sábado, 24 de novembro de 2007

O caixa 2, o Nordeste e o conselho que não darei a FHC (24/11)

Qual será, para a eleição de presidente em 2010, o efeito da crise desencadeada pela denúncia do Procurador Geral da República contra os envolvidos no caixa 2 do então candidato à reeleição pelo PSDB ao governo de Minas Gerais em 1998, o hoje senador Eduardo Azeredo (PSDB)? Muito provavelmente nenhum. Do mesmo modo que foi nulo na presidencial de 2006 o efeito da tempestade provocada pelas acusações de Roberto Jefferson em 2005, o "mensalão". Servirá, entretanto, para infindáveis duelos verbais, midiáticos e mercadológicos entre petistas e tucanos. Mas, pelo menos num aspecto a nova denúncia tem utilidade: ela oferece um novo "gancho" jornalístico para recolocar na agenda a "pauta ética". Aliás, a convenção tucana foi prenhe de discursos destinados a reanimar essa cambaleante agenda. Segundo o site do PSDB,

Ao transmitir o cargo de presidente do PSDB nesta sexta-feira, o senador Tasso Jereissati (CE) afirmou que a democracia e os valores éticos e morais da nação estão em risco. "Todo o trabalho de trazer a ética para vida pública, de colocar a democracia como valor fundamental da nação, está em risco. O governo Lula é a principal fonte de destruição desses valores", alertou. Para o tucano, a impunidade que marca a gestão petista passou à população a impressão de que "roubar é normal". "Nosso papel hoje é dizer não: corrupção não é normal, falta de ética não é normal. O coração de uma sociedade são seus valores éticos e morais. Temos de dizer um basta a essa crise", argumentou.

Clique aqui para ler a reportagem completa sobre a fala de Tasso no encontro tucano. O observador que não sofre de amnésia, porém, lembra-se de que poucas semanas atrás o então presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati, participava de uma tentativa de acordo com o governo Luiz Inácio Lula da Silva para prorrogar a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). A CPMF, se prorrogada, dará ao governo federal cerca de R$120 bi até o fim deste mandato de Lula. Se o senador achasse mesmo que o governo Lula é "a principal fonte de destruição" dos "valores éticos e morais da nação" certamente nem cogitaria de dar ao presidente essa gordura orçamentária para gastar. Ou então o senador só chegou a essas conclusões sobre o governo Lula depois que micou o acordo com o Executivo petista. Mas Tasso Jereissati não está sozinho no nonsense. O novo presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), também bateu duro durante o evento tucano. Segundo o site do PSDB,

Guerra afirmou que o país precisa de governo transparente, "sem donos", "sem aloprados" e "sem montanhas de dinheiro". O tucano se referiu aos escândalos de corrupção na administração petista. "Lula esqueceu o Nordeste, os trabalhadores, o povo e se tornou instrumento do populismo e das elites", rechaçou.

Clique aqui para ler a reportagem completa. Chamou especialmente minha atenção a frase "Lula esqueceu o Nordeste". Por diversas razões. A mais vistosa delas é que Lula deu uma lavada no tucano Geraldo Alckmin ano passado em Pernambuco, estado de Guerra. Lembremos do resultado do segundo turno no estado:

Lula - 3.260.996 votos (78,5%)
Alckmin - 894.062 votos (21,5%)

No primeiro turno tinha sido assim:

Lula - 2.993.618 votos (70,9%)
Alckmin - 964.730 votos (22,8%)

Mas o eleitor sempre pode se enganar, não é? Com base nessa precaução, fui pesquisar um pouco para saber o que de fato se passa na região do país representada pelo novo presidente do PSDB. E encontrei o estudo Ambiente de negócios - região Nordesde (2007), da consultoria Deloitte. O texto é dirigido a potenciais investidores. Empresários, como o senador Sérgio Guerra. Vale a pena fazer o download. Diz o relatório que

As atividades consideradas tradicionais na região, como os setores de serviços e de turismo, além das indústrias têxtil, sucroalcooleira e de alimentos e bebidas, têm continuado a receber investimentos. Entretanto, outra realidade transforma a economia nordestina, tornando-a mais atrativa, seja pela clara diversidade industrial, como também pelo crescimento significativo da indústria petroquímica, do comércio de bens de consumo, das atividades de comércio exterior e das oportunidades de investimentos em áreas como a de biocombustíveis.

Diz também que

Vários fatores contribuíram para impulsionar a região nos últimos anos. O contexto macroeconômico estável, a proximidade de fontes de matérias-primas, a média salarial praticada e a disponibilidade de incentivos fiscais têm contribuído para a atração de investimentos estrangeiros e a migração de indústrias de outras regiões do País. Além disso, agrega-se a melhora na infra-estrutura portuária, estimulando a competitividade das empresas locais e facilitando o escoamento da produção para destinos internacionais.

O estudo traz um gráfico sobre o crescimento industrial nordestino em 2006 (clique na imagem para ampliar):

Vai bem Pernamuco no governo Lula. Aliás, a região toda vem ampliando fortemente na última década sua participação no produto industrial. Veja o gráfico abaixo, do mesmo estudo (clique para ampliar):

E tome otimismo:

(...) os indicadores econômicos refletem o crescente dinamismo da Região Nordeste na atração de novos investimentos. Segundo dados do Banco do Nordeste (BNB), os investimentos privados financiados pela instituição passaram de R$ 300 milhões em 2001 para mais de R$ 3 bilhões em 2006. No mesmo período, as liberações de recursos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a Região passaram de R$ 3,3 bilhões para R$ 4,8 bilhões. Somente no último ano, os financiamentos destinados para o Nordeste registraram um crescimento de 27%, superior ao incremento de 9% nas liberações totais da instituição de fomento. Entre os setores mais dinâmicos, destacam-se os de turismo, petroquímico, comércio de bens de consumo, construção civil e agroindústria, principalmente na fruticultura e na produção do biocombustível. Além dos investimentos privados, adiciona-se o investimento público previsto no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), anunciado pelo Governo Federal no início de 2007. O PAC, que prevê investimentos em infra-estrutura da ordem de R$ 503,9 bilhões em todo o Brasil, destinará R$ 80,4 bilhões ao Nordeste (aproximadamente 16%), que se apresenta como a segunda região mais beneficiada, após o Sudeste.

Outra informação interessante do relatório é que no governo Lula a região Nordeste deixou de ser importadora e passou a exportadora. Veja o gráfico abaixo (clique para ampliar):


E como esse impulso exportador se dá?

O incremento no valor das exportações regionais está relacionado, principalmente, à mudança no mix de produtos, com maior participação daqueles de valor agregado mais elevado. Os dados reforçam as mudanças estruturais ocorridas no perfil da produção industrial nos últimos anos, resultando no incremento da participação de produtos industrializados, tais como os dos setores automotivo, petroquímico, papel e celulose, siderúrgico, calçadista, têxtil e veículos. Destacam-se, também, os produtos básicos, como soja e fruticultura, com ênfase nas indústrias do agronegócio localizadas no Vale do São Francisco (Bahia e Pernambuco).

Não vou tomar mais tempo de vocês. Quem quiser, que leia o relatório. Este post começou com uma divagação sobre escândalos e seguiu mostrando o contraste brutal entre a realidade do Nordeste e como a descreve o novo presidente do PSDB. Mas não poderia deixar de comentar também a referência do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso à falta de educação formal do sucessor. FHC jamais deveria fazer esse tipo de crítica a Lula. Pois o governo Lula é melhor do que foi o governo FHC. Se o sujeito com menos instrução faz o mesmo trabalho mais bem feito do que o sujeito com mais instrução, o mérito é do menos instruído, e não do mais instruído. Parece lógico. Quando FHC desdenha da educação formal de Lula, apenas reforça a idéia de que ele próprio, FHC, poderia ter feito algo mais quando esteve no Palácio do Planalto. O ex-presidente deveria achar outro mote para insuflar a galera dele. Alguém deveria dizer isso a FHC. Mas não serei eu. Pois eu confesso que ando cada vez menos propenso a gastar tempo com conversas de políticos que não encontram eco na realidade. Ou a desperdiçar energia com operações midiáticas para as quais, afinal, o povo não está nem aí.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

6 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Concordo que essa querela entre os primos petistas e psdebistas só interessa a eles (para registro: a origem dessa denominação que denota a "consangüinidade" é do Prof Roberto Roomano. É uma constatação antiga. Só agora começa a entrar no colunismo político - "Governo e oposição são irmãos siameses" V.B. Correa JB).

Interessante no post, e atendendo ao seu apelo de não perder tempo com conversas que não encontram eco na realidade, é opor a realidade do cresciemnto do investimento capitalista (entenda-se: iniciativa privada) no NE à virtualidade da realidade dos amazônicos números pac(q)ueanos.

Pelo que li, o relatório fala muito mais do efeito dinamizador (emprego e renda é o que interessa) do capitalismo no NE. Pelos dados, resta provada como são falaciosas as teses sobre a impossibilidade do desenvolvimento do NE SEM A INTERVENÇÃO DIRETA DO ESTADO.

Que o Estado municie as agências de fomento com recursos do erário federal é ótimo. Ruim é o blá blá blá estatista que ainda frequenta as análises de influentes e, por isso, perniciosos
"desenvolvimentistas".

É simples: se alguém tem um bom negócio para o NE, que o leve para análise nas agências. Quanto menos política e quanto mais técnica for a decisão de financiar ou não qualquer projeto, tanto melhor.

A grande praga brasileira, Alon, é nosso velho costume patrimonialista de decisão. Nesse balcão de negócios do patrimonialismo está a origem desse mal da corrupção e a consequente e estúpida idéia de que no Brasil ela é endêmica. Êndemica o cacete! Ela é histórica, é construção. Examinar o seu modo de constituição é o primeiro passo para podermos combatê-la. Para isso precisamos acionar o saber técnico e científico que dispomos em grau elevado no país. Jogar fora esse conecimento é um crime. Argumentos ideólogicos aí não valem nada. Ou melhor, são apenas a ferramenta dos desocupados para manter seus traseiros $solidmente$ unidos nas confortáveis cadeiras do poder.

O que o NE precisa é repetir o que deu certo nas regiões que se tornaram as mais ricas do país. O NE precisa aprender hoje o que no passado essas regiões fizeram para serem o que hoje são. Levam uma enorme vantaje, pois já sabem quais erros não cometer. Mas não é assim que pensam todos que, por distintas razões, auferem benefícios com o histórico atraso brasileiro.

Abs.

PS: O slogan do PSDB "mais estado, mais mercado", dá bem uma medida de como são primos PT e PSDB. Por isso tanto faz se em 2010 venha PT ou PSDB. O governo continuará nas mãos dos primos. Brigarão no acessório e concordarão no fundamental.

domingo, 25 de novembro de 2007 19:45:00 BRST  
Blogger Ricardo disse...

bem, até onde vi, não há méritos de Lula, e sim do ruim FHC. Fica clara que a curva de mudança se deu em 2000, e não em 2002. Inclusive o que se vê é uma inflexão a partir de 2004.
Alon, é bom enxergar o macro, e não o micro - e o macro é que ninguém investe e obtém resultados na hora. Os investimentos se iniciaram no período FHC, e não no período Lula.

domingo, 25 de novembro de 2007 21:47:00 BRST  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Alon, nem li o post inteiro. Posso comentar assim mesmo? Encasquetei com uma só frase:

"Pois o governo Lula é melhor do que foi o governo FHC."

Isto foi dito com um tom de verdade absoluta, como o sol nascer no Oriente. Mas é uma mera opinião. As coisas estão indo melhor agora, sem dúvida, mas isto aconteceu graças a dificílima agenda reformista que o FHC suou para implementar (e o Lula manteve e aprofundou nos pontos essenciais) e à fantástica fase da economia mundial.

Você, que é um excelente analista político, deveria evitar incorrer em petismo agudo quando interpreta os fatos. Diga: eu acho que o governo Lula é muito melhor do que o de FHC, e está tudo bem. Mas não use o truque de apresentar como verdade indiscutível o que se trata de uma opinião. Abraço

segunda-feira, 26 de novembro de 2007 13:47:00 BRST  
Blogger Kleyn disse...

O lema do PSDB deveria ser "Brasil por quem trabalha e estuda". É uma síntese do que de fato falta prá tentar chegar aos pés da Coréia, sem pobrismo e pro-uni, mas qualificação e trabalho.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007 15:02:00 BRST  
Anonymous guimas disse...

@Arranhaponte:

"As coisas estão indo melhor agora, sem dúvida, mas isto aconteceu graças a dificílima agenda reformista que o FHC suou para implementar (e o Lula manteve e aprofundou nos pontos essenciais) e à fantástica fase da economia mundial."

Isto não seria opinião, também? Na minha (opinião), FHC não suou pra coisa nenhuma. Também acho que a fase da economia mundial não é tão fantástica assim. É "só" boa, e o governo Lula aproveita isso.

Depois, ficar inferindo que os resultados obtidos pelo governo petista são devidos aos esforços de FHC não ajuda em nada. Mesmo que seja verdade que Lula está deitando na cama feita por FHC, o importante são os resultados presentes e as previsões futuras. E me parece que, no geral, o Brasil vai bem agora e continuará indo bem.

O que não dá é um congresso do partido que melhor representaria a "elite educada" no país ficar discursando "quanto pior, melhor" pra fazer agrados à platéia anti-petista. Pra mim, fica uma imagem de irresponsabilidade e até de um certo autismo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007 17:39:00 BRST  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Guimas, é claro que é uma opinião minha.

Eu discordo do "quanto pior, melhor", se você estiver se referindo à questão da CPMF. Eu acho que derrubar a CPMF agora será um grande bem para o Brasil. Se tiver tempo até desenvolvo algo sobre isso lá no meu blog. Mas é claro que eu acho isto porque estou à direita do governo Lula. De novo, é apenas uma opinião

terça-feira, 27 de novembro de 2007 14:36:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home