terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Comida em vez de álcool (11/12)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (11/12/2007) no Correio Braziliense:

Uma saída razoável é os ricos rebaixarem seus padrões de emissão de CO2 para abrir espaço ao crescimento do consumo dos pobres

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Os países líderes do mundo em desenvolvimento são o pólo dinâmico da economia global. A esperança de expansão econômica sustentada nas próximas décadas repousa principalmente nas costas de Brasil, Rússia, Índia e China, os Brics. Os quatro desempenham o papel de dínamos do crescimento planetário, graças também à inserção acelerada de centenas de milhões de pessoas no mercado de consumo. Essa euforia periférica compensa, com sobras, a pasmaceira e a estagnação capitalistas em centros do mundo desenvolvido como Europa e Japão.

Uma conseqüência visível dessa transformação maciça de pobres em consumidores é a demanda por comida. A edição mais recente da revista inglesa The Economist traz a informação de que o consumo de carne por habitante na China cresceu de 20 para 50 quilos nas últimas três décadas, um salto portentoso de 150%. E, ainda que o apetite dos chineses por carne esteja desacelerando, outras levas de ex-famintos vêm atrás. Nos países em desenvolvimento, o consumo de cereais estabilizou-se de 1980 para cá, mas a demanda por carne duplicou.

Sempre segundo a revista, são necessários três quilos de grãos para produzir um quilo de carne de porco. Na carne bovina, essa relação é de um para oito. Portanto, uma mudança radical na dieta, com o crescimento explosivo do consumo de carne, coloca pressão constante sobre o preço das commodities. Mas essa alteração alimentar tem sido gradual e, portanto, não explica o salto recente nos preços dos grãos. A tonelada de trigo, por exemplo, pulou de US$ 200 para US$ 400 entre maio e setembro deste ano. E o preço do milho já está em US$ 150 a tonelada, 50% acima da média de 2006.

Qual é o problema, então? O principal motivo para o fim da comida barata (título da reportagem da revista) é a expansão do etanol, especialmente do etanol de milho produzido pelos Estados Unidos. Confirmam-se assim as previsões mais pessimistas. Os americanos estão em seu direito ao buscar fontes de energia que os tornem menos dependentes do petróleo. A questão, porém, é que a opção americana pelo etanol para abastecer os tanques dos carrões de seus cidadãos tem implicações globais. A inflação nos preços dos alimentos é a primeira, mas está longe de ser a única. Junto vêm a aceleração do desmatamento e a piora das condições de pobreza de quem mais consome do que produz comida.

O milho necessário para produzir o álcool que abastece o tanque de uma picape seria suficiente para alimentar um indivíduo durante um ano inteiro. Essa relação é auto-explicativa. Aqui nos trópicos, porém, o governo brasileiro esforça-se para convencer-nos (e ao mundo) de que álcool de milho é uma coisa e álcool de cana é outra. Agora mesmo, na conferência em Bali (Indonésia) que discute o aquecimento global, o chanceler Celso Amorim luta para incluir o etanol de cana na lista de produtos ambientalmente corretos e que deverão ter seu comércio estimulado por meio de mecanismos tarifários.

O Brasil está de olho no mercado americano de etanol e deseja que os Estados Unidos deixem de punir o álcool brasileiro com taxas que o tornam menos competitivo nos postos de combustível do grande irmão do norte. Os americanos resistem, até porque não faria sentido para eles trocar de dependência, sair do petróleo importado para o etanol importado. A mudança da matriz energética nos Estados Unidos obedece principalmente a vetores geopolíticos. É isso que o governo brasileiro talvez não tenha ainda entendido completamente.

Mas, como há males que vêm para o bem, talvez a oposição americana à inundação de seu mercado pelo etanol brasileiro acabe prestando-nos um favor. O Brasil é um país privilegiado em terras, água e luz. A demanda mundial de alimentos está em alta e promete continuar assim. É razoável deduzir, portanto, que uma eventual expansão acelerada da cana para o etanol não ocorreria em substituição às culturas de grãos e à criação de gado, mas empurraria essas atividades para terras ainda inexploradas, com importante impacto ambiental. Daí, por exemplo, a resistência da Europa ao álcool brasileiro.

Esta coluna começou tratando dos dinâmicos Brics. Apesar de todo o dinamismo do mundo subdesenvolvido, porém, sabe-se que será impossível nivelar a maioria da população mundial em padrões europeus ou americanos de consumo. Há um entrave ambiental intransponível. Uma saída razoável é os ricos rebaixarem seus padrões de emissão de CO2 para abrir espaço ao crescimento do consumo dos pobres. É provável que o combustível tenha mesmo que ficar bem mais caro para que a comida possa não encarecer tanto. Em vez de álcool produziríamos mais comida. Quem vai se opor a isso?


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6 Comentários:

Blogger Cristiano disse...

Não estou convencido que é necessário fazer esta escolha (etanol ou comida). O Brasil é o maior país tropical do mundo, com luz e água abundante. É possível multiplicar a produção de etanol sem prejudicar a produção de alimentos. Temos terras desmatadas e ociosas sobrando. Sem falar no álcool de celulose. É uma tecnologia que estará disponível em alguns anos. Multiplicará a produtividade do etanol sem aumentar a área plantada. A questão da pressão de desmatamento na Amazônia independe do que se deseja plantar, cana ou soja, ambas têm potencial de degradação. Então, há que se resolver este problema com fiscalização e punição. A legislação é excelente e está à disposição. Não podemos continuar utilizando um combustível sujo como o petróleo, e também é ilusão achar que as pessoas usarão menos seus carros, pelo menos não em termos absolutos.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007 12:06:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Cristiano,
o Alon não quer discutir a produção mundial de alimentos. Ele só quer dar razão ao velho discurso do Fidel sobre etanol vs. alimentos.
Só um detalhe: ele começou o artigo atribuindo o dinamismo da economia mundial aos emergentes, mas, ao longo do texto, ele acaba por afirmar que a grande mudança (o maior custo da comida) se deve ao fato de os americanos usarem mais o etanol de milho. Quem move a roda da ecnomia mundial mesmo?
Sds.,
de Marcelo.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007 14:33:00 BRST  
Anonymous Cfe disse...

Comida..Alcool...hummm, deixa ver sei lá.

Perguntemos para o MST, que faz o jogo doutros países, complicando a único segmento em que o Brasil é indiscultivelmente competitivo mundialmente.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007 18:36:00 BRST  
Anonymous trovinho disse...

Essa tecnologia de usar celulose não consegue multiplicar a produção por quatro, o que ainda mantém a proporção etanol/gasolina perto de um dígito. Daria uma "sobrevidinha" a pretensão da mauriçada.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007 03:51:00 BRST  
Blogger Walmir disse...

Ninguém está preocupado com o planeta, mas em como não perder dinheiro.
Se esquentar demais pegam energia solar e fazem ar condicionado.
Se a comida diminuir vai diminuir primeiro para o pobres.
E acabam tendo boas portunidades de umas esmolinhas que agradam a alma e rendem boas reportagens.
Paz e bom humor

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007 12:10:00 BRST  
Anonymous mudanças disse...

parabens pelo artigo e pelo site!!
bjoss vi

segunda-feira, 3 de novembro de 2008 12:55:00 BRST  

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