quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Quanto pior, melhor (22/11)

Do DCI:

Varejo prevê a maior expansão dos últimos 10 anos, aponta instituto

Felipe Oda

SÃO PAULO - O varejo brasileiro tem motivos de sobra para comemorar 2007 e os números comprovam o ótimo desempenho. No ano, o setor registrou um crescimento de 12% no faturamento total das empresas e projeta uma expansão de 9,2% em relação a 2006. O resultado equivale ao maior crescimento do varejo nos últimos dez anos, de acordo com informações do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV). A expansão do varejo segue uma trajetória ascendente. Em 2006, o setor obteve crescimento de 6,3% em relação a 2005, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ritmo alcançado e já superado no terceiro trimestre deste ano. Ainda com dados das 28 empresas associadas ao IDV (correspondentes a 27% de todo o varejo brasileiro), que representam diversos setores, por exemplo, vestuário (Renner, Riachuelo, C&A), material de construção (Telhanorte, C&C - Casa&Construção, Leroy Merlin), alimentos (Bob´s, McDonald´s, Grupo Pão de Açúcar), entre outros, o número de lojas das redes aumentou 7,4%, ou 9.436 unidades, em todo território nacional e a área total das lojas (m2) foi ampliada em 11% em relação a 2006. (
Continua...)

Clique aqui para ler a reportagem completa. O que sustenta a expansão econômica do Brasil num ambiente de inflação baixa? A rigidez fiscal. Que por sua vez é o alicerce sobre o qual repousa o crescimento do crédito. Que por sua vez é a mola mestra do crescimento do consumo. Se estivéssemos falando de Química, poder-se-ia dizer que a ortodoxia fiscal produz um efeito-tampão que relativiza o papel do vetor externo na amplitude das oscilações da economia brasileira. Para saber por que chegamos a esse momento especial da história econômica do Brasil, sugiro a leitura de Política Econômica e Reformas Estruturais, de Marcos Lisboa, então (abril de 2003) secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. Um trecho:

Uma relação dívida/PIB crescente diminui a taxa de crescimento econômico de longo prazo. Por um lado, o financiamento do gasto público passa a exigir uma fração crescente dos recursos da sociedade, reduzindo o crédito disponível para o setor privado. Por outro lado, o próprio Estado perde a capacidade de investir em áreas essenciais. Ademais, a não sustentabilidade de uma relação dívida/PIB crescente acarreta um aumento da desconfiança sobre a capacidade do governo em honrar seus compromissos futuros, resultando em maiores prêmios de risco dos títulos da dívida pública e em aumentos da taxa de juros, desestimulando o investimento privado e reduzindo a taxa de crescimento econômico.

Clique aqui para baixar o texto. Quem o leu com atenção na época percebeu que eram grandes as chances de o governo Luiz Inácio Lula da Silva dar certo. O texto do Marcos Lisboa (que está a merecer, faz tempo, uma homenagem em algum desses encontros do PT) foi, portanto, um precioso instrumento para a adoção de posições políticas adequadas. Mas o passado é o passado. Por que estamos revolvendo o passado? Porque só é possível compreender a tenacidade do movimento contra a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) se se entender a centralidade do virtuosismo fiscal no cenário econômico brasileiro. Em resumo, quando a oposição radical luta com todas as forças contra a CPMF não é por achar que o país pode prescindir da CPMF. É por saber que sem quebrar as pernas da solidez fiscal não há como sonhar com uma crise que ponha fim ao ciclo virtuoso da economia brasileira. Para usar um chavão, trata-se do famoso "quanto pior, melhor". Para tentar emparedar Lula e impedi-lo de jogar um papel decisivo na própria sucessão. É natural que a oposição radical aja assim. Quando o PT era oposição radical ele também agia assim. Guerra é guerra. Como é que a oposição radical vai endossar uma política que proporciona a Lula dinheiro suficiente para 1) manter a dureza fiscal, 2) expandir programas sociais e 3) retomar investimento público? Quando a oposição radical joga o tudo ou nada contra a CPMF ela sabe muito bem o que está fazendo. E ela mostra, simplesmente, que morre de medo de um 2010 que repita 2006.

Leia também Se o Brasil tivesse uma oposição, de outubro deste ano.

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10 Comentários:

Anonymous Antonio Lyra Filho disse...

Alon, conforme você escreve, a oposição deseja que o Brasil tenha uma piora para voltarem ao poder.
Caso o Brasil não cresça o esperado, todos nós vamos sofrer com isto. A oposição pouco está se lixando para os brasileiros. Foi o que entendi.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007 14:35:00 BRST  
Blogger Kleyn disse...

Tirando a política deste tema, não concorda que os sucessivos aumentos de arrecadação (37 bilhões este ano até outubro, mesmo valor de CPMF previsto para 2008) não justificam o fim ou pelo menos uma alíquota ínfima para este imposto regressivo e em cascata? Pois, como sabemos, para cada receita o governo cria uma despesa, tornando impossível abrir mão desta mesma receita depois.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007 15:16:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Só para elogiar: este blog e o do Nassif são o que tem de melhor na internet na análise política e social, com textos interessantes, relativa profundidade e pontos de vista coerentes.
Parabéns.
Marcos Feitoza
João Pessoa-PB

quinta-feira, 22 de novembro de 2007 15:48:00 BRST  
Anonymous Alexandre Porto disse...

Faltou analisar o papel da imprensa e dos "formadores de opinião".

Que a oposição tenha essa postura, vá lá, mas e a imprensa?

quinta-feira, 22 de novembro de 2007 17:01:00 BRST  
Blogger Fernando L Lara disse...

Alon,
eu concordo integralmente com o seu post de hoje. A porção responsável da esquerda já entendeu faz tempo que a disciplina fiscal é aliada e não inimiga de uma melhor distribuição de renda. Mas porque então continuamos a dar tanto espaço para propostas contra o superávit primario e a favor de uma politica fiscal mais relaxada?

quinta-feira, 22 de novembro de 2007 17:56:00 BRST  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Bem, se este é um texto petista, está muito bom. Como você mesmo disse, guerra é guerra. Agora, se a pretensão do texto é uma análise imparcial da luta política, não cola. No tempo em que o Marcos Lisboa (duramente atacado pelo PT como arqui-neoliberal, lembram-se?) escrevia aquelas coisas, o Brasil ainda estava saindo da grande crise fiscal dos anos 80 e 90 e, de fato, nada era mais importante do que arrumar a casa fiscal para poder voltar a crescer. Só que agora a casa fiscal já foi arrumada, e não há o menor risco de crise, quebradeira, calotes, hiper-inflações, estas coisas (aliás, vai lá e pergunta para o Lisboa o que ele acha). Nesta nova situação, ser contra a CPMF é tentar segurar a orgia de gastos mal-feitos do Lula (liberou geral nos salários do funcionalismo, com o Judiciário puxando o cordão que já está provocando uma pororoca de aumentos em cadeia e com efeito ricochete isonômico nos outros poderes). Sem CPMF, não haverá nadinha de crise fiscal, alta de risco, alta de juro. Todo mundo que acompanha economia sabe disso (insisto, pergunte para o Marcos, o demônio neoliberal que você agora surpreedentemente busca colocar no panteão da esquerda, se ele vê algum risco de crise fiscal sem a CPMF).
O único efeito de se acabar com a CPMF é que o Lula vai ter que gastar bem, gastar com cuidado, com planejamento, com racionalidade, e não continuar nesta folia de novo-rico em que o governo dele está se transformando.

(PS: O Lula deveria ter o Bolsa Família como padrão de gasto bem feito: minúsculos 8 bilhões de reais por ano levando uma melhoria grande de vida para mais de 50 milhões de brasileiros, e justamento os mais pobres)

quinta-feira, 22 de novembro de 2007 20:06:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon. Acrescento outro dado que tem passado à margem do debate: a equação dívida interna/pib. Quando FHC iniciou seu governo a relação dívida/pib era de aproximadamente 30%. Quando entregou a rapadura (é dura mas é doce) para o Lula, a relação dívida/pib tinha saltado para 55%. Hoje está em torno de 43%. Os economista e contadores que dominam a "ciência" econômica, afirmam que o custo da dívida pública ficará sustentável para a sociedade e com reflexo na oferta de recursos bancários para a atividade produtiva quando a relação dívida/pib estiver em torno dos 30%. No ano passado, para administrar a dívida pública (juros), os gastos financeiros da União atingiram a importância de R$ 180 bilhões. Independentemente da fonte de receitas (seja Imposto de Renda, seja Cofins/Pis, seja CPMF, seja IPI, seja CSSL), o Brasil tem que onrar os R$ 180 bi, nem que seja cortando da saúde, da segurança, da educação, da infra-estrutura. Neste cenário, sem os R$ 40 bi da CPMF haverá desequilíbrio fiscal e necessitará de se cortar nos últimos da relação acima - nunca faltará recurso para as 20 mil famílias credoras dos R$ 180 bi.

Rosan de Sousa Amaral

sexta-feira, 23 de novembro de 2007 11:37:00 BRST  
Anonymous JV disse...

Faltou dizer uma coisa, quem lucra com dívida crescente e aumento da carga tributária para pagá-la? Os rentistas, que mantém a pressão sobre a taxa de juros que cobram do governo para financiar a festa. Vai estourar, mas até lá eles estarao bem longe e o ônus recairá (mais uma vez) sobre os contruibuintes - INFLAÇÃO!!!!!

sexta-feira, 23 de novembro de 2007 12:54:00 BRST  
Anonymous JV disse...

Rosan, concordo com você, mas no final das contas você sugere que as tais 20 mil familias são culpadas pelo desequilibrio fiscal, quando na verdade são elas que avalizam a politica econômica. Tentaram dar o calote e o sistema quase ruiu. E nos sabemosque as alterntivas ao sistema são inexequíveis.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007 17:10:00 BRST  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Só uma curiosidade: alguém notou o governador Cássio Cunha Lima (PB) dizendo que "o PSDB não discutiria CPMF se Alckmin fosse presidente"?

sábado, 24 de novembro de 2007 13:02:00 BRST  

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