sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Se o Brasil tivesse uma oposição (19/10)

A oposição poderia chegar a pontos falhos do governo, desde que se dispusesse a usar os neurônios, em vez de permanecer em estado de dormência

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Qual deve ser, em tese, a atitude esperada de um partido de oposição? Fazer oposição. E por quê? Porque quanto mais forte estiver o governo menos provável será que a oposição chegue ao poder. Acho que vem do tempo do regime militar a nossa mania de adjetivar a oposição. “Responsável”, “autêntica”, “propositiva”, “moderada”. Haja adjetivos. Oposição é oposição, e ponto final. Ela é contra o que o governo propõe, por definição. Acha defeito no que parece não ter defeito. Fuça incansavelmente até encontrar casos a partir dos quais possa acusar o governo de ser o mais corrupto de todos os tempos. E por aí afora.

Você poderá argumentar que a modalidade de oposição descrita acima é impatriótica, porque trabalha com a premissa de que quanto pior, melhor. Paciência. O inverso é que seria complicado de administrar. Quem define o que é “patriótico”? O governo? Não dá, porque segundo o governo tudo o que ele faz é para o bem do país. A opinião pública? Mas qual setor da opinião pública? O que está a favor do governo ou o que está contra? E quem controla a opinião pública? Como se vê, o problema é insolúvel. Melhor ficar com a minha definição inicial.

Um partido de oposição, por exemplo, gritaria aos quatro ventos que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva entregou de graça para exploração pelo capital estrangeiro as rodovias federais leiloadas na semana passada. Faria disso um escândalo. Pediria uma Comissão Parlamentar de Inquérito. E quando o governo viesse com a explicação de que o objetivo de não cobrar nada das felizes concessionárias foi garantir um pedágio bem baratinho, a oposição já teria a resposta na ponta da língua. Diria que o governo pratica “renúncia fiscal” com os usuários de auto-estradas ao mesmo tempo em que se recusa a abolir a CPMF, que onera tanto quem usa estrada quanto quem não usa. E reafirmaria a necessidade da CPI.

Um partido de oposição cobraria duramente do governo a aceleração do programa de reforma agrária. O presidente da República viaja pelo mundo para defender a tese de que há terra sobrando para plantar coisas que podem ser usadas na produção de biocombustíveis. Já o presidente do Incra dá entrevistas para dizer que as terras brasileiras estão muito caras, porque há uma corrida por elas. Principalmente de estrangeiros. O presidente do Incra diz que o excesso de demanda faz explodir o preço da terra e portanto dificulta o programa de reforma agrária. Até porque o governo paga terra com títulos públicos, enquanto os estrangeiros pagam com dinheiro. Se o Brasil tivesse uma oposição de verdade, ela exigiria do Incra a relação das terras improdutivas, que o presidente da República diz existirem em abundância. Onde estão elas? Por que não são desapropriadas por interesse social?

Um partido de oposição convocaria ao Congresso o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central (que agora é ministro e, portanto, pode ser convocado) para justificarem por que uma economia que está à beira de obter o investment grade não consegue operar com juros básicos compatíveis com o status de quem quase atingiu o grau de investimento. Durante a audiência, essa oposição cobraria a demissão do presidente do BC. Constrangê-lo-ia até esse ponto. Se o presidente do BC não sabe como fazer a coisa, que dê lugar a quem diz que sabe. Se o país está a maravilha que o presidente da República e seus ministros dizem estar, não há motivo para que o Tesouro Nacional continue arcando com uma despesa exorbitante na conta de juros.

Se o Brasil tivesse um partido de oposição, ele procuraria minar a todo momento a força do principal partido de sustentação do governo. A oposição lutaria, por exemplo, para evitar que a legenda do presidente da República abocanhasse a presidência das duas Casas do Congresso Nacional, mesmo com apenas 20% dos deputados e senadores em suas fileiras. Ainda mais quando se sabe que o presidente, por enquanto, não pode ser candidato à reeleição. E que, portanto, o principal adversário da oposição na próxima eleição não será o presidente, mas o partido do presidente.

Os exemplos são apenas alguns dos que nos garantiriam assunto se o Brasil tivesse mesmo uma oposição. Se ela, por alguma razão, não concordasse com nada do que está escrito acima, se achasse tudo uma maluquice, poderia chegar a outros pontos falhos do governo, desde que se dispusesse a usar os neurônios em vez de permanecer num estado de dormência, que só se interrompe quando algum jornalista aparece com um escândalo.

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28 Comentários:

Anonymous taq disse...

Nenhum retoque a fazer, Parabens.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 10:57:00 BRST  
Blogger Briguilino disse...

Alon, oposição para o povo é mais do que você tá dizendo, tem de mostrar que pode fazer mais e melhor que o atual governo. Coisa que o povo sabe que não são capazes, é por isso e muito mais que do jeito que as coisas estão e vão em 2010 se o governo e Lula apoiarem um poste ele será eleito com folga.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 11:28:00 BRST  
Blogger Sidarta Cavalcante disse...

O governo tem uma oposição sim: a mídia.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 11:28:00 BRST  
Blogger Ricardo disse...

Agora você está corretíssimo. Não tenho reparos a fazer. Exceto que a oposição assim teria sido o oporto da oposição do PT, já que praticamente tudo que o governo atual faz está errado e nos deixará um legado medíocre para o futuro.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 11:43:00 BRST  
Anonymous Rodrigo disse...

Hehehehe...É Alon, acho que só o PSOL é oposição no país...

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 11:53:00 BRST  
Anonymous FELIPE disse...

Alon, discordo um pouco de ti por não levares em consideração que os partidos só se sustentam por representarem interesses. Me parece óbvio por que o PSDB ou o DEM não faria o que sugeres: por que sua "base" é contra tudo que disseste. Esses partidos na verdade estão mais preocupados em não perder sua base para o lulismo atualmente, na medida em que por mais que boa parte da elite econômica ache cafoníssimo ter um homem que nem português fala muito bem como presidente e a quem falta um dos dedos grossos de calos, sabe que ele faz muito melhor a mesma coisa que o PSDB fazia. Nota que a exceção fica por conta justamente de um tiro no pé que é acabar com a CPMF: como um intervencionsita como Serra governará (o País) sem esse imposto? Como Yeda conseguirá ir adiante com seu ajuste fiscal no osso?
Um pouco como Blair, a verdade é que Lula roubou o espaço da direita no Brasil e o resultado é que estamos na verdade ... sem esquerda - não sem oposição. O que resta é apenas um punhado de partidos histriônicos e meio sem alma, apenas superficialmente parecidos com o PT de 20 anos atrás.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 12:06:00 BRST  
Anonymous Cfe disse...

Essa técnica do escândalo foi iniciada pelo PT quando não era governo. PT não foi oposição: foi ator. Posou de juiz e latifundiário da ética.

Agora concordo com você quando diz que não há oposição nos adversários do governo: há apenas macacaquices tentando imitar o que o PT já foi, já que ninguem discordará que se os papéis se invertessem o PT já teria conseguido derrubar o governo há tempos tal é a quantidade de provas, desconfianças e indícios de maracutaias.

Mas até nisso o PT é mestre pois a sucessão de falcatruas descobertas é tamanha e tão rápida que o povo não tem tempo de assimilar, confunde até velhas raposas da política.

Parabens ao PT por conseguir impor a sua técnica e seu sistema de manter o povo num curral.

Mas quando a boiada estourar...

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 12:15:00 BRST  
Anonymous Cfe disse...

Essa técnica do escândalo foi iniciada pelo PT quando não era governo. PT não foi oposição: foi ator. Posou de juiz e latifundiário da ética.

Agora concordo com você quando diz que não há oposição nos adversários do governo: há apenas macacaquices tentando imitar o que o PT já foi, já que ninguem discordará que se os papéis se invertessem o PT já teria conseguido derrubar o governo há tempos tal é a quantidade de provas, desconfianças e indícios de maracutaias.

Mas até nisso o PT é mestre pois a sucessão de falcatruas descobertas é tamanha e tão rápida que o povo não tem tempo de assimilar, confunde até velhas raposas da política.

Parabens ao PT por conseguir impor a sua técnica e seu sistema de manter o povo num curral.

Mas quando a boiada estourar...

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 12:15:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Vai ver a oposição prefere fazer resistência pacífica, na linha do Gandhi.
Sds., de Marcelo
(sem gozação, concordo com o CFE, o Alon quer ir na linha do quanto pior melhor, criar uma bagunça institucional. Oposição deve ter suas propostas, não viver de escândalos pontuais).

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 12:42:00 BRST  
Blogger Z.E.H. disse...

Muito bons os pontos levantados, Alon.

Só uma provocação: se a Oposição fica parada esperando o próximo escândalo levantado por algum jornalista; E SE a imensa maioria dos jornalistas não investiga mais nada, limitando-se a repercutir o que recebe no press-release da Polícia Federal;

ENTÃO a Oposição é conduzida pela Polícia Federal?!?!?!

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 12:50:00 BRST  
Anonymous Jura disse...

Pena que você está do lado do governo, Alon. Em termos, pelo menos, como quase todos (com a possível exceção do Campo Majoritário, e olhe lá!)

Pena sobretudo para a oposição, que perde mais um líder de que tanto precisa.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 13:31:00 BRST  
Blogger Julio Neves disse...

Uma oposição perfeita é construída. Aí, vem um bolsa-esmola e aniquila com tudo...

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 14:32:00 BRST  
Anonymous Antonio Lyra Filho disse...

Chamar o Bolsa Familia de bolsa esmola, só pode ser por ideologia. Será que Júlio Neves diria isto , no caso de passar a ser governo. Claro que não.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 15:20:00 BRST  
Anonymous Pedra disse...

Gandhi pregava a não violência, INFINITAMENTE diferente da dormência e letargia.

Mas enfim, o Brasil parece um organismo que vai acomodando tudo e todos como um enorme coração de mãe.

E, aqui na terra vão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock'n roll.

Poucos entendem, quem precisa não lê e o sofisma prevalece.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 17:16:00 BRST  
Anonymous Wagner Moraes disse...

Pois é,

Alon....talves a mídia, isto é você, esteja no lugar errado.....

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 22:40:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

"Num país onde o único empregador é o Estado, a oposição significa morte por inanição. O velho princípio de quem não trabalha não come é substituído por um novo princípio: quem não obedece não come." Hayek.

sábado, 20 de outubro de 2007 15:27:00 BRST  
Anonymous Cfe disse...

Anônimo,

Matou!

sábado, 20 de outubro de 2007 19:42:00 BRST  
Blogger Nehemias disse...

Pessoal,

Concordo com vc Alon.

Vou mais longe. Eu acho engraçado o pessoal reclamar do bolsa família. O bolsa família explica parte da popularidade do Lula, mas não explica tudo. E as pesquisas que indicam claramente que parte dos beneficiários do bolsa família não votaram no Lula?

E democracia só se faz com povo. Vence quem consegue angariar mais povo. Se a oposição diz que não ganha porque não é capaz de convencer o povo, não merece ser governo.

E culpar o bolsa família é uma forma de não assumir os próprios erros. Tipo assim, o DEM (ex PFL) ficava incitando o Alckmin a bater, cavucar escândalo, e tal. A oposição bateu, bateu, bateu, e o Lula não caia um pontinho.

Ai, vem o segundo turno, e é só o Lula falar em privatização, demissão e fim de bolsa família, que a oposição desmoronou. Foi por Ipon. Nocaute. Cairam na Lona.

Em suma, como já disse o Alon, a oposição estudou, mas só as matérias que não caem na prova.

Vou dar um exemplo, tirem suas conclusões.

No início do ano, havia a crise aérea. E a oposição botou os dois pés nela. Mesmo com apenas 10 % da população viajando com alguma regularidade de avião.

Enquanto isso, o menino João Hélio foi barbaramente assassinado. Ninguém do governo foi visitar a família. Nem luto oficial foi decretado. O PT veio com aquela lenga lenga da "problematica social", "ampliada pelas grandes questões sociológicas", "em vista do esgarçamento do tecido social", e no final, a culpa é da elite que anda de carro.

O que fez a oposição sobre isso? Nada. Se estivéssemos nos EUA, um partido como o Republicano, faria um "rebu". Diria que somos governados por um bando de intelectualóides maconheiros da zona sul do Rio, que não sabem lidar com bandido, porque que são moles e um bando de frouxos, que o governo não dá a mínima pro cidadão de bem, que paga impostos e fica querendo defender vagabundo.

Alías, como já disse o Cesar Maia, "O discurso neoliberal, do estado mínimo, não é popular. O discurso conservador, da ordem, é"

Nos mundo inteiro, partido de direita se eleje pregando redução de impostos (e não corte de gastos), defesa da nação, ordem, segurança, valores morais.

Nos EUA, os Republicanos ganham porque sabem usar muito bem as questões "morais" (ex: casamento gay, aborto), segurança (tratar bandidos e terroristas de forma dura, sem hesitação) e redução de impostos. Falar em corte de gastos, extinção de programas sociais é secundário.

Nehemias

sábado, 20 de outubro de 2007 22:53:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Fora do assunto.
Leio, na Folha, a entrevista da Dona Ruth Cardoso. Diz ela que o ESTADO não tem obrigação de cuidar de TUDO (saúde, educação etc.) MAS não dispensou a GRANA do ESTADO não!!! Então eu pergunto: por que as ONGs não se limitam a pegar dinheiro com as pessoas físicas e pessoas jurídicas da iniciativa privada??? Deixa o ESTADO pra lá, ora...

domingo, 21 de outubro de 2007 09:32:00 BRST  
Anonymous Rodrigo disse...

Pra quem ainda não sabe:

O voto continua secreto no país...

domingo, 21 de outubro de 2007 18:24:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Oposição é a Veja. Essa sim... atira e depois pergunta.

domingo, 21 de outubro de 2007 22:05:00 BRST  
Anonymous Verabrasil disse...

Pragmaticamente brilhante sua matéria. Ao mesmo tempo em que aponta falta de "atitude" dos partidos de esquerda, também explica didaticamente a dinâmica despudorada de tempos pré-eleitorais da oposição puramente política ou não, de esquerda, de centro ou de direita. O eleitor precisa saber identificar o que é manobra oposicionista quando quer decidir que candidato pode governar de modo mais eficiente segundo a linha filosófica com a qual se identifica. Como é muito difícil fazer esse julgamento com total isenção, partindo do princípio de que informação completamente isenta não existe, eu costumo observar indicadores econômicos confiáveis e fazer uma análise comparativa de outros indicadores (sobretudo sociais). Por exemplo: Os gastos dos governos estão exagerados? E era possível ter a mesma idéia clara dos gastos de outros governos, com os mecanismos disponíveis de verificação, e esses gastos teriam sido menores? Está ruim para os aposentados? Digamos que não está muito bom, mas esteve melhor nos governos recentes anteriores? Está ruim para a classe média? Caso afirmativo, como andou o poder aquisitivo dessa classe nos últimos governos? Caso tenha havido alguma época de melhor poder aquisitivo, quanto tempo durou a eventual alegria antes da inflação melar tudo? Está ruim para os estudantes? Para os Índios? Para os Sem Terra? Para as classes menos favorecidas? Continuemos a comparação, e por aí vai. Inclusive números sobre qualquer coisa que são divulgados para os cidadãos, quando usados de modo absoluto, simplesmente descarto a informação como subsídio para minha avaliação. A relatividade, no nosso mundo imperfeito, é fundamental.

domingo, 21 de outubro de 2007 23:41:00 BRST  
Anonymous Vivi disse...

Tivessemos nós uma oposição de verdade, lula já estaria de volta em S.Bernardo, há pelo menos, 2 anos.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007 01:13:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, por que você não funda um partido e usa seus neurônios - já que parece que os têm - para fazer uma oposição inteligente e, portanto, competente?
Sidnei Riboli
Caxias do Sul, RS

segunda-feira, 22 de outubro de 2007 03:01:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A esquerda do PT sonhando com o DEM e o PSDB pedindo para radicalizar a reforma agrária. Ridículo. Vocês tomaram um pé no traseiro do populista do Lula, he he he

segunda-feira, 22 de outubro de 2007 05:18:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A popularidade de Lula explica-se pelo GROTÕES - agora sábio POVO BRASILEIRO. Ora, faça-me o favor...

segunda-feira, 22 de outubro de 2007 08:04:00 BRST  
Anonymous Helena disse...

Dá para imprimir, encadernar e distribuir nos encontros das oposições por aí. Com o devido crédito, claro. Parabéns!

segunda-feira, 22 de outubro de 2007 10:53:00 BRST  
Blogger Akhenathon disse...

E por acaso o Brasil possui um jornalismo crítico, Alon? Se não há oposição na política (no que concordo plenamente), a mídia vive no colo de Lula (com raras exceções). Se há uma manifestação contrária ao governo, a tropa-de-choque das redações já se mobiliza para descaracterizar e ridicularizar: "movimento partidário, elitista, cafona...!".

Acho que tanto os partidos quanto a mídia devem hoje se questionar sobre seu papel na relação com o governo, Alon.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007 11:25:00 BRST  

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