quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Guerra é guerra (10/10)

Assisti na segunda-feira ao Roda Viva, da TV Cultura, com José Padilha, diretor de Tropa de Elite. Minha opinião sobre o filme vocês conhecem. Está em A pergunta do capitão Nascimento, o prestígio de Che Guevara e a violência para o bem. Ver o Roda Viva fez lembrar cenas de quando assistíamos a teatro engajado nos anos 70 na USP. A peça terminava e alguém se levantava, com a pergunta inevitável. "Mas, qual é a proposta?" A arte era vista como terreno de resistência, daí a ansiedade pela "proposta". Havia uma certa confusão entre cultura e política. Uma tem a ver com a outra, mas são coisas diferentes. No Roda Viva, ficou claro que o Padilha não quis produzir nenhuma "proposta", apenas fez um filme espetacular pelo seu realismo. Eu comparei Tropa de Elite com Vidas Secas. Também tem paralelo com as grandes criações do neo-realismo italiano, como Ladrões de bicicleta. A obra de arte de alto nível tem disso: as eventuais intenções do autor e do diretor perdem importância. O Padilha lembrou logo no começo da entrevista uma frase do capitão Nascimento, como narrador. O capitão Nascimento diz que numa cidade do jeito que é o Rio (do filme) o policial ou se corrompe ou se omite ou vai para a guerra. No fim da entrevista, o Padilha lembrou a identificação do público de cinema com personagens violentos, como por exemplo Michael Corleone, de O Poderoso Chefão. A melhor explicação, penso eu, para o sucesso do filme e para o capitão Nascimento ter virado um herói é que a maioria da sociedade não quer a leniência com o crime. Quer que o Estado abra guerra contra o crime e os criminosos. Uma parte da elite autonomeada bem-pensante diz que isso seria "fascismo". Daí o debate sobre um suposto caráter fascista de Tropa de Elite e do personagem interpretado por Wagner Moura. Nem Tropa de Elite nem o capitão Nascimento são fascistas. Tropa de Elite é um filme de guerra. E o capitão Nacimento está em guerra. E guerra é guerra. Agora, é natural que quem não vê legitimidade nem utilidadade na guerra travada pelo capitão Nascimento considere o filme "fascista". E que conclua sobre a "necessidade" de liberar a droga. Tudo se encaixa.

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27 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Continua muito difícil interpretar um dado momento no tempo quando está-se vivendo nele. Quer como protagonista, quer como coadjuvante e principalmente, talvez, como vítima. O filme gera uma discussão pelo fato de ser criado num momento em que os nervos estão aflorados com a questão da violência urbana. Caso seja produzido um filme político com base em fatos recentes, também haverá grande discussão. Se o filme for bom, lógico. Contudo, ainda tem o fato do fascismo sempre voltar à tona. Ou porque nunca saiu da tona ou porque possa haver quem resista em enterrá-lo.
Sotho

quarta-feira, 10 de outubro de 2007 13:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O fato de combater o crime não autoriza o policial a virar criminoso. Em termos políticos: o fim não justifica os meios. Um jornal publicou no fim-de-semana passado uma entrevista com um comandante aposentado da Rota que criticou duramente o comportamento do capitão Nascimento. Concordo: precisamos de atividade policial planejada, competente e honesta. E de um judiciário ágil. Super-heróis são mitos, de nada servem.
Sds,de Marcelo.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007 13:50:00 BRT  
Anonymous Fabrício disse...

Alon, onde não há legitimidade é no método do capitão nascimento e do bope. Mas o filme, de certa forma, legitima esse método e reforça a idéia de uma solução que passa pela ilegalidade do justiçamento. A "sociedade" quer que o Estado faça guerra à criminalidade, mas essa mesma "sociedade" ignora a necessidade de que tudo aconteça pela via legal e de acordo com premissas do Estado de Direito e respeito às liberdades e garantias constitucionais. O problema é o velho de sempre. Alguns brasileiros são (ou acreditam ser) mais brasileiros que os outros.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007 14:50:00 BRT  
Anonymous Lau Mendes disse...

Com respeito ao comentário de"Anonimo"; desculpe meu desconhecimento mas Rota não é um similar ao batalhão "reproduzido"no filme ?

quarta-feira, 10 de outubro de 2007 17:24:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Lamentável seu comentário sobre os que apoiam a liberação das drogas. O combate as drogas através de propaganda como a feita contra o tabagismo é para mim a melhor solução. Minha definição para drogas abrange as bebidas alcoólicas. Não acredito que se possa vencer a guerra contra os traficantes. Nenhum pais conseguiu. A bom senso das pessoas é sempre o melhor remédio.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007 17:46:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A necessidade de liberar algumas drogas faz parte do processo civilizatório. Como a necessidade de dar combate efetivo ao crime e a necessidade da polícia não se reduzir aos métodos da bandidagem.
Obsc

quarta-feira, 10 de outubro de 2007 18:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Por questões políticas e econômicas, que passam longe da questão da criminalidade e da saúde pública, algumas drogas são lícitas e outras são ilícitas. O comércio de drogas ilícitas é responsável por grande parte da criminalidade. Sou a favor da liberação total, com um comércio muito organizado e de regras muito claras. A espinha dorsal do tráfico seria quebrada.
Acredito na liberdade individual total, desde que não prejudique terceiros. O estado não pode ter o poder de decidir que tipos de substâncias posso consumir, mesmo que signifique um atentado contra minha saúde. Porque o álcool pode e cocaína não pode? Droga é droga, todas fazem mal.
Obs: Com exceção de uma capirinha de vez em quando, não consumo drogas.

Cristiano Medri - biólogo

quarta-feira, 10 de outubro de 2007 19:05:00 BRT  
Anonymous Mateus Toledo Gonçalves disse...

O filme revela o fascismo porque, por meio do poder de sedução proporcionado pela linguagem cinematográfica, ele legitima a exceção à lei.
Entretanto esse efeito não me parece premeditado, ele decorre da opção por mostrar uma "Verdade", a "Verdade" do Capitão Nascimento.
Assim o Capitão vira heroí, mas bastaria que o foco fosse outro, o cotidiano de um dos torturados, e Nascimento se converteria em vilão.
Quando o foco é colocado no transgressor, seus atos se mostram condicionados pelo meio.
Assim, o transgressor vira humano, e seus atos legitimos.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007 20:36:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Arte engajada não é arte. Arte tem a ver com o belo.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007 00:50:00 BRT  
Anonymous Alexandre Porto disse...

> E que conclua sobre a "necessidade" de liberar a droga.

Eu concluo. O diretor e o ator principal do filme tb.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007 00:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Afinal, vc viu o filme, ou não? (num post anterior sobre ele, disse q não o tinha visto...)

quinta-feira, 11 de outubro de 2007 01:36:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Na teoria é muito fácil concordar com todos os argumentos liberalizantes de drogas, eu também chego facilmente à estas conclusões de que devia ser decisão de cada adulto.
Mas quando temos conhecimento de pessoas que já foram ou conviveram com dependentes químicos, a prática é outra.
Delegacias de mulheres mostram que grande parte dos atendimentos são decorrentes de abuso de drogas (sobretudo álcool). Maus tratos a crianças também.
A massa da criminalidade está relacionada à dependência química. Não só ao tráfico, mas dependentes também. Por ficaram inaptos a ambientes de trabalho, o dependente abastado rouba em casa dos próprios familiares, quem não tem essa fonte, assalta fora de casa para sustentar o vício, e quando um assalto desanda, engrossa as estatísticas de violência.
Grupos anônimos de ajuda também revela a luta e dificuldade para superação e não sofrer recaídas que devolvam as pessoas à sarjeta.

Ressalvo que há pessoas resistentes à dependência química, que conseguem não cometer abusos, e consumem drogas até pesadas sem maiores problemas.
Drogas chamadas de fortes, são assim conhecidas porque provocam riscos maiores, tanto de dependência como de sequelas.
O álcool apesar de ser muito nocivo, geralmente demora anos para desenvolver dependência e deixar sequelas, e é fabricado em concentração que dificilmente causa overdose. A oferta de alternativas de baixo custo, evita envolvimento criminoso para sustentar o vício.

Olhando pragmatimante, as drogas precisam ter mecanismos de contenção, que poderiam ser educativos, campanhas massivas de esclarecimento desde a infância, suporte psicológico, etc. Mas na falta delas, a proibição é a contenção que temos, ainda que não seja a melhor. Tirá-la, sem substituir por outras contenções bem estruturadas, seria uma escolha consentida pela degradação social e falta de proteção à infância e adolescência.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007 01:52:00 BRT  
Anonymous trovinho disse...

O capitão está em busca de um nascimento, ele se rejubila com a vida que o pulsar do coração do filho evoca. Quando está pendurado( na gíria policial, torturado) no rappel, parece alguém que ansia por respirar, como se fosse um suicida judeu enterrado de pé com uma pedra na cabeça para nunca descansar. Ansia por respirar como aqueles que tortura com saco. Sua companhia de caveiras sai dos subterrâneos-túnel Dois Irmãos- para respirar na favela? Acho que a caveira tem algo de SS.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007 04:15:00 BRT  
Anonymous trovinho disse...

Alon, desculpe a gafe. Não é ansia, é anseia, pô.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007 04:19:00 BRT  
Blogger Frodo Balseiro disse...

Alon
Se o pensamento "politicamente correto" que acusa "Tropa de Elite" de ser um filme fascista existisse a mais tempo, não teriamos tido os maravilhosos Farwest, nem os filmes da segunda guerra mundial, nem os policias da máfia.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007 08:28:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Lau,
a Rota é mais ou menos o efeito Orloff do Bope. Como é mais antiga e já cometeu muitos abusos, agora está na fase de depuração, investindo na qualificação e treinamento da tropa. O policial aposentado disse isso mesmo: não é imitando os bandidos que a polícia resolverá algum problema. Vai é criar outros.
Sds., de Marcelo.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007 09:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

como assim guerra? o estado está em -guerra- contra criminosos? vamos adotar internamente o super eficaz discurso bushiano da "guerra contra o terror"?

quinta-feira, 11 de outubro de 2007 13:49:00 BRT  
Anonymous capitão corrimento disse...

impressionante a fixação no discurso belicista

como assim guerra? o estado está em -guerra- contra criminosos? vamos adotar internamente o super eficaz discurso bushiano da "guerra contra o terror"?

é com guerra que se resolve as coisas? é o único meio?

o problema do tráfico se resolve com guerra ou com política pública? polícia serve para entrar em guerra? polícia exerce política pública?

é impressionante o medievalismo do pensamento belicista: para resolver o problema, vamos entrar em guerra - e aí fica nítido que esse discurso NÃO QUER resolver problema algum

é muito nítida a semelhança com o iraque: o governo bush quis levar a democracia para o iraque? entrou em guerra! e o resultado? hein? hein? hein?

guerra é guerra! façamos nosso faroeste! e a população pobre, que explicitamente censura a imensa maioria das ações policias, no meio disso tudo, só se dá mal

e a classe média "bem-pensante" (ah, como é ótimo desqualificar gratuitamente), incluindo o alon, clamando pelo capitão nascimento! chama o luciano huck!

a tropa de elite, na verdade, é a tropa DA elite - tropa na qual obviamente não tem nenhum playboy disposto a entrar na guerra

aliás, seria uma ótima solução: quem acha que se trata de uma guerra, por que não vai para o front, lutar ao lado do capitão nascimento?

aliás: será que esse comentário vai ser publicado? ou guerra é guerra?

quinta-feira, 11 de outubro de 2007 13:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Capitão Corrimento está coberto de razão. Já que é uma guerra manda os playboys da burguesia para o front. É muito fácil estimular a guerra e mandar os filhos do pobres morrer nela. Como bucha de canhão. A classe média que está aplaudindo o filme é porque sabe que seus filhos (as) estão mais ou menos protegidos pela cor da pele e pela condição social propiciada pelo dinheiro. É verdade, a Tropa de elite é a Tropa da elite, por isso o sucesso do filme, que não assisti e não gostei.

Capitão Corrimento, o seu comentário foi publicado, vamos aguardar o meu.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007 18:27:00 BRT  
Blogger Descansei disse...

liberar a droga e o aborto ajudam mas não resolvem sozinhos.... claro!
Marilia

quinta-feira, 11 de outubro de 2007 19:13:00 BRT  
Anonymous Mateus Toledo Gonçalves disse...

"O Capitão Corrimento" deu a resposta que não pude redigir.
Apesar dos exageros de retórica, foi perfeito!

quinta-feira, 11 de outubro de 2007 20:04:00 BRT  
Anonymous Mateus Toledo Gonçalves disse...

"Tropa de Elite" não pode ser comparado a "O Poderoso Chefão" pois diferente dele, "Tropa de Elite" toca em um assunto espinhoso.
Quando o filme protagonizado por Corleone coloca o criminoso cruel como protagonista e usa da linguagem cinematografica de modo a criar uma empatia com o público, não há problema algum, pois o filme trata de um tema que a priori é injustificavel (o criminoso que mata por dinheiro ou poder)
No sentido oposto, "Tropa de Elite" coloca como protagonista e narrador, um personagem socialmente mais complexo, pois não é, a priori, nem bandido, nem vilão, e é os dois ao mesmo tempo.
No decorrer do filme e embriagados por ele, ficamos propensos a perdoar os atos de Nascimento, pois seus vícios se mostram justificadas pelo meio e as circunstancias (a guerra), sobram então suas virtudes.
E no momento que Nascimento vira, aos olhos do público, "mocinho", seus atos saem da esfera da ficção e se legitimam.
Mas só se legitimam porque há uma demanda na chamada "opinião pública" em favor de um recrudescimento contra o crime organizado que ignore o Estado de Direito e os direitos fundamentais do ser humano.
O filme, como essência ou proposta, nada tem de fascista. Todavia ele exaspera o nosso fascismo.
"Tropa de Elite" também não pode ser comparado com Vidas Secas, e especialmente com o clássico de De Sica.
Há uma distâcia de qualidade brutal entre eles.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007 21:10:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Tropa de Elite é um "filmão".
Lembro que Scorsese também disse uma vez que o fato de filmar personagens violentos não significava que aprovasse os atos dos mesmos. ( E precisava explicar....)

quinta-feira, 11 de outubro de 2007 23:51:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

E o BOPE do filme não é muito diferente de um Hamas atuando em Gaza, um Exercito Israelense contra palestinos, uma tropa americana no Iraque, nossas vizinhas FARC, e qualquer outra força militar ou policial em ação.

Isso tudo hoje. E olhando pro passado? Tem babilônios que destruíram Jerusalem, Alexandre que arrasava cidades conquistadas, os romanos em suas conquistas, Saladino na Terra Santa, e muitas outras "guerras".

Tem como ser diferente? Pelo menos num episódio, Faraó ía arrasar com os israelitas. Porém, antes o mar se abriu.

Solução? Alguém tem aí um cajado?

sexta-feira, 12 de outubro de 2007 05:02:00 BRT  
Anonymous Claudionor disse...

O recurso aristotélico da identificação é usado pelo Tropa da Elite. Isso incluiu a distribuição de cópias piratas, para linkar o público com o assunto, em mais uma marqueteria apelativa. A identificação é o que produz a alienação, que deixa o espectador ser carregado passivamente ao longo do filme. Desejo de Matar já abusou desse recurso, mais do que manjado. Junte-se a isso a dupla indigestiva câmera móvel e narração (olhar e voz do Nascimento) que, para esse caso, o uso tem objetivo duvidoso. Esse filme me pareceu coisa de engenheiro.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007 21:41:00 BRT  
Blogger Roberto disse...

O filme é excelente como obra de entretenimento. Se as ações são certas ou erradas, mero detalhe. Mas foi um soco na classe média (essa, que escreveu todos os comentários aqui, sem exceção), que acha que pode fumar seu baseadinho, cheirar um pouquinho, que não está prejudicando ninguém. E isso incomoda aos pseudo-intelectuais que precisam justificar seu vício.

domingo, 14 de outubro de 2007 22:32:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

"Lamentável seu comentário sobre os que apoiam a liberação das drogas. O combate as drogas através de propaganda como a feita contra o tabagismo é para mim a melhor solução. Minha definição para drogas abrange as bebidas alcoólicas. Não acredito que se possa vencer a guerra contra os traficantes. Nenhum pais conseguiu. A bom senso das pessoas é sempre o melhor remédio."


-- O tabaco não é droga alucinógena nem entorpecente! Além disso, seu consumo, como no caso das drogas, era marginal (reduzido a apenas alguns grupos) antes da legalização e industrialização, que tornou o tabaco um grande de problema de saúde, em relação ao qual só a alguns anos a sociedade passou a se dar conta. O consumo de tabaco dificilmente voltará aos índices anteriores à legalização com meras propagandas inócuas. De qualquer forma, mesmo o tabacao representando o grande problema que hoje representa para a saúde pública, o fato é que não se trata de droga alucinógena nem entorpecente, logo prejudica sobretudo o próprio usuário, diferente do consumo de drogas que DEFORMAM a percepção e afetam não apenas a saúde física e sim PSÍQUICA!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010 12:36:00 BRST  

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