terça-feira, 16 de outubro de 2007

O enigma em torno de Ciro Gomes (16/10)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (16/10/2007) no Correio Braziliense:

Depois do ocorrido com Renan, saber para onde os canhões do poder apontam passou a ser mercadoria ainda mais valorizada do que de hábito

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

O deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) não tem como não ser candidato a presidente da República em 2010. Basta olhar nesta edição a reportagem de Gustavo Krieger sobre os números da pesquisa CNT-Sensus divulgados ontem. Isso posto, ou o PT apóia a candidatura de Ciro ou a base aliada terá mais de um contendor para a sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva. O PT não quer apoiar Ciro, quer ter candidato próprio. Pelos cálculos do partido, um nome petista, com o apoio de Lula, terá condições de deixar Ciro para trás e ir ao segundo turno contra um tucano. Para, então com o endosso de Ciro e aliados dele, conseguir um terceiro mandato consecutivo para o PT na Presidência da República.

Esse cenário tem sido descrito com letras cruas pelos próprios petistas a aliados, inclusive a políticos do PSB e do PCdoB, partidos hoje mais próximos de um alinhamento com a possível candidatura Ciro. O cálculo do PT inclui reunir em torno de um nome petista já no primeiro turno o apoio do PMDB, do PR, do PP e do PTB, pelo menos. Além disso, o Palácio do Planalto trabalha dia e noite para arrancar, imediatamente, o PDT do bloco que este formou com o PSB e o PCdoB na Câmara dos Deputados. Os movimentos palacianos já acenderam a luz amarela no consórcio governista. Afinal, depois do ocorrido com Renan Calheiros, saber para onde os canhões do poder apontam passou a ser mercadoria ainda mais valorizada do que de hábito.

Pelo lado dos tucanos, a pesquisa não traz grandes novidades. Ela mostra, de novo, que ou o PSDB consegue unidade interna granítica ou terá pela frente uma eleição tão pedregosa quanto as duas últimas. Está também no PSDB uma das chaves para entender as perspectivas futuras da relação política entre o bloco PSB-PCdoB-PDT e o PT. Se o PSDB construir uma alternativa digerível para a esquerda não petista, tem alguma chance de atrair apoios que hoje pareceriam impensáveis. Se não, corre o sério risco de naufragar diante de uma frente lulista num eventual segundo turno.

Dada a antecedência de três anos, poderá parecer ao leitor que esses cálculos embutem boa dose de futurologia. É possível que embutam. Note-se, porém, que no xadrez político os movimentos das peças buscam sempre um de dois objetivos: manter-se no poder ou dele desalojar os adversários. Daí a necessidade de alguma futurologia.

Há entretanto uma variável que impede por enquanto conclusões razoavelmente definitivas. Como observou Luiz Carlos Azedo neste espaço uma semana atrás, todo movimento e toda estratégia implicam atrito. Qual seria, por exemplo, o custo político de uma operação petista para ultrapassar Ciro Gomes em 2010 e tirá-lo do segundo turno? Em quanto as perdas decorrentes dessa fricção reduziriam a naturalidade de uma aliança lulista para formar um bloco antitucano num hipotético segundo turno?

Ciro Gomes mantém excelentes relações políticas com Aécio Neves. O deputado e presidenciável cearense não esconde de ninguém sua simpatia por uma aproximação com o atual governador de Minas Gerais com vistas a 2010. Outro interlocutor próximo de Aécio é o governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB, Eduardo Campos. Entre os três elementos desse conjunto, qualquer arranjo dois a dois é possível.

O problema conhecido de Aécio é que ele só terá a legenda tucana se o seu colega de São Paulo, José Serra, decidir não concorrer à Presidência, como já aconteceu em 2006. É improvável que o fato se repita. Daí o cálculo petista de que numa tripolarização entre Serra, um petista e Ciro Gomes basta colocar o candidato do PT no segundo turno e mandar fazer as roupas de gala para a posse.

A estratégia petista tem dois problemas, pelo menos. O primeiro é que ela depende de que os adversários do PT não se entendam entre si. É sempre arriscado depender tanto assim dos outros. O segundo é que ela depende de os tucanos não se entenderem entre si. O retrospecto autoriza essa previsão dos petistas, mas é cauteloso notar que em 2010 os tucanos já terão amargado quase uma década longe da caneta. Eventualmente, o PSDB pode chegar à virada da década com vontade de voltar ao poder. Talvez seja prudente contar com essa possibilidade.

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9 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon. E já há pedrinhas no caminho do Ciro jogado pelas tintas dos jornalistas da "elite" (aquela que domina a mídia sem qualquer responsabilidade que uma elite séria tem). Veja o caso do Blog do Noblat. Ontem postei mensagem às 18:30 apontando erro no post que informava que o Serra estava na frente do Ciro na pesquisa de lista com todos os candidatos (se a margem de erro da pesquisa CNT/Sensus é de 3%, havia empate entre os 4 primeiros colocados). A mensagem foi censurada. Hoje postei outra às 10:30 apontando a censura, que também foi censurada. Repito a mensagem:
FUI CENSURADO ONTEM ÀS 18:30. MAS PARA MIM ERA TÃO NATURAL QUANTO OS REFLEXOS DE INSPIRAR E EXPIRAR. SE HAVIA MOTIVO? OBJETIVO NÃO. APENAS A REALIDADE QUE É OCULTADA EM GRANDE PARTE DESTE BLOG. AFINAL O QUE POSTEI: A LEITURA DA PESQUISA ESTÁ ERRADA; NA LISTA DE NOMES HÁ EMPATE TÉCNICO ENTRE OS 4 PRIMEIROS COLOCADOS. NA LISTA ONDE O SERRA TEM 30% E O CIRO 23%, HÁ 28% DE INDECISOS (E SE CONSIDERAR A MARGEM DE ERRO DE 3% POR ESTAR SERRA COM 27% E CIRO COM 26% COM 21% DE INDECISOS). HÁ MUITO TORCIDA E POUCO FATO.

Rosan de Sousa Amaral

terça-feira, 16 de outubro de 2007 11:43:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O grande eleitor do PT, desde sempre, é Lula. O grande eleitor do Lula não é o PT, é a oposição. Caso esta consiga perceber e mostrar que a gestão atual está cada dia mais parecida com a imagem negativa que faz da oposição, terá chances. Isto porque, na realidade, tanto Lula como o PT estão na defensiva, carregando enorme passivo. Porém, conseguiram colocar todo espectro político, inclusive o arco aliado, no mesmo patamar. A partir dai, fica mais fácil diferenciar-se do que alardeiam ser pior. Para isto, fiam-se e investem pesado na elevada popularidade de Lula. A estratégia só funciona calcada na popularidade de Lula. Até agora deu certo. E pode continuar a dar, exceto se forçarem um terceiro mandato de Lula já em 2010. Se não fizerem isto, conseguirão que a oposição política surja forte apenas após 2010. E surjirá, dado o passivo acumulado e contido. Até lá, tentarão manter a imagem de Lula, única âncora de que dispõe. E mesmo a popularidade de Lula não será capaz de eleger um poste. Mas a oposição sempre poderá reeleger Lula.
Sotho

terça-feira, 16 de outubro de 2007 11:49:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, ainda tá muito cedo para falar de 2010. Seria preciso prestar atenção no arco de alianças para as eleições municipais de 2008 para depois ver o que pode ser feito dois anos depois. Será que o partido que fizer mais prefeituras em 2008 terá a liderança na corrida de 2010? Geralmente, o PMDB fica com mais prefeituras.
Sds., de Marcelo.

terça-feira, 16 de outubro de 2007 15:13:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Com apoio ou sem apoio do PT, o que Ciro Gomes tem que se preocupar é que seus bons índices nas pesquisas, o coloca diretamente na linha de fogo da guerra de dossiês, vazados para a imprensa, que devem vir à tona de vez em sempre até 2010.

Fora o aspecto midiático, Ciro está bem posicionado politicamente. Ele é receptor de votos do eleitor de Lula não petista, e não sofre no eleitorado oposicionista a rejeição a Lula.

Caso sua candidatura não componha com o governo, poder formar um arco de apoio que cabe até os 'demos', como já aconteceu eu 2002, com implosão da candidatura de Roseana Sarney.

Em tempo: pelo menos desta vez, nas suas conjecturas para 2010, não incluiu no cenário um terceiro mandato de Lula.

terça-feira, 16 de outubro de 2007 17:12:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,

É irrelevante falar de possíveis candidatos já no primeiro ano de governo. Sugestão de um leitor assíduo e fã da coluna: esquece este assunto pelos próximos dois anos e meio.

terça-feira, 16 de outubro de 2007 19:21:00 BRST  
Blogger Richard disse...

Ainda tenho quardada sua crônica "no comando da própria sucessão", ainda a melhor e mais profunda análise futurológica.
Quanto ao Ciro, bem, assim como aconteceu na eleição passada, basta ele abrir a boca que ele perde! Nacionalmente falando, ele não se cria. Talvez como vice de Aécio, mas acho uma ginástica política muito grande!!!!!

terça-feira, 16 de outubro de 2007 22:36:00 BRST  
Anonymous Mello disse...

Os números de Ciro não são tão entusiasmantes, considerando sua militância como candidato a presidência.
Aliás, observada a distribuição de seus possíveis eleitores, se verifica baixíssima penetração no centro-sul.
Os candidatos do PT também seguem a mesma tendência. Dividirão votos.
Não acredito em outro fenômeno nordestino na presidência. Lula foi um caso excepcional.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007 11:14:00 BRST  
Blogger Albino disse...

Prabens Alon pela sua futurologia.Hoje dois anos depois de sua previsão está confirmando que CIRO È CANDIDATO A PRESIDENTE

segunda-feira, 17 de agosto de 2009 14:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caso Ciro Gomes saia como Presidente, com toda certeza irá para segundo turno com José Serra, isso será a maior descepção do PT por apoiar a Dilam Russef.
Ainda é tempo do PT mudar de idéia caso queria continuar no comando.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010 19:55:00 BRST  

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