terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Memórias do Afeganistão (18/12)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (18/12/2007) no Correio Braziliense:

Jamais se decifrou o enigma fundador da angústia essencial do tucanato: como agradar a um tucano sem despertar nos demais o instinto assassino que, na política, apenas o ciúme faz nascer

Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Vai ganhar dinheiro quem apostar suas fichas na hipótese de que o governo Luiz Inácio Lula da Silva recuará das veleidades reformistas que ainda lhe restam, na esfera das mudanças legislativas. O desfecho inglório (para o governo) da batalha da prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) não apenas selou um ano em que nada aconteceu de relevante no Congresso Nacional. Deixou também definitivamente claro para o Executivo que o Senado é um terreno extremamente perigoso, e que o melhor é não depender dele para nada.

Uma espécie de Afeganistão. Ou um Iraque. Ou um Líbano. Você aventurou-se ali e conseguiu sair minimamente inteiro, mesmo que com o rabo entre as pernas. Dê-se então por satisfeito. Não cometa a estupidez de tentar novas incursões.

O governo tem cerca de 45 votos garantidos na Casa. Insuficientes para mexer na Constituição em assuntos nos quais os adversários não estejam de acordo. Nessa correlação de forças, negociar com a oposição no Senado tem sido uma atividade de risco. Um buraco sem fundo. Ainda que no caso da CPMF o grau de exotismo e bizarrice tenha superado as expectativas. Aconteceu de tudo. Senadores que aderiram a partidos da base, mas votaram com a oposição. Senadores da oposição que desejavam votar com o governo, mas foram demovidos por ameaças. Acordos fechados e depois rompidos. Gente votando contra coisas que passou a vida toda defendendo. E por aí afora.

Na enciclopédia de trapalhadas, um capítulo especial deve ser dedicado à condução nas negociações entre o governo e o PSDB. Não é de hoje que o situacionismo petista tenta encontrar um modus operandi com os tucanos no Senado. Sem nunca porém obter sucesso. Esses movimentos governistas nascem de uma fé mítica, pela qual supostas afinidades programáticas entre o PT e o PSDB poderiam permitir a Lula governar sem maioria na Câmara Alta, apenas por meio de acordos pontuais com seu adversário mais costumeiro nas disputas eleitorais. Tal fé não é desinteressada. Ela tem a sua utilidade. Ao se propor a relativização da aliança PT-PMDB, dá-se uma espada afiada para que petistas possam resistir ao peemedebismo na guerra pela ocupação de espaços de poder na esfera federal. Um olho no peixe e outro no gato. Ou no cargo.

O problema, para Lula, é que os beijinhos entre tucanos e petistas no Senado sempre acabam em bicadas. Desta vez, a brincadeira custou ao governo R$ 40 bilhões anuais no orçamento. Como de hábito, a coisa pareceu largar bem, com reuniões públicas, fotos, sorrisos e promessas de um acordo “programático”. Mas os sonhos começaram a virar fumaça quando, mesmo faltando ainda mais de um mês para a votação, o PSDB decidiu formalmente parar de negociar, alegando que não lhe agradavam as propostas do governo.

Qualquer um que tenha liderado pelo menos uma greve num sindicato ou num centro acadêmico sabe que não se rompem negociações assim, só porque você não gostou do que o outro lado lhe propôs. Se você está mesmo a fim de chegar a algum acordo, você aumenta a pressão e continua discutindo. O PSDB rompeu, ruidosamente, o diálogo público com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não só por acreditar que o governo estava oferecendo pouco. Rompeu porque alguns tucanos ficaram com medo de que outros tucanos faturassem mais.

Não que as negociações tenham morrido ali. Elas continuaram nos bastidores, em fogo brando, pois o governo nunca acreditou na história da carochinha que lhe contavam seus líderes no Senado, de que mesmo sem o PSDB o situacionismo conseguiria reunir os 49 votos necessários. Mas, ainda que as conversas tenham prosseguido, jamais se decifrou o enigma fundador da angústia fundamental do tucanato: como agradar a um tucano sem despertar nos demais o instinto assassino que, na política, apenas o ciúme faz nascer. Daí o capítulo final ter alcançado o recorde do estupor -quando o PSDB não conseguiu operar coeso a guinada, mesmo vendo literalmente todas as suas reivindicações serem aceitas pelo governo.

O Democratas é hoje um partido 100% concentrado em forjar para si próprio uma identidade doutrinária, pelo que merece a atenção e o respeito mesmo de quem eventualmente possa divergir do seu ideário. Já o PSDB tem sido apenas o palco de guerras tribais sem fim, próprias de uma legenda que já se imagina no palácio e cuida de promover o ajuste interno de contas que precede o assalto decisivo ao poder.

Numa situação assim, você há de convir, melhor mesmo para o governo será deixar a oposição em paz. A não ser que o Palácio do Planalto nada tenha aprendido de sua recente campanha no Afeganistão.

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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

O DEM está certo: sem identidade, um partido fica à mercê dos adversários. Pior para o PSDB que ainda não entendeu isso.
Sds.,
de Marcelo.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007 14:04:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

A professora Maria Sylvia deu boas pistas sobre o enigma fundador (muito boa essa)numa entrevista ao ESP, reproduzida com livre acesso aqui

http://robertounicamp.blogspot.com/2007/12/domingo-16-dezembro-de-2007-alias-revs.html

terça-feira, 18 de dezembro de 2007 18:42:00 BRST  
Blogger cludemir disse...

tratativas com os tucanos, usando o guido, só ia dar nisso..., ele não é do ramo. Se nem o lula é chegado à política....é um menino birrento que foi escalado para ganhar e não sabe o que fazer, falta-lhe um tique de líder...poderia ser muito maior, mas vai passar e sumir na história.............

terça-feira, 18 de dezembro de 2007 21:25:00 BRST  
Anonymous Renan Bastos Nunes disse...

Vamos fazer uma aposta? Em qual eleição o PSDB fenece: eu aposto as eleições de 2008.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007 22:17:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Renan,
vc. está atrasado. Esse enterro já aconteceu nas eleições de 2006.
Sds.,
de Marcelo.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007 10:32:00 BRST  

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