, Marta Suplicy 47%, Aécio Neves 30%, Tarso Genro 21%, Denise Frossard 12%, Dilma Rousseff 9%.

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quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Algumas simulações para a corrida pelo Planalto - ATUALIZADO (16/08)

A tabela abaixo (clique nela para ampliar) traz os principais números da última pesquisa nacional Ipsos, com uma amostra de 1.000 entrevistados.
















Primeiro, foi apresentada uma lista de possíveis candidatos governistas à presidência em 2010 (primeira coluna da esquerda para a direita). Em seguida, o mesmo foi feito com os principais nomes da oposição (segunda coluna). Depois, a pesquisa simulou um mano a mano tipo segundo turno. Os resultados foram os seguintes (a partir da terceira coluna):

José Serra (PSDB) 39%, Ciro Gomes (PSB) 27%
Ciro Gomes (PSB) 39%, Aécio Neves (PSDB) 15%
Geraldo Alckmin (PSDB) 33%, Ciro Gomes (PSB) 29%
José Serra (PSDB) 47%, Marta Suplicy (PT) 15%

Coloquei na tabela também colunas com os dados das votações entre os pobres (D/E) e na região nordeste (NE). E a última linha é a diferença entre o candidato do governo e o da oposição. Divirtam-se.

Atualização (23:02): Destaquei os pobres e o nordeste porque são os pobres e o nordeste quem decide eleições presidenciais no Brasil.

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Explicações sobre o inexplicável (16/08)

Teve gente que leu o post anterior e achou que eu fiquei chateado com a campanha do estadao.com.br que compara blogueiros a macacos. Como eu não estou chateado, eu concluí que fui mal-interpretado. Estou até pensando em contratar o João Livi, diretor de Criação da Talent (que fez a campanha do estadao.com.br), para explicar que eu não quis dizer no post anterior o que os outros acharam que eu quis dizer. O João, pelo visto, tem experiência nessa coisa de explicar o que quis dizer para esclarecer que não quis dizer o que todo mundo achou que ele quis dizer. O João fez isso hoje num email que mandou ao Blue Bus. Vale a pena ler. Vou comentar alguns trechos.

Desta forma, nos posicionamos o estadao.com em linha com a proposta de credibilidade, conteudo de qualidade e compromisso do Grupo Estado. Os sites, blogs, veiculos e pessoas que frequentam o lado 'luz' da internet , obviamente nao devem se sentir atingidos por uma crítica ao lado 'escuro' do ambiente virtual, da mesma forma que um bom jogador de futebol nao deve se sentir desvalorizado por ter um colega perna-de-pau ou quebrador de joelhos.

O Blue Bus escreve sem acentos de propósito. Eu tinha entendido exatamente isso, que o objetivo da campanha foi mostrar o estadao.com.br como uma coisa boa, que vale a pena acessar. Faz sentido, já que o pessoal do Estadão é quem está pagando a campanha. Ficaria estranho se fosse o contrário, se a Talent fizesse uma campanha paga pelo Estadão para dizer que o estadao.com.br é um site ruim. Até porque o novo site do estadao.com.br é mesmo muito bom. O problema é que o João decidiu elogiar o estadao.com.br de uma maneira torta. Em vez de explicar por que as pessoas deveriam visitar o novo estadao.com.br, ele resolveu fazer terrorismo, dizendo que tem um monte de lixo na web e que o estadao.com.br é um porto seguro para escapar da baixa qualidade e da incompetência. O João deve ter se inspirado na vitoriosa reta final da campanha presidencial de Geraldo Alckmin no ano passado. Não foi à toa que as pessoas se incomodaram com a campanha criada pelo João. Eu não me incomodei, mas entendo quem tenha ficado chateado, porque a verdade é que ele generalizou. Bem, quem sabe o João Livi não abre um serviço para ranquear sites e blogs na rede. Eu estou ansioso para saber do João quais são os endereços em que devo navegar -e os sites e blogs que preciso, segundo ele, evitar, porque talvez sejam alimentados por macacos. Mas vamos em frente com o pensamento do João.

No seminario da Microsoft este ano, em Cannes, os dados apresentados levaram a uma inconteste conclusao - a de que a internet, como as regioes de uma cidade, vai se dividir em duas. Uma util, crivel, inteligente, prestadora de servico, informativa e confiavel. Outra que é como uma rua escura e sem policiamento - vai quem quer, sob seu proprio risco. Vamos sempre promover o estadao.com como parte da primeira metade. Separar o joio do trigo na internet deveria ser do interesse de qualquer cidadao de bem.

Alguém da Talent foi para Cannes, assistiu a uma palestra da Microsoft, acreditou nela ("inconteste"), voltou para o Brasil e resolveu vender para o estadao.com.br a tese de que uma boa maneira de fazer as pessoas simpatizarem com o estadao.com.br é comparar o resto da web a uma rua escura e sem policiamento -a uma terra de ninguém. Isso, mesmo sabendo que o principal job da equipe que comanda (aliás com competência) de uns tempos para cá o conteúdo do Estadão na rede é tirar o atraso em relação à Folha/UOL e à Globo/G1. Ou seja, o principal problema do Estadão na web é a percepção geral de que o produto deles não é tão bom assim. Aí a agência de propaganda aparece com a idéia de resolver o problema dizendo que o produto dos outros é que é uma droga. Eu disse no post anterior e repito: algo assim só pode ter sido idéia de um gênio.

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quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Em links, o meu obrigado ao pessoal do Estadão pela homenagem (15/08)



O vídeo acima é uma peça publicitária da nova campanha do estadao.com.br. A assinatura é da agência Talent. A idéia (?) parece ser a seguinte: o que sai nos blogs não é confiável; por isso, é melhor acessar o estadao.com.br em vez de desperdiçar tempo e cliques. Coisa de gênio, você há de convir. O briefing para a agência deve ter tido algo como "precisamos dar um jeito de o estadao.com.br virar notícia na web". Aí o criativo sacou: "vamos falar mal dos blogueiros, os blogueiros vão reclamar da gente e a gente ganha uma mídia grátis na rede". Aconteceu. Cá estou eu falando da campanha da Talent para o estadao.com.br. Mas não sem uma ponta de orgulho. Afinal, não é pouca coisa o jornal centenário dos Mesquita -no qual aprendi, simultaneamente, o idioma e a ler quando cheguei ao Brasil, um menino imigrante de quatro anos e pouco- ter que falar mal de mim para conseguir um ibope na internet. Meu muito obrigado ao pessoal do estadao.com.br. Eu faço este blog há dois anos e confesso que até hoje tinha dificuldades para encontrar uma resposta quando me perguntavam "afinal, por que você perde o seu tempo nessa bobagem de blog?". A resposta aí está, na campanha publicitária do estadao.com.br. Invejem-me, mortais. Bem, só neste post o pessoal do Estadão ganhou seis links grátis. Espero ter ajudado a divulgar o site.

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Assembléia Constituinte, sem preconceitos (15/08)

Façam uma pesquisa sobre a agenda do Congresso Nacional nas últimas duas décadas. A palavra mais encontrada será "reformas". Reforma previdenciária, reforma tributária, reforma sindical, reforma trabalhista, reforma política. Do que mais se fala no Brasil são as reformas. Elas são assim chamadas porque, no mais das vezes, envolvem mudar a Constituição Federal de 1988. Ou seja, precisam do apoio de três quintos dos deputados e três quintos dos senadores. Ou seja, elas mal e mal se arrastam, já que nenhum governo no Brasil consegue juntar de modo estável tal maioria, dado nosso sistema eleitoral basicamente proporcional -ainda que os deputados federais e senadores sejam eleitos por um "distrito", o estado. Em resumo, tem um monte de coisas que todo mundo quer mudar na Constituição, mas o sistema político brasileiro é moldado de um jeito que acaba por bloquear alterações profundas e amplas na Carta. Qual seria, então, o caminho natural? O pessoal que diz ser a favor de fazer as reformas deveria juntar forças para pedir uma Assembléia Constituinte. Mas, paradoxalmente, quase todo mundo pede reformas mas quase ninguém defende no Brasil a convocação de uma Assembléia Constituinte livre, democrática e soberana. Eu defendo a idéia de uma Assembléia Constituinte. Ela deveria ter no máximo duzentos representantes e ser unicameral. Deveria ser eleita por uma de três maneiras: 1) votação nacional em lista, com cada partido ocupando um número de cadeiras proporcional ao número de votos recebido nacionalmente; 2) votação em distrito, de preferência em dois turnos, com a possibilidade de candidaturas avulsas no distrito, de pessoas não filiadas a partidos e 3) um misto das duas opções anteriores. Sabem por que quase todo mundo fala em reformas mas quase ninguém defende a Constituinte (o PT, por exemplo, quer uma assembléia para discutir só a reforma política; o resto ficaria de fora)? Porque a última Constituinte elaborou uma colcha de retalhos, que faz os interesses dos grupos de pressão prevalecerem sobre o interesse nacional. Por isso é que os grupos de pressão e os lobbies (sindicais, empresariais) movimentam campanhas por reformas, mas invariavelmente gritam contra quando alguém propõe fazer a reforma das reformas, quando se propõe convocar uma Constituinte exclusiva e soberana. Quem é contra a Constituinte apresenta o argumento de que uma assembléia assim só se justificaria em caso de ruptura institucional. Eu discordo. Se tem um monte de coisas que precisam ser mudadas na Constituição, por que não deixar o serviço na mão de representantes livremente eleitos pelo povo para esse fim? Dois vizinhos, a Bolívia e o Equador, adotaram o caminho da Constituinte para tentar resolver pendências seculares e acabar com agudas divisões sociais e étnicas -bem mais graves aliás do que as nossas. Em ambos os casos os resultados têm sido bons. Eis um assunto para discutir na próxima campanha presidencial.

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terça-feira, 14 de agosto de 2007

O modo tucano-petista de fazer oposição. Haverá outro? (14/08)

Os principais líderes do PSDB reuniram-se em Belo Horizonte e decidiram apoiar a diminuição da alíquota da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Mais detalhes podem ser encontrados no site do partido. A CPMF é fundamental para o financiamento dos gastos com a Saúde. Aliás, o PSDB defende também a imediata regulamentação da emenda 29, o que aumentaria as despesas com a Saúde. Essa informação também está no site do partido, numa entrevista de um deputado do PSDB da mesma Minas Gerais onde o PSDB decidiu que a CPMF precisa ser reduzida. Interessante. No seminário que fizeram ontem em Belo Horizonte os tucanos debateram um novo modelo de gestão para o Brasil. Eu torço sinceramente para que o PSDB apresente ao país novidades nesta coisa de governar. Porque na tarefa de fazer oposição, como mostra o caso CPMF versus emenda 29, os tucanos estão mesmo é ocupados em repetir o que o PT fazia quando ainda não tinha chegado ao poder. Mas oposição é isso mesmo, ser contra o governo em tudo. E o governo que se vire para governar. Eu ouço sempre que a CPMF é um imposto muito ruim. Um defeito da CPMF é ser cumulativa. O outro é que ela não é repartida com estados e municípios. Ou seja, ela vai se acumulando ao longo da cadeia produtiva e encarece o produto final. E a receita fica concentrada na União. A qualidade da CPMF é que todo mundo tem que pagar. E todo mundo paga na proporção do dinheiro que movimenta. Eu simpatizo com essa coisa de ter um imposto no Brasil que todo mundo é obrigado a pagar, um imposto que não dá para sonegar.

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Um cenário desolador (14/08)

O presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), Milton Zuanazzi, disse que o espaço entre as poltronas nos vôos comerciais brasileiros não é problema, já que só 5% dos passageiros reclamam do aperto. Ainda bem que Zuanazzi não é, por exemplo, ministro da Saúde. Pelo critério Zuanazzi de problema, uma epidemia de alguma doença não letal que atingisse 10 milhões de brasileiros não chegaria a ser um problema. Afinal, 10 milhões de pessoas no Brasil representam cerca de 5% da população. E se a doença não mata, para que se preocupar com essa bobagen? Como eu disse em post anterior, vai mal a turma que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nomeou para supostamente equacionar a crise aérea. O novo presidente da Infraero acena com a privatização dos aeroportos lucrativos. O ministro da Defesa dá sinais de que vai afrouxar diante das empresas aéreas que não querem largar o osso em Congonhas. E o pessoal que esbanjava indignação, na época em que o grooving parecia ser a chance de atirar nas costas do presidente as duas centenas de mortos do vôo 3054, não está nem aí. Aliás, está muito aí, afiando os talheres para os bons negócios privatizantes com que o governo acena. Pobre país, o nosso.

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domingo, 12 de agosto de 2007

A sinuca de Marta Suplicy (12/08)

Segundo o Datafolha, são estes os cenários de um hipotético segundo turno para prefeito de São Paulo, se a eleição de 2008 fosse hoje:

Geraldo Alckmin (PSDB) - 57%, Marta Suplicy (PT) - 35%
Geraldo Alckmin (PSDB) - 62%, Gilberto Kassab (DEM) - 22%
Marta Suplicy (PT) - 47%, Gilberto Kassab (DEM) - 39%

Clique aqui e aqui para baixar as tabelas completas do Datafolha. Em resumo, é o seguinte. A não ser que haja um cataclismo e o PSDB decida não lançar Geraldo Alckmin à Prefeitura de São Paulo, a ministra do Turismo, Marta Suplicy, está na desconfortável situação de escolher entre dois cenários ruins. 1) Ficar no Turismo e abdicar de ser a principal liderança política do PT na capital paulista. 2) Sair do ministério e enfrentar uma parada duríssima contra o ex-governador Alckmin, uma disputa que Marta tem tudo para perder -e na qual tem tudo a perder. No caso da opção 1, o grupo político de Marta ficaria órfão. No caso da opção 2, a ex-prefeita arriscaria jogar fora qualquer chance de disputar a presidência da República dois anos depois. Ou seja, Marta tem que torcer para Alckmin não ser candidato. Mas isso não conduziria automaticamente a um céu de brigadeiro para a ministra. O prefeito Gilberto Kassab vai ganhando musculatura e já se mostra competitivo num mano a mano com a ex-prefeita. Aliás, o que a pesquisa mostra é que o PT em São Paulo sofre -e muito- com o isolamento político. Mesmo assim, meu palpite é que Marta Suplicy não terá como escapar da disputa municipal no ano que vem. É lei número zero da política. Ninguém abre mão de espaço sem opor resistência.

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Quando o crime compensa (12/08)

Da Folha de S.Paulo de hoje:

Sem laudo, investigação sobre índios pára

Antropólogos se recusam a fazer parecer que ateste se cintas-largas sabiam que cometiam crime no caso do massacre de garimpeiros


Em relatório ao Ministério Público, delegada da PF diz que, após dois anos, desiste de obter a avaliação; peça é fundamental ao julgamento

ELVIRA LOBATO
DA SUCURSAL DO RIO
Dois anos após o indiciamento pela Polícia Federal de 23 índios cintas-largas e um funcionário da Funai pelo massacre de 29 garimpeiros, em Rondônia, ocorrido em 2004, a investigação emperrou por falta de laudo antropológico que ateste se os índios tinham ou não discernimento de que cometiam crime. A Polícia Federal não conseguiu antropólogos que se dispusessem a fazer o trabalho.O laudo é peça fundamental para que os índios sejam levados a julgamento. Sem ele, o Ministério Público Federal até pode denunciar os acusados, mas os advogados de defesa conseguiriam facilmente trancar o processo judicial.Há dois meses, a delegada da PF Alessandra Borba enviou um relatório ao Ministério Público Federal em que desiste de continuar na busca pelo laudo antropológico. O relatório descreve o fracasso dos contatos feitos desde maio de 2005, quando a Procuradoria da República devolveu os autos do inquérito à polícia para que fosse providenciado o laudo.O principal empecilho, segundo a delegada, foi a resistência do antropólogo Antonio Dal Poz Neto, apontado por seus pares como o maior especialista na etnia cinta-larga do país. Ele negou-se a fazer o laudo e a orientar outros antropólogos que se dispuseram a fazê-lo, sob sua coordenação.Em entrevista à Folha, por telefone, o antropólogo disse que tem uma filha adolescente para cuidar e não pode se afastar de Juiz de Fora (MG), onde é professor na universidade federal. "A vida moderna tem coisas como paternidade responsável", disse. Ele discorda que seja o único com conhecimento suficiente sobre os cintas-largas para fazer o estudo. (Continua...)

Eu torço para que tenhamos um dia no Brasil governos com fibra e coragem suficientes para enfrentar escândalos como esse, da impunidade dos índios acusados de assassinato de garimpeiros na Reserva Roosevelt. Infelizmente, parte da intelectualidade e do pensamento politicamente correto degeneraram para um radicalismo tão irracional quanto perigoso, ao defender a inimputabilidade dos membros das "nações" indígenas. Mas talvez eu esteja sendo injusto quando uso "irracional". A loucura pode ter raízes bastante racionais, especialmente quando atende a determinados propósitos. Há brasileiros que acham que os índios não deveriam fazer parte do Brasil, mas ter os seus próprios países. Para isso, naturalmente, os índios precisariam arrancar pedaços do que hoje é território nacional. Na prática, essas pessoas defendem que desde já as "nações" indígenas comportem-se como países independentes. Claro que essa turma conta com grandes simpatias nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. Que não estão interessados propriamente nos índios, mas na biodiversidade (biotecnologia) e nos minérios existentes nas terras indígenas. Segundo esse ponto de vista politicamente correto e apoiado pelo imperialismo, massacres como o de Rondônia não são assassinatos frios, cometidos premeditadamente. São meios de luta pela libertação do índio que não quer ser brasileiro. Um governo patriótico enfrentaria o problema de maneira simples: mudaria a lei para que o crime cometido pelo índio passe a ser tão criminoso quanto o cometido pelo branco ou pelo negro. Mas, infelizmente, talvez nossos governantes, a começar do presidente da República, estejam mais interessados em receber aplausos em Paris, Londres e Nova York do que em defender os brasileiros que desejam trabalhar e sustentar suas famílias. O interesse nacional exige que a questão indígena seja revista. Não há contradição entre de um lado preservar as terras dos índios e suas culturas e de outro integrar os índios ao Brasil. Integrá-los nas escolas, nas universidades, nas Forças Armadas e nas empresas. Será um processo longo, mas profícuo. Quanto ao massacre de Rondônia, a única coisa razoável a ser feita é colocar os assassinos atrás das grades. O mais rapidamente possível.

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sábado, 11 de agosto de 2007

O "non-refoulement" e a liberdade individual, segundo o embaixador Celso Lafer (11/08)

Leiam a entrevista que o ex-chanceler Celso Lafer deu hoje a O Estado de S.Paulo sobre os dois boxeadores cubanos devolvidos pela vontade expressa deles a Cuba depois de abandonarem a delegação do seu país nos Jogos Pan-Americanos do Rio. Afirma o ex-chanceler dos governos Collor e FHC:

O que parece ter ocorrido, segundo algumas autoridades, é que os dois se arrependeram do gesto (deixar Cuba), possivelmente porque foram informados de que suas famílias, em Cuba, iriam sofrer as conseqüências de sua fuga. Por isso pediram para voltar, e o mais rápido possível, mesmo sabendo que sofreriam punição. Isso não torna a questão um pouco mais delicada? Se foi isso que ocorreu - e essa é uma versão verossímil - caberia ao Brasil fazer gestões diplomáticas e certificar-se de que o retorno dos dois a Cuba se faria em condições de total respeito à segurança e à dignidade deles e de suas famílias. O governo brasileiro, ao que se sabe, tem toda condição para pedir isso. O presidente da República e outras pessoas próximas dele são bons amigos de Castro. Teriam mantido a tradição de generosidade do Brasil se condicionassem o repatriamento a tais garantias.

Vamos por partes. O embaixador Lafer discorre na entrevista sobre "o que parece ter ocorrido, segundo algumas autoridades". Imaginem se eu, um modesto jornalista, passasse a pontificar aqui, no meu também modesto blog, sobre "o que parece ter ocorrido", segundo "autoridades" não nomeadas. Mas um ex-chanceler brasileiro, entrevistado por um importante jornal brasileiro, dá-se ao luxo de analisar o que "parece" ter acontecido. E, a partir do "parece", passa a criticar o governo pelo que "parece" que aconteceu. Pensando bem, eu compreendo o embaixador Lafer. Ele prefere falar sobre o que "parece" ter acontecido (quem falou em ameaças às famílias dos lutadores foi o agenciador alemão que tentou comprar os passes deles), talvez por vislumbrar quão difícil seria justificar certas posições à luz do que de fato aconteceu. De todo modo, é um sintoma dos tempos. Tem uma turma lá no Itamaraty que vive de tocaia, esperando a primeira oportunidade para descascar a política externa do país. É um grupinho de embaixadores de pijama que sobrevive politicamente falando mal do Brasil para quem precisa que se fale mal do Brasil. Só o medo do ridículo os contém. E nem sempre. No mais recente episódio em que botaram a cabeça para fora, para denunciar um suposto antiamericanismo da nossa política externa, tiveram o desgosto de assistir, dias depois, à apoteótica visita de George W. Bush, quando o etanol foi entronizado como cimento indestrutível da aliança entre Brasília e Washington -etanol que, aliás, aproxima os pois países de um modo que não se via desde Eurico Gaspar Dutra. Depois dessa gafe, a turma do pijama submergiu. É compreensível. Eles voltam agora. Já se sabe que os dois boxeadores quiseram de fato retornar para Cuba e reiteraram isso para as autoridades brasileiras que tiveram acesso a eles (assunto liquidado desde o depoimento de um procurador da República em reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, na sexta-feira). Então a rapaziada precisa encontrar outro caminho lógico. Sim, os boxeadores queriam voltar ao seu país, mas, segundo Lafer,

(...) existe um princípio importante, que na diplomacia chamamos de “non-refoulement” - o cuidado de não repatriar pessoas para países de governos autoritários. Ele foi ignorado no episódio. Entregar essas pessoas de volta a governos que desafiaram é um ato de desrespeito aos princípios democráticos.

Vamos traduzir. Segundo Lafer, dois cidadãos de Cuba que estavam no Brasil queriam voltar para Cuba mas o Brasil deveria tê-los retido aqui por causa do tal "non-refoulement". De vez em quando eu tenho que fazer força para me conter. Como por exemplo nas situações em que alguém usa palavras em francês, ou em inglês, para conferir autoridade a um pensamento primário e tosco -para não dizer coisa pior. Mas o "non-refoulement" de Lafer é, de todo modo, um bom caminho para expor o cerne do pensamento dele. Vejam só. Segundo o ex-chanceler, se o cidadão de um país de cujo sistema político Lafer discorda estiver no Brasil e quiser votar para casa sua saída não mais deverá ser automática. Ela deverá estar condicionada à aprovação das autoridades brasileiras. Assim, em nome de uma suposta defesa das liberdades individuais, Celso Lafer pede que as autoridades brasileiras limitem a liberdade individual de cidadãos estrangeiros no Brasil. Em determinadas situações, segundo Lafer, os forasteiros deveriam ser impedidos de ir para casa, mesmo que: 1) queiram ir para casa e 2) não tenham cometido nenhum delito em nosso território. E quais seriam essas situações? Uma delas, certamente, pode ser vista no caso dos cubanos. Eles não queriam ficar aqui, manifestaram isso reiteradamente às autoridades brasileiras que os entrevistaram, mas sua permanência no Brasil poderia ser útil para instalar entre nós um ambiente de provocação política, um circo político contra o governo de Cuba -país com o qual o Brasil tem relações amistosas e com o qual não mantemos qualquer pendência. Em miúdos, queriam reter arbitrariamente no Brasil, contra a vontade deles, dois campeões mundiais cubanos de boxe, só para arrumar confusão com Cuba. Eu não sei que dificuldades Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux estão enfrentando após a volta. Mas, olhando o que os esperava no Brasil, se tivessem aqui permanecido para contracenar no picadeiro montado para ambos, acho que os dois campeões cubanos, orgulho da juventude de seu país, foram mesmo bem espertos quando decidiram cair fora e voltar logo para a sua ilha calorenta no Caribe. Pelo menos eles escaparam da turma do "non-refoulement". O que, convenhamos, não é pouca coisa.

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sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Começa mal a dupla Jobim-Gaudenzi (10/07)

Depois de o novo ministro da Defesa, Nelson Jobim, ter voltado atrás e admitido que os jatinhos dos endinheirados usem o aeroporto de Congonhas, o presidente entrante da Infraero, Sérgio Gaudenzi, adere à proposta de reduzir o tamanho da pista, para construir áreas de escape. Ou seja, Gaudenzi defende que Congonhas continue a funcionar, mas como um aeroportozinho assim meia-boca, para vôos regionais e aviõezinhos da turma que tem dinheiro e influência suficiente para não precisar se deslocar até Cumbica. É uma pena. Aquele investimento todo, aquela beleza toda, aquele monte de dinheiro enfiado em Congonhas para acabar assim, atendendo aos desejos de meia dúzia. Ainda que, como sabemos, essa meia dúzia não seja uma meia dúzia qualquer. Ou seja, para a dupla Jobim-Gaudenzi o que atrapalha Congonhas é o excesso de povo. Leia também Falta de realismo.

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quinta-feira, 9 de agosto de 2007

A nossa Polícia Federal, segundo os cubanos Lara e Rigondeaux (09/08)

Vale a pena ler as entrevistas que os boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara deram à jornalista Julia Osendi, do Granma, imprensa oficial cubana. Atenção: você não precisa acreditar no que diz qualquer veículo de comunicação, mas é inteligente utilizar todas as fontes de informação possíveis. É revelador o que dizem os cubanos sobre como a Polícia Federal brasileira comportou-se em relação a eles. Vai em espanhol mesmo:

Julia Osendi.- Erislandy, dime, después, cuándo ustedes llaman a la Policía Federal, ¿qué pasa con la policía? Cuando ellos vienen, ¿qué fue lo que te dijeron? ¿Cómo ustedes mantuvieron la decisión de virar?

Erislandy Lara.- Cuando nosotros llamamos a la Policía Federal, que nos van a recoger, ellos nos hacían hincapié en que si nosotros queríamos regresar a Cuba, que si estábamos seguros de regresar a Cuba, y nosotros les decíamos que sí, que queríamos regresar a Cuba. La Policía Federal nos decía que nos quedáramos en Brasil, que en Brasil íbamos a tener mucho más dinero que en Cuba, que íbamos a ser una personalidad en Brasil y que nos iban a hacer los pasaportes para que ya fuéramos oficialmente brasileños.

Julia Osendi.- ¿Y qué respondieron ustedes?

Erislandy Lara.
- Que no, que queríamos virar para Cuba, así cueste lo que cueste, que íbamos a virar para Cuba.

(...)

Julia Osendi.- Rigondeaux, cuando los alemanes se disgustan, que ellos ven que no hay posibilidades de comprarlos a ustedes, que se quedan allá solos en la playa, ¿qué fue lo que pasó, cómo ustedes logran acceder al pescador, cómo el pescador llama a la policía, qué les decía la policía?

Guillermo Rigondeaux.- Bueno, ellos se fueron como dos días antes y nos dejaron con los brasileños. Ellos fueron a almorzar y nosotros salimos y les preguntamos a los pescadores si sabían algún número de la Policía Federal, ellos llamaron al 190, y en 20 minutos ya los policías estaban ahí, y se quedaron los dos brasileños con nosotros. Ya, todo el mundo fue para la Policía Federal y ya allí todos los delegados, todo el mundo nos decía: "Miren, quédense aquí, no vayan para Cuba, que allá en Cuba los está esperando una gran sanción." Y nosotros: "No, nosotros queremos voltar para Cuba". "Oye, ¿seguro, ustedes están seguros de eso?" "No, nosotros sí estamos seguros". Y ya, todo el mundo nos hacía la misma pregunta.


Julia Osendi.- ¿Voltar, regresar?
Guillermo Rigondeaux.- Sí, regresar.

Bem, vamos analisar esses trechos das entrevistas dos boxeadores ao jornal oficial Granma. Eles dizem que a Polícia Federal brasileira tentou convencê-los com todos os argumentos a permanecerem no Brasil, como refugiados. É a mesma versão apresentada pelo delegado da PF que cuidou do caso, Felício Laterça. Mas vamos supor que ambos, cubanos e delegado, estejam contando a história ao contrário, que na verdade a PF tratou mesmo foi de forçá-los a voltar ao seu país contra a vontade deles. Bem, então a versão de que o asilo lhes foi oferecido precisaria ter sido combinada entre Rigondeaux, Lara e o delegado Laterça. Ou seja, precisaria ter havido um trato entre os deportados e os seus algozes para livrar a cara da PF brasileira. Algo mais ou menos assim: vocês querem ficar no Brasil, como seu colega do handebol, mas nós vamos mandar vocês de volta para Cuba e, em troca, vocês vão dizer em Cuba que nós insistimos para que vocês ficassem no Brasil como exilados. Parece inverossímil. Afinal, não há elementos que embasem qualquer suspeita de que o delegado Felício Laterça tenha forçado os cubanos a fazerem algo contra a vontade deles. E o delegado está contando a mesma história desde o primeiro dia. E ela bate com o que os boxeadores estão dizendo em Cuba. Sempre haverá, porém, quem julgue estarmos diante de uma grande armação. Na qual o governo brasileiro, o governo cubano, um delegado da PF de Niterói e dois lutadores de boxe de Cuba acertaram-se para difundir uma versão fantasiosa. Ainda que uns sejam os algozes e os outros, as suas vítimas. A pessoa pode até acreditar nisso. Mas, para ser levada a sério, é imprescindível que traga elementos, fatos, depoimentos. Qualquer coisa que vá além do "eu acho".

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