terça-feira, 13 de novembro de 2007

E quando não houver pracinhas? (13/11)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (13/11/2007) no Correio Braziliense:

Será uma pena se no dia em que os pracinhas não mais estiverem entre nós a memória daquela gloriosa jornada de luta dos brasileiros tiver partido com eles

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Como de hábito, o aniversário da República passará sem que as autoridades se dêem ao trabalho de comemorar a passagem com a solenidade que merece. E o esquecimento da Proclamação da República não é solitário. Jogar datas importantes no arquivo morto virou esporte nacional. É incompreensível, por exemplo, que o Brasil não comemore com entusiasmo, em todo dia 8 de maio, o aniversário da vitória dos aliados contra o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial.

O descaso com datas relevantes de nossa história tem raízes nos anos 70 do século passado, quando os governos militares buscavam apropriar-se dos símbolos patrióticos. Surgiu daí, como forma de uma suposta resistência antiditatorial, certa tendência historiográfica marcada pelo niilismo e pela negação pura e simples do que seria a história dita oficial do Brasil. Numa esdrúxula aliança do pensamento liberal com o petismo acadêmico, humanizar os personagens de nosso passado transformou-se em expediente para ridicularizá-los e caricaturizá-los.

Em qualquer país, e em qualquer período, a história é feita por homens e mulheres cheios de defeitos e fraquezas. O que isso permite concluir? Nada. Países com elevada auto-estima (expressão tão ao gosto do presidente da República) não voltam as costas a seus heróis a pretexto de dissecá-los criticamente. Também por uma razão simples: conhecer e valorizar os símbolos que ficaram para trás é essencial para reduzir o custo embutido na ultrapassagem dos obstáculos que estão pela frente.

Um bom exemplo é a República. Os críticos habituaram-se nos últimos anos a vender a idéia de que ela teria sido apenas produto de um golpe de mão, dado inclusive com o apoio de ex-senhores de escravos amuados com a Abolição de um ano antes. E ponto final. Atira-se com isso no buraco negro das coisas inservíveis mais de um século de luta republicana, anterior inclusive à Independência.

Há 119 anos, o poder imperial era removido e instalava-se a República. Regime que só se completou na Revolução de 1930, quando o voto praticamente universalizou-se e as eleições deixaram de ser decididas no bico de pena. É verdade, porém, que institutos da República Velha (1889-1930) subsistem entre nós, mesmo que com nomes diferentes. A Comissão de Verificação de Poderes, por exemplo, está bem viva nos conselhos de ética e nos processos de perda de mandato por quebra de decoro.

Hoje, como ontem, outorga-se à maioria parlamentar o poder de amputar, desde que lhe convenha (e à opinião pública), mandatos populares obtidos legitimamente na urnas.

Mas esse e outros pequenos defeitos da República brasileira não devem nos levar a reduzir sua importância. Não se inventou até hoje mecanismo melhor de governo do que consultar periodicamente a sociedade sobre como, afinal, deve ser conduzida a coisa coletiva. Sempre haverá, por certo, quem discorde do que a maioria decidiu. Paciência. A maioria pode até errar. Mas, estatisticamente, é sempre melhor que decidam mais do que menos.

Isso foi também o que concluiu o povo brasileiro no plebiscito de 14 anos atrás, quando rejeitou a volta da monarquia e manteve o presidencialismo. Foi uma nova proclamação da República. Mais uma. Resistente, essa moça. Por mais que falem mal dela, sempre que o eleitor é chamado para julgá-la ela se sai bem.

Quem sabe essas repetidas manifestações de apreço do cidadão pelo seu direito de escolher livremente os chefes de Estado e de governo não sensibilizam nossas autoridades? Seria bom. Até porque, convenhamos, o risco maior que corremos não é interpretar erradamente os símbolos de nossa história, mas — como dito no início desta coluna — vê-los desaparecerem na sombra do esquecimento.

Volto às comemorações do Dia da Vitória. Está na hora de fazer com que deixem de ser apenas festas dos próprios pracinhas e de seus familiares. O tempo implacável fará chegar o dia em que, infelizmente, não mais teremos aqui remanescentes da heróica participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. Será uma pena se no dia em que os pracinhas não mais estiverem entre nós a memória daquela gloriosa jornada de luta dos brasileiros tiver partido com eles.

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10 Comentários:

Anonymous Cfe disse...

Parabens pelo artigo. Gostei particularmente duma frase:

"Em qualquer país, e em qualquer período, a história é feita por homens e mulheres cheios de defeitos e fraquezas. O que isso permite concluir? Nada."

Falta avisar o Lula para ele não dizer "nunca antes nesse pais"

Respeitosamente,

terça-feira, 13 de novembro de 2007 09:54:00 BRST  
Blogger Rodrigo disse...

É meio complicado, pois alguns dos que lutaram contra o fascismo na 2ª Guerra ajudaram a implanta-lo no Brasil em 64, principalmente os oficiais.

terça-feira, 13 de novembro de 2007 10:55:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Pois eu sou favorável à monarquia. E de preferência com Juan Carlos como rei ;)

terça-feira, 13 de novembro de 2007 11:01:00 BRST  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon: Ótimo e oportuno. Um abraço.

terça-feira, 13 de novembro de 2007 11:07:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Bom texto, Alon!
Interessante vc. salientar que a história é feita por pessoas. Não é o que aprece no livro de história do meu filho, da 5A. série (atual sexto ano). O historiador, como todo historiador marxista, considera a história como um processo determinado e inexorável. Nessa óptica, pouco importam as pessoas, suas virtudes, defeitos e paixões. As crianças hoje mal sabem quem foi Cabral, Tomé de Souza ou Pedro de Alcântara.
Um Viva aos pracinhas da FEB! E um Viva também aos combatentes de 1932, que queriam uma constituição para o Brasil! Que revivam os varões de Plutarco e que os personagens voltem a figurar nos livros escolares.
Sds.,
de Marcelo.

terça-feira, 13 de novembro de 2007 15:42:00 BRST  
Anonymous wagner borja disse...

Alon que ótimo ler um artigo como o seu! Parece que uma lufada nova sopra nos ares da imprensa brasileira, aparentemente dominada por ventos saudosos de certa banda autoritária.

A América Latina vive momento especial e nós brasileiros e latino americanos precisamos estar atentos para que sejamos dignos da grandeza desse momento.

terça-feira, 13 de novembro de 2007 16:00:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

É pena que não haja mais gente com essa sua visão, Alon. Mesmo os que acham sua posição muito à esquerda hão de concordar que o Brasil não valoriza sua história e seus heróis, como tampouco fatos históricos dos quais participou, como a vitória sobre o Eixo.

Lembro apenas que o Brasil comemora do desembarque na Normandia, quando os americanos, que ficaram vendo a Russia arder em chamas durante uns anos, e depois de constatarem que os alemães já estavam na descendente, resolveram fazer uma excursão com os britânicos que se revelou positiva, mas, se ajudou a libertar a França, não chegou nem perto de Berlim.

Em toda a Europa há Praças Stalingrado. Mesmo os países que eram satélites da URSS e julgam ter todos os motivos para não gostarem de russos em geral, não se esquecem de qe foi a União Soviética que os libertou do jugo nazista. Hungria, República Tcheca, Austria. Em Berlim, bem perto do Reichstag, tem um monumento (muito feio, por sinal) aos 2.500 soldados soviéticos que morreram na libertação da cidade. E o termo é esse mesmo, unânime, "libertação".

Por aí vai. Aqui, a falsificação histórica campeia, com as revistas semanais fazendo barabaridades que em qualquer país decente levariam sua circulação para o ralo.

Ig

terça-feira, 13 de novembro de 2007 17:27:00 BRST  
Blogger Fernando L Lara disse...

gostei do texto Alon, e fiquei intrigado com a coincidencia, o NYTimes tinha ontem (veteran´s day) um artigo com a chamada muito parecida. De quelauer forma, me parece que nossa idéia de forças armadas ficou tão esfarrapada depois da ditadura de 64-85 que vale a pena sim repensar todo este esforço passado.

terça-feira, 13 de novembro de 2007 18:03:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Fernando, vc tem o texto? Poderia mandar por email? Estou no aeroporto tentando entrar no site do NYT e nao consigo...

terça-feira, 13 de novembro de 2007 19:53:00 BRST  
Blogger Julio Neves disse...

Quando comecei a ler o post, pensei logo no "nunca antes nesse pais". Nem tinha visto o comentário do cfe, o primeiro. Mas este é o sentimento que verificamos hoje. É o espírito da chamada "turma da esquerda" que está no poder. Para eles tudo é novo. É o começo da realização de um sonho revolucionário. Estão todos bêbados ainda da comemoração desta conquista.

Mas o Brasil caminha! E desde Cabral já passam dos 500 anos. Tupi tem milhões de anos. O Brasil já vai chegar nos 200 milhões de habitantes...

Eu garanto a voce que se a FEB tivesse se incorporado à frente soviética e não ao Corpo do Exército Americano, hoje haveria entusiasmo até demais em comemorar a data.

A maioria dos brasileiros acham que os americanos são os vilões no conflito do Iraque. Então para estes seria difícil falar de uma FEB dentro de um exército americano hoje.

Por enquanto sobra o Carnaval, Copa do Mundo, Dia de Eleição e Ano Novo. E um novo ano "nunca antes neste país"...

quarta-feira, 14 de novembro de 2007 04:02:00 BRST  

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