sábado, 17 de novembro de 2007

Os resmungadores da República (17/11)

Fim de semana modorrento, acabei de olho na tevê. Revi Bandidas, o filminho simpático com Penélope Cruz e Salma Hayek. Banqueiros malvados tomam as terras das famílias delas. E as duas beldades se transformam em bandoleiras. O secular processo de absorção da propriedade rural pelo capital bancário-financeiro. Aí eu pensei: como é dura a vida da direita! Até nos filminhos de Hollywood o banqueiro é vilão. Também pudera. Seria necessário um roteirista com excesso de imaginação e talento estupendo para fazer filme de sucesso com banqueiro bonzinho. Ou latifundiário bonzinho. A não ser (como no caso do pai da personagem vivida por Salma Hayek) quando o latifundiário é vítima do banqueiro. Aí eu, finalmente, pude compreender na plenitude, a partir de um filminho B visto numa modorrenta tarde de sábado, por que a direita gosta de achincalhar os heróis da esquerda. A direita vive a falar mal dos nossos heróis porque não tem como falar bem dos heróis dela própria. O financista que, graças aos juros escorchantes, remove da formação social as manchas de atraso representadas pela pequena propriedade ineficaz. O grande sonegador de impostos que drena as arcas do Tesouro e, com isso, evita a concentração de recursos da sociedade nas mãos de um estado ineficiente -para que, com mais dinheiro no bolso, a sociedade possa criar ela própria a riqueza que vai proporcionar um mundo melhor para todos. O ricaço dono de imóveis que despeja o modesto inquilino por falta de pagamento e, assim, ajuda a consolidar a regra de que contratos são feitos para serem cumpridos, de que a segurança jurídica é um valor universal. O executivo de sucesso que promove um downsizing capaz de levar a empresa a patamares inimagináveis de produtividade. Quem se candidata a fazer um filme com tais personagens como heróis? Ninguém. Esse pessoal só é herói em revistas de negócios. Em nenhum outro lugar. A direita faz a apologia do capitalismo na esfera da luta ideológica, mas não consegue travar eficientemente a disputa pela suas idéias no terreno cultural. Também porque a direita de raiz, aquela distante do povo e da nação, não tem um projeto para a nação e para o povo em países como o nosso, da periferia. Resta a ela desandar a falar mal dos outros, do que os outros fazem ou fizeram, do que os outros propõem ou propuseram. Como aquela solteirona ressentida que, atrás da veneziana, resmunga e espreita a bela vizinha namorando no portão. Sei que a imagem é antiga. Paciência. Não me veio uma melhor. É isso aí. São os resmungadores-gerais da República em ação. Resmungando, é claro.

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20 Comentários:

Anonymous augusto disse...

Prezado Alon: Também estou passando o finde de olho na telinha. Excelente a sua participação no “Fatos e Versões” –padrão global, sem ironia. Achei legal essa discussão de 3o. mandato: Presidencialismo, não pode versus Parlamentarismo, pode. O problema da direita no Brasil, quiçá no Mundo, é essa falta total e irrestrita de bons argumentos. É uma “forçação” de barra, um disco quebrado “full time”, e a ladainha está chatíssima, é um nada presta da pior qualidade. Parabéns, pela participação no F&V e por esse texto. Um abraço.

domingo, 18 de novembro de 2007 16:51:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Tudo bem, Alon. Tudo bem. Mas faltou falar um pouco sobre os atributos... artísticos da Penélope e da Salma. Você fica aí pensando mal dos banqueiros e latifundiários e esquece de gastar algum tempo remarcando as coisas boas da vida (principalmente da vida do milionário - talvez banqueiro - que vai casar com uma delas por uma temporada).

domingo, 18 de novembro de 2007 17:03:00 BRST  
Blogger Julio Neves disse...

Vejo um ar de decepção neste seu post. E não é com aquilo que você encaixa como "direita".

domingo, 18 de novembro de 2007 17:14:00 BRST  
Anonymous isnougud disse...

"Fatos & Versões":o país entra com os fatos e a "Globo",com as versões.
O título,forma e conteúdo ,nada têm de original.Desde ´64,os "marinho", se esmeram nessa prática.

domingo, 18 de novembro de 2007 20:00:00 BRST  
Blogger Rodrigo disse...

Que isso Alon! Você precisa ver mais novela das oito, lá você vai ver que qualquer autorzinho de novela consegue fazer uma ricaça dona de faculdade particular, cujo esporte preferido é humilhar pobre, virar heroína...

segunda-feira, 19 de novembro de 2007 00:29:00 BRST  
Blogger Jose Orair da Silva disse...

Parabéns pelo bem humorado comentário. Creio também que a falta de um partido político que assuma claramente um discurso de direita, como fazia o deputado Justo Veríssimo (personagem de Chico Anísio), deixa os direitistas carentes de representação. No Brasil, nem os "demos" assumem que são de direita...

segunda-feira, 19 de novembro de 2007 08:58:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
esse filme deixou vc. confuso. Certamente vc. derrapou nas curvas das protagonistas...
Quer dizer que o roubo contra um ricaço é justificável? Quando um banqueiro esfola um latifundiário não há nenhum problema moral? E se o latifundiário tomasse dinheiro emprestado e simplesmente não o pagasse, seria uma conduta aceitável? E se fossse um minifundiário? (Aliás falar em grande latifundiário é pleonasmo vicioso).
E passar disso para os heróis de esquerda e direita foi um salto mortal triplo de costas. Vamos lá: quais são os heróis da esquerda? Che, Fidel Hugo Chavez? Ou Stálin, Beria, Pol Pot?
Quem sempre demoliu os heróis do ocidente foi a esquerda internacional. Eu cresci olhando os pontos fracos dos heróis (até os de HQ). E agora vc. vem me dizer que os heróis puros e santos existem, mas são de esquerda? Tenha dó, Alon. Vou assistir esse filme para ver duas belas representantes do sexo feminino que sabem interpretar seus papéis, sustentadas pela indústria cultural capitalista.
Sds.,
de Marcelo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007 09:51:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Engraçado. Na Alemanha Oriental não tinha banqueiro sacana, só herói revolucionário simpático. No entanto, todo mundo queria passar para o lado de lá... Por que será? A resposta mais provável é que eles não viram os filmes hollywoodianos mostrando como os banqueiros são terríveis, he he he.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007 14:30:00 BRST  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Muito interessante, mas você não acha que chamar a direita de boba, feia e malvada não seria uma forma mais sofisticada de dizer a mesma coisa?

segunda-feira, 19 de novembro de 2007 14:57:00 BRST  
Anonymous JV disse...

Meu herói é o Presidente do Bradesco, seja lá quem for. Ele é dá o rendimento para que minha poupança cresça, garante que meu dinheirinho fique seguro contra bandidos, políticos e planos econômicos.
Claro que não dá filme, mas pode apostar, os autores de filmes brasileiros de esquerda colocam o lucro de seus filmes nas mãos dele também.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007 15:22:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

JV,
no Brasil, os filhos dos banqueiros exploradores de pobrezinhos se tornam cineastas e fazem filmes exaltando a miséria e a criminalidade, sempre apresentadas como fruto da ganância da burguesia. Mas quem paga os custos dos filmes (e o lucro dos cineastas) é sempre uma estatal.
Sds.,
de Marcelo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007 17:05:00 BRST  
Anonymous JV disse...

Tem razão, Marcelo. Alias, o Alon deve estar brincando, pois ele não mais tem idade para acreditar no que escreve. Pelo menos o banco do pai do cineasta está lá, sólido e firme. Imagine se o cineasta pensasse que poderia ser banqueiro.....

segunda-feira, 19 de novembro de 2007 18:02:00 BRST  
Anonymous antonio luiz calmon filho disse...

Alon:

Como é bom ser de esquerda numa democracia capitalista e como é ruim "ser" em qualquer outro regime político.

P.S.: Seus comentários continuam rasteiros e superficiais.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007 18:30:00 BRST  
Anonymous Cfe disse...

Sinceramente, o texto aponta em tantas direções que nem sei qual era o objetivo do mesmo.

Cordialmente,

PS: Sem querer ofender ninguem, sugiro que se informem da diferença de presidencialismo e parlamentarismo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007 18:56:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Jv,

tão amigo do presidente do Bradesco e deixando o dinheiro na poupança? Vc se contenta com o,54%?
Bota na bolsa e aplica em ações do Bradesco, vai por mim. Rende bem e ainda paga R$2,20 por mês de dividendos.
De nada.

Anônimo

segunda-feira, 19 de novembro de 2007 19:42:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

E não é que o blog se encheu de resmungadores? Prá variar, o Alon deu uma dentro.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007 20:25:00 BRST  
Anonymous JV disse...

não falei em caderneta de poupança, mas em poupança em geral. Claro que ações estão incluídas. Abs.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007 23:58:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

iih...Alon,o filme é do Sam Shepard que entre outras coisas fez Paris-Texas e Estrela Solitária (Don't come knocking) com Win Wenders...é pra provocar mesmo! O filminho é uma brincadeira cheia de metáforas sobre fronteiras, americanos/mexicanos, mulheres/cow-boys e é claro quem está em baixo sempre se lasca a não ser que reaja.

terça-feira, 20 de novembro de 2007 01:59:00 BRST  
Anonymous Carlos disse...

Caro Alon: Para quem foi militante, você temporariamente esqueceu das suas leituras do Manifesto Comunista, especialmente da parte sobre "Literatura Socialista e Comunista" da época? Como colocam Marx & Engels, se ser socialista fosse ter simplesmente consciência das mazelas do capitalismo, esta forma de consciência está acessível a todos, daí tantos reformadores burgueses que pretendem ser Grilos Falantes de um capitalismo "justo" e "moral". Na ausência de uma alternativa ao capitalismo como um todo, isso diverte, desopila...e legitima o sistema.

sábado, 24 de novembro de 2007 15:28:00 BRST  
Anonymous catatau disse...

essa foi boa, heheheh

quarta-feira, 5 de março de 2008 09:44:00 BRT  

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