terça-feira, 23 de outubro de 2007

A Bolívia e o erro repetido (23/10)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (23/10/2007) no Correio Braziliense:

Liderança não é nem nunca será apenas entupir os vizinhos de produtos que nos garantam uma balança comercial suficientemente favorável para resolver os nossos próprios problemas


Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Não tem atraído a merecida atenção em nosso país a crise que parece cada vez mais perto de engolfar a vizinha Bolívia. Insatisfeita com o governo étnico-nacionalista de Evo Morales, parte da elite do oriente boliviano trabalha dia e noite para dividir a Bolívia em duas. La Paz ficaria com o altiplano e a pobreza, enquanto Santa Cruz de la Sierra seria a capital de um novo país, predominantemente branco e mais próspero.

Naturalmente, a ameaça secessionista desperta reações duríssimas no governo Morales, responsável constitucional pela preservação da integridade territorial do país andino. Não há sinal de que as coisas caminhem para acabar bem, até porque os divisionistas acreditam contar com simpatia externa para seus planos. Contabilizam apoios no Chile e nos Estados Unidos.

Dos chilenos, esperam a solidariedade de uma nação que vive às turras com La Paz por causa da inexistente saída da Bolívia para o mar. Dos americanos, aguardam o ombro amigo de quem vê com apreensão tanto a aliança entre Morales e o presidente venezuelano, Hugo Chávez, como a expansão da influência deste pelas américas do Sul e Central.

Importa menos nesta altura do campeonato saber se o separatismo boliviano conta de fato com tais apoios, ou apenas delira. O fato é que o secessionismo oriental julga-se forte o suficiente para confrontar o poder central. Há sinais, inclusive, de que armas têm sido introduzidas ilegalmente na região, como preparação de uma eventual resistência militar dos divisionistas.

No governo Luiz Inácio Lula da Silva, as relações entre os nossos dois países vêm sendo conduzidas aos trancos e barrancos desde a posse de Morales no começo do ano passado. Inicialmente, o Itamaraty “terceirizou” para a Petrobras a diplomacia em torno da reivindicação boliviana de um preço menos injusto para o gás vendido a nós. Talvez Lula tenha confiado em cozinhar Morales no fogo brando em que o presidente brasileiro está habituado a ferver os assuntos espinhosos — esperando, indefinidamente, pela solução a “custo zero” para ele, Lula.

Deu errado, até porque Evo Morales, assim como seu colega brasileiro, estudou na escola dos líderes sindicais habituados a morder e assoprar, a ter paciência enquanto não vem o desfecho favorável. Quando o caldo entornou na relações com a Bolívia, com a nacionalização das refinarias da Petrobras naquele país, o presidente brasileiro em pessoa teve de colocar a mão na massa para conseguir uma saída que pudesse ser vendida como digna à opinião pública do Brasil.

Agora, a inapetência presidencial e do Itamaraty parece repetir-se perigosamente. O governo brasileiro assiste com passividade ao aumento da temperatura na região fronteiriça. É curioso e preocupante que a diplomacia brasileira, tão ativa em relação a amigos mais distantes, permaneça imóvel enquanto se agrava um potencial foco de crise político-militar bem aqui do lado.

Os interesses estratégicos do Brasil estão casados com os planos de uma América do Sul pacífica, próspera, democrática e livre do terrorismo e de armas de destruição em massa. A doutrina oficial do Itamaraty reza que tais objetivos serão mais facilmente atingidos quanto mais se integrarem os países do continente. Uma integração ampla. Comercial, política e militar.

Não se coaduna com essa doutrina uma suposta “neutralidade” diante da ameaça de divisão e guerra civil num país vizinho. Aliás, como é que o Brasil imagina acumular fichas suficientes para ingressar no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas se não consegue exercer com eficácia nem o seu papel natural de potência regional? Liderança é um atributo que impõe responsabilidades geopolíticas. Liderança não é nem nunca será apenas entupir os vizinhos de produtos que nos garantam uma balança comercial suficientemente favorável para resolver os nossos próprios problemas.

É elogiável que o presidente da República esteja dedicado à tarefa de caixeiro-viajante, como ele mesmo gosta de reafirmar sempre que possível. Entretanto, sabem bem os profissionais do Itamaraty, política externa não é só isso.


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8 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Essa questão o sr. Lula deve deixar aos cuidados dos profissionais do Itamaraty, de longa e profícua atuação, afastando imediatamente intrusos despreparados em negociações internacionais.
No seu comentário vejo um problema: nenhum dos dois lados tem interesse em conseguir apoio ostensivo dos EUA e do Chile. Isso apenas jogaria toda a população no colo dos adversários, tamanho o ódio existente em qualuer lugar da Bolívia em relação aos americanos e aos chilenos. Se o Brasil entrar em campo agora, será visto como mais uma nação com pretensões imperialistas. Melhor se resguardar para atuar como árbitro do conflito, a pedido das partes. Mais uma vez: deixem o Itamaraty conduzir a questão. Eles sabem como se faz.
Sds., de Marcelo.

terça-feira, 23 de outubro de 2007 10:51:00 BRST  
Blogger Ricardo disse...

Ué? Não vai citar a invasão "branca" produzida por Hugo Chávez como valor desestabilizante? O fato de que o exército venezuelano dá as cartas no governo? De que até mesmo o AeroEvo é de propriedade do governo venezuelano?

terça-feira, 23 de outubro de 2007 10:57:00 BRST  
Anonymous Lau Mendes disse...

"integração comercial,política e militar"
Tudo bem,mas antes vamos mudar o nome para USB-United States of Brazil.

terça-feira, 23 de outubro de 2007 12:35:00 BRST  
Anonymous Cfe disse...

O que sugere? Enviar petróleo para as forças aliadas ao Foro de São Paulo como Lula fez com Chavez anos atrás? (Quando o Chavez cair, você vai ver a integração pacífica da AL)

Quanto ao Evinho, não tenha pena porque o Huguinho já mandou grana e tropas pra lá. Luizinho não precisa ouvir os conselhos do Marco Aurélio Garcia.

terça-feira, 23 de outubro de 2007 17:02:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Se o Itamarati também contaminar-se com essas de diplomacia étnica, elites altiplanas e de planícies, elites brancas e índias, vai surfar em maionese equivocada. Ou em explosão de gás. Ninguém de bom senso gostaria de ver eclosões de conflitos armados, seja lá onde for, sem posicionar-se contra e ajudar para que as questões sejam resolvidas de forma pacífica. Independente da cor das elites em confronto político. Se a posição diplomática for de neutralidade, para ajudar, tudo bem. Se for neutralidade a favor, melhor ficar de fora e deixar quem entende cuidar do assunto. É hora de parar com esse lusco-fusco, morde-e- assopra. O final poderá ser top-top.
Sotho

terça-feira, 23 de outubro de 2007 17:20:00 BRST  
Blogger Fernando L Lara disse...

prezado Alon,

existe uma grande diferença, nao explicitada no seu texto, entre negociar preços melhores para o gas e colocar as tropas cercando refinarias para depois forçar uma nacionalização na ponta da baioneta. Claro que nao interessa ao Brasil uma guerra de secessao na Bolivia assim como nao interessa encontrar la o exercito venezuelano. Agora como disse um outro comentarista acima, Chavez contribui mais para a instabilidade do que qualquer outro dos atores citados no seu texto.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007 00:20:00 BRST  
Anonymous JV disse...

Sei não Alon, a Venezuela chavista apronta interna e externamente contra a liberdade e a democracia, de modo que isto vai acabar muito mal. Anota aí.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007 22:34:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Deixa os cara se matarem. Quem sabe não sobra um pedacinho daquelas terras para o Brasil, como aconteceu em outras épocas, hein! (Acre, Barão do Rio Branco, Joaquim Francisco de Assis Brasil, etc, etc ...)

sexta-feira, 16 de novembro de 2007 15:50:00 BRST  

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