sábado, 1 de dezembro de 2007

Como os homens devem enfrentar as injustiças? E os termos da disputa "humana e natural" (01/12)

Li com atenção a encíclica papal divulgada ontem. A Igreja Católica aponta a absolutização do racionalismo e o abandono da fé cristã como fontes siamesas do mal. Corretamente (de um ângulo metodológico), indica a Revolução Francesa como ponto nodal desse processo segundo ela maligno. E, naturalmente, identifica no marxismo e no movimento histórico que mais bem o materializou, a Revolução Russa, um desdobramento lógico e concentrado do iluminismo. Como escrevi em O ódio à lembrança dos mortos reflete o medo na alma dos vivos, vive-se um ambiente de Congresso de Viena. Daí as crescentes dificuldades dos liberais para se manterem sobre a sela de seu liberalismo, enquanto o touro bravo da reação política e filosófica corcoveia por baixo deles, liberais. É sintomático o atual casamento de conveniência entre os supostos campeões da individualidade, da liberdade individual, e os críticos ferozes do liberalismo e da ruptura política que abriu caminho para sua hegemonia -a Revolução Francesa. Sintomático de que o liberalismo encontra seu limite num mundo no qual a ampliação de direitos democráticos implica questionar as bases em que se organiza uma sociedade fundada na supremacia do indivíduo sobre a coletividade. Nesse aspecto, a nova ofensiva do Papa Bento 16 contra o marxismo é uma das maiores homenagens que se poderiam prestar no nonagésimo aniversário de Outubro. Obrigado, Santo Padre. Eu tenho um profundo respeito pela Igreja de Pedro. Tanto que me insurgi contra o pseudolaicismo de quem quis enodoar a visita de Bento 16 ao Brasil este ano (Quando a Igreja ajudava a combater a ditadura ninguém berrava pelo "estado laico"). Só que de vez em quando me permito discordar do Papa. Até porque a Igreja é uma organização de homens. Portanto falível. Donde não ser razoável que ela se arrogue o direito de definir, de modo absoluto, os limites entre o certo e o errado (Equívocos esclesiásticos e a dívida com Pombal). A Igreja já incorreu em erro e pecado no passado, e muito. A Igreja não apenas conviveu com a tortura, mas adotou-a quase como parte de sua liturgia, na Inquisição. A Igreja já chancelou o genocídio, no episódio da colonização espanhola na América. A Igreja foi suave com o nazismo e o fascismo, quando isso lhe era conveniente (na foto, o Papa Pio 12). E os erros eclesiásticos não são apenas pretéritos. Alguém discorda de que a Igreja é leniente com os múltiplos casos de pedofilia entre os padres? Mas este post não é para falar mal da Igreja Católica. Diz o Papa em sua encíclica que a salvação não é obra do homem, mas de Deus. E que inverter essas bolas resulta em coisas monstruosas. Da leitura da encíclica papal restou-me pelo menos uma dúvida. Até que ponto devem os homens e mulheres enfrentar as injustiças? (Leia O El País talvez ache que Petáin foi um herói.) Entre os trechos claríssimos da encícilica há este:

O cristianismo não tinha trazido uma mensagem sócio-revolucionária semelhante à de Espártaco, que tinha fracassado após lutas cruentas. Jesus não era Espártaco, não era um guerreiro em luta por uma libertação política, como Barrabás ou Bar-Kochba. (...) Os homens que, segundo o próprio estado civil, se relacionam entre si como patrões e escravos, quando se tornaram membros da única Igreja passaram as ser entre si irmãos e irmãs –assim se tratavam os cristãos mutuamente. (...) Apesar de as estruturas externas permanecerem as mesmas, isto transformava a sociedade a partir de dentro. Se a Carta aos Hebreus diz que os cristãos não têm aqui neste mundo uma morada permanente, mas procuram a futura (cf. Heb 11, 13-14; Fil 3,20), isso não significa de modo algum adiar para uma perspectiva futura: a sociedade presente é reconhecida pelos cristãos como uma sociedade imprópria; eles pertencem a uma sociedade nova, rumo à qual caminham e que, na sua peregrinação, é antecipada.

Aí está. O que antecipa a nova sociedade não é lutar contra as injustiças da atual, mas incorporar-se à peregrinação liderada por Jesus Cristo. E os "patrões e escravos" passam a ser "irmãos e irmãs". Em miúdos, é o que segue. Se o sistema estrutura-se de modo a que o trabalhador comum esteja condenado a enfrentar uma velhice miserável, enquanto seu patrão, a quem enriqueceu com o seu trabalho por décadas, goza de uma velhice em meio à abundância, isso é uma injustiça, sim. Mas que pode ser enfrentada se ambos, escravos e patrões, unirem-se numa peregrinação comum, sob o comando do herdeiro do trono de Pedro. Eis a distinção essencial: a afirmação ou a negação da luta de classes. O conflito social ou a arbitragem de uma entidade superior -no caso a Igreja. Chegamos ao ponto em que se explicam parte das dificuldades do catolicismo em regiões como a nossa, na qual a época política é marcada pela emergência de grupos sociais majoritários, historicamente oprimidos. Em situações como a da convulsionada América Latina, as palavras do Papa permitem uma leitura convenientemente reacionária. Em lugar de nacionalizações e de redistribuição forçada de riquezas, as missas e a caridade. É uma semeadura que, obviamente, não encontra terreno tão fértil assim nas massas exploradas e massacradas do continente americano, ao sul do Rio Grande. Até porque, convenhamos, a Igreja Católica assistiu de braços cruzados em nossos países a séculos em que o direito à força foi largamente utilizado por um dos lados. Agora, acontece a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar. E infelizmente, talvez por causa mesmo de sua passividade histórica (ditada filosoficamente?), a hierarquia de Roma não está em condição de oferecer-se como mediadora. Ou de fazer crer que a comunhão em Cristo possa substituir com vantagem a luta entre oprimidos e opressores. Talvez seja mesmo uma pena a Igreja estar enfraquecida a esse ponto. Recente reportagem da revista Veja (mais uma) contra a esquerda contém a seguinte passagem:

A tentativa soviética de extirpar do novo homem tudo o que fosse humano e natural resultou, como era de esperar, no fim do comunismo e na sobrevivência do que é humano e natural.

"Humano e natural", depreende-se da leitura da reportagem, é um sistema que, para tristeza do Vaticano, elege a competição e o individualismo como ícones absolutos. E é fato que a violência e a selvageria são 100% "humanos" e "naturais". Tudo bem, então. Só que, se os termos da disputa são esses, não vale reclamar quando a lógica da força bruta começa a favorecer o outro lado.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

20 Comentários:

Anonymous Cfe disse...

Qual é o problema Alon? Foi o fato de várias figuras da Igreja Católica venezuelana se insurgirem contra o Hugo Chavez?

Liga não. Muitos religiosos tambem se debateram contra o regime militar brasileiro. A Igreja é suficientemente abrangente para ter pessoas com diferentes visões políticas.

O problema é quando surge alguem prometendo fazer a Terra ser transformada num Céu. Apesar de ser impossível isso acontecer, pois nem a Suiça é um Céu, esse caminho quando posto em prática resulta na eliminação física (ou tentativa) de todos aqueles que não concordam com o mesmo e fazem frente a essa corrente. E não me venha falar em Inquisição porque a mesma apesar de ter sido uma besteira matou muitíssimo menos gente do que a revolução francesa.

Queria o que? Que a Igreja divulgasse um documento apoiando revoluções, pancadaria, mortes? Isso é impossível já que característica mais marcante da estrutura da Igreja é a pudência política, as vezes até em demasia como diriam alguns. Se alguem deseja revolução que trate de seguir os ensinamentos de Jesus porque é muito mais difícil fazer isso do que dar tiros ou coisa do gênero.

Curiosamente você afirma que os liberais tem um "casamento de conveniência" com os que lhes são críticos. Não acho que isso seja verdade.

sábado, 1 de dezembro de 2007 23:16:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
por que vc. não tenta contra-argumentar a encíclica papal? Usar esse tipo de discurso rasteiro de que "a Igreja já errou no passado" não é argumento no sentido próprio. É apenas retórica.
Sds.,
de Marcelo.

domingo, 2 de dezembro de 2007 01:07:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Uma maneira de entender o papel da igreja na NOSSA SCOCIEDADE ocorre na questao do ABORTO. I igreja pode se dizer contra, fazer ou participar contra o ABORTO. Pode sim. Mesmo assim continuaremos a viver numestado laico. O que a igreja nao pode fazer e por exemplo: Impedir a compra de camisinhas pelo governo. Nesse caso nao podem. Mas uma pergunta se a ciencia nao pode resolver todos os nossos problemas.e e a Igreja pode?

domingo, 2 de dezembro de 2007 01:25:00 BRST  
Anonymous José Policarpo Jr. disse...

De fato, no conflito entre Igreja Católica e Religião Marxista é muito difícil sobrar alguma racionalidade, como sempre sói acontecer em todos os conflitos religiosos. Religião... religião...

domingo, 2 de dezembro de 2007 01:54:00 BRST  
Anonymous JV disse...

isto é cinismo de sua parte Alon...

domingo, 2 de dezembro de 2007 02:54:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Atualmente não é o liberalismo que está na berlinda. É o endeusamento de quem arroga-se não ser liberal ou de condená-lo como fruto de todos os males, associando-o ao Capitalismo mais rastaqüera. Em contrapartida, criam-se factóides. Os resultados dessa salada: a culpabilização de todos, a auto-vitimização, a indulgência, a compaixão e o pieguismo como molas da ação política. Pela Encíclica, apreende-se que o endeusamento é pernicioso. Quando vira foco de ação política, então, cria uma adoração totêmica, extemporânea. Mas muito útil, quando deseja-se que o foco das discussões seja sobre aspectos idílicos, utopias através de metáforas que tentam lograr toldar a realidade.
Sotho

domingo, 2 de dezembro de 2007 08:56:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, com todo respeito, o debate entre a Igreja Católica e o Marxismo, para todos os efeitos práticos, encerrou-se no século passado. A democracia que conta hoje é aquela fundada no indivíduo, com liberdade de pensamento e organização. Cada cabeça um voto, onde ninguém deve explicações sobre os motivos de seus votos a qualquer coletividade. A outra democracia, aquela reivindicada pela tradição socialista, como expressão da supremacia popular, tornou-se anacrônica. É por enquadrar-se nos critérios da primeira que Hugo Chávez mantém legitimidade internacional, e é por parecer caminhar no sentido de abandoná-los que se encontra sob suspeição. Então, invertendo sua afirmação: quando se pretende uma “ampliação de direitos democráticos” que leve ao “questionamento das bases em que se organiza uma sociedade fundada na supremacia do indivíduo sobre a coletividade”, caminha-se para a opressão. Por uma lei que até hoje não encontrou exceção, a coletividade no poder nunca correspondeu à coletividade submetida a ele.

domingo, 2 de dezembro de 2007 11:07:00 BRST  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Enquanto isso, as religiões fast-food vão arrebanhando fiéis católicos aos borbotões.

domingo, 2 de dezembro de 2007 11:28:00 BRST  
Anonymous Marcos disse...

Legal a Encíclica lembrar de Espartacus. Sinal de que a velha frase "morre o homem, fica a lenda" continua valendo.

domingo, 2 de dezembro de 2007 11:46:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Em certos círculos bem pensantes minha religiosidade é vista com a mesma curiosidade que dedicamos aos animais quando vamos ao zoológico.

Impressiona-me o esforço dessa gente para me livrar da jaula da religião. Eu os denomino Sociedade Protetora do Meu Espírito Livre (SOPROMEL). Não é o seu caso, Alon. É apenas um registro.

Os sociologismos dos ateus sobre os assuntos de fé são para os teístas desinteressantes. Isto é, não nos apaixona.

Católica: do Lat. catholicu < Gr. katholikós, universal. Ou seja, a Igreja está aberta para todos os homens filhos de um único Deus.
Apostólica: do Lat. Apostolicu. No caso da Igreja Católica de Roma: difundir e pregar a Palavra. A imposição da Palavra é uma atitude vergonhosamente anticristã.

O que não católicos apostólicos romanos às vezes esquecem de considerar é que o Sumo Pontífice escreve suas Encíclicas e as dirige “AOS BISPOS, AOS PRESBÍTEROS E AOS DIÁCONOS, ÀS PESSOAS CONSAGRADAS E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS” da SUA Igrja. Depois desse enunciado, o título da Carta Encíclica: “SOBRE A ESPERANÇA CRISTÔ.

Na primeira leitura que fiz da Encíclica “SOBRE A ESPERANÇA CRISTÔ, pareceu-me que a uma das chaves para o seu entendimento está naquela passagem sobre a escrava “Josefina Bakhita, uma africana canonizada pelo
Papa João Paulo II.”

A Encíclica “SOBRE A ESPERANÇA CRISTÔ não pode ser lida isolada da primeira Carta de Bento XVI: SOBRE O AMOR CRISTÃO”. Nesta, Bento XVI diz que o caminho que leva até Deus é o amor. Se Jesus é amor, Bento XVI nos diz que esse mesmo amor já está manifestado no Antigo Testamento. Considero esta Encíclica, pelo menos do que conheço, a maior reverência já prestada ao judaísmo por um Papa da Igreja Católica. Para quem sabe ler, está ali o principal que um católico, ou não, precisa saber para envergonhar-se das origens católicas do anti-semitismo e tirar dela as armas de combate ao anti-semitismo ainda profundamente arraigado no subsolo das consciências católicas e cristãs.

O anti-semitismo católico e cristão torna-se ainda mais vergonhoso por ter fincado suas raízes luciferinas no solo de uma religião universal. Ele foi e é trabalho secular de doutores e populações ensandecidas contra o povo judeu. Eu cresci num ambiente católico e ouvia desde pequeno que Jesus foi morto devido à recusa judaica do Messias. Disso, as justificações para todos os sofrimentos infligidos aos judeus. Recentemente, um velho amigo de escola mostrou-me o livro de história do nosso colégio. Com todas as letras, o inferno nazista encontrava plena justificação no mesmo juízo. Voz de Deus? Não. Vozes e obras seculares. “É preciso não transformar Deus num punhal”, disse um dia o ateu Denis Diderot. É preciso não transformar a ideologia, essa irmã da intolerância e do ódio (marcas luciferinas), no punhal que assassina a esperança e o amor de Deus, completou Bento XVI em suas Cartas Encíclicas.


Primeira Carta Encíclica de Bento XVI: SOBRE O AMOR CRISTÃO.

Eu destaco o reconhecimento reverente de Bento XVI ao judaísmo

“No itinerário da fé bíblica (...) vai-se tornando cada vez mais claro e unívoco aquilo que a oração fundamental de Israel, o Shema, resume nestas palavras: « Escuta, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! » (Dt 6, 4). Existe um único Deus, que é o Criador do céu e da terra, e por isso é também o Deus de todos os homens. Dois factos se singularizam neste esclarecimento: que verdadeiramente todos os outros deuses não são Deus e que toda a realidade onde vivemos se deve a Deus, é criada por Ele. Certamente a idéia de uma criação existe também alhures, mas só aqui aparece perfeitamente claro que não um deus qualquer, mas o único Deus verdadeiro, Ele mesmo, é o autor de toda a realidade; esta provém da força da sua Palavra criadora. Isto significa que esta sua criatura (o homem) Lhe é querida, precisamente porque foi desejada por Ele mesmo, foi « feita » por Ele. E assim aparece agora o segundo elemento importante: este Deus ama o homem. (...). O único Deus em que Israel crê, ama pessoalmente. Além disso, o seu amor é um amor de eleição: entre todos os povos, Ele escolhe Israel e ama-o — mas com a finalidade de curar, precisamente deste modo, a humanidade inteira. Ele ama, e este seu amor pode ser qualificado sem dúvida como eros, que no entanto é totalmente agape também. [7]
Sobretudo os profetas Oséias e Ezequiel descreveram esta paixão de Deus pelo seu povo, com arrojadas imagens eróticas. A relação de Deus com Israel é ilustrada através das metáforas do noivado e do matrimónio; consequentemente, a idolatria é adultério e prostituição. (...) A história de amor de Deus com Israel consiste, na sua profundidade, no facto de que Ele dá a Torah, isto é, abre os olhos a Israel sobre a verdadeira natureza do homem e indica-lhe a estrada do verdadeiro humanismo. (...)

Daqui podemos compreender por que a recepção do Cântico dos Cânticos no cânone da Sagrada Escritura tenha sido bem cedo explicada no sentido de que aqueles cânticos de amor, no fundo, descreviam a relação de Deus com o homem e do homem com Deus. E, assim, o referido livro tornou-se, tanto na literatura cristã como na judaica, uma fonte de conhecimento e de experiência mística em que se exprime a essência da fé bíblica.”


Você nos ofereceu uma interpretação. Eu lhe ofereci outra.

Abs.

domingo, 2 de dezembro de 2007 21:51:00 BRST  
Anonymous Cfe disse...

Paulo,

Não é que não concorde com o que diz mas os judeus são discriminados em diversas culturas, não só entre os católicos. Parece-me que tal deve-se ao protagonismo exercido por eles em diversas áreas. Ou seja: inveja pura.

Mais recentemente o papel que os mesmos tem tido na administração norte-americana e em organismos internacionais tem despertado muita ira em vários setores e povos, pois confundem a árvore com a floresta.

Cumprimentos,

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 07:40:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

cfe

As origens do anti-semitismo estão inegalvelmente ligadas ao catolicismo, para vergonha de todos os católicos. Esse é um fato histórico importante e que vem merecendo atenção de refinados estudiosos católicos e judeus. Não saberia lhe indicar a bibliografia e como caminham atualmente esses estudos. Eu apenas sei que eles existem e que um dos caminhos seguidos pelos estudiosos católicos indica que, aparentemente (isso está em pesquisa), não se comprova a ocorrência desse juízo (deicídio) entre os cristãos primitivos.

Jesus nasceu judeu. O judaísmo considera Jesus um apóstata ou um herético. No início, cristãos frequentavam as sinagogas. Foram proibidos porque reconheceram Jesus como o Messias. Isso gerou um conflito grave no interior do monoteísmo judaico. Natural, portanto, que os rabinos proibissem cristãos de frequentar a sinagoga. Mas pelo próprio entendimento que o judaísmo tem, Jesus nunca deixará de ser considerado um judeu, mesmo que apóstata. Para efeito de simples comparação, é algo semelhante ao que ocorre no catolicismo com o sacramento do batismo. Um "pagão" batizado na Igreja Católica, mesmo que renegue o catolicismo, continua católico.

Até onde sei, a exegese dos textos bíblicos que formou o juízo católico do povo judeu como merecedor dos seus históricos sofrimentos se origina na idade média.

Por último, estudei nove anos em colégio católico. Vivi e conheci isso tudo muito de perto.

Alon ilustrou o post com uma foto do controverso Pio XII e, claro, não foi por acaso.

Não pretendi dizer aqui, ao citar os trechos da Encíclica, que Bento XVI escreveu o que escreveu somente como reverência máxima ao judaísmo. Judeus e católicos certamente concordariam e discordariam na leitura dessa Carta. Quis apenas dizer que na Carta escrita por Bento XVI há passagens que reverenciam o judaísmo. Reverência a que estão obrigados todos os católicos. Tais passagens podem e devem ser ativadas contra o ainda muito influente juízo católico sobre os judeus e sobre o judaísmo. Foi a leitura que fiz.

Concordar ou discordar sobre determinadas políticas dos governos de Israel é coisa muito distinta. Aliás, também nisso podemos aprender muita coisa boa com os judeus e com o democrático Estado de Israel.

Eu páro por aqui, já que este não é um tema central no post.

Há um post muito legal no Rua da Judiaria sobre a figura controversa de Pio XII e, por tabela, e da Igreja Católica.

http://ruadajudiaria.com/?p=408

Lembro que o judaísmo e o Estado de Israel, apesar desses pesares, reconheceram e homenagearam publicamente católicos e cristãos que ajudaram a salvar a vida de muitos judeus na época do nazismo.

Abs.

PS: Há outros motivos para concordar com Nuno Guerreiro. Mas pelo simples critério da anterioridade eu concordo com o Nuno que a Igreja Católica agiu errado ao sonegar as informações sobre as crianças judias.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 13:38:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Culpados no sentido mais ou menos oculto de odiados.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 13:46:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo e Cfe,
o anti-semitismo católico é muito estranho. Jesus e seus apóstolos eram todos judeus. Maria era judia. A velha discussão de serem os judeus deicidas já caducou. Nem fazia sentido, pois os romanos também deveriam ser considerados deicidas. Além disso, cumpre salientar que os egípcios e babilônicos criaram aversão aos judeus muito antes de Cristo. Idem para os habitantes originais de Canaã.
Sds.,
de Marcelo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 15:40:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Muito interessante a discussão sobre até onde se deve lutar contra as injustiças sociais. A igreja renega o marxismo como forma de luta e prega o caminho de Cristo para alcançar o fim das desigualdades. Tema bastante controverso.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 18:21:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Marcelo

O que eu discuto nos comentários está referido exclusivamente ao ocidente, à cristandade.

O problema é que os católicos ainda não enfrentaram para valer essa questão do deicídio como desculpa para o anti-semitismo. Isso no máximo está adormecido nas consciências católicas. O perigo é esse monstro acordar pela gritaria de um algum líder paranóico.

Aliás, já tem muito maluco aí querendo acordar esse monstro. O anti-semitismo católico é um cachorro vivo, embora adormecido. Como diz o Kant, chutá-lo é um imperativo categórico.

Repare: Judeus sempre são os culpados de tudo e por isso são ótimos para serem odiados. Qualquer motivo é bom para odiar os judeus. São odiados porque são pobres, são odiados porque são ricos, são odiados porque massacram indefesos palestinos, são odiados porque são comunistas, são odiados porque recusaram o Messias, são odiados porque são avarentos, são odiados porque são mentirosos, são odiados porque são aliados dos americanos e assim vai. Sempre há uma boa explicação para odiar judeus.

Abs.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007 20:00:00 BRST  
Anonymous Cfe disse...

Paulo,

Não percebo porque particulariza o Ocidente na questão judaica.

Se o mesmo grupo já era dicriminado anteriormente e por outros povos, isso significa que os motivos que apresentaste não são os únicos como já afirmei.

Cumprimentos

terça-feira, 4 de dezembro de 2007 05:28:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

cfe

O anti-semitismo é o ódio mais antigo do mundo.

Eu só posso falar do ódio que conheço. O que sei eu já disse: na origem do anti-semitismo no ocidente cristão está o catolicismo. Durante centenas de anos esse ódio veio armando tropas, mobilizando populações até finalmente abrir as portas do inferno nazista aos judeus. O anti-semitismo católico e cristão tem uma vergonhosa responsabilidade nesse terrível acontecimento que é único na história. Reconhecer isso é fundamental. Desconsiderar isso é muito perigososo.

Abs.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007 11:54:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

cfe

Lembrei do cristão Lutero

"Em primeiro lugar, suas sinagogas deveriam ser queimadas... Em segundo lugar, suas casas também deveriam ser demolidas e arrasadas... Em terceiro, seus livros de oração e Talmudes deveriam ser confiscados... Em quarto, os rabinos deveriam ser proibidos de ensinar, sob pena de morte... Em quinto lugar, os passaportes e privilégios de viagem deveriam ser absolutamente vetados aos judeus... Em sexto, eles deveriam ser proibidos de praticar a agiotagem [cobrança de juros extorsivos sobre empréstimos]... Em sétimo lugar, os judeus e judias jovens e fortes deveriam pôr a mão na debulhadeira, no machado, na enxada, na pá, na roca e no fuso para ganhar o seu pão no suor do seu rosto... Deveríamos banir os vis preguiçosos de nossa sociedade ... Portanto, fora com eles...

Resumindo, caros príncipes e nobres que têm judeus em seus domínios, se este meu conselho não vos serve, encontrai solução melhor, para que vós e nós possamos nos ver livres dessa insuportável carga infernal – os judeus. (Martim Lutero: Concerning the Jews and their lies [A respeito dos judeus e suas mentiras], reimpresso em Talmage, Disputation and Dialogue, pp. 34-36. )

Julius Streicher (pesquise no Google) argumentou durante sua defesa no julgamento de Nuremberg que nunca havia dito nada sobre os judeus que Martim Lutero não tivesse dito 400 anos antes.

Kristallnacht ("Noite dos Cristais")

Ao executarem seu primeiro massacre em larga escala, em 9 de novembro de 1938, no qual destruíram quase todas as sinagogas da Alemanha e assassinaram trinta e cinco judeus, os nazistas anunciaram que a perseguição era uma homenagem ao aniversário de Martim Lutero.(Why the Jews? Prager, Dennis/ Telushkin, Joseph. Touchstone Books. p. 107)

Soldado nazista batizado cristão: "Eu não podia ter escrúpulos, pois eram todos judeus"

Jésus et Israel. Paris, Fasquelle, 1959, pp. 351-552. Existe tradução para a nossa língua, realizada pela Editora Perspectiva.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007 12:12:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Roberto Romano é uma das poucas pessoas aqui no Brasil que sabem o que dizem quando falam da Igreja.

Hoje ele soltou um post sobre a Encíclica no blog dele:

É PRECISO PRESTAR ATENÇÃO, PORQUE O PAPA GERMÂNICO É RETRÓGRADO MAS NÃO APEDEUTA. A ENCICLICA NÃO SE DIRIGE, NO SEU CONTEÚDO, CONTRA MARX, COMO IMAGINAM A ESQUERDA E A DIREITA.

SEU ATAQUE MAIS FUNDO E INSIDIOSO É DIRIGIDO CONTRA O CONCEITO DE AUTONOMIA DA VONTADE, POSTA POR IMANUEL KANT COMO PEDRA FUNDAMENTAL DA LIBERDADE E DA RAZÃO HUMANAS. MARX SERIA, NO MÁXIMO, UM LEITOR RADICAL ENGANADO PELO PENSAMENTO KANTIANO E SUA FALSA ESPERANÇA NO SUJEITO FINITO.

AOS QUE DIVERGEM DESTA MINHA EXEGESE, PEÇO QUE RELEIAM A ENCICLICA TENDO AO LADO A CRÍTICA DA RAZÃO PURA, A CRITICA DA RAZÃO PRÁTICA E, SOBRETUDO, "A RELIGIÃO NOS LIMITES DA SIMPLES RAZÃO".

QUEM DESEJA UM BOM TRATAMENTO DO TEMA EM PORTUGUÊS, LER, DE EDMILSON MENEZES, O LIVRO

História e Esperança em Kant. (EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SERGIPE, 2000. 367 págs).


ESTE LIVRO É O RESULTADO DE UMA TESE DOUTORAL, DEFENDIDA SOB MINHA ORIENTAÇÃO, NO DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA, UNICAMP.

ROBERTO ROMANO

Postado por Roberto Romano às 9:30 AM



E POR FALAR DE GENTE RETRÓGRADA, PUBLICO NA INTEGRA A ENCÍCLICA SPE SALVI, DE BENTO XVI. A PRETEXTO DE FALAR COISAS ANTIGAS SOBRE MARX E DEMAIS, O PONTÍFICE SE ESMERA EM DESACREDITAR A CIÊNCIA EM NOME DA FÉ. SE JOÃO PAULO II VIVIA NA IDADE MÉDIA, O SUCESSOR PROCURA, POR TODOS OS MEIOS, RESTAURAR A "FÉ DO CARVOEIRO". BEM DIZIA O AUTOR DO SÉCULO XIX: "A IGREJA É MESMO DIVINA. CASO CONTRÁRIO, OS HOMENS A TERIAM DESTRUÍDO". A INSISTÊNCIA EM MANTER OS RESQUICIOS DE SOBERANIA POLÍTICA, O VEZO DE ATACAR AS CIÊNCIAS, A TÉCNICAS, AS ARTES AUTÔNOMAS DIANTE DA SANTA SÉ, TUDO ISSO LEVA À DESCONFIANÇA NA PALAVRA DO PASTOR. SERÁ TAMANHA ASSIM A DIFERENÇA ENTRE ELE E OS AIATOLÁS?

RR

PS: Essa tentativa de aproximar o pensamento teológico dessas formulações kantianas é um tanto antiga na Igreja. Ele diz que o então Cardeal Ratzinger perseguiu os padres discípulos dessa tradição. Não por acaso, portanto, a Encíclica

Por isso é complicado pinçar passagens meio que ao sabor das conveniências de cada um nas Encíclicas.

Abs.

sábado, 8 de dezembro de 2007 00:07:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home