terça-feira, 30 de outubro de 2007

O vento a favor do continuísmo (30/10)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (30/10/2007) no Correio Braziliense:

O nome preferido de Lula para 2010 virá do PT e necessariamente será alguém dependente da bênção de Lula para virar candidato

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Um hipotético terceiro mandato para Luiz Inácio Lula da Silva deixou na semana passada o terreno do boato e instalou-se no mundo muito material das especulações políticas. Os repórteres Ugo Braga e Fernanda Odilla revelaram no Correio que aliados do presidente, com aspas e tudo, movimentam-se no Congresso Nacional para apresentar uma emenda à Constituição com esse fim. À notícia, seguiram-se os habituais panos quentes. O presidente não quer, o país não aceita, só com uma revolução, etc.

Na análise política, é sempre saudável relativizar as declarações dos personagens — ou, pelo menos, submetê-las ao confronto com os fatos produzidos pelos mesmos personagens. O folclore político de Brasília, por exemplo, já incorporou a constatação de que é péssimo negócio o sujeito aparecer no noticiário como alguém de quem o atual presidente da República gosta muito. Ou alguém a quem Lula está disposto a ajudar. A lista é extensa e registra um único sobrevivente: Nelson Jobim, triturado pela máquina palaciana na disputa pela presidência do PMDB e ressuscitado apenas quando Lula dele precisou para salvar a própria pele na crise aérea.

Lula move as peças do xadrez da sucessão com três objetivos. O primeiro é evitar que se consolide prematuramente no seu próprio campo um único nome. O segundo é evitar que se fortaleçam no seu campo nomes fora do PT. O terceiro é evitar que se consolidem no PT alternativas que prescindam do “dedazo”, a indicação de Lula. Você já percebeu que a resultante desses três vetores é uma só: o nome preferido de Lula para 2010 virá do PT e necessariamente será alguém dependente da bênção de Lula para ser candidato.

A eleição de Cristina Kirchner para suceder o marido na vizinha Argentina terá o condão de, finalmente, mandar para o arquivo das coisas inservíveis a tese, difundida à larga entre nós, de que “voto não se transfere”. Transfere-se sim, especialmente se o governo é bem avaliado e a oposição não consegue se unir em torno de um único nome — ou atrair parte da base política do oficialismo.

A partir dessas duas premissas, de que 1) Lula quer indicar soberanamente o sucessor e 2) voto se transfere, chegamos ao projeto do presidente da República para 2010: manter-se no poder. Por meio dele próprio ou de interposta pessoa. Não necessariamente nessa ordem.

Avaliações realistas apontam que uma emenda constitucional para permitir a Lula a disputa de um terceiro mandato seguido teria, hoje, chances razoáveis de obter os três quintos necessários na Câmara dos Deputados. Mesmo o bloco PSB-PCdoB, que se articula em torno de Ciro Gomes para 2010, reavaliaria o quadro a partir do fato novo. As dificuldades maiores vêm do Senado, onde o governo está às voltas com a missão de transformar o limão numa limonada: aproveitar a guerra em torno da prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) para construir uma base tão folgada quanto a que exibe na Casa ao lado.

Prorrogada a CPMF, com a economia de vento em popa, com a popularidade em alta e com base folgada no Legislativo, Luiz Inácio Lula da Silva estará de mãos livres para conduzir sua própria sucessão como bem desejar, e com uma margem considerável de manobra. O cálculo de alguns tucanos é que Lula, nesse cenário, não se incomodará em ser sucedido por um político do PSDB. Para não ter de enfrentar alguém do seu próprio campo em 2014, se eventualmente decidir voltar ao Palácio do Planalto. Trata-se de um exercício de wishful thinking. Em inglês, tomar os desejos pela realidade.

O realismo político ensina que espaços de poder não se concedem, conquistam-se. Melhor ainda do que entregar a faixa a um tucano amistoso será, para Lula, passar o pano auriverde a alguém do PT que aceite a liderança do chefe. Especialmente se o instituto da reeleição estiver abolido, como Lula diz desejar. Sabe-se que esses cálculos costumam não dar certo, que a criatura pode acabar criando problemas para o criador. Tais ponderações, porém, nunca são suficientemente fortes quando se trata, para um determinado grupo, de encontrar maneiras de permanecer no poder.

Grupos palacianos querem, em primeiro lugar, continuar onde estão. Mesmo a uma eternidade das eleições, é justo dizer que os ventos hoje sopram a favor do continuísmo. Claro que muita coisa pode acontecer até 2010. Mas isso não significa que estejamos impedidos de analisar o quadro. Não é inteligente — nem chega a exigir grande coragem — deixar de perscrutar o horizonte sob o pretexto de que talvez os ventos passem a soprar em outra direção, ou em outro sentido.

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18 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, não acredito que o Lula bancará um desgaste político para se reelejer em 2010, com o risco de virar o "Zumbi FHC 2". Acredito que a segunda tese do jornalista Ugo Braga seja mais viável: Lula banca um candidato da sua base (hoje Ciro) e se recandidata em 2015 - observe que o mandato do novo presidente já seria de 5 anos. Esta movimentação no tablado político (de Emenda Constitucional para reeleição permanente) é o bode posto para se aprovar o fim da reeleição com mandato de 5 anos. É a leitura que hoje faço.

Rosan de Sousa Amaral

terça-feira, 30 de outubro de 2007 10:35:00 BRST  
Anonymous Elétron faminto disse...

Pena que vai ter apagão em 2009. Que dó!

terça-feira, 30 de outubro de 2007 10:57:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
reeleição e dedazzo custam muito caro para o orçamento público. Hoje o nome é PAC.
Suas considerações foram muito lúcidas. Creio que o Lula ainda espera para ver se:
1) o povo aceitaria a mudança nas regras eleitorais para um terceiro mandato; e
2) se ele conseguiria produzir essa mudança legislativa (constitucional) no ambiente político atual.
É até possível que ele não apóie ninguém, ou cristianize algum nome do PT. Nesse caso, ele se livra do desgaste de um mau administrador e surge como favorito para 2014. Depois do Pitta, o Maluf não ganhou mais nada em São Paulo (prefeitura, governo), só conseguiu ser deputado (votação recorde, é verdade). Lula sabe disso.
As peças estão sobre o tabuleiro. É só acompanhar os movimentos.
Sds.,
de Marcelo.

terça-feira, 30 de outubro de 2007 11:22:00 BRST  
Anonymous soldadonofront disse...

E qual o problema do Brasil continuar sendo um país próspero, confiável e estável?

Por não Luis Inácio Lula da Silva num terceiro mandato?

Negócios? Preconceito?

terça-feira, 30 de outubro de 2007 11:37:00 BRST  
Blogger Julio Neves disse...

Vamos raciocinar. Está difícil aprovar a CPMF. Como então aprovar um terceiro mandato?

Mas, há vida nos "infinitos" ministérios. Um deles - Integração Nacional - está fazendo um acordo multilateral com Israel. Tomara que o PT não descubra...

terça-feira, 30 de outubro de 2007 18:12:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Dilma 2010. Lula 2014 (em retorno triunfal para mandato de 5 anos).
Talvez, depois de tudo isso, Serra.

terça-feira, 30 de outubro de 2007 19:14:00 BRST  
Blogger FPS3000 disse...

É bom lembrar que Lula é um político que sabe ponderar muito bem riscos e oportunidades, mesmo quando seu nicho de poder era somente o PT, com suas múltiplas correntes e personalidades que variam do tucano enrustido ao trotskista radical; sem falar que os grupos mais conservadores - os mesmos que se envergonham do presidente operário - farão de tudo para provar que Lula é um Hugo Chavez, a reencarnação do demônio vestido de gente.

A rigor, só interessa ao PT ver Lula de novo no poder; mas isso é pouco, muito pouco se comparado à quantidade de gente que deseja o inferno ao petismo militante.

terça-feira, 30 de outubro de 2007 19:32:00 BRST  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Mais uma vez, reforço minha tese: só o PT quer uma segunda campanha reeleitoral de Lula, já que não ter Lula candidato em 2010 seria um choque violento no partido.

Por outro lado, fica claro que a oposição quer, mas não sei se vai conseguir, transformar a luta contra o terceiro mandato de Lula num álibi na luta (inglória?) de unir-se em torno de uma candidatura única. E Aécio Neves, que não é bobo, já falou em 5 anos sem reeleição.

Pode ser, como disse o Rosan, que a emenda da segunda reeleição vire o bode que vai garantir os 5 anos sem reeleição. Na verdade, tem tudo a ver.

terça-feira, 30 de outubro de 2007 23:26:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Hoje no PT não existe um nome de confiança e não conseguiriam faze-lo em tão pouco tempo, as pessoas do partido que ainda são considerados honestos como Eduardo Suplicy, não gozam de força dentro do partido para ter a indicação do PT.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007 11:34:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

"Um hipotético terceiro mandato para Luiz Inácio Lula da Silva deixou na semana passada o terreno do boato e instalou-se no mundo muito material das especulações políticas."

No Painel de hoje, da FSP:

Em progresso.
Devanir Ribeiro (SP) quer apresentar oficialmente à bancada do PT seu projeto para permitir que Lula dispute um terceiro mandato. "Até agora, ninguém me pediu para desistir."

Quando a imprensa noticiou os "deslizes" éticos dos petistas, dos partidos aliados e do governo Lula, os áulicos gritaram: GOLPE DE ESTADO! CALEM ESSA BOCA SUJA, GOLPISTAS! Claro, a eles (à corte e seus áulicos) interessava somente o silêncio. É no silêncio e na calada da noite que se urdem os golpes contra a democracia:
"Até agora, ninguém me pediu para desistir."

"Simulando virtudes o tirano modifica micrologicamente as leis, adequando-as aos seus interesses privados, contra a ordem pública" (RR)

Abs.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007 12:12:00 BRST  
Anonymous Cfe disse...

Alon,

Permita-me:

Marcelo, contacte-me por favor, meu e-mail é:

cfe.cfe@hotmail.com

(Aos engraçadinhos: enho rastreador de vírus antes de abrir e-mail)

Muito obrigado

quarta-feira, 31 de outubro de 2007 13:46:00 BRST  
Anonymous Cfe disse...

Caro Alon,

Querer por querer até o FH queria o 3º mandato. É próprio dum governante sempre querer mais, afinal poder vicia. E eu que já não gostei do 2º mandato dele...acabei constatando a ironia do destino: tivesse ficado quietinho quem teria sofrido as consequências das crises internacionais em 1999 teria sido outro presidente, talvez o Lula. Quem sabe até FH pudesse ter concorrido em 2002 e ganho.

O PT pode até querer o 3ª mandato, mas o Lula por iniciativa própria não vai fazer nada pois sabe, julgo eu, dos perigos que essa decisão acarretaria: o país iria rachar. O que ele está fazendo é evitar que haja outra figura forte no II governo dele como José Dirceu no I: outra tempestade iria aparecer.

Bom mesmo era um mandato de 6 anos sem possibilidade de reeleição. Daria tempo para um presidente implementar seu programe e independência e não eternizariamos nenhum governante. Governo não é time de futebol para ter torcida.

No entanto subsiste o perigo com as vivandeiras que lhe ficam soprando no ouvido: "vai que é fácil, vai..."

Tenha a certeza de que não estou insinuando isso em relação a sua pessoa, já que sei que teve um cargo no Planalto.

Cfe

quarta-feira, 31 de outubro de 2007 14:13:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,

Este é o segundo comentário que faço neste assunto, e o último.

Comentar sucessão presidencial antes do final do primeiro ano de mandato é pura falta de assunto para jornalista de segunda, que não é o seu caso. Não engrandece em nada o seu blog. E o Nelson Jobim? E o Jacques Wagner? E o Arlindo Chinaglia, depois de assumir a vice-presidência? Etc, Etc., Etc.

(faço a critica pois sou leitor assíduo do blog, admiro as suas posições, mesmo sem concordar com todas)

quarta-feira, 31 de outubro de 2007 14:35:00 BRST  
Blogger Fernando disse...

Comentario postado no Hermenauta, sobre o mesmissimo assunto.

Alon e demais,

O mais importante da noticia é que, enquanto a oposição se ocupa de combater o terceiro mandato do homi, as coisa vao funcionando (PAC) e as articulaçoes vao rolando.

Oposiçao é que nem presidiario, melhor deixar ocupado quebrando pedra pra nao dar trabalho.

Acho q o homi percebeu o obvio, vai de Ciro e Dilma pra dividir e ter segundo turno (vide case Garotinho). E lah, eles decidem.

As coisas estao muito bem encaminhadas pro homi. Com CPMF ou sem CPMF (se nao for aprovada é a deixa pra retaliar governador tucano...)

Hasta,

quarta-feira, 31 de outubro de 2007 16:21:00 BRST  
Anonymous elétron faminto disse...

o gás já está sendo desviado para termelétricas. O risco de apagão está em 12% para 2009. Lula vai,vergonhosamente, atrás de Evo Morales, ver se consegue algum gás de urgência, depois da invasão das refinarias da Petrobrás, promovida há menos de dois anos...
Será o apagão da Dona Dilma.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007 22:19:00 BRST  
Blogger Fernando disse...

A questao é:

Acabou o gas e a gente foi buscar mais na Bolivia, ou a gente foi na Bolivia pq acabou o gas ??

quinta-feira, 1 de novembro de 2007 10:26:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Ah creio que, eu creio que...
No que mais vc. crê? Alon, por vezes voce e realmente inefavel. Tenho uma inveja peregrina de tua capacidade imaginativa.
Se as pessoas raciocinam com muita razao demonstrada ad nauseam, que se alguem m é indicado, dedazzado ou
longinguamente aludido pelo nosso Primeiro Torneiro loge é atacado pela midia...
E obvio que Lula nao vai indicar ninguem antes do tempo maximamente
exigido pela campanha. E para isso
deixar de desautorizar o continuismo é uma otima manobra.
A midia golpista nunca vai saber direito quem seria...
Agora essa de ficar no poder por si ou por "interposta pessoa", é do peru.
Alonzinho, Lula comecou negociando com gente SEMPRE mais poderosa, do
outro lado da mesa...Sabe que nao adiantaria ' interpor', se o outro
amanha tem poder e nao "interfica".
So simple.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007 15:48:00 BRST  
Blogger julio disse...

Atualizando tudo para 2010!!!

"Não" ao continuísmo de política governamental

A ex-presidente chilena, Michelle Bachelet, também brilhou nas pesquisas em final de governo com excelente aprovação (cerca de 80%). Mas na hora H, o povo chileno, inteligente, viu que o continuísmo não era uma boa solução. Afinal, ninguém é insubstituível. As ideias, ou seja, o conjunto de pensamentos de um indivíduo ou grupo político não pode ser tomado de forma absoluta durante todo o tempo, e deve, com a devida prudência, ceder espaço à renovação natural do pensamento humano, filosófico e político. Assim, é salutar que haja descontinuidade filosofia política no comando da Nação, ou que não se radicalize com a ideia de que, sem a presença de alguém ou sem o seu apoio na direção presidencial, o Brasil não vai pra frente.

Por outro lado, um dirigente de uma Nação não deveria subestimar os esforços dos governos anteriores. Pois, os antecedentes históricos (positivos ou negativos) servem de alerta para o aperfeiçoamento na condução das políticas públicas de novos governantes. Da mesma forma, nenhum governo deveria supervalorizar alguns resultados porventura considerados positivos de sua administração como resposta a seus antecessores.Governar não é participar de concurso de desforra política.

Aqueles que pregam a continuação (política) de governo não devem esquecer de que qualquer hegemonia política só levará o País ao implacável autoritarismo. O que, aliás, já se vem sentindo, por exemplo, com os desmandos presidenciais ao Tribunal de Contas da União (TCU), que fez restrições às obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e não foram obedecidas. Os governos democráticos precisam de constantes renovações. E todos deveriam ter essa conscientização.

É um grande erro achar que alguém seja insubstituível no Brasil, embora as pesquisas lhe sejam favoráveis. O Chile deu o grande exemplo de democracia, refutando a hegemonia de poder, ao derrotar nas urnas o candidato da ex-presidente, Michelle Bachelet, cujo governo desfrutava de alto índice de aprovação.

terça-feira, 30 de março de 2010 20:10:00 BRT  

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