terça-feira, 9 de outubro de 2007

As nuvens do “dedazo” (09/10)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (09/10/2007) no Correio Braziliense:

A corrosão da força política de Renan Calheiros pelo ácido das denúncias sucessivas é o combustível que alimenta a fornalha das ambições da oposição. É por isso que ou o governo e o PT fecham com Renan para o que der e vier ou preparam uma alternativa a ele


Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

A crise no Senado só vai acabar no dia em que o governo deixar claro que tem a maioria na Casa. A crise no Senado só vai arrefecer no dia em que a oposição tiver esgotadas as esperanças de tomar a cadeira de Renan Calheiros (PMDB-AL) após uma eventual saída prematura deste. Há dois caminhos para pôr fim à turbulência no Senado. O primeiro é o PT declarar apoio firme a Renan. O segundo é Renan sair e o governo eleger o sucessor, imprimindo uma derrota clara e definitiva à oposição.

A primeira hipótese é improvável no curtíssimo prazo, dado que o PT cobiça ele próprio a cadeira de presidente do Senado para um dos seus. A segunda hipótese repetiria o que se deu na Câmara dos Deputados no final de 2005. Em plena crise desencadeada pelas acusações de Roberto Jefferson sobre o pagamento de propina a deputados da base aliada, surgiu a denúncia de que o então presidente, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), teria recebido suborno de um concessionário de restaurante da Câmara. Como se recorda, Severino renunciou para não perder a elegibilidade.

Com a saída de Severino, abriram-se duas possibilidades para a oposição: apoiar a candidatura do presidente do PMDB, Michel Temer (SP), ou ir para o tudo ou nada com um dos seus. O caminho escolhido foi o segundo, materializado na candidatura José Thomaz Nonô (PFL-AL). No fim, deu Aldo Rebelo (PCdoB-SP), por uma diferença de 15 votos. A eleição de Aldo matou aquela crise na Câmara dos Deputados, pois fechou a porta a um eventual processo de impeachment contra o presidente da República. Segundo a lei brasileira, a decisão de pôr para andar um processo de impeachment é monocrática do comandante da Câmara dos Deputados.

A corrosão da força política de Renan Calheiros pelo ácido das denúncias sucessivas é o combustível que alimenta a fornalha das ambições da oposição. É por isso que ou o governo e o PT fecham com Renan para o que der e vier ou preparam uma alternativa a ele. O segundo caminho chegou a ser tateado pelo governo na véspera da votação da primeira representação contra o presidente do Senado. Emissários do oficialismo acenaram com o nome de José Sarney (PMDB-AP). Que não teve boa acolhida nas hostes oposicionistas.

Nas conversas sinceras, a oposição revelou considerar Sarney mais lulista do que o próprio Renan. O resultado do impasse foi que o governo acabou fechando com o senador alagoano no primeiro round, ainda que uma parte dos petistas tenham optado pelo caminho da abstenção. Já era uma forma de enfraquecer o presidente do Senado, para tentar obrigá-lo a pedir o boné. E como esse propósito do PT —obrigar Renan a licenciar-se— não mudou, a crise segue.

O problema agora, como esta coluna já observou, é que tampouco interessa à oposição que um senador petista arrebate o comando da Casa. A Presidência do Senado seria para a oposição a plataforma que lhe falta para uma disputa política nacional com Luiz Inácio Lula da Silva, com vistas a 2010. O principal temor no campo do PSDB e do Democratas é que Lula chegue excessivamente forte a 2010, capaz de operar um de dois milagres: o terceiro mandato ou o “dedazo”. Era o que costumava acontecer no México quando o Partido Revolucionário Institucional (PRI) mandava absoluto. O presidente da República escolhia o candidato do PRI e este só precisava mandar confeccionar o terno da posse.


Parece exagerado imaginar hoje que o candidato de Lula vá ter vida tão fácil na disputa de 2010. Mas se a oposição não conseguir operar o milagre da fusão de seus diversos projetos políticos crescerá a hipótese de Lula repetir Ronald Reagan e, depois de dois mandatos, conseguir também indicar quem irá sucedê-lo. Sempre na hipótese de que ele próprio não possa disputar. A oposição tem hoje nomes fortes para suceder Lula, ao contrário do PT. Mas um dos grandes políticos mineiros, o governador José de Magalhães Pinto, já avisava que a política é como as nuvens no céu: uma hora está de um jeito e logo em seguida está completamente diferente. O ditado é velho. Também por isso é sábio.


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11 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Parabéns, Alon!
Apenas um reparo: há um problema quando vc. afirma que o PT quer a presidência do senado para um dos seus. Renan é um dos mais fortes aliados do PT. Aliás, ele é um tipo de Zelig: foi sarneyzista, foi collorido, foi itamarista, foi tucano. Hoje é lullista. Tempos estranhos, né?
Sds., de Marcelo.

terça-feira, 9 de outubro de 2007 14:33:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Alon, você manja muito de política, isto é inegável. Como leitor do seu blog, gostaria de ver uma análise mais completa - política, ideológica, moral - da questão do terceiro mandato do Lula. É um tema que aparece no seu blog de vez em quando assim como quem não quer nada, como acessório de uma idéia qualquer. E, no entanto, o terceiro mandato me parece hoje a questão política mais relevante dos próximos anos

terça-feira, 9 de outubro de 2007 15:19:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Alon, só não entendo como você conclui que o PT quer a presidência do Senado. Acredito no desejo de querer (todo mundo quer), mas não existe a menor condição política para isso, pois além de não conseguir reunir maioria (salvo uma inusitada mudança de rumo em direção a concertação com a oposição), a governabilidade no Senado iria para o ralo.
Está claro que o projeto político de Lula, desde antes da eleição de 2006, é ter 2 grandes partidos de sustentação, 1 progressita das massas trabalhadoras (o PT), outro conservador das oligarquias regionais (o PMDB), imitando o que fez Getúlio Vargas ao ter o PTB e o PSD.
Tudo bem que esse projeto de Lula precisa ser combinado com o próprio PT e PMDB que degladiam entre si por espaço político. Mas nessa disputa não faz sentido o PMDB abrir mão da presidência do Senado, nem o PT reúne condições para conquistá-la em demonstração de força política.
Esse discurso paranóico (remissão à post seu de alguns dias atrás) de 3o. mandato, para mim, não passa de jogada da oposição, para induzir o eleitor brasileiro (que é conservador), em 2008 a votar em candidatos oposicionistas, com o discurso de equilibrar a balança do poder e colocar um freio em Lula.
Lula não é burro. Sabe que o empenho por reforma para um terceiro mandato arruinaria o resto do governo no segundo mandato e, hipoteticamente, vencendo, teria um terceiro mandato pífio, frustrante como foi o segundo de FHC, e com a "fadiga de material" corroendo a popularidade, ninguém mais seguraria um movimento por impeachment.
Só acreditaria em 3o. mandato se caísse no colo do presidente por decisão meramente política do Congresso livre do balcão de negociação, coisa inimaginável no momento.

terça-feira, 9 de outubro de 2007 15:37:00 BRT  
Blogger Fernando disse...

Esse é o problema do PT. A sua incrivel e inexoravel capacidade de criar crises.

terça-feira, 9 de outubro de 2007 16:36:00 BRT  
Blogger Vera disse...

Sinceramente, não sei em que país o leitor Fernando vive. Certamente não viu com os próprios olhos, sem os ant'olhos da Veja, do JN, do Globo, etc, o que se passa neste país desde 2005. Ainda não entendeu que se joga inteira na criação de crises é a oposição e seus porta-vozes ou pauteiros da mídia. Ainda não entendeu a quem interessam essas crises, mas a quem perdeu as eleições duas vezes e quer recuperá-las por vias transversas ou pouco democráticas.

terça-feira, 9 de outubro de 2007 18:47:00 BRT  
Anonymous Cfe disse...

Ótima análise. Parabens!

Sugiro um artigo sobre o eventual 3º mandato de Lula.

terça-feira, 9 de outubro de 2007 19:26:00 BRT  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Bom, José Augusto, a lógica do PT alcançar a presidência do Senado é simples: com os 3 principais cargos da República, o partido ganha força para impor um nome seu à coligação aliada.

Fora isso, acho que o tal 'terceiro mandato' do Lula virou um espantalho pra oposição ter algo o que dizer ao distinto público, "ei, somos contra a eternização do Lula no poder". A grande questão é se Lula vai ou não ser o grande eleitor em 2010.

terça-feira, 9 de outubro de 2007 19:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

José Augusto,
o PT não precisa fazer muita força para ficar com a presidência do Senado. Basta a renúncia de Renan. O vice é o Tião Viana (PT-Acre).
Sds., de Marcelo.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007 08:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Mas o PT já tem a Presidência do Senado e lutou bravamente para mantê-la.
Sotho

quarta-feira, 10 de outubro de 2007 13:21:00 BRT  
Anonymous Ricardo disse...

Caro Alon,

A oposição não seria oposição se não agisse dessa forma. Aliás, poucas vezes se viu uma oposição tão branda e perdida quanto a atual. Imagine-se que aconteceira com um presidente do senado acoçado por cinco representações no conselho de ética na época de FHC com o PT na oposição. Não é difícil imaginar as reações indignadas de Mercadante e Ideli Salvati, bem como as inevitáveis passeatas da UNI e do MST e da CUT exigindo a ética na política.
No caso, não há qualquer golpismo na ação da oposição contra Renan. Todos os recursos utilizados estão rigorosamente dentro marcos legais e institucionais. É, portanto, totalmente legítima. Lembre-se, aliás, que as primeiras representações foram apresentadas pelo PSOL, que não é exatamente neoliberal. Além das questões maiores do jogo político, há a questão moral. Apesar de você ter se mostrado favorável ao Renan, por puro cálculo político, ao menos é o que quero crer, os indícios da prática de várias irregularidades (crimes mesmo) são clamorosos e muito consistentes. Realmente, seu argumento foge das ridículas e estafúrdias acusações de conspiração da 'elite branca', da burguesia malvada e outras que tais que servem somente para dar alimento ideológico ao rebanho dos seguidores que dizem ni. E a apresentação, com sinais trocados, das velhas desculpas de políticos corruptos pegos em flagrante, como o Maluf, que desqualificavam as acusações como obra do PT.
Abs
Ricardo

quarta-feira, 10 de outubro de 2007 16:31:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

César Cardoso,
Eu concordo que o PT desejar é normal dentro da lógica do poder, mas seus concorrentes que detém a maioria (PMDB) concordar, é que são outros quinhentos. Como o PT vai arregimentar 41 votos no Senado, sem apoio do PMDB? A conta não fecha.

Marcelo,
O Tião Viana do PT só fica na presidência como interino. Se o Renan renuncia à presidência ou é cassado, Tião Viana tem que convocar novas eleições, e se não me engano em curto prazo, questão de dias.
Se Renan se afasta temporariamente (acho que o limite é 4 meses) aí sim daria um bom tempo de presidência para o Tião Viana, se ele realmente se afastar por mais de 2 meses. Mas se Renan volta à presidência após o afastamento a crise volta de novo.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007 17:16:00 BRT  

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