sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O duplo blefe e um boeing para pousar (30/11)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (30/11/2007) no Correio Braziliense:

O governo pilota um avião que acostumou a pousar por instrumentos. Agora, entretanto, a operação tem de ser manual. Uma conversa mal resolvida com um senador pode levar à perda de um voto. Já uma bem resolvida pode levar à perda de dois votos

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Blefa o ministro da Fazenda, Guido Mantega, quando diz que o governo já tem os 49 votos necessários para aprovar no plenário do Senado a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e da Desvinculação de Receitas da União (DRU). E blefa a oposição quando garante ter os 33 votos suficientes para derrubar a proposta de emenda constitucional com as duas medidas.

A verdade, como é habitual, está num ponto intermediário: no fogo cruzado da guerra de propaganda entre governo e oposição, resta um grupo de cerca de meia dúzia de senadores indecisos. Donde que o situacionismo está em vantagem, pois indeciso nesta altura do campeonato é, essencialmente, alguém que ainda não se decidiu a votar contra a CPMF e a DRU. São, portanto, votos potenciais que cabe ao governo amarrar.

E o Palácio do Planalto trabalha a todo vapor para amarrá-los. Depois do amadorismo que marcou a condução das negociações com o PSDB, quando mais atenção foi dada aos holofotes e gravadores do que à necessidade de fechar um acordo que afagasse todos os interlocutores, voltamos à rotina das difíceis conversas individuais que marcam a relação do governo Luiz Inácio Lula da Silva com o Senado da República desde janeiro de 2003.

A administração Lula nunca desfrutou de maioria confortável entre os senadores. Sempre foi refém de alguém. No começo do primeiro mandato, dependia da aliança com os então pefelistas do senador Antônio Carlos Magalhães (BA). Depois, com o progressivo ocaso de ACM, acabou nas mãos de um encorpado Renan Calheiros (PMDB-AL).

Verdade que ao longo de todo esse tempo Lula pôde sempre contar com José Sarney (PMDB-AP) e a área de influência do ex-presidente da República, cuja força isolada, porém, nunca foi capaz de garantir a Lula uma hegemonia na Casa. Talvez por isso mesmo Sarney esteja aí, firme e forte. Por nunca ter ocupado no tabuleiro do xadrez político uma casa na qual colocasse o rei em xeque.

ACM foi digerido por Lula nas eleições municipais de 2004 e na sucessão estadual de 2006. E os perdigueiros de olfato apurado farejam, há meses, odores palacianos na fritura interminável do presidente licenciado do Senado. Um senador da oposição com razoável rodagem notava, dias atrás, que nunca se viu, no governo Lula, um Senado tão carente de articuladores políticos integralmente mandatados pelo Palácio do Planalto. Talvez, faltou notar, porque Lula os tenha dissolvido a todos em ácido.

Reis não gostam mesmo de serem colocados em xeque. Fazer o quê? Agora, como já foi notado em colunas anteriores, o timão está 100% com o presidente da República. Se a CPMF e a DRU não passarem — o que é improvável — não haverá a quem culpar além do próprio Lula. Que precisará, pela primeira vez nos últimos cinco anos, arcar integralmente com a fatura da derrota. Em situações assim, convém contar sempre com a possibilidade de o Palácio do Planalto jogar pesado. E põe pesado nisso.

A imagem é velha, mas é útil. O governo pilota um boeing que acostumou a pousar por instrumentos. Agora, entretanto, a operação tem de ser manual. Uma conversa mal resolvida com um senador pode levar à perda de um voto. Já uma bem resolvida pode levar à perda de dois votos. Os dos outros senadores do mesmo estado. Eis mais uma boa explicação para a instabilidade política na Câmara Alta. O governo precisa tratar bem os senadores, mas deve tomar cuidado para não tratar alguns excessivamente bem, pois isso implicará o ciúme dos concorrentes diretos à liderança política regional.

Como Lula é um sujeito de muita sorte (tanto que é capaz de atravessar dois mandatos presidenciais no Brasil sem enfrentar nenhuma grave crise internacional), as circunstâncias acabaram colocando na coordenação política do governo nesta reta final de CPMF e DRU um sujeito cuja habilidade política não deve ser subestimada. Para usar outra imagem antiga, o ministro José Múcio Monteiro é da turma que conserta relógio mesmo envergando luvas de boxe.

Aliás, é notável como a política de Pernambuco, sempre tão polarizada entre direita e esquerda, mostra-se capaz de produzir políticos que se dedicam a cultivar pontes. Cuidar de pontes é sinal de sabedoria. Especialmente para quem está avançando. Queimar pontes quando se avança é um erro, pois sempre haverá o dia de recuar. E aí, na hora do recuo, as pontes dinamitadas no avanço podem vir a fazer falta.

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2 Comentários:

Blogger Gustavo Conde disse...

E quem disse que a crise do subprime não é grave? Se fosse na era Fh, seria uma devastação. De qualquer forma, o pôquer federal tem lá suas mumunhas técnicas, caro Alon:

Sobre a votação da CPMF, é preciso considerar o "Índice Mentira dos Senadores” (IMS). Para se chegar a esse índice, é necessário ter conhecimento técnico de leis probabilísticas e de rudimentos de psicologia política. Pressupondo esse conhecimento, o primeiro passo é verificar votações recentes, resultados anunciados e resultados efetivamente verificados. Tomemos, a título de exemplo, a votação que decidiu a não cassação do senador Renan Calheiros. Naquele momento, 43 senadores disseram votar pela cassação e apenas 35 votos foram contabilizados. Isso gera o seguinte número para o IMS: 18,6%. Ou seja, estamos diante de uma margem de erro – para mais ou para menos – de 20%. Só resta saber a quem mais interessa mentir.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007 22:34:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, permita-me. O timão não está com o Presidente. O timão está mesmo é caindo para a segunda divisão do Nacional. Quanto ao timão do navio CPMF, ainda não está bem claro em que mãos está.
Sotho

sábado, 1 de dezembro de 2007 15:07:00 BRST  

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