quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

A Terceira Via, consolidada (31/01)

Você ouvirá à exaustão que os blocos formados para a escolha da Mesa da Câmara dos Deputados só servem para isso: para dividir os cargos na Mesa da Câmara dos Deputados. É olhar a árvore e não ver a floresta. Política é mesmo um terreno cheio de armadilhas e surpresas. A Terceira Via veio ao mundo pelas mãos do PSDB, mas só saiu da incubadeira graças ao PSB, PDT e PCdoB. A aliança PT-PMDB aglutina, somados os satélites, no máximo uns 270 deputados federais. Basta uma dissidência de 20% (uma taxa moderada) para o governo ficar em sérias dificuldades na Câmara. Sem os cerca de setenta votos do bloco socialista-trabalhista-comunista o governo perde a maioria. E aí o bloco vai pensar: mas se o PMDB tem cinco ministérios para oitenta deputados, por que o nosso bloco não pode ter quatro ministérios? Serviço para Luiz Inácio Lula da Silva e os seus articuladores políticos.

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Acasalamento (31/01)

A ministra Dilma Rousseff fala grosso e diz que não vai dividir com os Estados o maná da CPMF. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixa vazar o contrário, diz que pode negociar com os governadores. É a corte do acasalamento. Rugidos e afagos. Do jeito que estão as coisas no Congresso, sem conversar e ceder o governo não aprova ali nem sessão solene. Se quiser a CPMF e a DRU pelo menos até o final do mandato, Lula vai ter que afrouxar para os governadores (e se bobear para os prefeitos, com o aumento do Fundo de Participação dos Municípios). Esse é outro motivo pelo qual as conversas sobre expurgos na base governista pós-eleição da Câmara devem ser lançadas na rubrica das conversas (descon)fiadas.

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Amigos, amigos; negócios à parte (31/01)

Toda véspera de eleição parece a antevéspera do fim do mundo. As previsões são mais apocalípticas do que as dos estudiosos do aquecimento global. Mas os especialistas em Congresso Nacional advertem: depois da tempestade vem a bonança. Vem aí o esfriamento global dos ânimos na base do governo. O PT sabe que Luiz Inácio Lula da Silva não pode abrir mão de aliados. Mas que em caso de vitória de Arlindo Chinaglia o petismo vai querer dar um calor do PCdoB, isso vai. O sintoma pode ser detectado nas conversas de bastidores na Câmara dos Deputados. O que se espalha ali é que Lula já teria decidido "diminuir o espaço" do PCdoB. Suspeito que o próprio PCdoB, que não nasceu ontem, já tenha percebido isso. E esteja, naturalmente, se precavendo. Afinal, o PCdoB já entendeu que com o PT é: amigos, amigos; negócios à parte. Aliás, quer sentir o clima entre os dois partidos? Veja este trecho de editorial chamado na home page do vermelho.org.br (site do PCdoB):

Os partidos políticos, como as pessoas, aprendem, ou ao menos são capazes de aprender. O PT, fundado em 1980, levou oito anos e quatro eleições para estrear as suas primeiras coligações eleitorais, em 1988. Dezoito anos mais tarde, já teve tempo e experiências suficientes para concluir: hegemonia se constrói na disputa de idéias e no amálgama de consensos; não se impõe por deliberação da bancada de uma sigla, por numerosa e bem votada que seja a bancada, e por estelar que seja a sigla.

Precisa dizer mais?

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Xenofobia (31/01)

Deu na Folha de S.Paulo de hoje:

MÍDIA: JORNAL "DESTAK" DIZ CUMPRIR LEGISLAÇÃO
Investigado pelo Ministério Público de SP por suposto controle estrangeiro, situação vetada no Brasil, o jornal informou ao órgão que a presença majoritária de portugueses no conselho de administração não fere a Constituição. Disse que o dono majoritário é naturalizado há mais de 50 anos, o que é previsto em lei, e que a gestão empresarial cabe a dois brasileiros natos.

O Destak é um jornal distribuído gratuitamente, o que certamente incomoda alguns (não os que o lêem, claro). Prestem atenção na nota acima e vejam o absurdo. O dono de jornal está sendo investigado só por ter nascido no exterior, ainda que esteja naturalizado há meio século. A solução para esse problema é simples. O Congresso Nacional precisa votar urgentemente uma mudança legal que iguale os direitos dos brasileiros natos e naturalizados. E deveria também permitir a abertura de 100% do capital das empresas de comunicação a estrangeiros. É o tipo de abertura que vai beneficiar o trabalhador. Ninguém vai trazer gente de lá de fora para trabalhar em jornais brasileiros, porque lá fora não se fala português. Mas trazer investidor estrangeiro é positivo, porque acirraria a concorrência entre os empresários do setor. O que seria bom para os trabalhadores e a democracia.

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terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Agenda de inaugurações (30/01)

Os governadores querem mais recursos para os Estados e vão aproveitar a tramitação do Programa de Aceleração da Economia (PAC) para tentar morder uma fatia da Contribuição "Provisória" sobre Movimentação Financeira (CPMF). Querem também estender aos estados a Desvinculação das Receitas da União (DRU), que permite ao governante desengessar parte dos recursos vinculados legalmente a certas despesas. Eu acho que a posição dos governadores é razoável. É boa para o equilíbrio federativo. Não faz sentido, politicamente falando, que só o governo federal tenha capacidade de investimento, com seu orçamento próprio e o das estatais. Quer dizer que o governador que não rezar pela cartilha de Luiz Inácio Lula da Silva vai ficar à míngua? Vai ficar assistindo aos adversários no estado amolarem a faca para degolá-lo na próxima eleição, enquanto o governo federal distribui benefícios e inaugura obras no quintal do governador? Se fosse eu, lutaria. Se querem assar os leitões, que lhes dêem o direito de berrar antes de entrar na faca. Vejam a diferença entre duas situações. Em 2003, Lula procurou os governadores para dividir com eles os ônus da reforma previdenciária. Agora, não os procurou para dividir os bônus dos investimentos federais do PAC. Ou melhor, procurou só os governadores aliados, que receberam de presente um pacote de obras federais nos seus estados. Os estados não precisam da magnanimidade de Brasília. Precisam de recursos para exercerem de fato a soberania política estabelecida na Constituição. Estava na cara que essa discussão sobre o PAC iria acabar mesmo num debate sobre o compartilhamento da CPMF e da DRU. Vamos esperar pelos desdobramentos. Eu aposto que num primeiro momento o governo vai tentar passar o rolo compressor. Vai montar o novo ministério para ter votos suficientes na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, votos para aprovar as emendas constitucionais da CPMF e da DRU. Uma vez aprovadas, Lula poderá esquecer do Congresso Nacional, poderá tocar as suas obras em paz e pensar em 2010. Aliás, o governo federal não tem uma agenda de reformas para este mandato. Tem uma agenda de inaugurações. Que não quer dividir com ninguém, pelo menos não com adversários potenciais de 2010. Acho que, pouco a pouco, os governadores estão acordando para essa realidade. Uns mais rápido, outros mais devagar. Mas todos estão acordando. Bom dia!

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segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

O elogio de Aldo ao PT e a homenagem do PT ao PSB e ao PCdoB (29/01)

Assisti pela tevê ao debate entre os candidatos à presidência da Câmara dos Deputados (foto). Uma coisa boa é que doravante será difícil deixar de haver debate quando houver eleição para presidente da Câmara dos Deputados. A democracia é assim: os hábitos democráticos surgem como do nada e acabam se arraigando. O debate foi duro, como convém a contendas entre adversários. Foi curioso ver aliados de ontem se engalfinhando e adversários de ontem de mãos dadas. É a política. O PT parece ter se magoado com a fala final do presidente da Câmara, que advertiu contra uma possível concentração de poder nas mãos do PT. Eu não veria essa afirmação de Aldo Rebelo (PCdoB-SP) como uma crítica. Do ângulo da ciência política, chega a ser um elogio. Partidos existem para lutar pelo poder. Quanto mais, melhor. Por isso é que o pluralismo partidário é insubstituível na democracia: o apetite de um partido é controlado pelo apetite dos demais. Eu não conheço mecanismo mais eficaz para defender a liberdade. Você conhece? Eu proponho que esse debate seja feito objetivamente. Por exemplo, se o sujeito acha que só o PT é quem pode fazer as reformas necessárias para levar o Brasil a crescer e distribuir renda, é compreensível que essa pessoa lute para o PT ocupar cada vez mais espaços, ainda que à custa de posições hoje ocupadas por aliados. Se o indivíduo está convencido de que o PT é a única corrente política genuinamente comprometida com a luta dos trabalhadores e com as aspirações dos pobres por justiça social, tem mais é que ajudar a remover todo e qualquer obstáculo ao poder do PT. Aliás, não há novidade nesse enredo. O PT age agora em relação ao PCdoB e ao PSB como sempre agiu em relação a aliados com projetos próprios de poder. O PT foi implacável com o PMDB até subjugá-lo. Deu certo. Hoje, as facções peemedebistas rivalizam nas mesuras dirigidas ao PT. Até o PSDB já dá sinais de ceder diante do mix de dureza e ternura dos petistas. Pensando bem, ao desencadear a operação Delenda Aldo, o PT-governo presta uma homenagem à aliança PSB-PCdoB. Reconhece a ambos não como aliados menores, mas como concorrentes. Não existe reverência maior na política. É preciso saber, porém, se socialistas e comunistas estarão à altura da honraria.

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domingo, 28 de janeiro de 2007

Informações venezuelanas no Estadão (28/01)

Bela reportagem de Paulo Moreira Leite n'O Estado de S.Paulo deste domingo, sobre a Venezuela. Não tinha visto antes tanta informação junta sobre o país de Hugo Chávez. Esqueçam do viés [o repórter e o jornal têm o direito de, respectivamente, usar o viés que bem entenderem; não é assunto meu], concentrem-se nas informações. Vejam como o "chavismo" nasce do parasitismo empresarial e da insensibilidade de uma elite que concentrou para si durante longo tempo os resultados da indústria petrolífera. E saibam por que a maioria da população, especialmente a mais pobre, apóia Chávez.

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Democracia, mas não no meu quintal (28/01)

O presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), notou hoje, em entrevista a O Estado de S.Paulo, que:

Não adianta mais eu me reunir com Fernando Henrique, Serra, Aécio, e tomarmos uma decisão, porque agora os temas perpassam as várias outras forças, que terão de ser ouvidas. Esse episódio foi o último suspiro de um partido que tomava decisões a partir de poucas pessoas.

O presidente falava sobre como o PSDB enfiou os pés pelas mãos na sucessão da Câmara dos Deputados [Uma aliança em que ninguém perde nada. Só perdem o discurso ou O jabuti alado do PSDB ou A placa para Fruet, o marujo à procura de sobreviventes e uma eleição indefinida ou Um anúncio fúnebre e a "peemedebização"]. Na entrevista, Tasso defende prévias para escolher o candidato do partido a presidente em 2010:

Eu estou preparando um projeto para entregar ao partido, mudando o processo de escolha do nosso candidato a presidente. Ainda não tenho ele todo desenhado...(...) Em linhas gerais, uma prévia, uma escolha com participação muito mais ampla. (...) O formato ainda não está desenhado e também não sabemos qual será a escolha do partido. Eu, pessoalmente, acho que deveríamos adotar o sistema das eleições primárias americanas, mas quem vai decidir o formato final é o partido. O que é certo é que acabou o sistema de três ou quatro pessoas escolherem o candidato.

Saudações à glasnost tucana. Mas ela não será tão radical assim:

Os governadores devem continuar sendo escolhidos pelas convenções estaduais. Não faz sentido que o novo processo se estenda a governadores e prefeitos.

Alguém poderia explicar por que "não faz sentido que o novo processo se estenda a governadores e prefeitos"? Infelizmente, o repórter não perguntou. Eu estou curioso. Por que o senador acha bom ampliar a democracia partidária nacionalmente e acha ruim fazer a mesma coisa local ou regionalmente?

Escrevi sobre isso em Uma providência prática é democratizar os partidos; se preciso, à força, de julho passado. Comentava uma entrevista do ex-ministro da Justiça (governo Collor) Célio Borja, um liberal de carteirinha, ao mesmo Estadão. O que eu penso está ali:

(...) a liberdade absoluta aos partidos não é garantia de democracia para os cidadãos, mais parece um caminho para a partidocracia, que é o que temos hoje. Vivemos no pior dos mundos. Os partidos recebem dinheiro público, diretamente e por meio do horário gratuito em rádio e TV, mas não têm obrigação de serem democráticos. O presidente do partido pode intervir quando quiser em qualquer diretório e as legendas podem disputar as eleições mesmo que tenham apenas comissões provisórias. (...) Deveria haver leis que obrigassem os partidos à democracia interna. Seus dirigentes deveriam ser eleitos diretamente pelos filiados, em eleições internas organizadas pela Justiça Eleitoral. Onde houvesse apenas comissão provisória, o partido deveria ser proibido de concorrer. Deveriam ser vetadas por lei a intervenção e a dissolução de diretórios.

Senador Tasso Jereissati, sua proposta só ficará de pé (e só será útil ao país) se for estendida a todos os níveis.

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sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

A boa notícia que traz o ministro Tarso Genro (26/01)

Em viagem, passei batido ontem pela melhor notícia do dia. O ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, disse que o governo não dará prioridade à reforma política. Ótimo. A reforma política que está engatilhada na Câmara dos Deputados seria para pior. Escrevi sobre o assunto em A bala do STF decepou uma pata do monstro quadrúpede, quando o Supremo Tribunal Federal liquidou a cláusula de desempenho (barreira). Nada a acrescentar.

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Patriotismo (26/01)

Depois que vítimas de tortura no regime militar recorreram à Justiça para carimbar como torturadores os seus algozes, agora são ex-militares que pensam em ir aos tribunais para rotular como terroristas os seus então adversários. Estão, ambos os lados, em seu legítimo direito. Mas este post não é sobre direitos individuais, sagrados. É sobre patriotismo. Eu encaro o período da luta armada contra a ditadura como uma época de guerra. No plano estritamente militar, a direita ganhou. No político, não foi bem assim que a coisa aconteceu. Sobre esse assunto, meu pensamento chega a ser simplório. A guerra acabou. O Brasil está em paz. Esquerda e direita disputam democraticamente as eleições, e quem ganha governa. Há muitas coisas de que desgosto no Brasil. Mas eu reconheço no meu país as saudáveis marcas -espero que irremovíveis- da luta democrática da minha geração (leiam Medo e Liberdade, na revista Teoria e Debate de setembro de 1997). Para o meu gosto, está bom assim. Que os historiadores se debrucem sobre aquele período e façam cada um o seu julgamento. Até para o conhecimento das futuras gerações. Repito: todos que desejam resgatar alguma dívida do passado estão em seu sagrado direito. Mas espero, sinceramente, que consigamos superar esta fase e deixar para os nossos filhos um país completamente pacificado.

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quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

O xis do problema (25/01)

Presto muita atenção sempre que alguém estufa o peito para lembrar como a "instabilidade do marco regulatório" e a "falta de respeito aos contratos" impedem que o Brasil cresça mais aceleradamente. Minha sugestão para resolver esse problema é fazer como os japoneses: copiar o que dá certo lá fora. A Rússia, por exemplo, cresce o dobro da taxa brasileira. A Venezuela e a China crescem o triplo. Sugiro então enviar delegações a esses três "market oriented" países para copiar as coisas boas do seu ordenamento jurídico-político. Eu estou convencido. Ou criamos aqui um ambiente institucional amigável e acolhedor para o investimento privado -como já fazem russos, venezuelanos e chineses- ou vamos ficar para trás. Agora que escrevi isso, lembrei de um detalhe. Não precisamos ir tão longe. Nossos vizinhos argentinos estão crescendo duas vezes e meia mais rapidamente do que nós. Talvez porque eles tenham atingido o estado da arte no rigoroso respeito aos contratos. Eu sugiro fazer uma permuta com a Argentina: nós os ensinamos a jogar bola e eles nos explicam os segredos da sua estabilidade institucional. Mas esses estudos todos podem levar algum tempo, e vocês sabem que o Brasil tem pressa. Eu, como sou imediatista e quero sempre o máximo, andei procurando uma solução radical e rapidamente aplicável. Aí, por acaso, assisti a duas belas reportagens da correspondente da TV Globo em Pequim, Sônia Bridi. No último sábado, ela mostrou no Jornal Nacional um dos segredos da explosão econômica no Vietnã: o salário típico dos operários na indústria de ponta é U$ 100, cerca de R$ 210. Hoje, diretamente de Davos, ela explicou no Bom Dia Brasil que:

Não é preciso perguntar aos trabalhadores das fábricas chinesas ou aos jovens indianos que desenham programas de computador se eles estão ganhando com a globalização. Os salários deles são baixos. Muito baixos. Mas esses empregos criados estão tirando milhões da pobreza. Todos os anos. Principalmente na Ásia. No Fórum Econômico, a pergunta é também desnecessária. As grandes corporações multiplicam seus lucros e seus diretores nunca ganharam tanto. Em 20 anos, o salário de um executivo cresceu de 40 para 110 vezes o de um trabalhador comum nos Estados Unidos. Aí está a percepção de que há perdedores. Nos Estados Unidos, no Brasil, na Europa, empregos são exportados para países que fazem mais barato o mesmo trabalho. O diretor de agenda global do Fórum diz que a globalização já não é mais uma questão de norte a sul. É mais um problema de quem tem renda média. Os pobres estão se beneficiando, os ricos também. Mas os de renda média estão sob muito estresse. Como aliviar este estresse para países e indivíduos? Como equacionar os desequilíbrios criados pela globalização?

É por isso que eu gosto de jornalismo na televisão. Não dá para ficar enrolando, tem que ir direto ao ponto. Eis o problema. Estamos crescendo menos porque outras regiões do mundo, especialmente a Ásia, oferecem um sistema de preços relativos mais apetitoso. Salários mais baixos e portanto mais lucros para quem investe. Vejam que eu (copiando a Sônia) estou falando de salários em dólar. Operários vietnamitas, chineses e indianos ganham pouco em dólar, o que confere alta competitividade e atratividade a suas economias. Em outras palavras, a pobreza relativa dos trabalhadores desses países em relação a nós faz com que eles atraiam mais investimento e cresçam mais. Como a demanda por mão de obra é alta, a idéia é que o processo conduza a um aumento progressivo da massa salarial. E como eles têm exércitos de reserva do fator trabalho (são países de largas populações rurais), podem fazer isso com alguma folga, sem pressionar muito a inflação. A pergunta é a seguinte. Estaríamos os brasileiros dispostos a ficar mais pobres em dólar (ou euro) no curto prazo para termos mais progresso no médio e no longo prazo? Esse é o xis da questão.

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A diferença e o ultra (25/01)

Depois de anos de observação e esforço intelectual para superar minhas limitações e tentar entender alguma coisa de economia, acho que finalmente compreendi a diferença entre o monetarismo e o desenvolvimentismo. Entre a ortodoxia e a heterodoxia. Sabem qual é a diferença? É de 0,25 ponto percentual (pp). Ser ortodoxo e monetarista no Brasil de hoje é defender que o Banco Central reduza a taxa básica de juros em 0,25 pp a cada reunião. Já os heterodoxos e desenvolvimentistas acreditam que a única atitude aceitável do Comitê de Política Monetária (Copom) em suas reuniões seria cortar em dobro: 0,50 pp. Portanto, a diferença entre as duas concepções pode ser quantificada:

[0,50 - 0,25 = 0,25]

Fiquem à vontade para usar essa preciosidade conceitual. Será chamada doravante de Equação Fundamental do Blog do Alon. Peço apenas que citem a fonte. Perdoem minha vaidade, mas confesso que sinto uma satisfação íntima por ter, de algum modo, contribuído para esse passo decisivo da teoria econômica brasileira. Não sei se vai ser suficiente para merecer um Nobel de Economia, mas quem sabe? No Fla-Flu em que se transformou o debate nacional em torno das decisões do Copom, eu serei lembrado para sempre como o teórico que conseguiu medir, com precisão, a polêmica entre duas correntes históricas do pensamento econômico. O valor a que cheguei entrará para a galeria dos números especiais, vai ombrear com o π (pi) e os seus colegas. Invejem-me. Mas as minhas pesquisas não terminam aqui. Pretendo prosseguir no estudo de um conceito ainda pouco conhecido: o ultra. Pretendo estudar, por exemplo, a função "ultra" da heterodoxia. Chamarei de u(h). Por definição, u(cut, fiesp) seria, por exemplo, a redução da taxa básica de juros que certamente (100% de probabilidade) receberia aplausos da Central Unica dos Trabalhadores (CUT) e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Meu único temor é que o número não seja verificável experimentalmente. Algo como o zero absoluto na escala de temperatura. Nunca ninguém viu. Teoricamente, jamais verá. Mas isso não significa que não exista. Não vou esmorecer. Nem que tenha que chegar a ele por extrapolação.

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quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

O Versailles sérvio e a balcanização do Iraque (24/01)

George W. Bush caminha rumo ao fim do mandato como uma geni, alvo preferido das pedradas em quase todo o mundo. Enquanto isso, seu antecessor, William J. Clinton, saboreia sua aposentadoria política como um ex-presidente querido dos americanos e respeitado globalmente -também pelo efeito do contraste com o sucessor. O período Bush (pai e filho) ficará marcado pelas guerras do Golfo e do Iraque, e talvez pela fragmentação iraquiana -o cenário mais provável caso fracassem as tentativas de convencer a minoria sunita a permanecer integrada num país governado por uma aliança entre xiitas e curdos. Se o Iraque deixar de existir como unidade política, se o futuro dos iraquianos for a balcanização, essa fatura será apresentada pela História à família Bush. E quem vai pagar a conta pela balcanização dos Bálcãs? Quem vai ser responsabilizado pelo Versailles sérvio, pela humilhação imposta por europeus e americanos à Sérvia? Leiam a análise de Pyotr Iskanderov, da agência russa RIA Novosti, sobre as últimas eleições naquele país (Lessons of parliamentary elections in Serbia). Um partido ultranacionalista venceu a eleição, mas não conquistou a maioria absoluta do parlamento sérvio. O governo será formado pelos perdedores, um amálgama de partidos pró-ocidentais, enfraquecidos por personificarem aos olhos do povo sérvio a submissão ao diktat europeu e americano. O mundo está de olho no Iraque. Enquanto isso, a História vai armando uma bomba-relógio bem no meio da Europa. A coalizão pró-ocidental tem maioria para formar o governo, mas aparentemente não para aprovar a secessão de Kosovo. Que belo caldo de cultura. Um país humilhado, fragmentado e isolado. Uma oposição ultranacionalista. Um governo fraco. Uma província (Kosovo) de maioria muçulmana (o país é majoritariamente cristão) deseja separar-se. Boa coisa isso não vai dar. Pobre Sérvia. Pêsames, Europa. Pêsames, presidente Clinton.

Leia também A morte de Milosevic e o duplipensar ocidental, de março de 2006.

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Um belo ritual (24/01)

Acabo de assistir ao pronunciamento anual do presidente dos Estados Unidos sobre o estado da União (nação). É admirável o grau de civilidade que os americanos atingiram na relação entre os poderes. George W. Bush é o presidente mais impopular desde Richard Nixon. Dois em cada três americanos querem os Estados Unidos fora do Iraque. Os democratas acabam de tomar dos republicanos de Bush a maioria na Câmara de Representantes (deputados) e no Senado. Mas o ritual do discurso sobre o estado da nação foi cumprido à risca. Com solenidade. Uma solenidade que traduz não o respeito dos políticos uns pelos outros, mas o respeito dos políticos pelos eleitores. Lembrei o tantinho assim de parlamentares que se deram ao trabalho de comparecer à posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no começo deste mês. Lembrei também que segunda-feira Lula enfiou não sei por que o debate sobre a democracia no meio da discussão sobre o crescimento econômico. Seremos um país melhor no dia em que a democracia não mais pertencer à categoria dos pontos em discussão, no dia em que já estiver incorporada aos rituais que se cumprem automaticamente. E, já que estamos falando da democracia americana, qual foi a última vez em que algum grande veículo da imprensa de lá se meteu numa tentativa de golpe de estado para derrubar um presidente legitimamente eleito? Você se lembra? Então refresque a minha memória, pois eu não me lembro. Ainda sobre Bush, a História vai julgá-lo. Ele já é um lame duck, um pato manco. Mas devo aqui fazer um registro, por justiça. Nós, brasileiros, deveríamos apreciar e valorizar o modo como o presidente dos Estados Unidos vem tratando nosso país e nosso presidente. Apesar das diferenças sociais e ideológicas entre ambos, Bush tem uma admiração sincera por Lula. E (de novo, corrijam-me se eu estiver errado) não me lembro de ter visto nos últimos anos manifestações de arrogância imperial dos Estados Unidos em relação ao Brasil. Claro que eles têm os seus interesses, assim como nós temos os nossos. Mas há uma peculiaridade histórica que certo pensamento dito de esquerda se recusa a encarar. Enquanto nos mantivermos como uma região livre de armas de destruição em massa e de terrorismo, será extremamente difícil a qualquer governo americano convencer a sua opinião pública de que é necessário se meter nos nossos assuntos internos. O avanço eleitoral e político da esquerda na América do Sul é também produto de uma situação em que nosso continente não representa qualquer ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos.

Leia também Menos arrogância, mais pragmatismo e Se querem copiar os americanos, copiem nos acertos, ambos de maio de 2006

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terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Querem capitalismo? Então virem-se (23/01)

Do célebre discurso de Mario Covas na tribuna do Senado, em 28 de junho de 1989:

"Mas o Brasil não precisa apenas de um choque fiscal. Precisa também de um choque de capitalismo, um choque de livre iniciativa, sujeita a riscos e não apenas a prêmios."

Ficou famoso esse trecho do pronunciamento de Covas, então candidato do PSDB à presidência da República. Compromisso com a democracia, a justiça e o desenvolvimento pode ser lido clicando aqui. Vejam como é a política. No período entre 1987 e 1988 (ou seja, um ano antes do discurso que viraria a marca registrada de sua campanha presidencial), Covas havia liderado a bancada do PMDB na Constituinte. O partido tinha 3 em cada 5 constituintes. É razoável concluir, portanto, que o então PMDB (do qual o PSDB é hoje um dos herdeiros), Covas à frente, foi o principal patrono de uma Carta que 5 em cada 5 liberais consideram anticapitalista. Vê-se que o PT teve bons professores na disciplina de flexibilidade tática. Mas voltemos ao choque de capitalismo. Lembrei do discurso do então candidato tucano quando passei hoje na frente do busto dele, perto da entrada do Anexo 2 da Câmara dos Deputados. Eu vinha do Salão Verde, caminhando para o Anexo 4, matutando sobre o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), quando me deparei pela enésima vez com o busto do Covas. Ele lá está, olhando para quem entra na Casa, restaurado depois de ter sido destruído na confusão armada ali ano passado pelo Movimento de Libertação dos Sem Terra, o MLST. Por que essa conversa sobre Mario Covas [na foto de Sergio Andrade, de 1994, o então candidato do PSDB ao governo de São Paulo recebe o apoio de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno]? Porque talvez o PAC seja uma nova tentativa de aplicar o tal choque de capitalismo. Já pensaram nisso? Eu, um otimista incurável, pensei hoje quando passei na frente do Covas. O Estado dá uns empurrõezinhos. Se tiver habilidade e competência, pode desencadear uma aceleração da economia de dimensões razoáveis, por estimular os empresários a investirem. É como a ressonância na Física. Ressonância é a tendência de um sistema oscilar com grande amplitude quando excitado numa certa freqüência (chamada de freqüência natural de vibração do sistema) por uma energia externa -ainda que relativamente moderada. Os exemplos estão no dia-a-dia de todos nós. É a criança que vai lá em cima com o balanço, após uns empurrões dados sem tanta força assim. É o estádio que balança ao ritmo da dança de uma torcida organizada. Como eu disse no post anterior, não sei se o PAC vai funcionar como imagina o governo, perto da freqüência ótima para desencadear um novo ciclo de crescimento. Isso veremos. O que eu estranho é os apologistas do capitalismo reclamarem quando um plano de aceleração econômica delega aos capitalistas privados a responsabilidade principal pelos investimentos. Virem-se. Descubram fontes de financiamento [aproveitem para exigir do governo que dê um calor nos bancos; vocês são tigres para criticar o Banco Central, mas viram gatinhos quando o assunto é o cheque especial]. Não querem fazer novas dívidas? Arranjem sócios, abram o capital. Mas, para variar, em vez de colocar esse dinheiro novo no bolso, invistam na expansão dos seus negócios. Claro que vocês podem optar por uma atitude cautelosa. Afinal, o plano pode fracassar. Mas se vocês exagerarem na dose de pessimismo vão ficar atrás da concorrência, nacional e internacional. Com o Real valorizado, lembrem-se sempre de que importar é um bom negócio -e portanto vocês não estão sozinhos no mercado. Lamento, amigos, mas é o risco. Sei que vocês preferem o capitalismo sem risco. No lugar de vocês eu também preferiria. Só que as coisas na vida não acontecem exatamente do jeito que a gente quer. A consciência desse limite é uma das linhas que separa o adulto da criança. Vamos lá, aproveitem a janela de oportunidade. Talvez o governo Lula seja uma das últimas chances de o Brasil virar um país capitalista. Não é isso que vocês vivem pedindo?

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A neurose da ruptura econômica (23/01)

A esta altura você já deve estar cansado de ler sobre o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Em resumo, ele se baseia na suposição de que um sinal claro do governo federal no sentido do crescimento acelerado despertará, como gosta de dizer o ex-ministro Delfim Netto, o instinto animal dos empresários. Que vão sair à cata de dinheiro para investir e aproveitar a onda. Ponto. Quem enxergou só ironia no meu post anterior errou. Comunicação de governo é fundamental. Como é que Luiz Inácio Lula da Silva vai aprovar a prorrogação da DRU e da CPMF no Congresso se não apresentar essas medidas como parte de um esforço para o país crescer, gerar emprego e renda? Outra coisa boa do PAC é que ele não vai contra, pelo menos não muito, o que foi dito na campanha eleitoral. Tinha gente que queria de Lula reformas que nem Geraldo Alckmin teve coragem de propor. Façam-me o favor. O que será do PAC? Sei lá. Essa indexação dos salários dos servidores leva jeito de que vai enfrentar resistências fortes no Congresso. Dos dois lados. Haverá quem diga que é arrocho. Haverá quem advirta que se trata de um engessamento indesejável, para cima, dos reajustes salariais do funcionalismo. Veremos também resistência contra a contenção dos aumentos reais do salário mínimo, ainda que parte do movimento sindical esteja no colinho do governo federal. Os deputados e senadores também vão querer ampliar as renúncias fiscais, não vão deixar toda a bondade para o Executivo. As reformas microeconômicas deverão ser analisadas caso a caso pelos congressistas, mas é improvável que enfrentem grandes dificuldades. O bicho vai pegar mesmo é depois, quando o governo empurrar a CPMF e a DRU para cima do Congresso. Será a hora de os governadores apresentarem a conta e exigirem mais federalismo. Aí veremos o quanto há de verdadeiro na firmeza do governador Aécio Neves, que parece ter eleito o reequilíbrio federativo como sua principal bandeira rumo ao Palácio do Planalto em 2010. E uma observação final. Incomoda essa coisa de tudo que é continuidade no Brasil ser apresentado como ruptura. O PAC não rompe com a ortodoxia fiscal do primeiro mandato de Lula. Assim como a orientação econômica de Antonio Palocci não rompia com a obra do antecessor, Pedro Malan. Políticos têm a necessidade compulsiva de dizer que estão fazendo algo de inteiramente novo. O que é uma bobagem. Façam direito o que lhes cabe fazer, e já estarão ajudando o país.

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segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

O PAC já é um sucesso (22/01)

Não estranhe o título deste post. Não, eu não perdi o senso crítico. Sim, é verdade, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) apresentado hoje pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva já deu certo. O sucesso ou não de uma ação de governo tem que ser monitorado pelos objetivos da ação. Não interessa o que eu e você achamos do PAC. O objetivo principal do PAC não é fazer o Brasil crescer a determinada taxa (por exemplo, o emblemático 5%). O principal objetivo do PAC é fazer crer que o governo tem um plano para acelerar o crescimento da economia. Você pode concordar ou discordar do plano. Você pode achar que o plano é tímido ou ousado. Você pode ter ou não sugestões do que mudar no plano. Não interessa. Cá estou eu escrevendo sobre o PAC. Aí está você lendo sobre o PAC. Parabéns ao pessoal da Comunicação (vou até escever com maiúscula) do governo federal. Vocês já deram um baile na campanha eleitoral e continuam dando um show. Estive hoje em viagem e não tive tempo de analisar o PAC. Vou fazê-lo quando chegar em Brasília, ainda hoje, espero [sou uma das vítimas da aviação civil brasileira, que é uma droga, mas pelo menos não é estatal; imaginem se fosse estatal e funcionasse, que desgraça isso seria]. Recebi há pouco um email reclamando deste blog, pois eu havia dito que o PAC era um embrulho bonito para aprovar a prorrogação da CPMF e da DRU. E as duas medidas não estão no PAC. Você só acha que não estão. Elas estão escondidas. São uma espécie de PACdoB, serão mandadas ao Congresso sozinhas (emendas constitucionais) para não dar à oposição o discurso de que o governo federal renuncia a impostos (que a União divide com os estados e municípios) mas não a contribuições (que não divide com ninguém). E que tampouco abre mão de sua liberdade para descumprir as vinculações orçamentárias constitucionais. Até mais.

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domingo, 21 de janeiro de 2007

Envergonhem-se (21/01)

Reportagem exclusiva da revista Veja reproduz diálogo dos pilotos do Legacy logo depois do choque com o Boeing da Gol, em setembro do ano passado. Leia e conclua você mesmo. Eles viajavam com o transponder desligado e só perceberam isso depois do choque. O aparelho não estava quebrado, porque voltou a funcionar normalmente, alguns instantes depois do diálogo revelador. Meus pêsames aos controladores de vôo que, em busca de suas legítimas reivindicações, surfaram no complexo de inferioridade tupiniquim para vender ao país a idéia de que o acidente aconteceu por causa de falhas no nosso controle de tráfego aéreo. Se os pilotos eram americanos então, logicamente, a incompetência não deve ter sido deles, não é? Meus pêsames ao lobby que luta para retirar da Força Aérea Brasileira a atribuição de controlar o tráfego aéreo. Meus pêsames também ao lobby que defende a privatização da Infraero. Coisa feia, querer usar os cadáveres dos passageiros da Gol para alavancar bons negócios. E meus pêsames redobrados às autoridades brasileiras que deixaram os pilotos saírem do Brasil sem prestar contas à nossa Justiça. Para quem gosta de criticar ex-chanceleres que aceitaram tirar os sapatos para serem revistados em aeroportos norte-americanos, saibam que vocês fizeram algo muito, mas muito mais grave. Envergonhem-se.

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Só há uma solução para as medidas provisórias: eliminá-las (21/01)

Critiquei na nota anterior o candidato do PSDB à presidência da Câmara dos Deputados por não propor o fim das medidas provisórias. Eis minha posição sobre o assunto, escrita em março do ano passado:

As medidas provisórias são uma aberração jurídica, são filhas do decreto-lei do regime militar. Quem está na oposição reclama, mas não faz força para eliminá-las, pois espera dispor delas quando chegar ao poder. Quem está no governo as adora, por razões óbvias. Desafio qualquer um a provar a utilidade delas para o país. Desafio qualquer um a apontar uma única medida provisória editada pelo governo Lula que não pudesse (devesse) ter sido enviada ao Congresso na forma de projeto de lei com regime de urgência.

Medidas provisórias (MPs) são novas leis que o presidente edita "por decreto" e que valem imediatamente. Depois, o Congresso Nacional decide se elas têm mesmo urgência e relevância, como exige a Constituição Federal (artigo 62). Em seguida, analisa o mérito. Mas a Carta não define o que são as tais urgência e relevância [por mais barroca que seja a nossa Constituição, ela não chegou a esse ponto]. Portanto, trata-se de uma ferramenta que obedece a uma lógica circular. Para o Executivo, todas as MPs são urgentes e relevantes, senão o presidente não as teria editado. Com o que, geralmente, está de acordo a maioria que apóia o governo no Congresso. Não estranha que sejam raríssimas as MPs rejeitadas na discussão sobre sua admissibilidade. Tem gente que defende aperfeiçoar a legislação sobre as MPs, para "civilizá-las". Eu não acredito nisso. Creio que seria pura perda de tempo. Minha proposta é radical. Eliminem-se as medidas provisórias, que ninguém dará pela sua falta. Os ministros vão cuidar de negociar os projetos no Congresso antes de enviá-los à Casa Civil. O que será bom para o país. O Executivo vai moderar a sua fúria para legislar. O que será ótimo para o país. Todo governo vai ter que montar uma base parlamentar granítica para conseguir governar. O que será excelente para o país. Não vai ser possível, por exemplo, fazer como Luiz Inácio Lula da Silva em 2003: dar 5 ministérios para o PT do Rio Grande do Sul e nenhum para o PMDB. Para finalizar, perceba que a ampla maioria dos países vão muito bem, obrigado, sem ter no arcabouço institucional qualquer coisa que se assemelhe à nossa medida provisória. Junto com o orçamento impositivo e o voto distrital, a extinção das MPs compõe uma tríade do que deveria ser uma reforma política adequada aos verdadeiros interesses nacionais.

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Mais do mesmo (21/01)

Quando alguém lhe disser que a candidatura da chamada Terceira Via à presidência da Câmara dos Deputados representa uma ruptura com o statu quo, sugiro que você fique com um pé atrás. Resolvi emitir esse conselho/opinião depois de ler hoje as respostas dos três candidatos ao questionário apresentado pela Folha de S.Paulo. Aqui, um protesto. Não é aceitável que, após doze anos no ar, o site da Folha ainda não coloque à disposição dos assinantes (do jornal ou do UOL) os elementos gráficos existentes nas páginas do jornal impresso. Por causa dessa falha deles, não há como eu dar um link para o quadro com as respostas. Mas vamos à essência do que pretende dizer o título deste post. É compreensível que Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e Arlindo Chinaglia (PT-SP) tenham respondido com cautela ao questionário da Folha. Ambos têm no currículo a liderança do governo. Não dá para ficar brincando de eu vou fazer isso, eu vou fazer aquilo. Pois o jornalista sempre poderá perguntar: mas, deputado, se o senhor é a favor de todas essas coisas boas, por que não trabalhou por elas até agora?. Um xeque-mate. Situacionismo prenhe de promessas cheira a picaretagem. Mas o que mais me espantou na boa reportagem de Letícia Sander e Sílvio Navarro foi a timidez das respostas de Gustavo Fruet (PSDB-PR). Ele não assume qualquer compromisso com medidas que efetivamente possam aumentar a independência do Legislativo diante do Executivo. Não defende o fim das medidas provisórias nem a aprovação do orçamento impositivo (leia o post Neil Armstrong e o debate sobre um programa para o Brasil). E insiste na defesa da fidelidade partidária. Falta apenas a fidelidade partidária para colocar o Congresso definitivamente de joelhos diante do Palácio do Planalto. Se ela estivesse em vigor, estaria eliminada qualquer hipótese de dissidências significativas entre os deputados. Gustavo Fruet só é candidato a presidente da Câmara dos Deputados porque não existe a fidelidade partidária. Sua candidatura foi imposta ao PSDB por uma facção dissidente que não aceitou o acordo café com leite entre a cúpula tucana e o PT-governo para eleger Chinaglia. A candidatura de Fruet foi imposta de fora para dentro do partido e agora os tucanos terão que honrar o acordo com o PT num eventual segundo turno (se Fruet não chegar). Eu, pelo menos, nunca tinha visto algo semelhante. Reúnem-se os parlamentares de um grupo multipartidário e escolhem um nome para concorrer à presidência da Câmara. Só depois disso o escolhido sai atrás da chancela dos caciques de sua própria legenda. Deu até notícia de jornal. Candidato do PSDB consegue o apoio do presidente do PSDB. Incrível. O PSDB parece ter terceirizado o comando da sigla. Mas em última instância esse é um problema do PSDB, não meu. Agora, paradoxalmente, Fruet diz que defende a fidelidade partidária. Se ela estivesse em vigor, a dissidência tucana que ajudou a materializar a candidatura do bravo deputado curitibano provavelmente teria sido enquadrada debaixo de pau pelos costureiros do pacto PSDB-PT. Aliás, se estivesse valendo a fidelidade partidária, a indicação dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado seria, na prática, prerrogativa pessoal do presidente da República. Quase uma nomeação ministerial. O Palácio do Planalto fecharia um acordo com o(s) chefe(s) do(s) partido(s) da base do governo, chegaria aos nomes e caberia ao Congresso apenas chancelá-los. Do jeitinho que era na ditadura.

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sábado, 20 de janeiro de 2007

A histeria midiática contra Chávez (20/01)

Um certo pseudomarxismo rastaqüera associa mecanicamente mercado e liberdade econômica a capitalismo. Por oposição, o socialismo seria, então, o reino do Estado (antagonista do mercado) e da relativização da liberdade individual. Do meu modesto ângulo de visão, esse debate precisa ser urgentemente rearrumado. Já se sabe (sempre se soube, desde Marx) que absorver a sociedade no Estado não soluciona estruturalmente o desafio de levar o homem (e a mulher) a uma situação perene de bem-estar. Então - oh, fatalismo!- só nos restaria adorar a divindade do capital. E esperar, rezando, que ela nos leve ao paraíso. Fique à vontade, se esse for o seu caso. Mas eu prefiro raciocinar, em vez de bater palmas ou de vaiar. Dizer que capitalismo e mercado são sinônimos é uma falsificação histórica. Grosseira. O mercado existe desde o dia em que o homem percebeu que produzia mais do que precisava para consumir e, num passo lógico, achou que seria boa idéia trocar o seu excedente com quem fazia coisas de que ele precisava mas não produzia.

- Tudo bem. Mas e a liberdade? Não existe liberdade individual verdadeira se não houver liberdade econômica. E só existe liberdade econômica no capitalismo.

Não me venha dizer que o capitalismo é o reinado da liberdade econômica. Acho que nem você acredita nisso. Eu, por exemplo, fiquei revoltado diante do descaso da TAM com os seus passageiros no fim do ano passado. Aí decidi tomar uma atitude firme. Decidi abrir uma nova companhia aérea para atrair todo o excedente da demanda. Só que apareceu um problema: e o capital? Cadê o capital disponível no mercado para que eu exerça a minha liberdade econômica e contribua para satisfazer a necessidade do sujeito que comprou um bilhete da TAM e espera há horas para embarcar? Sacou? Vamos a outro exemplo. O chefe chama o subordinado e diz que ele será demitido.

- Infelizmente, tomamos essa decisão porque a empresa está com dificuldades operacionais e vai fazer um downsizing.
- Mas, por que me demitir? Eu acho que o problema da empresa não sou eu. É a gestão ineficiente. Não estamos conseguindo inovar e incrementar a produtividade no mesmo ritmo que a concorrência. Em vez de cortar na operação, o certo seria eliminar atividades-meio, enxugar níveis desnecessários de gerência e pensar estrategicamente sobre o que devemos fazer agora para sobreviver e crescer nos próximos vinte anos. E quer saber de uma coisa? Se você não compreende isso, está na cara que eu sou mais útil à empresa do que você. Portanto, vamos esquecer dessa sua proposta. E licença que eu vou voltar agora para o meu computador, pois tenho muita coisa para fazer.

Vejam de que maneira altiva esse trabalhador exercitou a sua liberdade, o seu livre arbítrio no capitalismo. Mas é improvável que ele tenha êxito na argumentação. Mais certo é que ele seja mandado embora assim mesmo. E que ainda deixe para trás uma certa imagem de, digamos, exotismo. O capitalismo não é o reino do mercado e da liberdade. O capitalismo é o império do capital. E nós somos súditos do imperador. O que caracteriza o capitalismo e o distingue é a separação radical entre o trabalho e a propriedade. Uns têm, enquanto outros trabalham e obedecem. E estes são escravos daqueles. Pareço-lhe radical? Pense no pavor do assalariado toda vez que tem o desejo de fazer algo contra a vontade do patrão. Especialmente se esse trabalhador é do ramo das idéias, do trabalho espiritual. Acho que você me entende, não é? Então relaxe. E perceba que a tese do socialismo, mesmo abstrata, atrai intelectualmente porque faz o sujeito se sentir capaz de romper os grilhões, de deixar a escravidão para trás. Se o capitalismo não resolve o problema da distância entre o trabalho e a propriedade, que venha o socialismo!

- Ah, mas o socialismo, quando foi tentado, apresentou muitas deformações, muitos problemas.

Isso é como chegar no vestiário de um time de futebol e dizer que ele não deve entrar em campo porque foi mal na partida anterior. Simplesmente não cola. Mas voltemos ao estudo da separação entre trabalho e propriedade. Você já se deu conta de que a organização mais radicalmente anticapitalista da sociedade brasileira, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), é um movimento que pede apenas a democratização do capital terra? Incrível, não é? Eu, por exemplo, fico espantado toda vez que alguém acusa o MST de ser contra a propriedade privada. Eles são tão a favor da propriedade privada que a querem para todo mundo. O problema é saber se o capitalismo, como sistema, vai conduzir a uma sociedade em que todo mundo seja proprietário. Esse é um bom debate. Tem gente que acha que a redução radical do custo do capital, decorrente da explosão digital, vai munir o capitalismo dos instrumentos necessários para fazer essa transição. Veremos. Eu penso que ajuda, mas não resolve. Tem também gente que vê na universalização do mercado de capitais a ferramenta ideal para superar a contradição entre o trabalho e a propriedade. Notam que nos países capitalistas mais avançados quase todas as empresas relevantes são públicas, negociam suas ações nas bolsas e já deixaram há muito tempo de pertencer a um único capitalista. De fato, a Europa e os Estados Unidos são assim. E é preciso saber por quê. Também porque nos séculos 18 e 19 promoveram revoluções democráticas com forte caráter nacional, revoluções voltadas principalmente para a democratização da propriedade territorial. Alguns, como a Alemanha e o Japão, só fizeram isso no século 20, depois de grandes derrotas militares e quando potências democráticas de ocupação enquadraram suas elites agrário-industriais [lembre-se de que o expansionismo belicista do Japão e da Alemanha era estimulado pela busca de mercados e áreas de influência, mas só conseguiu base popular expressiva por apontar uma solução, a conquista territorial, para o desequilíbrio entre a pressão demográfica e a disponibilidade de terras para cultivo das famílias]. Mas todos acabaram fazendo a reforma agrária, de um jeito ou de outro. As conseqüências (sempre o velho Acácio) vieram depois. Toda essa conversa é para marcar aqui uma posição a respeito da histeria midiática contra o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Não sei bem como vai ser esse socialismo do século 21 de que ele tanto fala. Deste meu humilde posto de observação, vou torcer para que ele consiga transformar a Venezuela numa sociedade menos injusta (se você já viajou do aeroporto de Caracas até o centro da capital você sabe do que estou falando). E vou ficar muito vigilante para que as liberdades públicas não sejam atingidas.

- Mas, veja você, o Chávez acabou de dizer que não vai renovar a concessão de uma rede de televisão. Só porque eles participaram da tentativa de derrubá-lo no golpe de estado de 2002.

Sim, é verdade. Mas se o governo dá a concessão, talvez ele também possa ter o direito de tirá-la. Desde que dentro da lei. Ou será que concessão de tevê deve ser vitalícia, um direito adquirido? Você acha o quê? Eu acho que pau que dá em Chico deve dar em Francisco. De novo os limites da liberdade no capitalismo. A empresa de comunicação tem o direito inquestionável de mandar embora, e quando quiser, qualquer funcionário. Ela tem o poder de ameaçar o trabalhador intelectual com a demissão se ele não andar na linha. Tem a prerrogativa de tirar o ganha-pão de qualquer um que não reze pela cartilha dela. Mas, vejam só, quer para si a liberdade de pensar e fazer o que bem entender com a sua concessão. Sem ter que prestar contas a ninguém. Assim eu também quero. Entenderam por que o socialismo é uma palavra que desperta simpatia? Talvez porque desperte ceticismo a tese de que a liberdade e o bem-estar podem universalizar-se num sistema em que uns poucos têm o direito quase divino de tolher a liberdade e ameaçar o bem-estar de muitos.

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sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

E o povo, como é que fica? (19/01)

Este é um post lastreado unicamente no senso comum. Minha dúvida é a seguinte: por mais justa que seja a reivindicação dos funcionários públicos estaduais de Alagoas, será razoável impor à população alagoana esses transtornos e esse sofrimento? Já passou da hora de regulamentar o direito de greve no serviço público. Eu sou 100% a favor do direito de greve. E sou 100% a favor de as pessoas terem polícia, médico, bombeiros, etc. 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano. E aí? Como conciliar esses dois direitos?

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Chapa Mutirão - Reconstrução da UNE, 1979 (19/01)


Pediram. Então lá vai. Eis a foto (clique para ampliar) da chapa que venceu a primeira eleição (direta) para a diretoria da (reconstruída) União Nacional dos Estudantes em outubro de 1979. Em pé, atrás, da esquerda para a direita: Juarez Amorim, José Pimenta, Sergio Carneiro e Ivaneck Perez. Nas cadeiras: Marcelo Barbieri, Alon Feuerwerker, Luis Falcão (Lula), Candido Vaccarezza, Fredo Ebling e Gilberto Martin. Na frente: Aldo Rebelo, Rui Cesar (presidente), Maria Francisca de Souza (Kika), Pedro Reis Pereira e Vladir de Oliveira.

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Querem colocar algo de útil no PAC? (19/01)

Emails chegam dizendo que estou de má vontade com o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) e que vou quebrar a cara. Tomara que vocês estejam certos. Para começar a me corrigir, decidi praticar hoje um bloguismo mais construtivo. Mais propositivo, segundo o léxico político contemporâneo. Ainda dá tempo de fazer sugestões para o PAC? Então aí vai. O PAC deveria corrigir isso: Brasil é lugar mais caro do mundo para se comprar um iPod, conta a Folha Online. O bichinho (nano) custa aqui US$ 327,71. O segundo colocado é a India, bem abaixo (US$ 222,27). Na China custa US$ 179,84. No México, US$ 154,46.

- Isso é frescura. Coisa de gente colonizada. Quem está interessado em iPod? Do que precisamos é arroz e feijão na mesa do brasileiro. É razoável que os filhinhos de papai que compram iPod paguem, junto com o produto, o imposto que vai ajudar os mais pobres.

Se você pensa assim, meus pêsames. Saiba que o filhinho de papai tem sim iPod. Em geral comprado lá fora -e baratinho, dado que a nossa moeda anda bem musculosa. Quem não pode comprar por esse preço é justamente o jovem que não é filhinho de papai. O jovem que trabalha para se sustentar e não viaja ao exterior. E que deveria ter direito a produtos digitais pelo mesmo preço que o jovem chinês ou mexicano (não falo do americano ou do nórdico, pois você talvez me acusasse de neoliberal; então eu sugiro que você me explique como é mesmo esse neoliberalismo chinês). Um governo que estivesse interessado de fato em incluir rapidamente os jovens mais pobres tomaria medidas radicais -e não cosméticas- para fazer cair a patamares internacionais o preço interno de produtos de informática. Renúncia fiscal inclusiva seria isso aí.

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quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Pais, filhos, Zeus, Moisés e Jesus (18/01)

Foi instigante a primeira manifestação pública de Luiz Inácio Lula da Silva sobre a sucessão na Câmara dos Deputados. O presidente disse que não vai interferir no processo porque os dois contendores do campo governista são como seus "filhos". Eis a frase de Lula:

Quando você tem dois companheiros que você considera como irmãos, como filhos, você não toma partido, você espera que eles resolvam.

Não vou debater aqui a adequação institucional das palavras do presidente. Sobre esse aspecto, considero-me contemplado com o que disse o candidato do PSDB: "a gente não pode tratar a Câmara como filhos que estão na disputa, temos que tratar com respeito". Dito isso sobre a forma, vamos passar ao conteúdo. Ora, um pai que ama os filhos procura evitar que a rivalidade entre eles evolua ao ponto em que o sucesso de um signifique necessariamente a desgraça do outro. Pai não raciocina assim sobre dois filhos que querem a mesma coisa: "eles que tentem se matar, depois eu me entendo com o que sobreviver". Pai que é pai não permite que o filho coloque a mão no fogão aceso só para que a criança aprenda, pela própria experiência, que o fogo queima. Pai cuida, pai educa, pai protege. Mas essa minha maneira de ver as coisas pode estar errada. Talvez ela sofra de uma inevitável contaminação cristã, ainda que eu seja judeu [bobagem minha, as raízes são comuns]. Jesus foi o primeiro pai que amou para valer todos os seus filhos. Como você vê, essa coisa de relações amorosas entre pais e filhos é recente na história do homo sapiens, tem só um par de milhares de anos. Nos dez mandamentos há um, o quinto, que manda os filhos honrarem os pais.

Honra a teu pai e a tua mãe, a fim de que os teus dias se prolonguem sobre o solo que (...), teu Deus, te dá.

Mas quando Deus entregou as tábuas da lei a Moisés no Monte Sinai não incluiu no famoso decálogo nada a respeito de os pais amarem os filhos. Mesmo assim, acho que a atitude de Lula em relação aos seus "filhos" que disputam a presidência da Câmara dos Deputados tem mais a ver com o paganismo do que com a cultura judaico-cristã. Tem mais a ver com as relações entre Zeus e Cronos. Ou com o ciúme que um Laio sente de Édipo. Afinal, há uma única Jocasta. Coisa de deuses com sentimentos humanos. E vou parar por aqui, antes que um raio vindo do Olimpo me fulmine.

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Woody Allen e o biombo (18/01)

Reclamam porque escrevo talvez mais do que deveria sobre a eleição para a presidência da Câmara dos Deputados. Queriam que eu escrevesse sobre o quê? Sobre o tal de PAC (Plano de Aceleração do Crescimento)? Eu escrevo sobre quase tudo que vocês me pedem, mas não me peçam certas coisas. Vou sintetizar aqui o que será o PAC (êta bloguismo arrogante esse): um biombo. E já que eu trabalho de graça para vocês, vejam aí se podem me tirar uma dúvida. Qual é o filme do Woody Allen em que ele está na loja de revistas e compra um monte delas, só para disfarçar as revistas pornográficas que realmente deseja levar para casa? Pois o PAC será um pouco isso. Não pela pornografia, claro. Mas pela mistificação. Em resumo, o governo quer prorrogar a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e a Desvinculação de Receitas da União (DRU). Por dez anos. Vai embrulhar essa medida com um papel de presente que fala em "crescimento". Assim, governadores, senadores e deputados estarão apoiando não a CPMF e a DRU, mas o "crescimento". Sacaram? Hoje a Folha Online traz uma reportagem com o título Apoio político ao PAC influenciará em ministério, afirma Tarso. Ora, por que razão o governo precisaria fazer ameaças veladas aos partidos (votem comigo e terão os cargos; não votem e não os terão) para conseguir adesões a um plano de aceleração do crescimento? "Ou vocês votam a favor de o Brasil crescer mais, gerar mais emprego e mais renda ou então vocês vão ver o que é bom prá tosse." Não faz sentido. Mas você sempre pode achar que eu estou sendo precipitado. E você eventualmente pode ter razão. Vamos então sentar e esperar juntos.

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Sua excelência, o boato (18/01)

Ulysses Guimarães tanto valorizava o fato político que o chamava de Sua Excelência. Vou cometer aqui uma pequena trangressão e dizer o mesmo do boato. Sua Excelência, o boato político. Tem gente que despreza o boato. Eu não. O boato e o fato mantêm entre si a mesma relação que a bola e a criança. Quando estiver dirigindo e vir uma bola, breque. Atrás de uma bola pode vir sempre uma criança. Por analogia, quando ouvir um boato, pare e reflita. Atrás de um boato está invariavelmente alguém disposto a transformá-lo em fato. A mobilizar mundos e fundos para satisfazer um desejo e converter idéias em força material. Então, por causa disso, resolvi fazer este post só para escrever, em código, sobre alguns boatos que circulam pela capital em torno da sucessão na presidência da Câmara dos Deputados. O primeiro boato é que o PSDB de São Paulo está fulo da vida com o PSDB de Minas Gerais. Pelo acordo fechado entre o PT e o PSDB, um deputado de Minas aliado do governador mineiro será o vice-presidente da Câmara na chapa do PT. Mas os tucanos bandeirantes acham que estão pagando sozinhos a conta do pacto com o PT. Ou seja, enquanto o tucanato mineiro se dá bem com o pacto, o paulista fica com cara de pato. Será que isso pode ameaçar a aliança PT-PSDB na Câmara? Eu duvido. Alguém ajuizado vai acabar enquadrando os tucanos brigões e mostrando que ambos terão lugar na fila de agrados ao PT, já que o acordo poderá ser cumprido num eventual segundo turno. O PSDB ajuda o PT a vencer e este confirma um tucano na vice. Problema resolvido. A vida segue e não se fala mais nisso. O segundo boato é que o PSDB está pressionando o PFL a mudar de lado e apoiar o candidato tucano à presidência da Câmara. Não que os tucanos queiram ganhar a eleição. Se o PFL retirar o apoio ao atual presidente, deixa sozinhos na empreitada o PSB e o PCdoB. Com uma eleição polarizada entre o PT e o PSDB, o governo teria mais liberdade para agir com desenvoltura a favor do PT na corrida sucessória. E, teoricamente, um cenário polarizado entre governo e oposição ajuda o candidato do PT, já que o situacionismo tem maioria na Casa. O boato complementar a esse dá conta de que o presidente da República anda algo receoso de uma polarização aberta entre um petista e um oposicionista no plenário da Câmara dos Deputados. Teme perder. O terceiro boato que corre em Brasília é que senadores do PT estão dispostos a votar no candidato do PFL contra o do PMDB à presidência do Senado, desde que o PFL dê um jeito de ajudar o PT na Câmara. Boatos. De todos os tipos e contraditórios entre si. É a cara de Brasília.

-Ah, mas esses são só boatos. Não me venha com boatos, eu quero os fatos.

Ah, sim, você é um idiota da objetividade, como dizia o Nélson Rodrigues. Então estacione cuidadosamente o veículo no meio-fio e aguarde. Para saber qual bola traz junto uma criança e qual não traz.

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quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Ave Caesar, morituri te salutant (17/01)

Do mais antigo log brasileiro de notícias, o Blue Bus:

A emissora californiana KZSW [link meu, Alon]está sendo considerada a 1a estaçao local de TV nos EUA a usar o YouTube como plataforma para ampliar a audiência de seu noticiario. Passou a colocar no site de videos trechos de seu conteudo jornalistico. Vê varios beneficios na iniciativa - com os videos no YouTube, ficou mais facil e rapido atender aos espectadores que pediam copia de alguma noticia. Permite também que os usuarios assinem o serviço para receber novos videos de seu interesse. E abre espaço para que os espectadores comentem, assistam novamente, compartilhem as noticias com outras pessoas, coloquem os videos da TV em seus proprios sites e acompanhem as noticias de sua regiao caso estejam em qualquer outro local do mundo. A iniciativa torna ainda possivel que qualquer usuario do planeta assista noticias produzidas por uma TV de uma pequena cidade. (...).

Esses aí vão sobreviver. Os outros, que se agarram a seu conteúdo exclusivo para manter a qualquer custo fatias leoninas no mercado publicitário, poderiam fazer como os gladiadores romanos. Deveriam erguer a espada ao público e bradar: Ave, César, os que vão morrer te saúdam! E uma advertência: eu não sei latim, achei a frase na Wikipedia. Vejam como fica bonito em italiano: Ave, Cesare, coloro che stanno per morire ti salutano. Perceberam como a Internet é útil para alguém ignorante como eu? Ah, sim, o Blue Bus escreve sem acentos de propósito.

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Um anúncio fúnebre e a "peemedebização" (17/01)

Faleceu ontem nesta capital o argumento de que a proporcionalidade foi o principal motivo do PSDB para apoiar, na semana passada, o candidato do PT à presidência da Câmara dos Deputados. O argumento morreu de morte súbita e deixa viúva, a hipocrisia. O casal não tinha filhos. O enterro acontece na próxima semana, quando a bancada federal do PSDB se reúne para chancelar o nome do deputado Gustavo Fruet (PR) como candidato do partido ao cargo.

Leio nos jornais que a candidatura do deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR) à presidência da Câmara recebe apoio dos principais líderes tucanos. Sem perder tempo, procuro outra reportagem, com a informação sobre as novas adesões ao PSDB na Câmara. Mas não encontro. Ou seja, o PSDB continua com os mesmos 66 deputados (ou menos, já que a seção cearense está desaparecendo), mas agora admite lançar um nome seu. A tal proporcionalidade foi para o beleléu. Não vamos gastar aqui mais vela com isso. A tese já foi dissecada neste blog em Contem outra. Que Deus a tenha. Agora apareceu uma nova conversa: de que o partido não vai votar inteiro no deputado paranaense, que ele só vai fazer figuração e que a aliança com o PT pode se impor no voto secreto. Está hoje em reportagem da Folha de S.Paulo:

A Folha apurou que a unidade da bancada tucana em torno de Fruet não deve se traduzir inteiramente em votos. A votação secreta facilita as defecções e há quem avalie no partido que Fruet irá apenas "marcar posição", isto é, que não tem chances nem de chegar ao segundo turno.

Classicamente, chamam a isso "peemedebização". O que, convenhamos, começa a ser uma injustiça com o PMDB. Semana passada, a ala neogovernista do PMDB tratorou e aprovou na marra (até gente que não podia votar votou) o apoio ao PT na corrida da Câmara. Feita a votação e anunciado o resultado, não se ouviu um pio dos perdedores, um "off" sequer de resmungo ou ameaça de traição. Lembra até o velho PFL, onde os inimigos se apunhalavam em silêncio sem nunca deixar de se abraçar ou sorrir diante das câmeras. Quem sabe não esteja na hora de os tucanos fazerem o caminho de volta para o PMDB? Tenho certeza de que seriam recebidos de coração e braços abertos. Mas enquanto isso não acontece precisam dar um jeito de manter as aparências. E sempre tem jeito para (quase) tudo. A solução agora é votar em Fruet (para não fazer feio no painel de votação) e torcer para ele não ir ao segundo turno. Mas torcer para que haja o segundo turno, pois do contrário o cacife do PSDB terá ido para o ralo. E no segundo turno cumprir o acordo com o PT. O PSDB tem duas semanas para construir o argumento (qualquer argumento) que justificará o apoio ao PT num eventual segundo turno -já que a proporcionalidade está morta e sem serventia. Ficou mais complexo e mais trabalhoso. Se fosse no futebol, eu diria que o PSDB tomou uma goleada em casa e não depende mais apenas de seus próprios resultados para ser campeão (ou vice, se os tucanos preferirem assim).

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terça-feira, 16 de janeiro de 2007

A placa para Fruet, o marujo à procura de sobreviventes e uma eleição indefinida (16/01)

Eu sugiro que a direção do PSDB coloque uma placa em homenagem ao deputado federal Gustavo Fruet (PSDB-PR) na sede nacional do partido. Sugiro também que se pense seriamente no nome dele para presidir a agremiação depois que acabar o mandato do presidente Tasso Jereissati. Fruet é um ex-peemedebista recém-incorporado às hostes tucanas. Mas foi ele, um neófito, quem ofereceu a solução para a embrulhada em que haviam se metido os caciques históricos do tucanato na sucessão da Câmara dos Deputados. O problema não foi o PSDB ter apoiado Arlindo Chinaglia (PT-SP) para a presidência da Câmara. O problema foi ter feito isso atabalhoadamente, sem um discurso previamente construído e sem preparar a opinião pública tucana para essa possibilidade. O PSDB pretendeu resolver uma questão político-partidária complexa na base do telemarketing [na política, um dos sintomas de deformação burocrática é a substituição das discussões políticas pelos métodos administrativos]. Depois, quando a coisa apertou, ninguém quis assumir a paternidade da criança. Deixaram o líder na Câmara como o suposto único responsável pela operação. Coisa feia. "Eu ganhei, nós empatamos e vocês perderam." Nem o mais verde dos focas acredita que uma coisa dessas possa ser decidida no PSDB sem que a cúpula tenha alguma participação. Mais uma vez prevaleceu o ditado mineiro: esperteza quando é muita vira bicho e come o dono. Só que desta vez o dono deu um jeito de escapulir, graças ao deputado Fruet. Ele me lembrou hoje o oficial Harold Godfrey Lowe, do Titanic, que de dentro do bote e com uma lanterna na mão procura sobreviventes do naufrágio, bem no finzinho do filme (foto). Agora temos três candidatos para presidir a Câmara. Fruet larga com uns 80 votos, creio, vindos principalmente do PSDB e do PPS. Mas também pode puxar uma turma do PV. Além de votos esparsos. Aliás, deixei de comentar esses dias uma enquete de O Estado de S.Paulo entre os deputados, levantamento que mostrava Chinaglia ligeiramente à frente de Aldo Rebelo (PCdoB-SP), ambos num patamar em torno de cem votos. Um trecho da reportagem do jornal, no último dia 11, sobre a enquete:

Todos os 513 deputados eleitos ou reeleitos em 2006 foram procurados. Destes, 365 (71% da Casa) aceitaram revelar seus votos, sob a condição de não terem o nome publicado. Chinaglia obteve 131 votos dos entrevistados, ou 35,9%, ante os 104 votos (28,5%) do atual presidente da Casa e candidato à reeleição, Aldo Rebelo (PC do B-SP). Além da diferença de apenas 27 votos entre os adversários, outro número indica que a briga pelo comando da Câmara está longe de uma definição. O levantamento revelou que 124 deputados (34% dos entrevistados) ainda não sabem em quem vão votar na eleição, marcada para 1º de fevereiro.

Querem saber? Contra-informação à parte, a eleição está totalmente indefinida. A única certeza é que aumentou a chance de ter segundo turno [para ganhar no primeiro, o vencedor tem que obter metade mais um dos votantes; como a eleição vai ser no mesmo dia da posse, o quórum será altíssimo entre os 513 deputados]. Vamos ver o que fará agora o PT. Eu aposto que o PT vai trabalhar por uma pressão do governo para que Aldo Rebelo desista. Luiz Inácio Lula da Silva vai entrar nessa? Veremos. Mas o Palácio do Planalto deveria abrir o olho, porque do jeito que está pode sair todo tipo de coelho da cartola. Em 2005, Luiz Eduardo Greenhalgh (SP) era o candidato do PT e Virgílio Guimarães (PT-MG) disputava como avulso. Severino Cavalcanti (PP-PE) corria por fora. O primeiro movimento do PT foi tentar fazer Virgílio retirar a candidatura. Não funcionou. Aí alguém no PT teve a brilhante idéia de esvaziar a candidatura de Virgílio, na suposição de que seria mais fácil a Greenhalgh ganhar de Severino no segundo turno. O resultado é conhecido. A manobra deu errado, porque o antipetismo acabou sendo mais forte do que o anti-severinismo. Agora, o governo e o PT podem ceder à tentação de promover uma lipo na candidatura do atual presidente da Câmara, na suposição de que será fácil para Chinaglia vencer Fruet num hipotético segundo turno, já que a base do governo tem maioria sobre a oposição. Do outro lado, os partidários de Aldo Rebelo recordarão que faz muito, muito tempo que o PT não ganha uma votação dessas na Câmara. Aliás, a última vez em que o governo impôs uma derrota à oposição em bloco foi na eleição de Aldo, com uma diferença de apenas 15 votos. Um segundo turno Aldo x Arlindo é zero a zero para o Planalto. Num segundo turno Aldo x Fruet, o comunista dividiria a oposição, já que o PFL o apóia. Num segundo turno Arlindo x Fruet, o PFL votaria em massa no tucano, sendo que os peessedebistas favoráveis a um acordo com o PT não deixariam de votar em um dos seus (Fruet) para eleger Chinaglia. Ou seja: se eu estivesse na pele do PT trataria de dar um jeito de ganhar no primeiro turno. Para isso, o ideal seria que o governo obtivesse um recuo do PCdoB ou do PSB. Mas ambos sempre poderão esgrimir a tese de que um não petista tem mais chances no mano a mano com um tucano no plenário. Já o PT dirá que Fruet não é Severino, não tem penetração na massa dos deputados e que as situações não são semelhantes. Eu incluo outra variável: metade da Câmara é de estreantes, o que confere ao processo um grau de incerteza muito grande. Enfim, se o governo e o PT queriam confusão, têm-na. Os que pariram Mateus, agora embalem-no. Eu vou comprar minha pipoca e meu refrigerante. E esperar para ver como os gênios vão matar a charada.

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Na RDP da Coréia, em 1985 (16/01)


Escrevi aqui outro dia que estive na República Democrática e Popular da Coréia em 1985, numa delegação do então semanário Voz da Unidade, do PCB. Recebi muitos emails perguntando se tinha alguma foto dessa viagem à Coréia do Norte. Tanto fucei em casa que achei. A seta aponta este blogueiro. O terceiro da esquerda para a direita na foto é o jornalista Silvano Tarantelli. Duas posições à esquerda do Silvano está o saudoso jornalista gaúcho João Aveline, o chefe da nossa pequena (mas combativa) delegação. Clique na foto para ampliá-la.

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segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Por que não eu? (15/01)

O presidente do PT, Ricardo Berzoini, dá hoje uma aula de política na entrevista que concede a Fernando Rodrigues na Folha de S.Paulo. Alimenta a tese de que o partido pode apoiar um nome de outra legenda para suceder Luiz Inácio Lula da Silva em 2010. Talvez não seja a intenção do presidente do PT, mas o efeito prático de uma declaração assim é a proliferação do "por que não eu?". Todo mundo que ambiciona a vaga de Lula começa a se perguntar se o melhor mesmo não seria aproximar-se do PT para, quem sabe?, estreitar laços com o partido e credenciar-se a receber o seu apoio na corrida presidencial. Na pior das hipóteses, num hipotético segundo turno sem o PT. Puxa, será que isso tem a ver com a atual cizânia no PSDB? Bem, eu li a entrevista feita pelo Fernando e li também uma nota que ele postou no blog, com o título Ciro Gomes está entre os nomes possíveis do PT para presidente na eleição de 2010. O deputado Berzoini é mesmo um craque. Minhas homenagens e meu respeito.

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domingo, 14 de janeiro de 2007

Um teste sobre a posição do PT em relação ao aumento do salário dos deputados - ATUALIZADO (14/01)

Nessa história da aliança PT-PSDB para eleger o presidente da Câmara dos Deputados, os tucanos estão levando muita bordoada, enquanto o PT sai de fininho. É natural. Ninguém poderia pedir ao PT que rejeitasse um apoio dessa importância. Mas tem um detalhezinho que ficou para trás e é bom registrar. A disputa pela Mesa e pela presidência começou, para valer, naquele melê em torno do aumento do salário dos deputados. Corrijam-me se eu estiver errado, mas lembro-me de que três partidos lideraram a mobilização contra equiparar os subsídios dos parlamentares ao dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), o reajuste de mais de 90%. Foram eles o pequeno PSOL, o médio PPS e o grande PT. No dia em que o assunto foi decidido pelos seus pares, o líder do PT na Câmara dos Deputados deu entrevistas seguidas para afirmar que o seu partido discordava da medida e que propunha, no lugar, o reajuste só pela inflação acumulada. Lembro-me de que pelo menos dois ministros petistas, Guido Mantega (Fazenda) e Luiz Marinho (Trabalho), criticaram duramente a iniciativa dos líderes da Câmara e do Senado. Agora, o candidato do PT à presidência da Câmara dá a entender que pode vir a apoiar o tal aumento. Por justiça, é preciso lembrar que Arlindo Chinaglia (assim como Aldo Rebelo) sempre defendeu a equiparação, mesmo quando seu partido a combatia. Mas a dúvida não é sobre a posição do líder do governo. Eu conheço o Arlindo e digo que um defeito ele não tem: a hipocrisia. Minha dúvida é sobre a posição do PT. Vamos então ao teste de múltipla escolha:

Sobre a equiparação do salário dos deputados federais ao salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal, você diria que o PT:

a) É contra.

b) É a favor.

c) Pode ficar a favor ou contra, dependendo de que posição lhe trouxer mais dividendos políticos num dado momento.

d) Este teste é uma sacanagem. O PT tem suas posições, mas dá aos filiados ampla liberdade para segui-las ou não. Quem formulou o teste está, visivelmente, querendo criar constrangimentos para o PT na eleição da Câmara dos Deputados.

e) As alternativas (c) e (d) estão corretas.

Aponte a resposta que lhe parecer mais correta. Atenção: só aponte a alternativa. Não explique a sua resposta, para não ajudar (atrapalhar) os demais. Daqui a pouco, o gabarito.

Atualização às 20h03:

A certa é a alternativa (c). A (b) está errada, por razões óbvias. O PT combateu o aumento em dezembro. A (a) também está errada, já que o PT apóia para a presidência da Câmara dos Deputados um candidato que defende a equiparação. A (d) tem pelo menos uma informação errada, já que o PT não dá aos filiados a liberdade de aceitar ou não as deliberações do partido. E se a (d) está errada a (e) também está. Portanto, por eliminação, a alternativa correta é a (c). Você pode até não concordar com ela, mas estará certo se assinalá-la. Sacou?

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Pelo menos uma boa notícia. E uma idéia (14/01)

Em meio à balbúrdia dessa eleição da Mesa da Câmara dos Deputados, uma boa notícia. Reportagem do JB dá conta de que os ministros de Luiz Inácio Lula da Silva neste segundo mandato terão que ser bons de voto no plenário da câmara baixa do parlamento. É bom. Mas não basta. Para minimizar a confusão política, será preciso que o presidente tenha a disposição de demitir os auxiliares cujos apoiadores não votem com o Planalto. Parece-lhe radical? O Brasil tem duas dezenas de partidos representados no Congresso, o que confere à nossa democracia uma pluralidade invejável. Mas essa pluralidade precisa acoplar-se à funcionalidade para que as coisas caminhem bem e o país possa trabalhar com alguma tranqüilidade. Uma das expressões mais adequadas para o sistema político brasileiro é o tal "presidencialismo de coalizão". A definição, se não me engano, é do cientista político Sérgio Abranches. Eu prefiro falar em presidencialismo parlamentarista. Entre nós, estabilidade política na democracia só existe com divisão de poder entre os partidos. Eu não falei divisão de cargos, eu disse divisão de poder. E quem tem poder tem também responsabilidades de governo. Você sabe a diferença entre distribuir cargos e distribuir poder? Então comente. Ah, sim. Acho que o presidente deveria convidar para o governo representantes do PSDB. Não faz sentido o terceiro maior partido brasileiro (e o até então maior da oposição) entrar como um ator de segunda linha, um figurante na coalizão governamental, só ajudando a garantir a eficácia congressual e a reduzir o custo político das ações do governo. Poderia ser um quadro tucano propriamente dito ou alguém de fora, mas indicado pelo partido. Quem apóia, participa. Quem ajuda, governa junto. É democrático. Por que não?

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sábado, 13 de janeiro de 2007

Já que reduziram a poluição visual, vamos ficar de olho bem aberto (13/01)

Ainda na Veja, outra interessante reportagem sobre a aplicação da lei paulistana que combate a poluição visual. Sem outdoors, cartazes faixas e quetais, São Paulo vai ficar mesmo mais bonita e civilizada. Depois que todo o lixo visual tiver sido retirado, a cidade estará prontinha para receber projetos com novos conceitos de comunicação visual. Aliás, é o que está na reportagem:

Numa segunda etapa, quando a cidade estiver completamente sem anúncios, o município pretende estabelecer novas regras e permitir a publicidade em alguns pontos limitados.

Vamos ficar de olho no que vem por aí. Para ver quem vai perder, quem vai ganhar e quem vai fazer bons negócios.

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Números interessantes (13/01)

Outro caso para vocês comentarem. São números bem interessantes trazidos pela reportagem de hoje da revista Veja sobre a marca brasileira de 100 milhões de celulares. Trechos da matéria:

Sendo pré-pagos oito em cada dez celulares, a renda que cada brasileiro proporciona é pequena, em comparação com o que ocorre em países desenvolvidos. Atinge 10 dólares, contra 40 dólares na Europa.

Com 100 milhões de linhas, o Brasil é o sexto maior mercado de telefones móveis do mundo, de acordo com dados de 2005. Deve atingir o quinto posto, ultrapassando o Japão, quando os números relativos a 2006 forem formalmente atualizados pela Anatel.

Mas existem no país 54 linhas para cada 100 habitantes. Numa comparação internacional, essa relação coloca o país no 92º lugar no ranking de penetração de mercado.

Entederam onde está o problema? O sexto maior mercado de telefones celulares do mundo é apenas o nonagésimo-segundo no critério de penetração. E a receita por unidade de investimento é quatro vezes menor do que na Europa. Deu para perceber uma das razões por que o Brasil cresce pouco? Será que tem a ver com a renda das pessoas e das famílias?

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