sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Troca de tutela no Senado (12/10)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (12/10/2007) no Correio Braziliense:

O que fará agora a oposição? Discurso radical demais não combina com poder. Após estraçalhar a aliança PMDB-PT, o PSDB e o DEM têm diante de si uma avenida aberta


Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Era uma vez um tempo em que o assim chamado “PMDB do Senado” reinava glorioso no Planalto Central. Corria o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. O “PMDB do Senado” era o fiel da balança na sustentação política do governo. Foi o “PMDB do Senado”, por exemplo, que adiou em um ano a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito dos Bingos, ao não indicar representantes para a CPI.

Foi também o “PMDB do Senado” que inviabilizou a candidatura própria do PMDB à Presidência da República, ao derreter em ácido o ex-governador do Rio Anthony Garotinho. Tivesse Garotinho conseguido a legenda, Lula certamente teria um segundo turno bem mais complicado do que foi. Lula derrotou Geraldo Alckmin com alguma facilidade na segunda rodada também porque faltaram alianças e ícones populares-progressistas ao tucano.

Foi também o “PMDB do Senado” que deu na Câmara dos Deputados votos essenciais para o sucessor de Severino Cavalcanti (PP-PE) não ser alguém comprometido com a tentativa de fazer o impeachment de Lula. Mas agora isso já é assunto para os livros de História. O ocaso político da presidência de Renan Calheiros (PMDB-AL), ao lançar luz sobre a morte em vida do “PMDB do Senado”, descortina um cenário novo na articulação do governo no Congresso Nacional.

A coisa na Câmara dos Deputados está razoavelmente bem resolvida, com a clara hegemonia do PT, com a solidez de uma base fiel que sobreviveu ao inferno, com a adesão do “PMDB da Câmara” e com o beneplácito de uma oposição cuja capacidade de fazer ruído é apenas a outra face da docilidade com que permite ao governo conduzir a agenda. No Senado, porém, o ainda fiel da balança PMDB vive uma situação humilhante.

O PMDB vê o seu principal líder ser abatido por uma aliança entre a oposição e o PT. Além disso, tangido pela opinião pública, precisou reconvidar os seus senadores Jarbas Vasconcelos (PE) e Pedro Simon (RS) para a mesma Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) de que os havia ejetado. A explicação do PMDB para removê-los da CCJ era que ambos votavam sistematicamente contra o governo. Eles irão votar diferente agora? Difícil. Mesmo assim, o PT de Lula, coluna vertebral do governo, esteve na linha de frente da pressão para fazer o PMDB recuar do exílio interno a Jarbas e Simon.

Até a crise que engoliu Renan Calheiros, o que sustentava o governo no Senado era a aliança entre o PMDB e o PT. Toda aliança é definida em oposição a algo ou alguém. PMDB e PT uniram-se nos últimos anos no Senado em oposição ao eixo PSDB-DEM. Agora, depois que o PT alinhou-se alegremente à oposição nos movimentos decisivos para a liquidação da presidência de Renan Calheiros, é razoável supor que as relações entre ambos no Senado vão, no mínimo, passar por uma redefinição. Assim como um casal que procura ajuda especializada quando um dos dois pulou a cerca, talvez esteja na hora de petistas e peemedebistas no Senado buscarem um terapeuta.

O poder tem o condão de cicatrizar rapidamente as feridas, ainda que as da alma nunca sarem completamente. O cenário que se vislumbra no curto prazo para o governo no Senado é uma presidência petista, mas limitada pelo poder de fogo da oposição. E o que fará agora a oposição? Vai exibir sua face “institucional” para ajudar o governo a aprovar a CPMF e, assim, isolar e enfraquecer mais ainda o PMDB? Ou vai para o tudo ou nada?

Olhando para as figuras de proa no PSDB e do DEM no Senado, é difícil apostar na alternativa radical. Discurso radical demais não combina com o poder. Após estraçalhar a aliança PMDB-PT, o PSDB e o DEM têm diante de si uma avenida aberta. Com a morte do “PMDB do Senado”, está vago o cargo de tutor palaciano, à espera de que tucanos e democratas o ocupem.


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4 Comentários:

Anonymous José Augusto disse...

Alon, acho que você está exagerando. A situação está mais para rei morto, rei posto.

Hélio Costa não continua ministro? E é da cota do PMDB do Senado. Minas e Energia é que é gargalo atual das relações governo-PMDB do Senado. Resolvida essa contenda, Renan (mesmo sem ser cassado) fica no mesmo limbo para onde foi José Dirceu, ou seja, ele sai do jogo no front e vai para os bastidores, porque não reúne condições políticas para continuar, mas outro que está no "banco de reservas" assume a posição dele no Senado.

Acho uma visão purista do cenário político enxergar o PT tendo se aliado à oposição contra Renan, ou ver a aliança PT-PMDB estraçalhada.
Essa aliança PT-PMDB nunca foi uma aliança política programática, nunca foi uma carta de princípios. Sempre foi uma forma de coabitação dentro do poder, e é por esse caminho que se dão as negociações com o PMDB do Senado.

Ao PT interessava afastar a crise do Senado que estava paralisando a agenda governista lá (alguns Senadores petistas também podem ter ficado preocupados com sua própria imagem perante a opinião publicada).

Acho que deram a sustentação pelo tempo necessário a Renan tentar resolver a crise. A partir do momento em que a crise agravou e a votação da CPMF está com prazos estourados, a situação de Renan ficou insustentável.

Agora o PT deve unir-se ao PMDB para salvar o mandato de Renan, em troca do abandono da presidência do Senado de vez. Também terão que unirem-se para negociar a sucessão.
O motivo é muito simples: não existe outra escolha.
A oposição não tem cargos no governo, para oferecer ao PMDB do Senado.
E o PT não tem votos no Senado para controlar a casa.
A fome de um junta-se à vontade de comer do outro.

A única carta que a oposição tem na mão, é a CPMF. O governo precisa de pelo menos uns 6 votos na oposição, então isso dá a ela uma vantagem, para negociar a sucessão no Senado, de algum nome mais independente do que o governo gostaria.
Mas as tradições políticas brasileiras pouco afeitas aos princípios e mais ao pragmatismo, mostra que essa vantagem pode ser usada com outros fins, porque a negociação da CPMF passa pela liberação de verbas para os Estados e municípios governados pela oposição, e pela própria liberação de emendas dos Senadores no orçamento.

Em tempo: Garotinho não teve oposição apenas do PMDB do Senado para sair candidato em 2006. Teve oposição também das lideranças regionais que apoiavam Alckmin. Basta citar Jarbas Vasconcelos. É preciso lembrar que Garotinho representava ameaça de retirar Alckmin do 2o. turno mais do que vencer Lula propriamente.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007 15:54:00 BRT  
Anonymous Mello disse...

A dita oposição tem de correr e garantir a Renan sua sobrevivência. Qual o interesse em livrar o governo dessa companhia? Melhor tê-lo sangrado e no poder, lascando diariamente pelo realismo a dita base governista. Aposto que a opinião publicada concide com a opinião pública no caso.
Burrice dos Psdb/Dem disputar a presidência do Senado com o Pmdb. Já tem submissào suficiente ao governo na Câmara. Se juntar o Senado teremos a ditadura sem precisar do artifício de uma reforma política.

sábado, 13 de outubro de 2007 15:07:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Indago se o Sen. Jefferson Peres (como o Sen. Pedro Simon e o Dep. Fernando Gabeira), pode ser denominado como sendo o "político surfista"?
Ou seja, o importante para esse tipo de político é aparecer na globo, na veja, etc, sempre concordando com a matéria do dia.
E sem inquietação de consciência (é o que parece), faz de tudo para ser diariamente exibido como “amostra grátis” da imparcialidade.
Para tanto assume posturas golpistas, reacionárias, antidemocráticas.
Pois o que interessa ao político surfista é “estar na onda”.
Ou seja, agradar para ser manchete, para ser elogiado (todo dia) por essa mídia, com a certeza de que sobrará para ele o sobejo eleitoral desse banquete golpista.
É lamentável que políticos maculem a sua biografia pelo oportunismo!

domingo, 14 de outubro de 2007 22:43:00 BRST  
Anonymous Richard Lins disse...

Alon, como é que vc pode ser tão claro e inteligente no jornal e ficar tão radical e raso aqui no blog?!?!?!?
Aliás, uma dica: procure saber por onde andava Michel Temer. Ele pode ter sido a peça chave para queda de Renan Canalheiros... lembrando que, no início do 2º Reinado de Lula, Temer tinha alinhavado uns Ministérios para o PMDB quando Renan passou-lhe a perna, lembra?!!?!

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 17:07:00 BRST  

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