segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O plebiscito, a sabedoria chinesa e a panelinha - ATUALIZADO (03/12)

Um registro sobre o mecanismo plebiscitário que permitiu aos opositores de Hugo Chávez derrubarem a reforma constitucional que instituía, entre outras coisas, a reeleição ilimitada. Não fosse pelo referendo, por esse mecanismo da assim chamada democracia direta, a reforma estaria em vigor. Sim, pois ela foi aprovada pelo Congresso venezuelano, dentro da lei. Recorde-se que no Brasil a reeleição para o Executivo, por exemplo, foi aprovada sem passar por um plebiscito ou referendo. Talvez seja o caso de copiar a Venezuela de Hugo Chávez nesse aspecto: toda mudança constitucional que possa envolver a organização dos poderes deveria passar por um referendo para só então vigorar. Seria uma boa. Por que Chávez foi derrotado? Culpar as abstenções é uma tautologia. Elas aconteceram porque Chávez não reuniu apoio político suficiente em torno de seu projeto. E por que ele não conseguiu atingir essa massa crítica de suporte político? Quem conhece bem a Venezuela me conta que isso se deu principalmente porque Chávez não conseguiu unificar as Forças Armadas para fazer a transição (especialmente ideológica) do nacionalismo bolivariano para o socialismo do século 21. E porque deu aos inimigos o argumento de que pretendia se eternizar no poder -por meio do mecanismo das reeleições ilimitadas. Pelo visto, na Bolívia as forças políticas de esquerda caminham para corrigir esse último erro. É o que diz o vice-presidente boliviano, Álvaro Garcia Linera, em ótima entrevista publicada na Folha Online. Uma boa, tirarem esse bode da sala. Em vez de debater quantos mandatos deve ter o presidente, vamos discutir o que fazer com o estado e os recursos do país. Quem topa discutir? Sobre as reeleições ilimitadas, parece que o presidente russo, Vladimir Putin, foi mais sábio. Em vez de mudar a lei, operou dentro dela para obter uma gigantesca vitória política, que o mantém como principal líder de seu país. Mais significativo nas eleições parlamentares russas foi ver as correntes liberais varridas do mapa. Nenhum partido liberal conseguiu chegar nem perto da cláusula de barreira de 7%. Resta a choradeira dos derrotados. Essa turma é assim mesmo. Acusam os outros de não serem democratas, mas nunca aceitam perder eleições. Esta semana a revista Veja aponta os Brics (Brasil, Rússia, China, Índia) como os países-esperança para a sobrevivência do capitalismo. Só que nos Brics ninguém quer saber de políticos liberais. Ainda que a eternização de líderes no poder ande sem ibope. Esse é o enigma a decifrar. Aliás, ele já foi decifrado, naturalmente que pelos chineses. Não é a toa que alternar líderes no comando da China virou dogma desde Deng Xiaping (o da foto). Em outubro do ano passado, recordei no post Minhas qualis o que me disse um taxista em São Paulo no final de 2002 sobre o rodízio no governo:

Perguntei ao condutor em quem ele tinha votado. Lula. Perguntei se achava que o novo governo iria mudar muita coisa.

- Não. Porque governo é tudo sempre muito parecido. A gente só troca porque se deixar o mesmo pessoal lá durante muito tempo acaba virando uma panelinha.

O povo não gosta de perenizar panelinhas no poder. Ou o poder se renova ou é trocado. De um jeito ou de outro.

Atualização, às 16:42 - Troquei "coesionar", que não existe, por unificar. E sobre as Forças Armadas, faltou registrar que boa parte da resistência delas ao socialismo de Chávez decorre da desconfiança dos militares em relação a armar os reservistas.

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19 Comentários:

Anonymous JV disse...

Alon, você é um autoritário!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 14:00:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

JV

Alon é coerente com uma visão autoritária da política cuja origem certamente deve ser creditada à sua formação e militância comunistas.

E isso não é uma ofensa. Ao contrário. É um elogio à sua coerência e coragem em defender posições num tempo em que posições são sempre relativizadas pelos politicamente corretos de todos os matizes. Alon tem vergonha na cara. E só quem tem vergonha na cara pode dar a cara a bater.

Alon não pratica o famigerado isentismo. Ele defende posições com base em análises dos fatos da polítca e da economia.

Paradoxalmente (e para mim esse é o grande mistério da sua personalidade) ele abre sua caixa de comentários para que sem dó ou piedade seus opositores o desanquem.

Abs.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 15:09:00 BRST  
Blogger FPS3000 disse...

Alon, eu acrescentaria um bom motivo a esse enigma do NÃO no plebiscito chavista: o voto facultativo.

A grande maioria das teses do plebiscito eram difíceis de ser entendidas pela maioria da população , e finalmente a oposição venezuelana (principalmente dos universitários) entendeu que para derrotar Hugo Chavez ela precisa participar do processo político, e não desprezá-lo - como fez no passado.

Chavez deveria estar preocupado, principalmente porque terá "recall" das eleições daqui a dois anos - e, como os anti-chavistas aprenderam como funciona a brincadeira, logo logo ele sentirá o que significa a perda do poder (ou parte dele).

Abs.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 15:32:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
"coesionar", que palavrinha feia, hein?
O significado de "coesionar as Froças Armadas": fazer o que ele quer à força, como todo e qualquer ditador.
E, além do mais, Chavez perdeu o plebiscito e a popularidade porque está faltando comida nos supermercados.
Sds.,
de Marcelo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 15:34:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

JV

Alon defende e ataca posições. E que mérito há em defender e atacar posições de opositores que não sabem se defender e atacar?

Talvez aqui uma chave para o mistério: Alon, como todo comunista de elite (estirpe), combate como um aristocrata. Embora não escritas, há regras claras aqui.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 15:58:00 BRST  
Anonymous Cfe disse...

Boa Paulo!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 19:33:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon

Em relação ao tema do post, não adianta. Acompanhei com muito cuidado nesses dias os acontecimentos da Venezuela.

Uma vitória do "sin" teria uma repercussão muito positiva para o lulismo. Seria uma "grande lição de democracia". Um "grande exemplo a ser seguido". Um grande trunfo na mesa de negociação do grande Centrão que nos aguarda para breve. Agora eu penso que o grande negocio vai ser mesmo a prorrogação dos mandatos. A tese do terceiro mandato foi sepultada com a derrota do "sin" e com os 65%. Até o José Dirceu já reconheceu isso,mesmo que pela via tortuosa da fala do político.

Como o "não" ganhou, eles vão ter que contentar-se com uma "vitória da democracia". Mais ou menos na linha do que você escreveu no post.

Imagino que se o "sin" ganhasse o seu post seria muuuuinto diferente. hehe

Considero a vitória do "não" um alento e, tomara, o começo do fim do chavismo para os venezuelanos. Essa vitória também vai colocar um freio de racionalidade nas maluquices bolivarianas do Chávez.

Considero que o protagonismo do Chávez, desde que tomou um sonoro cala boca do rei da Espanha, pesou significativamente nos acachapantes 65%. Nesses dias, todos puderam ver um Chávez muito atormentado por fantamas. Sua penúltima cartada foi tornar o referendo um plebiscito sobre a sua pessoa. Votar "sin" era estar com Chávez. Votar "nao" era estar contra Chávez. Deu-se mal.

A última cartada foi o passa moleque das pesquisas de intenção de voto na boca de urna. Claro, os jornalões daqui entraram na mesma esparrela, como demonstram os noticiários brasileiros on line e as capas dos jornais de hoje. A favor dos jornalões de europeus, pesa o fuso horário e a hora limite de fechamento da edição do dia. Para os daqui, as razões são outras.

Aliás, eu esperava um post teu analisando essa pesquisa dos 65%.

abs.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 19:38:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Meu comentário de agorinha foi como anônimo por erro meu.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 19:39:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Paulo:

As idéias, como os músculos, fortalecem-se quando enfrentam resistência. Não faço parte do clube dos donos da verdade. Procuro analisar os fatos à luz dos meus conhecimentos e da minha experiência, que naturalmente são limitados. É também um exercício interessante enfrentar com argumentos, sem xingar nem apelar, os preconceitos (e os pós-conceitos) contra a esquerda e os comunistas. Quanto à pesquisa Datafolha com 65% contra o terceiro mandato, acho que o assunto está indiretamente abordado neste post. O povo é contra o continuísmo, porque identifica na alternância uma maneira de expressar a soberania popular.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 19:49:00 BRST  
Anonymous Marcos disse...

Curioso a interpretação dada aos 65% que rejeitam um terceiro mandato, na qual eu me incluo.
Para mim a surpresa é ter 33% favoráveis ao terceiro mandato.
Não nos esqueçamos que no mundo real esse assunto não está em pauta. É mais um balde de água fria
para a oposição.
Sinceramente, tenho prestado mais atenção nas vendas do natal, no número de novos carros licenciados e coisas do genêro.
Fico imaginando a reação ao discurso apocalíptico da oposição depois que o cidadão acabou de comprar uma geladeira nova. Deve passar na cabeça do sujeito que também está na hora de trocar a televisão ou assinar uma tv a cabo.
A programação está muito batida.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 21:45:00 BRST  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Paulo: não é "paradoxal" que o Alon abra a caixa de comentários para "que sem dó ou piedade seus opositores o desanquem". Isso é a internet, o choque do contraditório sem "muros de proteção". Se estivéssemos num clima menos belicoso na sociedade brasileira, imagino que entenderíamos muito melhor essa possibilidade.

Sobre o referendo...

1) Me parece que Chávez é maior que o chavismo, maior que o "socialismo do século XXI". Ele vai ter que levar em conta isso daqui pra frente.

2) Interessante o surgimento de uma oposição orgânica e não-golpista na Venezuela. Pode ser a superação definitiva da velha ordem política.

3) Chávez só tem um caminho: como Putin, operar dentro da lei para se manter como grande líder venezuelano.

4) Sobre o massacre das correntes liberais nas eleições russas: depois do que aconteceu com a Rússia nas eras liberais de Yeltsin, não podia ser de outra maneira. Os liberais vão passar 20 anos à margem da luta política russa.

5) Sobre o terceiro mandato de Lula: a Datafolha deu mais munição ainda pro presidente encerrar o assunto. Para desespero da oposição, que vai precisar de outra bandeira de união, e do PT, que vai ter que ajustar suas contas internas sem Lula como válvula de escape.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 22:07:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Caro César

Vou explicitar: é paradoxal que um jornalista com visão autoritária da política (berço leninista) proceda como o Alon do blog. Nada contra até um limite que eu sei qual é. Se eu começar a forçar certos limites o Alon simplesmente me corta dos comentários. Nada contra também. O blog é dele. Se o Alon começar a forçar os meus limites eu simplesmente corto o blog dos meus favoritos.

Faz um bom tempo que frequento o blog, o que me dá uma certeza que isso não deve acontecer, ou seja, uma degola de um ou de outro. Digamos que somos jacobinos moderados. Já nos esbarramos, mas tudo nos limites da civilidade.

Não disputamos sobre verdades aqui. Disputamos por opiniões. É um blog de política.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 23:04:00 BRST  
Blogger Cláudio Ladeira disse...

Pessoal,
Já que o assunto é bolivarianismo e socialismo, vejam esse interessante texto de Karl Marx sobre Bolívar:

http://www.marxists.org/espanol/m-e/1850s/58-boliv.htm

terça-feira, 4 de dezembro de 2007 00:19:00 BRST  
Anonymous trovinho disse...

Playboy concebe o mundo como uma passarela da pose, acha que o modelito da "gang" do Chavez cafonérrimo. Bom mesmo é o corte do tecido sublime ao sublimado do rei. Quando a barbárie alcançá-lo, na modernidade do umbigo, só restará um "why?".

terça-feira, 4 de dezembro de 2007 03:12:00 BRST  
Anonymous Mars disse...

Com relação a Chavez. A venezuela mudou a historia da América do Sul. Quando disse nao, mostrou que a democracia ainda existe por la. Agora a oposição tem aprender a ser oposição para manter a democracia. Com relação a Putin que varreu os outros partidos como voce disse. Melhor voce verificar como ele fez isso, o COMO é muito importante. Pesquise, voce vai descobrir a verdade. Sou contra qualquer tipo de ditadura: esquerda, direita, militar, proletariado etc...

terça-feira, 4 de dezembro de 2007 04:32:00 BRST  
Blogger Frodo Balseiro disse...

Interessante observar análises políticas sob o pnto de vista da esquerda.
O problema, segundo Alon, é que Chavez não conseguiu "explicar" direito as medidas claramente autoritarias e golpistas para a população.
Evidentemente não se trata disso!
Quando alguem propõe o fim da alternancia do poder, os super poderes para o executivo, já esta aí dado o carater golpista do proponente.
Fica parecndo algo mais ou menos assim: "Ah pobre Chavez, perdeu porque não explicou direito seu grande projeto"
Ocorre que o projeto é ruim e qulquer um que respeite a democracia sem adjetivos sabe disso.
Claro que a esquerda, viciada nos seus soviets e politburos da vida, acha a coisa mais normal do mundo criar "uma nova democracia" em que "as boas intenções" e os projetos megalomaniacos de poder total sem prazo para acabar são a coisa mais legalzinha que pode exister!
Ninguem, (claro, os bem intencionados) quer uma nova Cuba, Albânia, modelos falidos, destruidos, que só subsistem por submeterem a população ao tacão do autoritarismo, da censura, da limitação das liberdades individuais.
E nós, somos INDIVÍDUOS, E NÃO COLETIVOS!

terça-feira, 4 de dezembro de 2007 06:52:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon : Armar os reservistas,como
fazem os suiços seria uma temeridade.
Fala-se que na Suiça quando um
reservista decide suicidar-se , não
faz uso da sua arma militar , mas
recorre a uma pistola comprada no
mercado negro !
Na Venezuela tais armas seriam
ameaça aos chefes militares, bem
como ao próprio Chávez.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007 10:01:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
pela parte que me toca, obrigado por eliminar o tal "coesionar". Boa a menção à discordância militar em relação a armar a população civil. Mas ainda faltou salientar que está faltando comida (leite, incluído) nos supermerdados da Venezuela e que isso certamente descontenta o povão.
Sds.,
de Marcelo.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007 14:33:00 BRST  
Anonymous El Chavo del Ocho disse...

Querido Alon, veja o gráfico na capa de Valor, hoje, terça-feira.
Quem derrubou Goulart, Allende foi a inflação, alta de preços, carestia etc etc. E, quem elegeu e reelegeu FHC (e, reelegeu Lula) foi a confiança que o eleitor depositou no controle da inflação, alta de preços, carestia etc etc
Chaves está descuindando do abastecimento - quem viu é simpatizante dele - e, isso é mortal a um dirigente.
Aliás, o PT ainda não pediu desculpa ainda à equipe econômica de Lula (e, de FHC também)pela enormidade de bobagens que emitiu no primeiro ano de governo Lula. Se, Lula não fosse esperto, hoje seria um ex-presidente "impichado".

terça-feira, 4 de dezembro de 2007 14:38:00 BRST  

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