A crise em torno do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), reacendeu o debate sobre os suplentes de senador, que assumem quando os titulares deixam o cargo, morrem ou pedem licença.
Leia reportagem a respeito no Jornal Nacional, da TV Globo. Leia também, para uma memória,
Suplente: do papel de coadjuvante para o de protagonista, do Globo Online. Pela lei em vigor o suplente de senador é eleito junto com o titular. É uma espécie de vice-senador. Como o vice-presidente, o vice-governador ou o vice-prefeito. Por uma questão de lógica, quem é contra a existência do vice-senador deve também ser contra o vice para os cargos do Executivo. Pois se o argumento "não teve voto, não tem legitimidade" vale para o Senado ele vale também para os demais casos. Eu vou logo adiantando que sou a favor do cargo de vice. Por pragmatismo. O vice tem sido muito útil ao Brasil. Fico imaginando o que teria acontecido naquelas horas dramáticas em que
Tancredo Neves era levado à mesa de cirurgia em 1985 se não estivesse ali, na linha de sucessão, a figura do vice José Sarney. Ou o que teria se passado no
impeachment do presidente Fernando Collor caso ele não tivesse um vice (
Itamar Franco). Ia ser uma confusão e tanto. Lembro também de outra ocasião, quando o então presidente
João Figueiredo teve que se submeter às pressas a uma cirurgia cardíaca e assumiu o vice, Aureliano Chaves.
O Figueiredo ficou incomodado com a desenvoltura do vice no cargo, mas o fato é que o Aureliano mostrou ao país que um civil poderia muito bem ser presidente, que nada aconteceria. Aliás, a má vontade do Figueiredo com o Aureliano acabou dando em Paulo Maluf como candidato do PDS. E na perda do poder.
Outro vice de sucesso foi Geraldo Alckmin, que chegou ao Palácio dos Bandeirantes com a morte de Mario Covas e depois se reelegeu brilhantemente. A mesma coisa aconteceu em Belo Horizonte, com
Fernando Pimentel, que virou prefeito depois da doença de
Célio de Castro. Mas reconheço que os defensores da abolição do vice também têm suas referências históricas, seus ícones. Quando
Jânio Quadros renunciou houve uma turma da pesada que tentou de todo jeito impedir a posse do vice,
João Goulart. E olha que o Jango não era um vice sem voto, pois na época o eleitor votava separado, no presidente e no vice. Tanto que o vice do derrotado
Marechal Henrique Teixeira Lott (Goulart) elegeu-se nas mesmas urnas que deram a Jânio a vitória sobre Lott. Um caso de vice sem voto que teve sua posse impedida foi
Pedro Aleixo. Ele era vice do presidente militar
Artur da Costa e Silva e tinha cometido o erro de ficar contra o
Ato Institucional nº 5. Quando, alguns meses depois do AI-5, Costa e Silva caiu doente, a cúpula militar impediu a posse do sem-voto Pedro Aleixo e nomeou uma junta composta pelos comandantes das três forças. A
Junta Militar, ao contrário de Aleixo, mostrou-se na ocasião boa de voto no colégio eleitoral que interessava. Pena que tenham passado à História do Brasil como "Os três patetas". Já Aleixo escapou de virar um
Bordaberry e sua biografia certamente traz orgulho a seus descendentes. Como se sabe, Deus acaba escrevendo certo por linhas tortas. Eu sou a favor do vice. A História do Brasil mostra que na ampla maioria das vezes o vice não é problema, é solução. Pensando bem, num país como o nosso, em que o golpismo é o esporte preferido dos sem-voto, a existência do vice serve como fator de dissuasão.
- Querem me derrubar, seus canalhas? Pois de nada vai adiantar, já que o poder passará às mãos do meu vice, e não às de vocês.
Fui claro? E um outro detalhe. Incomoda-me que as reportagens críticas sobre os suplentes do Senado esqueçam sistematicamente de um detalhe: o
senador José Nery (PSOL-PA), competente e elegante aríete da representação do seu partido contra o enrolado Renan Calheiros, também é suplente. Entrou na vaga da hoje governadora paraense Ana Júlia (PT). Mas Nery nunca é incluído nessas reportagens que fazem gozação com os suplentes no Senado. É possível, claro, que isso aconteça por simples esquecimento.
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