segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Mais uma. Minha proposta é que copiemos os americanos (05/11)

A Guerra Fria acabou (acabou?), mas a Teoria do Dominó está viva. Álvaro Colom, candidato de centro-esquerda com forte apoio do voto indígena, venceu as eleições presidenciais na Guatemala. Enquanto isso, a Petrobrás precisa e vai ampliar os investimentos na Bolívia para aumentar a oferta de gás natural daquele país para o Brasil. Da Folha Online, hoje:

O ministro Celso Amorim (Relações Exteriores) disse nesta segunda-feira que o presidente Lula vai acertar uma visita à Bolívia para tratar da possibilidade da retomada dos investimentos naquele país. Amorim disse que a intenção é que Lula e o presidente boliviano, Evo Morales, discutam a questão ainda neste ano. (Continua...)

Por falar em Morales, no domingo ele afirmou que pretende ficar "muito tempo" no poder. Também da Folha Online:

O presidente da Bolívia, Evo Morales, afirmou neste domingo que ficará durante "muito tempo" no poder, apesar da "conspiração" liderada pela oligarquia de seu país, da qual faz parte, assegurou, o embaixador americano em La Paz, Philip Goldberg. "Os oligarcas bolivianos diziam que não permaneceríamos no poder por mais de quatro ou seis meses, mas o que não sabem é que ficaremos no governo por muito tempo", disse o governante boliviano, após ser investido Doutor Honoris Causa pela Universidade Autônoma de Santo Domingo (UASD). Morales, que visita a República Dominicana, disse que os grupos conservadores da Bolívia "não aceitam" a chegada de um indígena ao poder e, por isso, se dedicam a conspirar contra seu governo. "Eles formaram uma aliança com o embaixador dos Estados Unidos na Bolívia e com paramilitares colombianos que utilizam solo boliviano, com o propósito de pôr fim a um governo que luta pela igualdade, pela solidariedade e pelo bem-estar de todos os bolivianos", disse. (Continua...)

O governo Lula começa a se movimentar, com atraso, em direção a uma política mais realista no caso do gás. O Brasil precisa de gás e, portanto, deve se entender com quem tem gás. Aliás, talvez esteja na hora de desarquivar o projeto de trazer gás da Venezuela para consumo brasileiro. Não vai ser fácil, dado o atual clima de histeria que se cultiva entre nós contra o país de Hugo Chávez. Minha sugestão é que copiemos os americanos, que compram cada vez mais petróleo venezuelano. Nós precisamos de gás. E a Venezuela tem muito gás para exportar. Se querem ficar batendo boca com Hugo Chávez, paciência. Só não é razoável que a confrontação ideológica atrapalhe o crescimento brasileiro. Países imperialistas recorrem inclusive à guerra para assegurar fontes de matéria-prima e combustíveis. Nós não somos imperialistas, mas poderíamos ao menos ser espertos o suficiente para usar em nosso benefício os recursos naturais dos vizinhos. Em vez de brincar de papagaio de gringo. A Guerra Fria não impediu que a Europa se abastecesse durante anos com o gás russo. Por que, então, deveríamos abrir mão de nosso desenvolvimento apenas para satisfazer politicamente os inimigos de Hugo Chávez? Nào faz sentido, do ponto de vista do interesse nacional. Repito: se os americanos não abrem mão do petróleo venezuelano, por que razão nós deveríamos deixar de usar as gigantescas reservas de gás natural do vizinho? Se é para ser papagaio de gringo, vamos sê-lo no que é bom para o Brasil. Está na hora de o Itamaraty prestar atenção nas arapucas que lhe colocam. É necessário evitar a armadilha posta pelos que desejam dividir a América do Sul em duas, a "populista" e a "democrática". A eleição da Guatemala (que não é da América do Sul) é mais um dos muitos avisos sobre para onde caminham as nações do continente com forte presença indígena. É uma realidade a que devemos nos adaptar.

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15 Comentários:

Blogger Rodrigo disse...

É Alon, daqui a pouco só vão sobrar o México e Colômbia. Depois nem isso...

segunda-feira, 5 de novembro de 2007 13:56:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Concordo plenamente. Do seu post é perfeitamente possível inferir que também não é "coisa do diabo" somar com os americanos nas críticas que eles endereçam à realidade política em construção nessas "nações do continente com forte presença indígena". Por que não podemos imitar os americanos e, ao mesmo tempo, "usar em nosso benefício os recursos naturais dos vizinhos"?

Se bolivianos, venezuelanos, guatemaltecos e demais cidadãos de
"nações do continente com forte presença indígena" desejam eternizar no poder seus governantes isso é lá um problema deles. Em vez de brincar de papagaio bolivariano eu prefiro ler e pensar sobre a expressão "sociedade aberta" em sua contraposição à "sociedade fechada".

A discordância de fundo está, principalmente, na idéia que podemos fazer do individualismo. Para os esquerdistas o individualismo é somente um egoísmo. A tendência antiindividualista que aí predomina tem origem numa das correntes do iluminismo francês. Rousseau e sua noção de vontade geral estão muito visíveis nas ideologias (socialistas e não socialistas) que nos brindaram com as piores barbaridades no século XX.

Na "sociedade aberta" o indivíduo é um valor superior à comunidade. E o que estamos vendo ser duramente combatido nas "nações do continente com forte presença indígena" é exatamente esse valor superior. O que vemos ali é a reposição das velhas ideologias que, no passado, levaram seus seguidores a lugar nenhum no percurso desse labirinto que é a história.

Popper formulou uma questão pertinente até os dias de hoje. Ele propôs substituir essa antiga pergunta "quem deve governar?" por outra: "Como podemos organizar o Estado e o Governo de modo que nem sequer os maus governantes possam causar males excessivamente graves?". Sua resposta para este problema, claro, foi a democracia, "que nos permite destituir um governo sem derramamento de sangue". Coisa inimaginável nos governos do socialismo real e perfeitamente factível nas democracias.

A vontade de eternização no poder expressa com todas as letras, gestos e ações por esses governantes de "nações do continente com forte presença indígena" deve, sim, ser lastimada, denunciada, criticada e combatida. Se, apesar das críticas que lhes endereçamos, pudermos comprar o seu gás e petróleo, tanto melhor.

Abs.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007 15:23:00 BRST  
Anonymous Antonio Lyra Filho disse...

Qual são os motivos da imprensa tentar nos passar um idéia errada da Venezuela e a Bolívia. Será que estão a serviço dos Estados Unidos. É o que me parece.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007 17:10:00 BRST  
Blogger Rodrigo disse...

Bom, quem sabe se dermos uma olhada nas distribuições acionárias e de onde vem as publicidades...

segunda-feira, 5 de novembro de 2007 17:51:00 BRST  
Anonymous JV disse...

Alon, antes de importar gas é melhor investir em meios de utilizar o gas que é desperdiçado na extração de petroleo no Brasil. E analisa bem as importações de gas da Russia, porque acredito que durante a guerra fria a URSS não exportava gás.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007 18:59:00 BRST  
Anonymous JV disse...

http://www.iea.org/Textbase/work/2002/cross_border/MISIULIN.PDF

segunda-feira, 5 de novembro de 2007 19:03:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

JV, está no texto que vc recomendou:

"The first exports of natural gas began in the mid-1940s when the “blue fuel” began to be
supplied to Poland. For about 20 years the volume of exports was quite small and until the
end of 1967 the overall volume reached only 5.6 Bcm. Larger exports of Russian gas began
in 1967 after the completion of construction of the gas pipeline “the Brotherhood”, 600 km
long, connecting the domestic gas transportation system with consumers in Czechoslovakia.
Soon after that, deliveries to Austria began, the first country of Western Europe to import
Russian natural gas. Total exports of natural gas in 1968 reached 1.7 Bcm.
The start of natural gas exports was without question the determinant to the successful
development of the Russian gas industry. From 1961-1970, production of gas increased
almost 4 times to reach 198 Bcm and in terms of explored reserves, Russia became the
number one country in the world. In this period, European countries were experiencing
strong economic growth, which made for a high rate of increase in demand for energy. The
combination of these two factors determined the entry of the USSR onto the European market
as a new major supplier, despite the availability of contracts for supply of natural gas from
the Netherlands to many Western European countries.
As well as the above-mentioned supplies to Austria, in the period 1968-1971, contracts were
signed for the export of gas to Italy, Germany, Finland and France. Long-term compensation
agreements, which in the beginning were conditional on the signing of the first contracts for
export of gas to Western Europe, allowed the comprehensive development of the gas industry
by saving time as well as material and financial resources.
Exports of natural gas to countries of Central Europe were undertaken in the framework of
long-term inter-governmental agreements. All East-European countries – members of the
Comecon, as well as Yugoslavia became buyers of Russian gas."

segunda-feira, 5 de novembro de 2007 19:34:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro JV, coloquei um link no post com o texto que vc sugeriu. Obrigado.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007 19:44:00 BRST  
Anonymous isnougud disse...

Venezuela é só um pretexto,como a crise aérea, o terceiro mandato, a dengue,o quarto segredo de Fátima.Objetivo é um só:desqualificar o governo de Lula.Iviabilizar políticamente e se possível, históricamente,partidos e candidatos de origem popular.Queiramos ,ou não,o efeito demonstração da eleição de Lula,produziu seus efeitos na América Latina.Claro,colaboração do escandaloso "desgoverno" Bush,foi imprescendível,exibindo o esgotamento do "modelo".Aos membros da "SIP",só resta lamentar os tempos das oligarquias,com seus generais ,marechais e
êmulos civis,que lhes eram rentáveis serviçais.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007 21:17:00 BRST  
Anonymous JV disse...

a coisa é Alon, que o gas russo sempre foi visto com desconfiança, o gaseoduto foi feito com muito atraso por causa desta desconfiança. Se vocë importa 10% das suas necessidades de um país paria como a URSS é bem diferente de importar 35%. O cara fica completamente dependente da boa vontade do dono da torneirinha, como se viu no caso da Belarrusia.
Nós temos que canalizar o gás que se perde na exploração do óleo brasileiro e mandar o índio catar coca.

terça-feira, 6 de novembro de 2007 15:58:00 BRST  
Blogger Kleyn disse...

"se os americanos não abrem mão do petróleo venezuelano, por que razão nós deveríamos deixar de usar as gigantescas reservas de gás natural do vizinho?"
Porque o investimento em gasoduto (atravessando a Amazônia) é altíssimo, e após fazê-lo podemos tomar a mesma garfada que a Bolívia está dando (racionamento, majoração, impostos, invasão, etc.). O EUA não investiram em infraestrutura para comprar petróleo venezuelano, apenas carregam os navios com os barris.

terça-feira, 6 de novembro de 2007 16:02:00 BRST  
Anonymous jv disse...

agora que eu vi, querem fazer oleoduto para a Vennezuela.. é um despautério. Tanto gas na costa....

terça-feira, 6 de novembro de 2007 23:25:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo Araújo,

"Para os esquerdistas o individualismo é somente um egoísmo."

"Na "sociedade aberta" o indivíduo é um valor superior à comunidade."

Pois bem, esta não seria uma boa definição de "egoísmo"...? Quando o indivíduo é posto acima da comunidade, chama-se este um "valor superior". Quando a comunidade é posta acima do indivíduo, então é "holismo", jamais "altruísmo".

O individualismo excessivo também é prejudicial. Especialmente em uma era em que se propaga um "individualismo sem individualidade" - afinal, é difícil exercer sua individualidade quando se é comprado e vendido no mercado.

Sobre Popper e sua "sociedade aberta", é interessante notar que, à época da publicação de sua mais renomada obra, negros não podiam sentar-se na frente do ônibus nos EUA, por exemplo. É também a época do início da Guerra Fria.

E depois existem pessoas que insistem que "ideólogos" são apenas os "esquerdistas"!

Dois pesos, duas medidas. Nas "sociedades abertas" da França, Inglaterra e Espanha qualquer político pode se reeleger indefinidamente e ninguém reclama disso. Já na América Latina... é "vontade de eternização no poder". Por que? Por serem indígenas? Acho este alarmismo é um tanto paranóico.

Abraços,
Luís

quinta-feira, 8 de novembro de 2007 08:45:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Caro Luis

O foco de Marx na sua crítica da economia política é o estraçalhamento das subjetividades, submetidas à férrea lógica da reprodução do capital. No limite, tal lógica conduziria os indivíduos à completa alienação: Não sois máquina! Homens é que sois! (Chaplin. O Grande Diatador).

Muitas vezes arrependo-me do que escrevo aqui. Não que esteja errado. Só não é o lugar. Sem desmerecer o blog, ao contrário, divido a responsabilidade do que comento com o Alon, esse indivíduo provocador.

Já manifestei outras vezes que não compartilho o otimismo do blog com o que hoje vai, sobretudo na poítica, nas "nações do continente com forte presença indígena". Delas, boa coisa não sai.

Quanto a Popper e seu livro A Sociedade Aberta e seus Inimigos, ele diz que resolveu escrevê-lo por ocasião da entrada das tropas de Hitler na Áutria. Nesta época a democracia estava, à direita e à esquerda, sob duro ataque. O seu fim foi anunciado. Deste fim anunciado, a história mostra, vimos surgir os dois maiores horrores do século XX: os totalitarismos nazista e soviético.

Eu paro aqui.

Se lhe interessar saber mais sob Popper e a "sociedade aberta":

http://monologia.blogspot.com/2007/10/una-maravilla-de-karl-popper.html

Este texto é de sua prórpia autoria e foi escrito em 1984, por ocasião de um encontro em Viena.

http://www.institutoliberal.org.br/resenha.asp

Este é uma resenha do livro do Popper no site do Instituto Liberal

http://www.institutoliberal.org.br/resenha.asp

São dois ótimos textos de divulgação para conhecer como essa questão do indvíduo é abordada pelo pensamento liberal.

http://www.uem.br/~dialogos/include/getdoc.php?id=25&article=7&mode=pdf

Neste último, o autor aborda a questão das subjetividades pela ótica de Marx: (na sociedade do capital os indivíduos) "está agrilhoado firmemente pelo capital, que impõe uma lógica de relacionamento baseada na extração do lucro a qualquer custo, mesmo que seja a redução do ser humano a um apêndice maquínico ou às suas atividades animais. Enfim, o capital é o elemento que despe o homem de sua própria natureza, e o impossibilita de realizar aquilo que ele é."

Espero que a leitura dos textos mudo o seu entendimento sobre o que escrevi relativamente ao indivíduo como valor superior à comunidade.

Abs.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007 14:34:00 BRST  
Anonymous JV disse...

aí Alon, com esta noticia requentada do mega lençol, petrolifero, parece que o governo mandou um recado que diz: não faremos gasoduto algum para importação....

sábado, 10 de novembro de 2007 09:59:00 BRST  

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