domingo, 7 de outubro de 2007

O ódio à lembrança dos mortos reflete o medo na alma dos vivos (07/10)

O ódio não tem vez neste blog. Por exemplo, quando morreu Augusto Pinochet, o post sobre ele foi respeitoso, com viés histórico. O ódio é a outra cara do medo. Eu interpreto o ódio despejado sobre a biografia dos líderes socialistas como um sintoma de medo. Teme-se que talvez o socialismo não esteja morto, apesar das afirmações em contrário. Usando a máxima de Mark Twain, as notícias sobre a morte do socialismo talvez tenham sido exageradas (clique no bilhete). Na América do Sul, por exemplo, o ambiente político para o liberalismo não anda lá essas coisas. Especialmente no Brasil, dada a falta de coragem para defender idéias liberais nas eleições, os liberais passam o tempo revelando a seus adoradores coisas importantíssimas, como por exemplo que Che Guevara supostamente não gostava de tomar banho e mandou fuzilar muitos inimigos da Revolução Cubana. É como se estivéssemos vivendo um ambiente de Congresso de Viena, um remake da onda reacionária em que se pretenderam afogar os impulsos revolucionários desencadeados na Europa pela revolução democrático-burguesa na França de Luís 16. Após a primeira queda de Napoleão Bonaparte, as monarquias européias reuniram-se na capital austríaca para reconstruir a velha ordem. O Congresso de Viena concluiu-se poucos dias antes da derrota definitiva de Napoleão, em Waterloo. O esforço das monarquias da Europa pela restauração não impediu a onda revolucionária de 1848. Muito menos a Revolução Russa de outubro de 1917, ensaiada em 1905 e no fevereiro anterior à tomada do poder pelos comunistas. Os historiadores e analistas, mesmo os autenticamente reacionários, diagnosticam na Revolução Francesa o pontapé inicial e decisivo para a vitória dos bolcheviques na Rússia, pouco mais de um século depois. Aqui no Brasil resta aos restauradores lamentar a oportunidade perdida em 1993, quando a monarquia poderia ter sido reinstituída por meio do plebiscito convocado especialmente pela Constituinte para decidir sobre a forma de governo (monarquia ou república) e o sistema de governo (parlamentarismo ou presidencialismo). Azar. A opção por uma monarquia parlamentarista teria legado um ambiente político bem mais ao gosto da opinião pública. Um ambiente propício a que gabinetes e premiês dançassem conforme a música bem-pensante proveniente dos formadores de opinião. Infelizmente para os monarquistas, para a Família Real e para a opinião pública, a população brasileira preferiu uma combinação local de cesarismo e democracia plebiscitária, em vez da regressão ao período pré-napoleônico. E esse mix é uma tendência que aparentemente se propaga pela América do Sul. O único governo ao gosto da direita no continente é o da Colômbia. E se as guerrilhas de esquerda (ELN, Farc) chegarem a um acordo de paz com o presidente Álvaro Uribe a esquerda terá portas abertas para chegar ao poder em Bogotá pela via eleitoral. Ademais, é provável que no vizinho Peru o social-democrata Alan Garcia seja sucedido pelo etnocacerista Ollanta Humala. O fato é que as populações sul-americanas têm mostrado predileção por líderes provenientes de correntes políticas herdeiras da tradição socialista e nacionalista. Talvez porque o avanço democrático e a paz política no continente tenham definitivamente aberto as portas do protagonismo a populações secularmente exploradas e oprimidas. É disso que o reacionarismo tem medo -e portanto ódio. Aí passam a atacar um morto, Che Guevara. Os mortos não podem se defender. Daí que achincalhá-los não chega a exigir especial valentia. A trajetória dos mortos deve ser analisada à luz da História. Respeitosamente. Só isso, creio eu.

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20 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Isso. Mas concordo com um comentador de um dos posts anteriores que isso de restaurar a verdade histórica sobre o socialismo e a esquerda em geral mereceria abrir um outro blog. São tantas as manifestações estúpidas, alguma com capa de revista semanal de grande circulação, outras em tantas colunas menos visíveis...
Seria um belo serviço à causa da verdade, mostrar as diferenças entre os "totalitarismos", de manera bem didática, ver o que de bom havia em regimes que duraram 70 e tantos anos, quais as reais responsbilidades pelos mortos dentro de um determinado país (pelo menos 20 milhões de soviéticos morreram na II Guerra; esses não podem ser colocados na conta do Stalin, etc.), etc.

Ignotus

segunda-feira, 8 de outubro de 2007 11:39:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Eu não temo o socialismo democrático. O PS chegou ao poder na França e eu não senti o menor temor. O González chegou ao poder na Espanha e eu tampouco me amedrontei. Agora, se os socialistas da América Latina que estão chegando ao poder se vêem como continuidade do socialismo democida e totalitário de Stálin e Mao, como você parece propor, aí de repente eu fico com medo.

Só que eu não acho que eles sejam. Nos casos mais radicais, os Chávez e Humalas da vida, trata-se apenas da velha atração latino-americana pela irracionalidade econômica combinada com demagogia política (o que não impede que algumas coisas boas sejam feitas pelos populistas, e tampouco significa que estes governos sejam fogo de palha - ciclos de alta de commodities podem ser longos, durar décadas, e, enquanto durar, o Chávez e os sub-Chávez vão continuar a cantar de galo)

Veja o Chile, o México, o Brasil, mesmo a Argentina. Grandes países, sólidas democracias capitalistas, governos com tinturas leves de esquerda, em graus variados, mas nada que remotamente reivindique filiação ao pesadelo totalitário cuja memória você insiste em acalentar.

Alon, acho que todo este seu esforço para limpar a barra do "socialismo real" tem muito mais a ver com a sua própria história do que com os acontecimentos contemporâneos da América Latina

segunda-feira, 8 de outubro de 2007 12:51:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Você está errado, Arranhaponte. Minha história não tem importância. Já o debate sobre o socialismo tem, sim, muita importância.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007 13:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
quem disse que o socialismo morreu? Talvez nos países desenvolvidos, onde o analfabetismo é baixo. Na América Latina ele sobrevive, principalmente como forma de tomar o poder. Uma vez conquistado o objetivo, ele dá lugar a um personalismo centrado no umbigo do ditador voluntarista, que só termina com um golpe de estado.
O que sobrou do socialismo foi apenas o seu lado cínico e manipulador da opinião pública.
Por que não desconstruir o mito Che? Por acaso ele é melhor que o mito de Stálin, demolido por Kruschev? Não sei porque se apegar a mitos, quando se pode discutir idéias e ideais. O mito só serve para manipular as massas.
A Veja não foi desrrespeitosa com o argentino-cubano-revolucionário. Ela também salientou que ele foi um desastre como líder militar e como ministro de Estado (fatos comprovados e nunca negados). Apresentar os fatos é apenas uma das tarefas do jornalismo. Ou vc. preferia que a revista contribuísse para perenizar o mito romântico do herói altruísta, comprometido com a felicidade dos povos?
Tenha dó!
Sds., de Marcelo.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007 14:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A propósito, Alon, o tal Mário Schmidt (ou algo assim) é ou não um prosélito do socialismo (ao menos o chamdo "democrático", de tipo social-democrata)? Em todo lugar que eu leio algo (como no sítio Vermelho), vejo que os exemplos são idênticos aos que vc deu no teu post. Essa é uma questão que ainda está por resolver, pois não?

Ignotus

segunda-feira, 8 de outubro de 2007 15:22:00 BRT  
Anonymous Chico Amaro disse...

Ué? Meu comentário tinha ódio ou ofensas? Por que não foi publicado?

segunda-feira, 8 de outubro de 2007 15:46:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

(Alon, deu erro ao enviar esta mensagem a primeira vez. Caso tenha recebido aí, ignore este segundo envio).

Alon, irretocável sua síntese da perda de oportunidade da direita no plebiscito em 1993.

Essas publicações surradas de que Che Guevara e outros eram comunistas-que- comem-criancinhas, é uma tentativa atabalhoada de reavivar a conquista de corações e mentes da guerra fria.

A esquerda européia e, agora, latino-americana, incorporou valores da liberdade, e afastou-se da tomada do poder pela revolta popular violenta, afastou-se do regime de governo totalitarista, e aceita avançar nos limites que a sociedade, expressa pela maioria, lhe concede.

Isso é democracia, não é totalitarismo. Por isso ampliou seu horizonte de ocupação de poder.

A direita está sectária, parada no tempo. A última arma de luta conservadora vitoriosa foram as técnicas de marketing político, herdadas do poder econômico, que a manteve no poder por mais tempo. A banalização da ferramenta a esgotou como diferencial.

A direita não está oferecendo respostas às demandas sociais que atingem até seus adeptos (falta de segurança, desemprego estrutural ou sub-emprego para recém formados de classe média, problemas com planos de saúde privados e aumentos de tarifas privadas, etc).

Esgotado o marketing político, recorre ao marketing do denuncismo.

Então a direita não conquista mentes por falta de argumentos lógicos. E, por falta de sensibilidade social em seus argumentos, em vez de conquistar corações, conquista fígados, disseminando sentimentos mesquinhos e odiosos, atinge, não o coração, mas o fígado, de quem quer exercitar seu desafeto contra a esquerda, e de quem se sente ofendido por ser de esquerda.

Ouvimos durante muito tempo o termo esquerda sectária. Hoje, o que há é direita sectária, apegada ao conservadorismo dogmático, limita-se à criticar a esquerda e não oferece soluções para problemas sequer do século passado. É a cara da revista Veja, e publicações congêneres.

Em tempo: existe direita com pensamento respeitável e até progressista, mas não é a que está tendo espaço no cenário de debates.
O próprio bolsa-família pode ser visto guardando conformidade com o pensamento neoliberal de Milton Friedman (tanto que é referência até para a prefeitura de N. York). O dinheiro para política social não fica nas mãos do Estado para comprar cestas básica via licitação, vai direto ao bolso do cidadão necessitado, muito parecido com a tese de imposto de renda negativo dos neoliberais. O Pró-Uni é caso semelhante (o Estado apenas regula bolsas dadas diretamente pela iniciativa privada ao aluno via renúncia fiscal, sem passar dinheiro de impostos pela burocracia Estatal).
Mas não há uma única alma viva na direita (com visibilidade) capaz de reconhecer isso, em algum artigo de revista ou jornal.
É por essas e por outras desonestidades intelectuais que fica difícil conquistar mentes, o que se vê no pensamento de direita é a mera pregação lobista de conservação do status quo. Só quem ganha com isso (ou incautos) aplaudem.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007 16:32:00 BRT  
Anonymous Cfe disse...

Sr Alon, uma pessoa que se pretenda democrática não precisa de mitos, tampouco precisa compara-lo a uma pessoa idosa que é o oposto da imagem irradiada pelo herói exaltado.

Há uma confusão entre os termos designatórios da política. Não há "esquerda" e "direita". Há liberais, conservadores, comunistas, socialistas e até verdes! Esta é uma designação utilizada nos países mais avançados.

Populistas existem em todos os quadrantes. Tambem existem certas esquisitices como as monarquias comunistas - absolutistas e não constitucionais - praticadas na Coréia do Norte e em Cuba.

A muitos não interessa fazer essa distinção porque o PSDB e PT ficariam mais próximos do que muitos imaginam ou pretendem, conforme o grau de conhecimento que possuem.


Fico admirado, e tento entender qual seria a razão, quando alguem exalta uma ditadura como a cubana só por ela ser de esquerda. Aceito que na altura em que foi instituída irradiasse uma forte atração pelo romantismo revolucionário vigente nos anos 60, ou seja: compreendo e aceito o regime analisando a "luz da história".

Mas que dizer do apoio a um autêntico demagogo como Chavez hoje em dia? Isso para não falar numa suposição de que grupos armados narcotraficantes possam participar num jogo eleitoral, exceto como via de derrube do regime democrático. Daqui a alguns anos como serão analisados esses apoios, se utilizarmos os analisarmos a "luz da história"?

segunda-feira, 8 de outubro de 2007 16:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
apenas observo que a matéria da Veja sobre Che não tinha nada de ódio. Apenas apresentou fatos: foi um ministro inepto, um líder militar despreparado (tanto em Cuba, como em Angola e na Bolívia), um juiz sanguinário nos tribunais revolucionários. Vivemos numa era de desconstruir mitos. Estamos melhor sem eles. Do contrário, ainda estaríamos louvando o paizinho Stálin, em boa hora explicado por Kruschev.
Sds., de Marcelo.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007 17:06:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

José Augusto, eu conheço dezenas de economistas tachados de neoliberais pela esquerda que defendem (e defenderam publicamente, em inúmeros artigos, em debates, em seminários) o Bolsa-Família, principalmente, e também o Pró-Uni. Só para não ficar no abstrato. Vá no Google, jogue José Márcio Camargo e Bolsa-Família, procure um pouco (estou sem tempo de fazer eu mesmo agora para indicar precisamente) e garanto que você achará artigos pró-Bolsa Família. O Zé Márcio Camargo é anátema para economistas de esquerda de Campinas. Aliás, foram economistas tidos como neoliberais que idealizaram a fusão dos programas de transferência do FHC num programão, que nada mais é do que o Bolsa-Família. Isto está na Agenda Perdida, coordenada por Marcos Lisboa e Zé Alexandre Scheinkman, tidos e havidos como arqui-liberais.
Economistas neo-liberais, ou quase, brigaram com a esquerda do PT, Graziano e companhia, para que o Fome Zero fosse substituído pelo Bolsa-Família. O Lisboa chegou a ser xingado publicamente de "imbecil" pela matriarca dos economistas de esquerda, a Maria da Conceição Tavares, por sua defesa de uma política social focalizada. Política social focalizada e Bolsa-Família são quase sinônimos

segunda-feira, 8 de outubro de 2007 18:16:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Alon, na boa, os índios sáo extrativistas, o indio venezuelano extrai petróleo, o índio boliviano extrai coca (nem plantar precisa, cresce como mato). Daqui a pouco o preço do petróleo cai, inventam droga mais popular que a cocaína, e pronto, acaba a farra.
será que seremos tontos o suficiente para abandonarmos a industrialização, a tecnologia, para voltar a tempos agrários e silvícolas?
Na America do Sul é progressista quem pretende viver no mato, sem trator e é considerado conservador quem investe em tecnologia e gestão moderna.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007 19:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, que salada. A questão do ódio entendo que o ódio de pessoas que não viveram diretamente os acontecimentos (Revolução cubana, p.ex.) tem as ver com as conseqüências dos atos dos 'românticos revolucionários', com as milhares de mortes, a maioria possivelmente inocente, cujos únicos crimes foram não pertencerem a determinado credo político. Os totalitarismos, quer sejam de direita ou de esquerda, notadamente os últimos, são pródigos em vítimas inocentes. Isto gera ódio em quem tem um pingo de humanismo em sua formação.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007 19:52:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Chico Amaro, não cortei qquer mensagem sua.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007 21:12:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Muito bem, Alon. Vejo com satisfação você enfrentar com calma e tranquilidade a onda reacionária. Parabéns.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007 21:15:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Demagogia é o preço que se paga pelas eleições diretas com sufrágio universal. A extrema-direita também usa o populismo para ganhar eleições em países como Estados Unidos, França etc. O que varia de um país para outro ou de um partido para outro é só o conteúdo do populismo.

*

"Mas que dizer do apoio a um autêntico demagogo como Chavez hoje em dia?"

terça-feira, 9 de outubro de 2007 16:37:00 BRT  
Anonymous Cfe disse...

Quando é que a "extrema-direita" ganhou as eleições nos EUA e na França? hehehehe

terça-feira, 9 de outubro de 2007 19:22:00 BRT  
Anonymous Rodrigo _ Brasília disse...

Alon,

Sabe a diferença entre um esquerdista e um direitista que se dizem democráticos? É que o primeiro defende ditaduras de esquerda e o segundo não defende ditadura alguma.

Ao dialogar com socialistas, quando exponho meus preceitos para uma sociedade próspera e demcrática, sou taxado de tudo quanto é termo ofensivo e tratado com desdém. Parece uma causa sanguinária e injusta acreditar na economia de mercado, em um Estado mais enxuto e eficiente, na valoração de indivíduos frente às abstrações coletivistas... E o volume de voz de meus detratores sempre aumenta à medida que defendo racionalemente meus argumentos.

Olha, não concordo mesmo com a idéia que a direita faculta o discurso do ódio. É exatamente o contrário. Socialistas de todos os tempos - inclusive no bolivarianismo de Chávez, no petismo, no MST, na UNE etc. - sempre apresentaram falsos argumentos para defenestrar seus oponentes. Isto é um método da cultura socialista. O ódio é muito bem situado nas ações de esquerda - nas ditas causas populares, na defesa dos pobres, no ataque às elites, nas passeatas que impedem o trânsito, nos movimentos de defesa de instituições públicas com suas barricadas e ocupações, na defesa de privilégios da pelegada. Percebo muito ódio.

Ocorre que precisamos deconstruir mitos. E Che é um deles. Acabou-se o tempo de acreditar em líderes populares. O que garante uma sociedade mais digna é trabalho eficiente com foco no resultado. É uma questão técnico-política. Che, Stalin, Hitler, Mao, Tito, Perón, Mussolini, Pol Pot, Franco, Pinochet, Fidel... todos, absolutamente todos - com seus discursos retumbantes e crenças de um novo futuro - precisam ser desmacarados.

E quanto menos ódio e mais argumentos sólidos e bem embasados, melhor.

Abraços.

terça-feira, 9 de outubro de 2007 20:09:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Direitista que se diz democrático eu não sei, até porque nunca vi. Mas o que eu vi de liberal defendendo o Pinochet e o golpe de 64...

quarta-feira, 10 de outubro de 2007 12:56:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Como forma de contribuição ao debate que você propõe, e deixando de lado o debate sobre o mito, reproduzo abaixo parte do artigo do José de Souza Martins, publicado no ESP de 07/10/07.

Penso que o trecho é relevante. Sobretudo porque ele reflete nos dias de hoje muito do ponto de vista de amplos setores da esquerda sobre Cuba, Fidel, Che e o foquismo e seus desdobramentos na América Latina.

Você deve lembrar-se, Alon, que o centro da crítica de amplos setores da esquerda fora dirigido ao aventureirismo e voluntarismo inerentes ao foquismo, bem como a sua responsabilidade política pelo recudescimento da violenta repressão que se abateu sobre toda esquerda, mas não só sobre ela. As baixas sofridas levaram os melhores camaradas a uma morte inúltil, dizia-se em amplos setores da esquerda na época. Enfim, é um fato a compreensão pela esquerda da época que o foquismo e seus desdobramentos políticos na América Latina foram a materialização (a ideologia da guerra fria alertava e alertava e alertava sobre o perigo vermelho) do inimigo a ser combatido a qualquer preço pelos militares e suas ditaduras. Ignorar que a ascenção da linha dura militar está relacionada ao fato do foquismo é uma saída fácil para uma questão que nada tem de simples. Muita gente boa e jovem morreu ao embarcar nessa canoa do foquismo.

A ruína do socialismo no final do século XXI provoucou sem dúvida um grande desespero nos socialistas remanescentes. Isso evidencia-se no apoio acrítico e incondicional de episódios do socialismo que, no passado, receberam desses mesmos socialistas severas e certeiras críticas.

Segue o trecho:

"A morte de Che também consumou a ruptura interior da esquerda, isolou simbolicamente os partidos comunistas, esvaziou o seu apelo proletário para dotar o inconformismo social dos pobres de uma mística sacrificial que tem em Che o cordeiro da história. Inverteu o nosso imaginário de esquerda, fazendo da tradição popular e conservadora, comunitária, religiosa e anti-capitalista, o cerne de um novo socialismo, crioulo e popular, tendente ao étnico invertido. Nele, mestiços, índios e negros invertem imaginariamente a pirâmide social iníqua e branca, num projeto social e político de meios tons políticos, meios tons sociais, meios tons religiosos, meios tons econômicos, meios tons raciais.

Na captura e morte de Che começou a sucumbir o marxismo mecanicista de Louis Althusser, viabilizado pela aventura intelectual de classe média de Régis Debray, um dos primeiros prisioneiros dos militares bolivianos. Místicos ambos, criaram e viabilizaram um marxismo tomista e departamentalizado, anti-marxiano, ideologicamente útil às aventuras de classe média que se quer libertadora. A teoria do foco, de Debray, da guerrilha dos desgarrados da elite, que desencadeia a revolução dos pobres, também morreu na quebrada do Yuro.

A guerrilha de Che Guevara não se propunha a realização de uma revolução camponesa, a revolução dos pobres na Bolívia, como se supõe ainda hoje. Era apenas uma extensão geopolítica da Revolução Cubana, na perspectiva por ele proclamada de criar vários Vietnãs e por em xeque o poderio americano. No fim, Che lamentava não ter se aproximado dos camponeses da área da luta."

Abs.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007 13:02:00 BRT  
Blogger José Marcelo Randes disse...

Vamos ser claros numa coisa. Isto de democracia é coisa de direita, a menos que se queira adotar um metódo a-histórico para conceituar os termos. Historicamente falando, a partir de Marx, a esquerda sempre esteve associada à defesa do socialismo, e a direita, à do sistema capitalista. O que temos hoje no Brasil é um governo de esquerda num sistema de direita. Governos de esquerda são possíveis em esquemas capitalistas de poder - isto é: em regimes de direita. Só por isso há GOVERNOS de esquerda democráticos no mundo. Eles existem pela alternância de poder propiciada pelo modelo burguês de estado. Não estou afirmando que todas as sociedades capitalistas tendem necessariamente para a democracia - todos sabemos que não. Mas todos sabemos também que REGIMES de esquerda democráticos, infelizmente, a história ainda não conheceu nenhum. Transfira todo poder econômico existente na sociedade para as mãos de um ente que já detem todo o poder político, e depois tente ir ao banheiro sem pedir licença. Democracia é coisa de direita, de sociedade capitalista. Se um dia, dos despojos de Marx, vier à luz um pedaço de alquimia que aponte o caminho para o socialismo sem passar pelo estado, terei imensa curiosidade em ler. Enquanto isso não acontece, a única opção é totalitarismo ou direita, esquerda ou democracia.

sábado, 13 de outubro de 2007 06:16:00 BRT  

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