terça-feira, 20 de novembro de 2007

O nióbio, os gasodutos e a sabujice (20/11)

Enquanto lia na revista Piauí interessante reportagem com a história de Cristina Kirchner, a nova presidente da Argentina, deparei com uma publicidade. Nela, a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), do Grupo Moreira Salles (Unibanco), comemora a construção de um gasoduto de mais de 7 mil quilômetros na China. O mapa colocado no anúncio está meio desatualizado, pois ainda mostra a "União das Repúblicas Socialistas Soviéticas" ao norte da China. Mais cuidado com os anúncios, pessoal. Publicidade é, em primeiro lugar, informação. Estive na mina de nióbio da CBMM, em Araxá (MG), pelo fim dos anos oitenta do século passado, quando trabalhava na Folha de S.Paulo. Aprendi ali que o Nióbio (Nb, número atômico 41) é um metal de excelência para melhorar dutos. Oleodutos, gasodutos etc. Daí o anúncio da CBMM na Piauí. Vamos aprender um pouco mais sobre o nióbio (do site da empresa):

O elemento 41 foi descoberto na Inglaterra em 1801, por Charles Hatchett, que na época o denominou de colúmbio. (...). Até a descoberta quase simultânea de depósitos de pirocloro no Canadá (Oka) e no Brasil (Araxá), na década de 1950, o uso do nióbio era limitado pela oferta limitada (era um subproduto do tântalo) e custo elevado. Com a produção primária de nióbio, o metal tornou-se abundante e ganhou importância no desenvolvimento de materiais de engenharia. Na década de 1950, com o início da corrida espacial, aumentou muito o interesse pelo nióbio, o mais leve dos metais refratários. (...). Outro desenvolvimento importante da década de 1950 foi o aço microligado. Estudos conduzidos na Inglaterra -na Universidade de Sheffield e na British Steel - e também nos Estados Unidos tornaram o aço microligado uma realidade industrial quando a Great Lakes Steel entrou no mercado, em 1958, com uma série de aços contendo cerca de 400 gramas de nióbio por tonelada, exibindo características (resistência mecânica e tenacidade) que até então somente podiam ser obtidas com aços ligados muito mais caros. A descoberta de que a adição de uma pequena quantidade de nióbio ao aço carbono comum melhorava consideravelmente as propriedades deste, levou à utilização em grande escala do conceito de microliga, com grandes vantagens econômicas para a engenharia estrutural, para a exploração de óleo e gás e para a fabricação de automóveis. Atualmente, os aços microligados respondem por 75% do consumo de nióbio.

Não reclame por ter que ler sobre assunto tão árido. Entendamos o que se passa. O Brasil é protagonista no mercado de nióbio. O nióbio é um metal essencial para a construção de oleodutos e gasodutos. A CBMM, do Unibanco, faz publicidade numa revista (também ligada ao grupo) sofisticada, dirigida à elite intelectual do país, para festejar a construção de um gasoduto de mais de 7 mil quilômetros na China. Até aí nada. A CBMM aposta em grandes negócios com os chineses. No que a CBMM faz muito bem. O problema é outro. O problema é que um projeto parecido, mas na América do Sul, é visto pela elite intelectual do país como uma maluquice. Apelidaram-no até de "transpinel". Falo do gasoduto que poderá ligar a produção venezuelana aos grandes mercados consumidores do sul do continente. Mercados ávidos por gás. Pois eu aposto que o grau de complexidade das duas obras é semelhante. E aí? Como é que fica o criticismo? O gasoduto dos chineses também seria uma maluquice? Óbvio que não. Banco (ou empresa controlada por banco) não se mete em maluquices. Será que a sabujice em relação aos Estados Unidos vai impedir que usemos em nosso benefício as imensas reservas de gás do país governado por Hugo Chávez? Enquanto aplaudimos os chineses pelo gasoduto deles? No começo deste mês, escrevi em Mais uma. Minha proposta é que copiemos os americanos que:

Nós não somos imperialistas, mas poderíamos ao menos ser espertos o suficiente para usar em nosso benefício os recursos naturais dos vizinhos. Em vez de brincar de papagaio de gringo. A Guerra Fria não impediu que a Europa se abastecesse durante anos com o gás russo. Por que, então, deveríamos abrir mão de nosso desenvolvimento apenas para satisfazer politicamente os inimigos de Hugo Chávez? Nào faz sentido, do ponto de vista do interesse nacional. Repito: se os americanos não abrem mão do petróleo venezuelano, por que razão nós deveríamos deixar de usar as gigantescas reservas de gás natural do vizinho? Se é para ser papagaio de gringo, vamos sê-lo no que é bom para o Brasil.

Está valendo.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

10 Comentários:

Blogger Marcelo disse...

O problema da Venezuela com o Brasil não é comercial e sim político. Com os EUA a mesma coisa, a venda de petróleo vai bem obrigado. Chavez interfere sim nos assuntos internos de outros países (inclusive no Brasil, em menor escala). Ele esteve por trás dos problemas do Brasil com a Bolívia. Esta quase virando um ditador. O problema é ver o LULA defendendo o Chavez e se intrometendo nos assuntos internos da Venezuela. Alguém precisa dizer para ele que países tem aliados e não amigos. Fazer comercio com a Venezuela tudo bem, mas bajular ditador não da. Quanto a transpinel.Nem Lula vai aprovar o projeto do jeito que esta, seria muita burrice. So vai aceitar se mudar os termos da proposta.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007 04:11:00 BRST  
Anonymous Cfe disse...

O regime soviético era ditatorial mas previsível, pois havia constância no que faziam.

Já o Chavez é um fanfarrão. Alguem duvida que o Morales teria feito o que fez com a Petrobrás se não tivesse as costas quentes?

O problema não é ser papagaio dos EUA, é tão somente ter a certeza de que esse investimento não trará problemas no futuro como aconteceu com a Bolívia.

Algum defensor dessa obra se habilitaria a afirmar que Chavez não arrumaria confusão como o Morales fez?

quarta-feira, 21 de novembro de 2007 08:02:00 BRST  
Anonymous Frank disse...

É curioso notar que os defensores do gasoduto Venezuela-Brasil são os mesmos que criticam o FHC por ter cometido a irresponsabilidade de vincular a economia do país à produção de gás da Bolívia.

Não falo do Alon, registre-se, pois não o vi enveredar por esse caminho.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007 10:17:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
vamos por partes:
1) Um anúncio da CBMM em revista da família cujo público leitor não tem nada a ver com o negócio é apenas uma forma de subsidiar a publicação. Novamente: trata-se do filho da banqueiro querendo ganhar dinheiro com mídia, travestindo-se de socialista (é o mesmo caso do cineasta que citei no post anterior). Será que a revista vai mal das pernas?
2) Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A China construiu um gasoduto de 7 il km pq. não tinha outra alternativa mais viável. Ou vc. acha que eles gostam de rasgar dinheiro? No jornal de hoje (Oesp), um diretor da Petrobrás afirma que sai caro demais construir um gasoduto de 250 km para ligar o campo de Tupi ao continente. Imagine, então, ligar a Venezuela aos vizinhos do Sul? Temos outras alternativas mais viáveis? Depois do Tupi, acho que temos. Podemos ignorar as bazófias do ditador venezuelano. Nesse mercado de petróleo o que mais há são ditadores. E todos abastecem as democracias ocidentais.
Sds.,
de Marcelo.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007 10:22:00 BRST  
Anonymous Marcos disse...

Nunca pensei que iria elogiar Paulo Maluf, mas o seu relatório favorável a entrada da Venezuela no Mercosul e suas declarações como essa: “negar o ingresso da Venezuela significaria punir o povo venezuelano, que não merece tal tratamento, assim como não merece o seu atual dirigente”, foi o que se espera de uma oposição inteligente. Defendeu o interesse do pais ao não misturar negócios com ideologias. Os trabalhadores de cá ficam contentes em saber que continuarão a exportar para um pais cheio de petrodólares.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007 16:17:00 BRST  
Blogger Rodrigo disse...

Quer dizer que o país não pode diversificar suas fontes de gás por puro capricho ideológico, certo...

quarta-feira, 21 de novembro de 2007 16:30:00 BRST  
Blogger Sergio Leo disse...

Respondendo ao cfe, acima, eu duvido. Quem conhece a história e a política da Bolívia sabe que o Evio é um rpesidente fraco, pressionado à direita e à esquerda, que, naquele primeiro de maio, teria de anunciar um aumento de salário mínimo muito inferior ao prometido em campanha e que a decisão de nacionalizar os campos de gás havia sido tomada pelo governo anterior, em referendo popular _ sem falar que o tema é de altíssima octanagem no país, que viu saírem borracha e minérios de lá sem contrapartida para a população. Chávez pode ter dado apoio, mas Evo faria o que fez mesmo sem ele, porque acreditava na profunda dependência do Brasil em relação ao gás boliviano.
Mas, Alon, esse gasoduto que virá da Venezuela não teria de passar pela Amazônia, projeto caro e de difícil oepracionalização? O problema maior, parece, é a recusa da Venezuela em informar o tamanho de suas reservas, para permitir cálculos de viabilidade do projeto. O mais racional parece ser o que estão fazendo, um duto para levar o gás ao Nordeste.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007 13:00:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Sergio Leo. Obrigado pela visita. Para que mesmo a Petrobrás precisa saber quanto a Venezuela tem de reservas de gás? O que isso vai mudar? Alguém duvida de que os caras tem gás suficiente para abastecer nosso mercado por tempo suficiente para compensar o investimento? O Brasil divulga aos quatro cantos todos os detalhes sobre suas reservas? Por que a Venezuela não tem o direito de esconder informações estratégicas? Por que atravessar a Amazônia com um gasoduto seria de difícil operacionalização? Parece-me que, ao contrário, fazer gasoduto em planície é mais fácil do que em relevo acidentado. O problema é que teríamos que enfrentar a gritaria conjugada dos americanófilos e do ambientalismo radical. Grupos que aliás têm tudo a ver entre si. Um abraço.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007 13:24:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

"Para que mesmo a Petrobrás precisa saber quanto a Venezuela tem de reservas de gás?"

Até parece que você ignora que o maior financiador do gasoduto seria o Brasil.

Para ajudar na resposta, cito as razãoes da Petrobrás que, através do seu presidente, já avisou que a empresa está fora do projeto:

Recentemente o Gabrielli anunciou que a Petrobrás se retirou do projeto.

http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2007/11/13/materia.2007-11-13.9948995762/view

Na imprensa, fontes governamentais justificaram o anuncio de Gabrielli com base

1.Negativa do governo Hugo Chávez em fornecer aos técnicos brasileiros os estudos comprobatórios sobre números exatos do volume das reservas de de gás na Venezuela.

2. O acordo original falava em uma divisão da produção do gás. Chávez não confirma os termos dessa divisão. Na Venezuela a gasolina é subsidiada e a Petrobrás teme que Chávez priorize o abastecimento do seu mercado interno com uma política de subsídio do gás, prejudicando, desse modo, a Petrobrás.

Basicamente desses dois fatos decorre a acertadíssima cautela da Petrobrás e do governo brasileiro no assunto. Se não me engano, nem mesmo o acordo sobre a refinaria no Pernambuco foi fechado com o Chávez. A Petrobrás já anunciou que constrói com ou sem a parceria venezuelana a refinaria.

"Por que a Venezuela não tem o direito de esconder informações estratégicas?"

Exatamente porque o governo venezuelano convidou uma empresa petrolífera de capital aberto com ações negociadas em bolsa para participar e um projeto que não será tocado com dinheiro de pinga. A Petrobrás, pela qual respondem civil e criminalmente os seus diretores, deve satisfações aos seus acionistas.

Fosse no Irã, isso não seria problema. Mas aqui é.

Abs.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007 16:35:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Vale a pena ler:

http://www.gasnet.com.br/artigos/artigos_view2.asp?cod=861

sexta-feira, 23 de novembro de 2007 18:03:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home