sexta-feira, 16 de novembro de 2007

A pergunta que o PT não se faz (16/11)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição de hoje (16/11/2007) do Correio Braziliense:

O eleitor está longe de ser um néscio. Ele não cai na conversa de políticos que vivem pedindo mais tempo para fazer as coisas que já deveriam ter feito

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

A leitura das entrevistas com os candidatos à presidência do Partido dos Trabalhadores (PT), em reportagem publicada pelo Correio na última segunda-feira [dividida em duas partes; clique aqui e aqui], apenas reforça a impressão de que discussões programáticas estão na rabeira das preocupações atuais no petismo. Espremidas, as declarações dos postulantes podem ser organizadas em duas “pastas”. Discute-se quanto o partido deve ter de autonomia em relação ao governo e ao presidente da República. E também se o PT deve fechar questão em torno do lançamento de um candidato próprio em 2010. Mais nada.

É natural que agrupamentos políticos busquem meios para permanecerem no poder. Porém, tem faltado ao PT, no esforço para continuar onde está, uma parte essencial da estratégia. Explicar ao eleitor comum por que mesmo a sigla deve ganhar mais quatro anos no Palácio do Planalto após 2010. Não vale dizer que é para “continuar o que o governo Lula fez de bom”. Isso talvez não seja decisivo daqui a três anos.

Por dois motivos. O primeiro é que todos os candidatos viáveis, inclusive da oposição, vão assumir o compromisso de dar seguimento às coisas boas do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O segundo é que alguns dos sucessos da administração petista ocorreram não por causa do PT, mas apesar dele. O exemplo mais vistoso é a política econômica.

E tem outra. A abulia programática do PT, se não for tratada, pode criar um problema para o partido. Toda vez que o candidato do PT em 2010 disser que vai fazer isso ou aquilo de diferente em relação ao governo Lula, ouvirá a pergunta óbvia. “Puxa, mas se isso é tão importante, por que vocês não fizeram nos oito anos que tiveram para governar o país?”

E não valerá dizer que “não dá para fazer tudo em oito anos”. O eleitor está longe de ser um néscio. Ele não cai na conversa de políticos que vivem pedindo mais tempo para fazer o que já deveriam ter feito. Claro, pois como sempre há coisas a serem feitas, não fazê-las acabaria se tornando um argumento para manter indefinidamente no poder o sujeito que está em débito com o eleitor. Uma meritocracia às avessas.

Se o PT deseja chegar a 2010 em excelentes condições para postular a cadeira de Lula, deveria começar desde já a lutar dentro do governo para impulsionar programas e estratégias que o distingam dos possíveis concorrentes de daqui a três anos. Aí voltamos ao problema rascunhado no começo desta coluna. Será que o PT sabe exatamente o que hoje o distingue das demais forças políticas do país? Mais grave ainda: será que o PT é capaz de se unir em torno de algo que não seja a simples vontade de continuar onde está? As entrevistas dos candidatos à presidência da legenda não permitem otimismo em relação a essa segunda pergunta.

No seu esforço programático, seria interessante, por exemplo, saber o que o PT acha da (não) reforma agrária de Lula. O PT vai dizer em 2010 que a reforma agrária no Brasil deixou de ter viabilidade ou significado histórico? Vai adotar a tese de que o Bolsa Família e a geração de empregos nas cidades são suficientes? Que a democratização da propriedade fundiária no país saiu definitivamente da agenda? Que a expansão do etanol é a mais recente prova de como o latifúndio pode ser progressista? Se não, como vai explicar o fato de que, no poder, abandonou a bandeira que lhe rendeu tantos votos e tanto apoio político quando estava na oposição?

O mesmo vale para as privatizações. Na oposição, o PT as classificava como um crime contra a pátria. Lembro de que num de seus programas de televisão, no governo de Fernando Henrique Cardoso, o partido colocou na tela ratos roendo a bandeira do Brasil. No poder, porém, a legenda não se preocupou em ir atrás dos supostos ratos. Nem em reaver o queijo.

São apenas dois exemplos. Talvez não sejam nem os mais importantes. Mais relevante será, por exemplo, saber se depois de quase uma década de poder do PT as crianças que freqüentam a escola pública já estarão a receber um ensino tão bom quanto o da escola particular. Ou seja, se o filho do pobre estará freqüentando uma escola tão boa quanto o filho do rico ou do classe média.

Mas nem tudo está perdido. É claro que a coisa poderá não estar assim tão complicada para o PT em 2010. Especialmente se a sigla tiver a sorte de enfrentar uma oposição também fraquinha no quesito programático. Talvez seja nisso que aposta o Partido dos Trabalhadores quando não se faz a pergunta “por que eu quero continuar no poder?”. Aliás, conhecendo a nossa oposição, talvez não se trate de uma aposta completamente infundada.

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7 Comentários:

Blogger Briguilino disse...

Alon, em 2010 Lula fará sua sucessora(o)com facilidade.
E para tudo que a oposição dizer basta fazer duas perguntas a primeira para o candidato do PSDB.
1- Por que vocês não fizeram enquanto governaram o Brasil (500 anos)?
2- Hoje o Brasil (sua vida) está melhor ou pior que em 2002?

sexta-feira, 16 de novembro de 2007 10:49:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Briguilino,

"2- Hoje o Brasil (sua vida) está melhor ou pior que em 2002?"

Isso não ganha eleição. Eleitor não olha para trás. Eleitor na verdade pergunta "quem vai me deixar melhor nos próximos quatro anos". Se o PT não tiver uma boa resposta para isso, um abraço.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007 12:00:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

E essa hístória de 500 anos é meio que conversa mole pra boi dormir, né não? Tenho impressão que isso só cola pra quem já é leitor da Caros Amigos.

Ig

sexta-feira, 16 de novembro de 2007 13:39:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Essa história de 500 anos, não é só para leitor de Caros Amigos, mas para todos os Caros Amigos leitores, se Trocar PT por PSDB/PFLHoje Demo) e o ano de 2010, por 2002, não vejo diferença nenhuma. A única é a urgência do PT transformar o Brasil em quatro, oito anos apenas. Nem que ele (PT) tivesse vontade, teria conseguido. Percebo apenas que não é só o PT que não tem discurso para 2010, mas o próprio PSDB, porque como o Alon escreveu se tudo o que o PT fez de bom vem do governo FHC, e o Lula fez melhor e com mais competência ou mais sorte, porque mudar? Acho muito cedo para este tipo de análise, já vi candidatos saírem do nada e do anonimato e ganharem (Collor, Pita, etc). Lula terá o peso da máquina a seu favor e isto pesa muito.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007 18:23:00 BRST  
Anonymous Marcos disse...

Anônimo das 12:00 HS
Lula ganhou a eleição de 2006 com a resposta para a segunda pergunta do briguilino.
Povo inteligente o nosso.
Ao contrário dos fanáticos esquerdistas e direitistas, o povo vota em quem melhora o seu bolso.
Espero que seja uma constante de agora em diante.
Espero que em 2010 o candidato Serra diga ao seus possíveis eleitores: Vocês acham que o Lula fez um bom governo? Vocês não imaginam do que sou capaz! Foi assim que ele derrotou a bem avaliada Marta Suplicy. Claro que para isso ele terá que mostrar a que veio no governo de São Paulo. (concluir o Rodoanel, acabar com a tragédia da progressão continuada,por exemplo).
Na época da Marta ele tinha (e tem ) no seu currículo, o bom desempenho no Ministério da Saúde.
Por outro lado, o candidato petista não mais terá a mancha do radicalismo à la Heloisa Helena. O Lulinha paz e amor sabe o quanto a pecha de radical impõe derrotas eleitorais.
E sinceramente, com uma oposição que quer atingir o governo com historinhas de terceiro mandato (impágavel o PSDB/PFL criticar as mudanças da regras do jogo) , "cansei de tudo", e bobagens do gênero, posso lhe assegurar que o futuro promete ser só alegria no reino petista.
O curioso é que Lula fornece oportunidades excelentes para a oposição cair de pau. Cito um exemplo: quando Lula disse que a Saúde no Brasil estava a beira da perfeição. Não me lembro da oposição ter explorado (legitimamente) a fala do presidente. Estavam preocupados com assunto "tão populare" como a relação do Lula com Chaves. Talvez seja isso. A oposição descobriu que ganhará a eleição em 2010 mostrando o Rei da Espanha mandando Chavez calar a boca.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007 18:39:00 BRST  
Blogger Julio Neves disse...

500 anos desde Cabral... Ter que ouvir isso. Aí está o resultado da nossa educação. Que pena Brasil. Talvez daqui mais 20 anos tenhamos um povo melhor educado.

Poxa, Alon! Voce acha que foi o PT quem ganhou a eleição? Foi o Lula.

Você acha que SE o Serra ganhar a próxima eleição vai ser por causa do PSDB?

Se for o Ciro, a gente nem sabe por qual legenda será...

Eu sei que após 500 anos o brasileiro ainda não sabe localizar o Brasil no mapa.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007 20:14:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Não entendo porque os jornalistas se metem a fazer prognósticos para 2010. Muita água ainda vai rolar por debaixo da ponte, deixem as previsões para Mãe Dinah e similares.

E além disso, se for para o PT dizer o que fez no governo, os próximos 3 anos, que não sabemos exatamente como serão, vão contar muito mais do que os últimos 5.

domingo, 18 de novembro de 2007 11:34:00 BRST  

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