quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O El Pais talvez ache que Petáin foi um herói (17/10)

Max Altman envia-me o texto de um editorial do El Pais sobre Ernesto "Che" Guevara. O El Pais é um ótimo jornal, identificado cm o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), social-democrata. O jornal foi criado em 1976, após o ocaso do franquismo. Depois da breve apresentação, transcrevo abaixo a íntegra do editorial. É um belo exemplo de como o assim chamado primeiro mundo pode produzir bobagens tão reluzentes quanto as fabricadas em qualquer outro canto do planeta. É também exemplar sobre a desfaçatez de um pensamento dito social-democrata que busca a qualquer custo ingresso nos convescotes político-intelectuais da direita. O convescote neste caso são as tentativas reacionárias de achincalhar Che Guevara no na 40a. passagem de sua morte. Olhem o que afirma sobre o assunto o social-democrata El Pais:

Caudillo Guevara

10/10/2007

El romanticismo europeo estableció el siniestro prejuicio de que la disposición a entregar la vida por las ideas es digna de admiración y de elogio. Amparados desde entonces en esta convicción, y a lo largo de más de un siglo, grupúsculos de las más variadas disciplinas ideológicas han pretendido dotar al crimen de un sentido trascendente, arrebatados por el espejismo de que la violencia es fecunda, de que inmolar seres humanos en el altar de una causa la hace más auténtica e indiscutible. En realidad, la disposición a entregar la vida por las ideas esconde un propósito tenebroso: la disposición a arrebatársela a quien no las comparta. Ernesto Guevara, el Che, de cuya muerte en el poblado boliviano de La Higuera se cumplen 40 años, perteneció a esa siniestra saga de héroes trágicos, presente aún en los movimientos terroristas de diverso cuño, desde los nacionalistas a los yihadistas, que pretenden disimular la condición del asesino bajo la del mártir, prolongando el viejo prejuicio heredado del romanticismo. El hecho de que el Che diera la vida y sacrificara las de muchos no hace mejores sus ideas, que bebían de las fuentes de uno de los grandes sistemas totalitarios. Sus proyectos y sus consignas no han dejado más que un reguero de fracaso y de muerte, tanto en el único sitio donde triunfaron, la Cuba de Castro, como en los lugares en los que no alcanzaron la victoria, desde el Congo de Kabila a la Bolivia de Barrientos. Y todo ello sin contar los muchos países en los que, deseosos de seguir el ejemplo de este mito temerario, miles de jóvenes se lanzaron a la lunática aventura de crear a tiros al "hombre nuevo". Seducidos por la estrategia del "foquismo", de crear muchos Vietnam, la única aportación contrastable de los insurgentes seguidores de Guevara a la política latinoamericana fue ofrecer nuevas coartadas a las tendencias autoritarias que germinaban en el continente. Gracias a su desafío armado, las dictaduras militares de derechas pudieron presentarse a sí mismas como un mal menor, cuando no como una inexorable necesidad frente a otra dictadura militar simétrica, como la castrista. Por el contexto en el que apareció, la figura de Ernesto Guevara representó una puesta al día del caudillismo latinoamericano, una suerte de aventurero armado que apuntaba hacia nuevos ideales sociales para el continente, no hacia ideales de liberación colonial, pero a través de los mismos medios que sus predecesores. En las cuatro décadas que han transcurrido desde su muerte, la izquierda latinoamericana y, por supuesto, la europea, se ha desembarazado por completo de sus objetivos y métodos fanáticos. Hasta el punto de que hoy ya sólo conmemoran la fecha de su ejecución en La Higuera los gobernantes que sojuzgan a los cubanos o los que invocan a Simón Bolívar en sus soflamas populistas.


Vamos por partes. Dizer que o "romantismo europeu" é o responsável pela glorificação do sacrifício de quem dá a vida pela causa é de fazer rolar de rir, nem que o riso decorra apenas da exibição de ingorância de quem escreve tal estultícia. Os românticos, lá do céu, devem até estar a agradecer o elogio, a valorização. Infelizmente, para os românticos e para o El Pais, quem começou do lado de cá do mundo com essa coisa de sacrifício foi nada menos que Jesus de Nazaré, ironizado pelos romanos como "o rei dos judeus". O pessoal do jornal deve ter esquecido desse pequeno detalhe, de que dois milênios atrás Jesus caminhou em direção à morte certa (esperou os soldados romanos chegarem para capturá-lo). O propósito de seu sacrifício foi salvar toda a humanidade. Mais espantoso ainda é saber que a terra do El Pais, a Espanha, alinha-se entre os países mais católicos do mundo. Uma hipótese para o comportamento elíptico do jornal é que o El Pais tenha ponderado intimamente sobre a inconveniência de atribuir a Jesus a responsabilidade última pelos malfeitos que condena em seu editorial. Talvez tenham preferido repassar essa culpa aos românticos. À luz do texto bilioso, não deixaria de ser uma surpreendente demonstração de bom senso. Mais adiante, o editorial afirma que a disposição de entregar a vida pelas próprias idéias esconde sempre um propósito tenebroso: a propensão de tirar a vida de quem não concorde com essas idéias. Atentem bem ao que diz o El Pais. Segundo os escribas do jornal, todo mundo que topa morrer por alguma causa é um facínora em potencial. Segundo o "raciocínio" do El Pais, eram facínoras os republicanos espanhóis, que aceitavam morrer entre 1936 e 1939 pela idéia de que a Espanha não deveria ser entregue pacificamente a Francisco Franco. Heróis, na original "concepção" do El Pais, talvez tenham sido Philippe Petáin (foto) e Pierre Laval, que diante da derrota inevitável da França em 1940 decidiram pela capitulação, como a solução patriótica mais adequada para evitar a destruição de seu país. Facínora, para o El Pais, possivelmente era quem se opunha a Vichy, quem estava disposto a morrer para livrar a França da ocupação. Em frente. Depois de pagar o tradicional pedágio à direita ao fazer referência ao "sistema totalitário" que supostamente seria a fonte das idéias de Che Guevara, o El Pais afirma que o único aporte significativo dos seguidores dele à política latinoamericana foi reforçar as tendências autoritárias que germinavam no continente. Que estupidez! É possível considerar que a luta armada nos anos 1960 e 1970 do século passado na América do Sul foi um erro político sem enveredar por uma sandice dessas. O aporte de Che à política sulamericana é tão significativo que sua memória e imagem são referência dos movimentos políticos ascendentes no continente. Já a memória dos que o combateram e acabaram por matá-lo foi atirada faz tempo na lata de lixo da História. Da Venezuela ao Equador, da Bolívia ao Peru, passando pelo Paraguai, o que está em alta são movimentos políticos que combinam o nativismo indígena com o nacionalismo herdado dos caudilhos que lideraram a descolonização da América Espanhola. Pelo jeito, o editorialista do El Pais é mais espanhol do que progressista, ou não assistiu a Diários de Motocicleta. Ou ambas as coisas. O editorial leva jeito de que foi escrito por quem não gosta de índios no poder nem de governos nacionalistas em nações que o neocolonialismo espanhol talvez julgue serem quintal seu. Compreende-se o mau humor da pena de aluguel. Basta atentar para os bons negócios (eu diria ótimos) que os espanhóis vêm conseguindo onde não vige o "caudilhismo" execrado pelo editorial do El Pais. Em mais esse ataque à memória de Che Guevara, não custa lembrar novamente, e sempre que for necessário, que O ódio à lembrança dos mortos reflete o medo na alma dos vivos. Triste editorial, esse do El Pais. Triste porém revelador.

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32 Comentários:

Blogger Ricardo disse...

Até onde sei, Che seria um ditador sanguinário por tudo que já li a respeito... Portanto, não seria um Pétain, mas provavelmente seria um Pol Pot argentino.
Che merece ser achincalhado não por estar morto, mas pelo fato que não se combate violência com mais violência.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007 19:59:00 BRST  
Anonymous paulo araujo disse...

Alon

Você entende de Jesus tanto quanto eu entendo a Tora.

Vamos deixar a pessoa histórica do Cristo fora disso, por favor.

Jesus, para os cristãos, é Deus feito homem (mistério da Santíssima Trindade) que veio ao mundo para nos salvar. Não deste mundo, mas para nos salvar para aquele onde Ele é Rei. Não há romantismo na vida de Jesus. Tudo em relação a Ele ocorre como parte do plano de Deus.

Vamos debater o mito histórico Che. Porém, se formos falar do Cristo o debate é outro, ao menos para os cristãos.

PS: Ainda volto aqui. O tema do post é ótimo.

Abs.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007 20:06:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Parabéns Paulo, vc entende bastante da Torá. Quer dizer então que o sacrifício de Jesus não foi para nos salvar? Foi para quê?

quarta-feira, 17 de outubro de 2007 20:29:00 BRST  
Anonymous Cfe disse...

Caro Alon,

Mas que grande pretensão: querer comparar Che a Jesus...

Jesus, para quem acredita, é Deus encarnado homem. Jesus foi ao encontro de seus algozes, quando quis, para cumprir os planos de seu Pai. Disse claramente que seu reino não era deste mundo e aconselhou seus seguidores a oferecer a outra face quando lhes batessem.

Acredite ou não na veracidade da divindade e no percurso que Jesus teve em sua vida o fato é que a maneira como é narrada sua história difere totalmente de Che.

Che apenas se substitui no lugar de algoz-mor, justificando sua ação com uma prentensa nobreza da ideologia que professava. Morreu simplesmente porque não tinha a disposição os meios de eliminar seus inimigos.

Quanto ao El País, acho-o um jornal bem equilibrado, moderno e obviamente defensor do ponto de vista espanhol. Colocar a nação acima da ideologia é uma coisa que a esquerda espanhola faz sem dor na consciência. Não é a toa que a Espanha é a 7ª economia do mundo. Quando a esquerda brasieira entender isso, ninguem segura o Brasil.

Respeitosamente,

quarta-feira, 17 de outubro de 2007 21:25:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Os redactores de El Pais se rebelaron contra isse editorial e pela primeira vez em trinta anos van fazer uso do direito que o "Estatuto de la Redacción" lhes confere:
"III. Del cambio de la línea de la publicación y de la cláusula de conciencia.

Art. 7. Cuando dos tercios de la redacción consideren que una posición editorial de El País vulnera su dignidad o su imagen profesional, podrán exponer a través del periódico, en el plazo más breve posible, su opinión discrepante."
Ja tem mais de 230 assinaturas e num prazo breve va se publicar:
http://www.tiny.cc/75fp4
Alem e bom informar que atualmente o grupo editorial do El Pais ta numa guerra con o Governo de esquerdas do Zapatero.

Eu acho que deu pra ver nos meus erros de portugués que sou espanhol. Nao tenhan medo, eu ja vou...

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 05:55:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
comparar Jesus com Che é totalmente descabido. Só porque ambos eram barbudos? Que tolice. Jesus não usou armas, nem fomentou guerras. Ele morreu para salvar a humanidade, sem matar ninguém, sem criar ditadura nenhuma.
Excelente o editorial do El País. Se vc. tivesse lido alguma coisa do romantismo alemão dos séculos XVIII e XIX saberia o quanto o jornal espanhol tem razão. Foi esse voluntarismo exacerbado que jogou no cemitério gerações inteiras, colocando ideais egoísticos e particulares acima de valores humanos gerais, como o direito à vida e à liberdade. Esse romantismo é a base ideológica de totdos os totalitarismos do século XX: fascismo, comunismo, socialismo, nazismo e suas derivações.
Sds., de Marcelo.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 08:07:00 BRST  
Anonymous Rodrigo disse...

Boa, Alon!

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 08:51:00 BRST  
Anonymous Luiz Lozer disse...

Boa, Alon!

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 10:46:00 BRST  
Blogger Ivo La Puma disse...

Alon, não concordo em comparar Che, os opositores de Franco ou da Rép. de Vichy, a Jesus, pois este não matou ninguém. Contudo, tirando este ponto, acho válido o seu argumento.

Além disso, nunca houve um governo democrático que tenha sido suprimido por uma revolução socialista. Já por "revoluções" de direita, sabemos muito bem.

Principalmente esses, que agora querem macular a história de Che, não duvido nem um pouco que voltem a defender golpes em governos democráticos que não considerem alinhados às suas idéias.

Abraços!

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 11:40:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O progresso do Brasil só depende da morte simbólica da esquerda. Logo, precisamos com urgência preparar um currículo direitista para a escola básica: Merquior, Von Mises, Roberto Campos, Raymond Aron, Huntington, Friedman, Fox News (esta com legendas e som em inglês) ...
*
"Quando a esquerda brasieira entender isso, ninguem segura o Brasil."

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 11:44:00 BRST  
Anonymous Rodrigo disse...

ih Alon, vão declarar uma fatwa contra você. Olha a jihad...

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 12:24:00 BRST  
Anonymous Rodrigo disse...

ih Alon, vão declarar uma fatwa contra você. Olha a jihad...

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 12:24:00 BRST  
Anonymous Fernando Trindade disse...

Prezado Alon,

Parabéns pelo texto. Sem dúvida, uma das suas qualidades é a coragem de expor com firmeza, coerência - e bom humor - as suas posições 'contra a corrente' e exercer com maestria o contraditório (você seria também um excelente advogado).
Realmente lamentável o editorial do El País. Como você bem disse, pode-se fazer a crítica (consistente) dos que optaram pela luta armada nos anos 60 e 70 do séc. passado sem enveredar pelo maniqueísmo e pela desqualificação em que caiu El Pais (inclusive a partir de uma perspectiva de direita!. Mas não é possível negar a realidade: apesar de seus erros Guevara tornou-se talvez o maior símbolo/signo mundial das aspirações por justiça social e também da afirmação da identidade latino-americana.
E, ainda, com certeza, o maior símbolo global da - inevitável -rebeldia juvenil 'tout court', inclusive nos países centrais do Ocidente e independente de classe social.Quanto a esse último aspecto, o que El Pais, Veja 'et caterva' pretendem negar é inteligente e lucrativamente compreendido pelo capital. Veja-se, por exemplo, a efígie do guerrilheiro morto nas roupas e acessórios caros das grifes de elite do Mundo da moda.
Cá do meu canto eu lembro de passagem do livro em que Jacques Derrida (um não-marxista) faz bela defesa da herança que nos legou Marx, contestando outra tese apregoada por certa mídia: a de que o marxismo não tem nada mais a dizer, está morto e ponto. Diz Derrida "...o exorcismo eficaz não finge constatar a morte a não ser para matar. Como o faria um médico legista, ele declara a morte, mas é aqui para dá-la. Conhece-se bem esta tática. A forma constativa tende a tranquilizar. A constatação é eficaz.(...) Mas a efetividade aqui se fantasmaliza a si mesma.Trata-se, com efeito, de um performativo que procura certificar, mas primeiramente, certificando a sim mesmo ao certificar-se, pois nada é menos certo do que isto, cuja morte desejaríamos, esteja de fato morto. Ele fala em nome da vida, presume saber o que ela é. quem o sabe melhor do que um vivo? Parece dizer sem rir. Procura convencer-(se) aí onde (se)infunde medo:ei-lo, o que se mantinha vivo, diz-(se), já não vive mais, assim é que isso não continua sendo eficaz na morte, podem ficar tranqüilos. (Trata-se de um modo de não querer saber isto que todo vivo sabe sem aprender e sem saber, que o morto pode ser, às vezez, mais poderoso do que o vivo;...)Em suma, trata-se muitas vezes de fingir constatar a morte aí onde a certidão de óbito ainda é o performativo de uma ação de guerra ou a gesticulação impotente, o sonho agitado de um assassínio."(Cf."Espectros de Marx", ed. brasileira, Relume Dumará, 1994,p.71",Trad.Anamaria Skinner)

Enfim, termino indagando: o impressionante esforço a que assitimos para - desqualificando-o - matar o símbolo/signo Guevara, na verdade não termina sendo a comprovação mais efetiva da sobrevivência e expansão desse Che simbólico e também não demonstra o fracasso politico do que se queria obter com a morte do seu corpo físico? At. Fernando Trindade

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 12:56:00 BRST  
Anonymous Cfe disse...

Caro anônimo,

Que tal Eric Voegelin?

"Morte simbólica da esquerda". Interessante a expressão: como é que se mata um símbolo?

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 15:05:00 BRST  
Anonymous Pedra disse...

Alon,

Jesus nunca pregou que devemos matar em nome de Deus ou da "causa" que defendia.
Há uma diferença enorme entre Jesus e Che. Che matava seus opositores, Jesus em momento nenhum pregou isto .

Felizmente, muitos mitos vêm caindo por terra e me parece que Che Guevara é um deles.

O que mais me chamou a atenção é : O que realmente fez Che Guevara? Qual foi a contribuição deste cidadão para a sociedade humana? Não vejo você nem ninguém dizer nada de bom a respeito do sujeito, apenas rebater as informações publicadas, que parecem negativas sobre CHE, com discursos vagos e pouco isentos.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 15:52:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Interessante que o Che vivo era um incômodo para Fidel e para os russos. Morto, virou um símbolo oportuno para aqueles que o queriam morto. Pensando bem, os bolivianos foram primitivos quando decidiram executá-lo. Melhor teria sido expô-lo junto com seu pensamento vivo e sanguinário.
Sds., de Marcelo.,

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 17:45:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Ja foi publicada no El Pais a nota da redaçâo mostrando o desacordo com o editorial:

http://www.tiny.cc/NGSGt

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 18:14:00 BRST  
Anonymous Beto Fernandes disse...

É interessante que se perceba que no 40° ano que é lembrado o assassinato de um homem que deu sua vida pelos humildes e explorados, venha a grande mídia reacionária produzir uma história que só ela "conhece". Os fatos históricos estão colocados, pois todos sabem que o principal articulador da eliminação de Che foi o Governo dos EUA através de sua forte entidade terrorista a CIA. Nesse caso, tomou o cuidado de esconder suas digitais. Como sempre utilizou de fantoches como esse tal general Barrientos e os cubanos traidores que já haviam sido derrotados no ataque homicida à Baía dos Porcos, em 1961. No mais, é tudo provocação dessa mídia reacionária como o El País e a Veja. Che Vive!

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 21:31:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

o comentarista parece não ter captado toda a sofisticação cultural do texto do El País. Não se disse no texto "morrer pela causa", se disse "morrer por idéias", o que é absolutamente diferente. Morrer por um ideal abstrato, o marxismo, por exemplo, é bem diferente de morrer pela cidade, pelo país, pela família, etc.
Dito isso, o editorial aponta ainda uma outra impropriedade da imolação utópica: a perspectiva de divinização e beatificação do suicida e de sua causa meramente em função de seu "altruísmo" em entregar a vida. Eu vejo toda essa gente fundamentalista islâmica entregando a vida em função de uma crença obscurantista e deploro tanto a disposição suicida quanto o objetivo pelo qual entregam a vida.

Interpretar um texto corretamente é sempre difícil para a esquerda. Essa é a razão principal de ficarem há mais de um século escarafunchando O Capital como se fosse o Santo Graal, num hermenêutica doente.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 22:45:00 BRST  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon: Texto inteligente e sofisticado. Chamou-me a atenção a expressão “pagar o tradicional pedágio à direita”. Essa espécie de CPMF intelectual parece onipresente na mídia em todo o planeta, mas sobretudo no Brasil onde penaliza severamente as mentes mais abertas não só para a exposição de idéias mas até para a implementação de políticas públicas. Essa é a questão. Um abraço.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 22:56:00 BRST  
Blogger Julio Neves disse...

Esse Guevara tá mais pra um Sadam...

quinta-feira, 18 de outubro de 2007 23:49:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O principal sobre o romantismo foi dito no comentário do Marcelo.

Sobre Jesus, quem quiser saber mais e melhor o recomendado é ler os Evangelhos.

Sobre Che Guevara, eu me interesso pelo Che histórico. Me interesso pela contsrução histórica do mito (a substancia moldável do ser histórico Che Guevara).

Sobre o movimento político inspirado nos eventos cubanos, eu me intereso pelo foquismo e, sobretudo, me interesso sobre como essa "teoria" polítca serviu para conduzir a América Latina a mais um desatre de proporções e consequências bastante conhecidas.

O fato novo, já disse antes, e que merece análise é bem localizado: a ruína do socialismo no final do século XX colocou os herdeiros do socialismo real do séc XXI num beco sem saída. Desesperados e acuados neste presente, não falam, como fizeram Marx e Lênin, do futuro. Hoje, seus olhos, seus corações e suas mentes buscam conforto e esperança e defesa no seu passado mítico. Agarram-se nessa falsa esperança que é esse difuso regressismo comunitarista ("o que está em alta são movimentos políticos que combinam o nativismo indígena com o nacionalismo herdado dos caudilhos que lideraram a descolonização da América Espanhola") pomposamente apelidado de "socialismo" do séc. XXI.

O fato histórico inquestionável é a falência do socilaismo tal e qual pensaram os seus fundores. Exatamente aqueles que o queriam socialismo científico! Sobre isso os socialistas se calam.

Ermst Bloch escreveu sobre utopia. Disse que o pensamento utópico é o alicerce da esperança humana. Disse que a utopia era mais que o movimento do pensamento em busca do "outro mundo possível". Disse, finalmente, que a utopia era a essência da liberdade humana.

Num campo oposto dessa idéia bem estabelecida nas cabeças socialistas, estão, claro, alguns dos seus críticos: Orwel e seu 1984; Huxley e seu Admirável Mundo Novo. Nesses escritores a utopia é totalitária, inimiga da liberdade e da história.

Essa exaltação da "morte gloriosa" cae muito bem na boca dos vivos, Alon. Há uma passagem na Odisseia bastante ilustrativa sobre o que penso sobre o assunto ("a disposição de entregar a vida pelas próprias idéias"). Homero relata o encontro de Ulisses com Aquiles, que depois de morto gloriosamente em Troia recebeu dos deuses a recompensa de reinar no Ades. Ao encontrar o amigo, Ulisses o saúda com alegria como Aquiles, rei do Ades. Aquiles respodeu assim à saudação de Ulisses: "meu caro amigo, pois eu preferia estar no mundo dos vivos, mesmo que fosse como o mais humilde e miserável pastor de ovelhas, do que reinar eternamente aqui no Ades".

Abs.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 00:03:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo Araújo, parece que não consegue ver distinção entre o "socialismo científico" e o chamado "socialismo real" implantado pela URSS e exportado para o restante do bloco "do outro lado da cortina-de-ferro". A falência do último, ao contrário do que afirma, não foi um fenômeno pelo qual os socialistas se calam, muito pelo contrário.

Muito interessante seu rótulo de Orwell como um "crítico do socialismo". Porém sabe-se muito bem que Orwell considerava a si próprio um socialista. Procure saber de sua obra anterior a 1984 e Revolução dos Bichos (críticas ao stalinismo sob uma perspectiva extremamente pessimista) e sua participação na guerra civil espanhola. É triste que sua obra ainda seja usada como propaganda neomachartista.

Che dizia o que pensava e fazia o que dizia. Neste mundinho sem transcendência de hoje, quem faz isso...? O guerrilheiro pôs os "pingos nos i's" em relação ao regime soviético e aos rumos da revolução cubana, e por isso foi isolado. Não fazia concessões. Morreu em 67, no auge da contracultura. As condições foram ideais para que se rapidamente tornasse um mito - o famoso pôster já seria erguido em protesto à intervenção das tropas russas na "Primavera de Praga" em 68.

"Outro mundo é possível", pois bem. Diria que "Outro mundo é possível e necessário."

Abraços,

Luís

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 12:56:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Luis

Citei o Orwel em oposição a o que o Ernst Bloch escreveu sobre utopia. Para Bloch, filósofo alemão marxista que conseguiu fugir dos nazistas indo para os EUA, ela define o que é essencial: a liberdade humana para imaginar e criar. Orwell é bem menos otimista quanto a essa liberdade de criação.

Eu me interesso mais sobre os movimentos de resistência às utopias. Ou seja, não vejo as utopias com os olhos otimistas do Bloch. Vejo as utopias com muita desconfiança.

Muito se escreveu sobre as utopias totaliárias do sec. XX. Para mim o principal é que elas não conseguem se realizar plenamente. Eu me interesso não pela história dos seus diferentes apologistas, mas pela história dos que resistiram e as confrontaram, seja na Alemanha nazista, seja na URSS stalinista.

A referência histórica concreta (desculpe a redundância) que existe para análise dos historiadores sobre as realizações do socialismo científico só pode ser o socialismo real. Historiadores trabalham com fatos. Suas análises e narrativas do passado, e mesmo o seu juízo de valor sobre ele, somente são úteis se solidamente fundamentadas na pesquisa empírica que, necessariamente, as antecede.

Abs.

Abs.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 14:24:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Interessante: sempre tem alguém para dizer que o socialismo que nós conhecemos é uma deformação do socialismo/comunismo de Marx, Engels e Lenin. Daí essa distinção entre científico e real. Mas sempre e em todo o lugar que se tentou implantar um socialismo de corte científico, acabou-se reproduzindo a tragédia stalinista. O problema não está na execução, nem no executor. Está na teoria em si. Elevá-la a um plano ideal, pseudo-científico que seja, mas inatingível, é apenas uma escapada retórica ao debate que confirmaria a sua imperfeição. Daí a importância de cultivar mitos, para propagandear feitos e ideais elevados, mesmo que nunca praticados.
Sds., de Marcelo.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007 16:38:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Pessoal,

antes de descambar para o preconceito religioso e iditices que tais, mandando as pessoas para o gueto, vamos ler o editorial do El País e reler os comentários do Alon. Espanhol é fácil de entender, é quase igual português, façam um esforço.
A comparação é em outras bases. E é válida. Cair no chão chamando a falta é ridículo.

O nome de Jesus não é exclusividade dos cristãos, como o de Moisés não é dos judeus, e assim por diante...

Vâo defender suas respectivas religiões lá nas suas igrejas, que aqui o buraco é mais embaixo.

Quem não percebe a falácia que é a comparação entre coisas tão totalmente diferentes como as correntes de esquerda e as correntes de direita deveria simplesmente desistir de tentar discutir política.

sábado, 20 de outubro de 2007 01:14:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Esse poster do Che Guevara aparece nos lugares mais improváveis, o que dá exatamente a medida da pertinência da sua idolatria: academias de ginástica, calcinhas de modelo, oficinas mecânicas e o escambau. O homem que virou suco.

sábado, 20 de outubro de 2007 22:00:00 BRST  
Anonymous ancelmo luiz graceli disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

sábado, 5 de julho de 2008 10:16:00 BRT  
Blogger Vinicius Duarte disse...

Muito se falou dessa comparação de Che com Jesus.
Esta bem,e se compararmos Jesus com Martin Luther King.Ambos não matarão ninguem.Mas tiverão coragem de morrer por suas ideias(ou causas).Então,pela classificação deploravel desse jornal,ambas são facínoras?
Na minha opinião:com certeza não.

Ja sobre o socialismo,pelo menos pelo que eu entendo,de fato existiu.Más só a sua face negra.Essa face negra,que so descambou em regimes autoritários,
é o chamado Solicialismo operario burocratico(se aprofundem em pesquisas sobre o assunto que vocês entenderão).O que de fato nunca existiu,infelizmente,foi o comunismo(pesquisem sobre isso que vocês entenderão).
Feliz ano novo a todos

domingo, 28 de dezembro de 2008 20:35:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

oi alon...

chego aqui com 2 anos de atraso, mas nao pude deixar de perceber, que boa parte dos teus leitores, foi mal em analise de textos...( quando na escola estiveram, se estiveram...|) achei otimo teu texto e , salvo melhor juizo, nao vi tal comparacao entre che guevara e jesus cristo. apenas percebi, o que voce quis dizer , que teria sido cristo quem havia inugurado o modo "romantico" de morrer, e nao teria sido Che que iniciou esta modalidade de morte.
atenciosamente

pinheiro

sexta-feira, 31 de julho de 2009 23:10:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

É isso mesmo.

sexta-feira, 31 de julho de 2009 23:18:00 BRT  
Anonymous Ivan Carvalho disse...

Che queria matar seus opositores ou aqueles a que ele se opunha.
Jesus os amava, perdia perdão para eles e recomendava o amor aos inimigos. Entre os quais o Che provavelmente estava incluido.
Isso faz toda a diferença.

sábado, 26 de novembro de 2011 03:11:00 BRST  

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