terça-feira, 27 de novembro de 2007

Batalha final entre Lula e FHC (27/11)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (27/11/2007) no Correio Braziliense.

Resta então a Lula derrotar FHC e Bornhausen. Se conseguir, terá aberto caminho para que moderados como José Serra, Aécio Neves e José Roberto Arruda possam fazer política às claras com o governo federal

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Está no seguinte pé a luta política em torno da prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e da Desvinculação de Receitas da União (DRU): o governo desconfia do plenário do Senado, enquanto a maioria da oposição torce para que os senadores governistas aprovem a extensão da CPMF e da DRU — mas sem a ajuda de votos dela, oposição.

O governo, naturalmente, deseja manter a folga fiscal que hoje lhe permite, ao mesmo tempo, estabilizar a dívida pública e fazer política, expandido investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e despesas de custeio. A oposição até gostaria de pôr fim a esse céu de brigadeiro, mas parte dela teme que a quebra de caixa respingue nas jóias da coroa da oposição: os governos de São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal.

Como nos períodos que antecedem as guerras, quase nenhum ator quer o conflito, mas ninguém aparentemente sabe como evitá-lo. Onde está a raiz do impasse? Ela reside na existência de não uma, mas duas oposições. A que tem poder orçamentário e a que não tem. Sendo que essa última, além de não ter poder, não tem sequer a expectativa de conquistá-lo nas urnas.

O cenário lembra em alguns aspectos a disputa política durante a campanha pelas Diretas Já, em 1984. A oposição aparecia unida nos palanques, mas na verdade estava dividida em duas. Havia o grupo comandado por Ulysses Guimarães e Franco Montoro, os radicais pelas diretas. E havia a facção pragmática, liderada por Tancredo Neves, que apostava em eleger o presidente numa composição com dissidentes governistas no colégio eleitoral.

Tanto Montoro como Ulysses sabiam que se o sucessor de João Figueiredo fosse indicado pelo colégio eleitoral as chances maiores seriam de Tancredo. E Tancredo sabia que se passassem as diretas o candidato do PMDB seria ou Ulysses ou Montoro. Por essa singela razão, a aparente e bela unidade nos discursos e atos públicos escondia uma luta feroz a respeito do desfecho daquela disputa.

A História do Brasil registra como a coisa se resolveu. Ulysses e Montoro foram derrotados pelo governo, quando a emenda das Diretas Já não obteve os votos necessários na Câmara dos Deputados. A partir daí, mesmo com a resistência de um grupinho (o “só diretas”), o pólo da expectativa de poder deslocou-se para o Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte (MG). Para lá passaram a convergir as romarias, implorando a Tancredo que se desincompatibilizasse do governo do estado e disputasse a presidência no colégio eleitoral. Foi assim que a candidatura caiu no colo de Tancredo, com naturalidade.

Qual é o cenário atual? Não há no PSDB quem se disponha a enfrentar o radicalismo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) na cruzada em que está empenhado, com o objetivo de dificultar ao máximo a vida de Luiz Inácio Lula da Silva. O cálculo de FHC parece simples: se Lula for derrotado na CPMF, ele, FHC, terá adquirido uma posição incontrastável no comando político das oposições, junto com o ex-senador Jorge Bornhausen, a principal referência de poder interno do Democratas.

Resta então a Lula derrotar FHC e Bornhausen e aprovar a prorrogação da CPMF e da DRU. Se conseguir, terá definitivamente aposentado os presidentes de honra dos dois principais partidos da oposição. E terá também aberto caminho para que moderados como José Serra, Aécio Neves e José Roberto Arruda possam fazer política às claras com o governo federal, sem ter que recear o “fogo amigo” pelas costas. Essa é a tarefa de Lula. Uma tarefa só dele. Nas horas decisivas, o poder é ainda mais solitário.

Lula já foi derrotado nas urnas por FHC duas vezes, em 1994 e 1998. Semana passada, ao fazer referência direta à baixa escolaridade formal do sucessor, FHC deu um recado para dentro e outro para fora. Para os correligionários, avisou que não vai tolerar tentativas de enfraquecê-lo em seu papel de líder espiritual e orgânico do PSDB. Para o adversário maior, no Palácio do Planalto, mandou dizer que não haverá rendição sem luta.

Ano passado, quando os tucanos discutiam o nome do candidato para enfrentar o presidente, houve quem pensasse a sério em lançar FHC. Se a articulação tivesse tido sucesso, de duas uma: ou os tucanos retornariam gloriosamente ao poder ou a era FHC seria, enfim, uma página virada. Mas o candidato, como se sabe, foi Geraldo Alckmin, que acabou derrotado por Lula, em quem repousam agora as esperanças tucanas de pôr fim a essa transição interna de poder, que parece não querer acabar nunca.


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10 Comentários:

Blogger Ricardo disse...

Fica bem claro aí que FHC está certo, enquanto a ala "moderada" (ou burra, porque acredita em Lula, PT e bravatas) continua apanhando. O "esquecimento" da reforma tributária é prova de como vale confiar em Lula.
É até oportuna a lembrança do legado de Tancredo Neves que foi José Sarney.

terça-feira, 27 de novembro de 2007 12:45:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, sei não...
Fica a cada dia mais claro que PT e PSDB são irmãos siameses. A oposição hoje em dia é o DEM (pefelê), no qual o Bornhausen não apita mais nada. FHC e Lula aparentam viver às turras, mas fazem exatamente o mesmo jogo do socialismo light, ou seja manter o estado como motor da ecnomia enquanto se mantém um aroma de democracia noar.
Sds.,
de Marcelo.

terça-feira, 27 de novembro de 2007 14:43:00 BRST  
Blogger Cesar Cardoso disse...

A vantagem de Lula nesta batalha contra FHC é que, como você mesmo entendeu, Alon, tem gente dentro do próprio tucanato que adoraria que a influência do ex-presidente sobre o partido acabasse, até para poderem sair candidatos; nada me tira da cabeça que, em uma derrota de FHC, duas comemorações - no Palácio dos Bandeirantes e no Palácio das Mangabeiras - acontecerão. Mas não deixa de ser irônico o fato de só Lula poder resolver a batalha interna tucana.

Quanto ao DEM, é a oposição mais feroz, mas o governador do DF, que não é bobo e sabe que sem o governo federal o projeto de recuperar o Distrito dos anos de descalabro rorizista e entregá-lo saudável para que Paulo Octávio aposente o caudilho goiano em 2010 afunda, não perde uma chance de aparecer bem na foto com o presidente.

terça-feira, 27 de novembro de 2007 20:15:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Obviamente, confundes os fatos. O governadndores não têm outro caminhos que seja ser moderados. Ou isso, ou Lula pode destruir todos eles de uma vez só em um mês. Basta atrasar todos os repasses por quinze dias, que todos os estados viram um caos, não foi sobrar um posto de saúde em pé. Os petista não são capazes disso? Só Celso Daniel, pode me convencer do contrário.

terça-feira, 27 de novembro de 2007 20:41:00 BRST  
Anonymous Cfe disse...

Moderados nada. Sem autonomia financeira qualquer um colabora.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007 02:04:00 BRST  
Anonymous ricardo mello disse...

Alon,

a romaria a que você se refere foi personifica em Fernando Santana - deputado federal da Bahia - incumbido que foi convocar Tancredo para a disputa com Maluf que vinha como um trator, já havia derrubado -Andreazza candidato de Figueiredo.
Santana, como Tancredo tratava o parlamentar baiano, após receber a resposta positiva de Tancredo - o sim para encarar Maluf no colegio eleitoral - levantou-se e pediu a permissão ao, então candidato, para ser o primeiro brasileiro a cumprimentar o futuro presidente da república.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007 08:33:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Algum dos bem informados poderia me explicar por que é que Sarney pulou fora da campanha do Maluf para poiar Tancredo? Foi oportunismo (viu que a oposição ia ganhar de qualquer jeito)? Ou ele era tão ligado ao Andreazza que não podia apoiar Maluf? Ou nem ele aguentava o Maluf?
Alguém sabe?
Sds.,
de Marcelo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007 09:46:00 BRST  
Anonymous ricardo mello disse...

Sarney não apoiou Maluf. Estava envolvido com as diretas e juntamente com o grupo que já tinha fortes suspeitas que as diretas não passariam resolveram contar com Tancredo para enfrentar o trator Maluf (naquela época) hoje não passa de um velocípede.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007 12:44:00 BRST  
Blogger Frodo Balseiro disse...

Alon
Não da para negociar com o PeTê!
O fim da CPMF tinha sido acertada lá atrás, no "raiar" da era Lulla.
Para então aprovar por mais quatro anos a contribuição, o governo se comprometeu a fazer a reforma tributária. Fez?
Não fez! Esse é só um exemplo, pois agora mesmo o mesmo governo que não honra acordo, acaba de (como diz o ministro Mantega)ir para a gaveta.
Serra, Aécio e companhia bela, podem ser meio igênuos de acreditar no Presidente e seus ministros. Mas certamente não são burros de negociar um acordo com um governo que mente tanto!

quarta-feira, 28 de novembro de 2007 17:23:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Ricardo,
Sarney era do grupo do Andreazza. Não me lembro dele em nenhum dos comícios das Diretas Já. Há quem diga que a disputa entre Maluf e Andrezza passou dos limites aceitáveis. Tanto que o Figueiredo não queria aceitar o Maluf como candidato. O Sarney pulou fora do PDS exatamente quando cobraram dele o apoio para a eleição indireta do Maluf. Teria sido por convicção ou por oportunismo?
Sds.,
de Marcelo.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007 17:00:00 BRST  

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