sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A pulga do terceiro mandato (28/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (28/09/2007) no Correio Braziliense:

A derrota do governo na votação da medida provisória que criava o ministério de Roberto Mangabeira Unger é sintoma de uma doença grave. Como um tumor que ao se expandir pressiona os tecidos vizinhos, o apetite irrefreável do PT por posições políticas volta a causar lesões orgânicas na aliança que sustenta Luiz Inácio Lula da Silva. A bancada do PT no Senado cobiça a cadeira de Renan Calheiros (PMDB-AL). Já os deputados petistas querem para si o posto do coordenador político, ministro Walfrido Mares Guia (PTB). E, da Casa Civil, a ministra Dilma Rousseff ocupa o máximo de espaço possível na nomeação de cargos governamentais – sob o olhar atento do presidente da República.

Talvez a maioria dos políticos brasileiros não saibam quem é Andy Grove, um dos fundadores da Intel, mas é provável que concordem com a convicção mais conhecida de Grove, a de que só os paranóicos sobreviverão. Grove escreveu um livro de sucesso sobre o assunto. Empenhados em sobreviver, aliados e adversários do PT enxergam nos últimos movimentos do partido a tentativa de impor à base governista um candidato do próprio PT à sucessão de Lula. Mas os mais paranóicos entre os paranóicos vão além: interpretam a sofreguidão petista como o primeiro ensaio para tentar construir condições institucionais que permitam introduzir na agenda o terceiro mandato para Lula.

Uma das raízes da crise política que consumiu a segunda metade do primeiro mandato de Lula era que a oposição não tinha um nome para batê-lo na campanha da reeleição. O problema que ameaça a paz política já na primeira metade do segundo mandato de Lula é parecido, mas diferente. Agora, é o PT que não tem por enquanto um nome para herdar a cadeira de Lula. Como o poder tem horror ao vácuo, vem confusão por aí. E os vetores da confusão são dois: 1) o PT pressionando por espaço e 2) os grupos organizados dentro do PT buscando cada um o melhor lugar no grid para os seus próprios presidenciáveis potenciais.

A esse cenário somam-se os projetos externos ao PT, como o que se articula em torno de Ciro Gomes (PSB), e os movimentos, ainda que discretos, de possíveis nomes peemedebistas, como o governador do Rio, Sérgio Cabral, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim. Trata-se, portanto, na base do governo, de um cenário caracterizado pela fragmentação. Do outro lado, na oposição, a dúvida é mais simples. Quando o PSDB decidir entre os governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG), o quadro estará montado. Mais ainda: se a pajelança tucana resultar numa aliança entre os dois, de perfil nacional, estará criado um pólo com expectativa de poder, que passará a exercer atração sobre os insatisfeitos da base do governo. Matéria-prima que, convenhamos, não deverá faltar.

Aí é que entram os temores (ou esperanças) dos mais paranóicos entre os paranóicos. Os leitores de sinais de fumaça em Brasília já perceberam duas coisas. A primeira é que Lula deixa claro o desejo de ter no seu campo político um único candidato competitivo para disputar 2010. A segunda é que Lula trabalha sistematicamente para impedir que qualquer outro nome, fora o dele, consolide-se para cumprir o papel. Os menos paranóicos sustentam que Lula opera assim para impedir a eclosão precoce de sua própria sucessão. Já os adeptos mais ferrenhos de Andy Grove olham para Lula e enxergam nele alguém que, ao estimular a pulverização de sua própria base para 2010, aposta em continuar no poder. Por esse cálculo, haveria uma hora em que o condomínio governista olharia em volta e chegaria à conclusão de que ou vai de Lula ou será derrotado.

Quem está certo entre os paranóicos? Os mais ou os menos? Enquanto a poeira não baixa, a intriga e a desconfiança correm soltas no Congresso Nacional. Os mesmos leitores de sinais de fumaça já detectaram que a oposição não tem mostrado entusiasmo diante do surto ético que tomou a bancada dos senadores do PT depois da absolvição de Renan Calheiros. A oposição não quer que Renan seja substituído por um petista. Mas há uma pulga maior ainda atrás da orelha dos caciques oposicionistas. A situação foi resumida ontem por um prócer do DEM no salão azul no Senado: “Essa conversa de mudar a Constituição para qualquer coisa pode ser bonita na hora em que você está pensando em cassar o Renan. O problema é que pau que dá em Chico dá também em Francisco. Temos que tomar cuidado para não irmos buscar a lã da saída do Renan e voltarmos tosquiados, tendo que engolir o terceiro mandato do Lula.”


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25 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon,
não morro de amores pelo PT, muito menos pela D.Dilma. Mas reconheço que, no caso das mudanças feitas na Petrobrás até agora, só houve uma troca de PT por PT. A diretoria de gás estava com um petista e ficou com uma petista. A presidência da BR era desta mesma petista e passou para um outro petista. Os Aliados não tem do que se queixar, pois nada perderam, ainda.
Quanto ao resto, eu não sou paranóico, mas tenho certeza que o candidato do PT para a sucessão do Lula é o próprio Lula.
Sds., de Marcelo.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007 11:04:00 BRT  
Anonymous Fabiana disse...

Penso que não há como um terceiro mandato vingar, a democracia brasileira já pedalou bastante, existe vida além de Brasília.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007 11:40:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Golpe chavista, não tem outro nome. Adeus democracia.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007 12:31:00 BRT  
Blogger Conexão Aberta disse...

Salve Alon!!!

A respeito desse possível terceiro mandato, gostaria de indicar a leitura do texto "O Estado Novo do PT", do professor Werneck Vianna, do IUPERJ. Algumas questões ali podem esclarecedoras.

Ultimamente, estou com muita sensação de deja vu. Isso vai feder.

Atenciosamente,
Fernando Filgueiras

sexta-feira, 28 de setembro de 2007 13:32:00 BRT  
Blogger Dourivan Lima disse...

Já disse em outro blog, a respeito da entrevista do professor Belluzzo sobre a nomeação pra TV pública e as preocupações de Lula com o clima de guerra cultural que cresceu na eleição passada.

Repito aqui: até mesmo nessas pequenas atitudes de Lula, fica claro pra mim que não existe essa história de terceiro mandato.

Para o bem ou para o mal (como foi no caso da rendição à política financista do BC que parou o País), Lula é um político conciliador à moda antiga: não cospe pra cima nem faz marola à toa.

Quando tem a autoridade desafiada, deita falação, mas não tem interesse em ir além disso.

Se o PT quer ter candidato competitivo, que se vire. Ele não tem condição de fazer esse milagre.

No mais, na linha da Fabiana, acho que nem que quisesse ele conseguiria um terceiro mandato.

E essa é outra boa razão para que ele não gaste energia com isso.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007 14:33:00 BRT  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Não penso que exista um movimento do Planalto rumo a um terceiro mandato de Lula; embora, sim, Alon, Lula tem DOIS candidatos à sucessão: o preferencial, claro, é a primeira-ministra Dilma Roussef, com o ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social) vindo como alternativa para o caso de Dilma não emplacar.
(Aliás, imagino que, se não houvesse tanta resistência do PT a Ciro Gomes, Lula pensaria com carinho em ungí-lo como candidato da base aliada ao governo.)

O que existe, e isso me parece claro, é que partes do PT andam com 'síndrome de Peter Pan' e ficam namorando com o terceiro mandato para escapar do fato de que, em 2010, o PT precisa se virar eleitoralmente sem seu fundador. Afinal, o caminho do "queremismo lulista" é a maneira mais fácil de se evitar a batalha política e o acerto de contas que se instaurará dentro do PT pela candidatura do partido à Presidência.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007 15:22:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Paranóia, cada um tem as suas, e eu fico com as minhas.
Não vejo qualquer relação da derrota da SEALOPRA com 3o. mandato. Vejo a pressão política do PMDB do Senado por mais espaço. Passada a CPMF as relações do governo com o Congresso funcionará mais ou menos no piloto automático, então a hora do PMDB mostrar força era agora. Se derruba a CPMF, derrubaria seus próprios ministros.
É claro que há gente querendo um 3o. mandato no PT e fora dele (inclusive gente de outros partidos que adoraria ser vice de Lula em 2010, inclusive gente que está na oposição). Mas acho esse movimento pequeno e creio que o próprio Lula deve considerar pouco viável.
Para viabilizar um 3o. mandato de fato, teria que ter preparado melhor o terreno antes. Não vejo hoje receptividade na sociedade.
O argumento poderia ser o apoio popular. Mas se Lula começa a flertar com um 3o. mandato seu apoio popular cai, e ele perde a confiança nos setores mais politizados da sociedade, e prejudicará muito o restante do governo.
Mesmo que houver uma constituinte, só haverá acordos para os próximos mandatos e não para o atual.

Em tempo: se realmente quisesse o 3o. mandato, Lula não teria feito o PAC programado até 2010.
O balcão de negócios para passar uma emenda de 3o. mandato, seria muito inflacionado com o PMDB, PTB, PR, PRB, e outros P's, o que inviabilizaria a programação do PAC.
O PT não tem candidato forte agora, mas com o crescimento econômico dos próximos anos, com o canteiro de obras que veremos a partir de 2008, Lula é candidato a eleger qualquer poste que ele apoiar em 2010.

Em tempo 2: Lá pelos idos de 2000, 2001, muita gente falava em 3o. mandato de FHC também. Não houve condições políticas para isso.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007 15:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Se os Instituto de Pesquisas ( SENSUS, IBOPE, DATA FOLHA e etc, for para às ruas e perguntar ao POVÃO o seguinte: VOCÊS QUEREM UM TERCEIRO MANDATO PARA O PRESIDENTE LULA EM 2010. Aposto que a maioria, cerca de 80% dos entrevistados vão responder que sim, sabe porque! Porque nenhum brasileiro vai engolir de novo o PSDB/DEM governando esse país.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007 17:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Senhores,
Não havia como sustentar um terceiro mandato para FHC até porque tinha gente dentro do PSDB que queria o cargo (e tinha potencial eleitoral para isso), casos de Serra e Aécio. Quem dentro do PT teria peito para barrar as (hipotéticas) pretensões de Lula?
Ao mesmo tempo: o povão (o grande eleitor) não liga a mínima para a constitucionalidade ou não de um terceiro mandato. Enquanto o povão estiver se sentindo amparado pelo governo federal, o seu titular se reelege de novo com um pé amarrado nas costas. Nem precisa fazer comício.
Em termos de potencial eleitoral, a candidatura Lula é viável e possivelmente vitoriosa. Já em termos de experiência democrática...
Sds., de Marcelo.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007 17:21:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

O politico do DEM foi muito feliz no discurso. Deve ser por que está escaldado. O chavismo de FHC abriu todas as portas para o PT.
Quanto a um terceiro mandato do Lula: bobagem.
Sinceramente, nunca vi um presidente mais narciso que o Lula. Dúvido que ele arrisque o sonho de ser considerado o bam-bam dos presidentes em troca de um duvidoso terceiro mandato.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007 17:23:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

O blogueiro não respondeu a pergunta crucial do post. O terceiro mandato está esquentando ou esfriando?

sexta-feira, 28 de setembro de 2007 17:38:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Lula quer um terceiro mandato... em 2014.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007 17:56:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

f. arranhaponte
Não respondendo pelo Alon, e sim dando minha opinião:
Entre os paranóicos está esquentando, pelo que se vê.
Os Demos não podem ver o número 3 numa propaganda do Banco do Brasil, que dizem ser propaganda subliminar.
No Planalto, vejo estar estar frio como sempre esteve. A prova é o PAC, como comentei acima, incompatível com mercado futuro do terceiro mandato.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007 18:12:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

A ciência política ensina que sempre é preciso desconfiar dos políticos que dizem não querer o poder. Portanto, não se trata de paranóia. Trata-se de aplicação analítica de algo elementar na ciência política.

Não tenho dúvida que se lhe trouxerem o cavalo encilhado, o Lula monta. No entanto, não vejo, até o momento, quem, no PT e fora dele, reúna as condições suficientes para tanto. Uma movimentação política mais agressiva nesse sentido iria literalmente rachar o país.

Contrariamente ao desejo dos muitos e multicoloridos socialistas do séc. XXI, o Brasil não é (nem mesmo em germe, para ficar com a metáfora preferida) e não vai tornar-se uma Venezuela. As condições para que esse ovo de serpente vingue aqui simplesmente não existem.

O que mantém a coesão da base aliada é a disposição do executivo em liberar recursos do orçamento e distribuir cargos. Se no segundo mandato a coisa está como está, é lógico deduzir que num suposto terceiro mandato o preço do apoio seria altíssimo. Para os queremistas petistas seria algo como uma vitória de Pirro, eu imagino. Vai faltar teta para tantas e insaciáveis bocarras.

Penso que o movimento queremista do PT tem sua base social na burocracia partidária e sindical que ascendeu nos aparelhos de estado. Penso mesmo que, nesse caso, a política é o que menos conta. O que conta muito mais para esses arrivistas é a manutenção dos cargos, que lhes confere uma nova e confortável situação econômica e prestígio social. Examine-se a história pessoal dessa turma. Iniciaram a carreira com base no controle burocrático dos sindicatos. Depois, induziram suas carreiras políticas no PT e, finalmente, instalaram-se no setor dirigente do Estado. Você conhece algum sindicalista ou líder comunitário do PT que depois de experimentar o caviar servido às elites do poder voltou para o chão da fábrica, da sala de aula, do banco, das favelas, das ruas empoeiradas das periferias? Quem leu Karl Marx sabe muito bem do que estou falando.

"Os cargos de confiança mais altos no governo de Luiz Inácio Lula da Silva são ocupados por sindicalizados e filiados ao PT, de acordo com dados da pesquisa "Governo Lula: contornos sociais e políticos da elite do poder", coordenada por Maria Celina D'Araújo, do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV. "Você tem ainda uma superposição: parte dos petistas é também sindicalizada. É uma malha associativa muito forte", diz a pesquisadora."

http://www.interjornal.com.br/interblogs.kmf?noticia=6489174&total=312&indice=0

Abs.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007 23:58:00 BRT  
Blogger Cláudio de Souza disse...

Caro, até acho que, em tese, não deveria haver limites para a reeleição. Há países democráticos em que a regra é essa. Chirac poderia ter concorrido a um terceiro mandato na França, e não o fez porque não quis (provavelmente porque perderia para Ségolène Royal). Mas acho que um terceiro governo Lula (e, de resto, de qualquer um) seria uma coisa meio forçada. Não acredito nem mesmo que o próprio Lula ache isso uma boa idéia. Pra ele é muito mais interessante voltar aclamado em 2014, como um semideus. Mas também é verdade que trocar o (quase) certo pelo duvidoso não é exatamente uma idéia atraente no mundo da política.

sábado, 29 de setembro de 2007 00:45:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, por que inverter o argumento neste caso? Política é disputa pelo poder, quem se deixa levar por considerações moralistas, além das que possam justificar a estratégia de marketing, – por exemplo, quando não se consegue engatar qualquer outro discurso ¬–, está fora. O PT, como qualquer outro grupo político, o mesmo valendo para as tendências dentro do partido pelo seu controle, busca aumentar sua participação no poder. Por que apenas nesse caso se trata de “apetite irrefreável” com danosas conseqüências? Não seria o PMDB que trai a aliança quando derruba uma MP (que, aliás, sequer interessa ao PT diretamente)? A questão é outra: são as regras do jogo político, a começar pela falta de fidelidade partidária, que faz com que a aliança no poder esteja sempre em discussão, constantemente precisando ser renovada, o que garante um governo sempre emasculado. O medo difuso da reeleição tem a mesma origem dessa institucionalidade que faz a disputa política derivar para a paralisia de qualquer governo, o temor de que um grupo político perenize-se no poder apenas fazendo uma pequena parte do dever de casa que nos negamos a fazer. Aceitamos encenar todo o teatro da democracia liberal com a condição de que quem ganhe o governo abdique de governar e contente-se em usá-lo como uma condecoração. Outra característica marcante de nossa vida política, que ajuda a manter a atenção distante do que é relevante, é esse gosto por penetrar a subjetividade dos personagens: deseja o presidente uma segunda reeleição? Não espanta que Brasília esteja repleta de leitores de sinais de fumaça, a continuidade desse novelão é a garantia dos privilégios de uma corte que se orgulha de seu ócio.

sábado, 29 de setembro de 2007 09:09:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, talvez dentro daquilo que você chama de paranóia, esteja algo mais agudo. Ou paranóia mais aguda, seja isto possível, para ocupar o vácuo de poder que se avizinha. Assim, parece que o mais lógico, com paranóia e tudo, seja apelar para o surgimento de um verdadeiro estadista. Em tal cenário, o presidente teria, na realidade, de planejar a transição. Uma vez que a temida ruptura de fato não ocorreu a partir de 2002, mas o sistema político desorganizou-se a tal ponto que ruptura real não é difícil de ocorrer. Para colocar ordem em tudo só um estadista, avesso à própria boa sorte de sua biografia e gosto pelo culto à personalidade, mas realmente empenhado em passar para a história como tendo deixado um legado político real e não tão fragmentado como está atualmente.

sábado, 29 de setembro de 2007 11:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Teria assim a espinhosa missão de unir o País, ou impedir que a fragmentação atinja nível irreversível. Para tanto, só a popularidade não resolve por si só o embrulho indigesto que terá de carregar caso não rompa com a tendência personalista e volte-se para tornar a transição o mais coerente possível. Em suma, deve assumir que há vários polos de poder e que está enredando-se nas armadilhas urdidas para sua própria manutenção política que, longe de ser hegemônica, calca-se na elevada popularidade que funciona como um guarda-chuva para projetos ainda um tanto obscuros. Desarmá-las, significa aplacar os espíritos para que surja a visão real do País, sem a névoa que a tolda atualmente. Talvez, assim, a paranóia possa ter um fim benígno, enfim.
Sotho

sábado, 29 de setembro de 2007 11:55:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

albeto2009

Li o seu comentário como perfeita aplicação do princípio do realismo político que não se "deixa levar por considerações moralistas, além das que possam justificar a estratégia de marketing".

O realismo político é sempre arrogante porque seu fundamento primordial é a igenuidade ou hipocrisia que ele aponta no seu outro "não realista como eu". É sempre um discurso justicador do presente ("fazem o que todos antes deles faziam". Portanto, um discurso verdadeiramente conservador) assentado na desqualificação (ingênuo ou hipócrita) do seu outro "não realista como eu".

Na juventude, discutíamos acaloradamente sobre a nossa moral e a deles. Discutíamos sobre o realismo político e sobre quem verdadeiramente era um revolucionário. Sobretudo, discutíamos sobre o combate ao principismo pequeno burguês carregado como a marca indelével da nossa origem de classe. Havia um teste infalível para detectar se tal marca fora suficientemente lavada e apagada na nossa consciência de revolucionários:

Americanos estão presos em uma aldeia vietcong cercada pelo inimigo. Você os torturaria para obter informações que pudessem salvar a aldeia? 10 entre 10 jovens louquinhos para renegar sua origem de classe respondiam que sim. Eu incluído. Para os mais novos e para os que esqueceram, lembro que tais embates ideológicos ocorriam no mesmo momento em que muita gente era torurada por outros revolucionários. Nós, os purificados do principismo pequeno burguês e com a consciência lavada no marxismo-leninismo, apenas defendíamos a boa tortura (a torura justa), ao mesmo tempo que saíamos às ruas exigindo anistia, liberdade para os presos políticos e fim da ditadura militar. Nós, os mais fervorosos entre todos os defensores dos direitos humanos. Um paradoxo e tanto, não é? Sim, eu pertencia a uma tendência política que se proclamava nos antípodas do trotskismo. Isso quer dizer que nunca lemos a "Nossa moral e deles". Não lemos, mas como sabíamos praticá-la...

A ética proclamada pelo PT, antes de chegar ao poder, exigia transparência e responsabilidade no trato das coisas públicas. Como você muito bem apontou, o realismo político dos atuais detentores do poder revela muito bem que tais valores republicanos foram acionados como puro jogo de marketing político. O fato, imposto pela dura realidade, eu reconheço, é que deu certo.

abs.

sábado, 29 de setembro de 2007 14:01:00 BRT  
Anonymous Evandro disse...

Os números reais de apoiamento cego não permitem ao Lulismo, neste momento, sonhar com o terceiro mandato. Poderá alterar o quadro a eventual reconquista da classe média e maiores apoiamentos ao Sul.
A menos, é claro, que aceite correr riscos institucionais relevantes e arriscar-se em cruzada de resultados duvidosos.
Sua base política real é pequena e o resto se serve do governo. Seja ele qual for. Tanto faz quem ganhe, desde que não seja forte demais para se tornar independente.
Lula terá interesse em quadro nebuloso eque gere candidato a lhe dever o mandato e compromisso de retorno em 2014.
O resto é apostar em erro dos adversários.
Aventura Lula não precisa participar. Ele hoje tem o que perder. O PT não.

sábado, 29 de setembro de 2007 14:05:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon: Considero a possibilidade de um terceiro mandato extremamente difícil,porque, principalmente, careceria de um timing com precisão cirúrgica. Pois, como você bem sabe, a Mídia dorme, agora, com um olho aberto e o outro aberto, também. Um abraço.

sábado, 29 de setembro de 2007 17:37:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Outro sinal um tanto quanto claro de que Lula não está trabalhando exatamente por um terceiro mandato, é o fortalecimento da Dilma e de outros do PT nas recentes nomeações a ponto de provocar esse "motim" no PMDB do Senado.
A lógica do jogo político para um 3o. mandato seria Lula estar compondo uma chapa onde acenasse para algum Senador do PMDB a vice-presidência. Se isso estivesse acontecendo nos bastidores, estariam em lua de mel.

sábado, 29 de setembro de 2007 18:42:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Lula tem um quê de João Goulart, não tem a coragem necessária nem a loucura indicada para um passo desses....

domingo, 30 de setembro de 2007 00:06:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Paulo Araújo, relendo meu comentário anterior, reconheço que ficou confuso. Não era minha intenção defender uma atuação política imoral. Eu qualifiquei de moralista o argumento do Alon de responsabilizar a busca de espaço no governo, por parte do PT, pelos problemas que enfrenta a coligação. Moralista porque julga a atuação daquele partido com mais rigor do que as regras (explícitas) do jogo exigem e todos praticam: ninguém deve fidelidade a ninguém, a barganha está constantemente sendo reiniciada: o PMDB pode derrubar uma iniciativa do governo, explicitamente para pressionar por espaço no governo, sem por isso ir para a oposição, ou seja, sem entregar o espaço que já possui. Mais, a liderança do PMDB não vê problema em não poder garantir os votos do partido, independente da importância da votação para o governo, e todos vêm isso com naturalidade, por que o PT deve ser julgado diferentemente? Seu comentário faz referência a outra questão, a atitudes que infringem as regras explícitas e buscam suas justificativas em regras tácitas, alegando que “todos fazem”. Não sou trotskista, sequer sou socialista, mas em todas as atividades humanas há certa dose de hipocrisia. Nosso problema, do país, mas talvez de toda América Latina, é aceitarmos como normal uma discrepância muito grande entre as regras explícitas e as que são de fato exigidas. Para o caso eleitoral (pensando mesmo no “mensalão”), a discrepância é tal que existe inclusive uma instituição, como eu a enxergo, cuja razão de ser é justamente manter as aparências (para não desmoralizar a regra explícita, que de fato não vigora): a justiça eleitoral. Mais, o PT sempre defendeu o financiamento público de campanha como forma de escapar do uso de recursos ilícitos, uso imposto pela situação e pela ineficácia da regra explícita. Em situação de concorrência, como no caso eleitoral, o que vale é a regra de fato, sob pena de ser excluído do jogo. Conclusão (sem pretender ser superior a ninguém): o PT foi e continua sendo um partido com postura ética superior a média, de um lado, e praticou também muito falso moralismo quando na oposição, de outro.

domingo, 30 de setembro de 2007 12:46:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alberto

Seu ponto de vista ficou bem claro.

Eu responderia à sua afirmação final sobre a ética petista. Mas não vou. É questão demorada e não cabe aqui.

Abs.

domingo, 30 de setembro de 2007 20:13:00 BRT  

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