domingo, 30 de setembro de 2007

A pergunta do capitão Nascimento, o prestígio de Che Guevara e a violência para o bem (30/09)

Tropa de Elite é um filme espetacular. É um Vidas Secas do Brasil urbano. Como na obra de Graciliano Ramos, transportada para o cinema por Nelson Pereira dos Santos, a vida dos personagens não tem progressão real. São, literalmente, vidas secas, só que desta vez no asfalto e no morro do Rio de Janeiro da virada do século. Os personagens de Tropa de Elite são somente peças de um mecanismo, que sobrevive para garantir o conforto e o vício da classe dominante. No Brasil rural de Vidas Secas, ela se confundia com uma oligarquia insensível e desumana. No filme de José Padilha, assume os ares de uma burguesia e uma classe média drogadas e filantrópicas. Trata-se de um ecossistema. Há os playboys que consomem a droga. Há os traficantes que garantem o abastecimento da droga para os playboys. E há o BOPE (tropa de elite da Polícia Militar), que entra em ação quando transborda a violência gerada por essa parceria, quando os playboys são vítimas da brutalidade do mecanismo. Ou quando a sociedade "da paz" sente-se ameaçada pelo monstro que cultiva ao lado de casa. No meio dessa fauna, ninguém está nem aí para a pergunta que faz num dos primeiros episódios do filme o capitão Nascimento, do BOPE (na foto de cima, reproduzida do cartaz promocional do filme, o personagem em ação na pele de Wagner Moura; se o filme fosse americano, Wagner seria fortíssimo candidato ao Oscar de melhor ator),:

"Eu sempre me pergunto: quantas crianças a gente tem que perder para o tráfico só para um playboy rolar um baseado?"

A classe dominante já achou uma resposta a essa indagação fundamental. Propõe legalizar o câncer da droga. Legalizar o hábito que destrói nossos jovens. Eu penso ao contrário. Que além de radicalizar no combate ao consumo da droga deveríamos ter uma estratégia para reduzir radicalmente a apologia do consumo de álcool. Do jeitinho que vem sendo feito com o fumo. Meu ponto de vista está no post Os financiadores do terror, de janeiro:

O crime está presente em todo o território nacional, mas é mais agudo e mais violento nas regiões metropolitanas. Na sua configuração atual, o crime está indexado ao tráfico de drogas. E só se traficam drogas onde existe mercado. Então, para combater o crime na sua versão mais moderna (a criminalidade terrorista), o melhor a fazer é achar um jeito de travar a guerra total ao tráfico de drogas. Aí aparece um problema: não há como combater radicalmente o tráfico de drogas sem atacar o mercado de consumo da droga. O terreno para que prosperem o crime e o terrorismo no Brasil vem sendo adubado pela tolerância ao consumo das drogas. Você, que além de desfilar de branco pedindo paz também gosta de consumir sua droga na intimidade, é o principal financiador da barbárie que ameaça os seus entes queridos.

Tropa de Elite mata (literalmente) a pau quando expõe, sem limites politicamente corretos, a anatomia e a fisiologia de uma sociedade cínica e doente, que se recusa a encarar a própria doença. Estão ali, desenhadas, as organizações não-governamentais que articulam a classe dominante e o crime, por meio da droga e da filantropia -esta patrocinada pelo sistema político-empresarial. Está ali, retratada, uma polícia corrupta. Está ali, maravilhosamente exposto, como uma caricatura sem sê-la, o arcabouço supostamente intelectual que serve de alucinógeno "literário" a quem deseja viver mergulhado nessa podridão sem carregar culpa. E ainda por cima vomitando Foucault. Está tudo ali, em fatos. Irrespondível. Fatos são irrespondíveis. Bem, eu já estava disposto a escrever sobre Tropa de Elite quando li a reportagem de capa da revista Veja sobre Ernesto "Che" Guevara. Além da habitual catilinária anticomunista, a Veja desceu a lenha no Che (na foto de baixo, a imagem clássica dele) principalmente porque o argentino 1) teria dado sinais de fraqueza diante da morte iminente, 2) teria sido um mau ministro da Indústria e 3) teria sido um executor frio e sanguinário dos adversários políticos da sua revolução. A violência liga os dois assuntos, Tropa de Elite e o texto sobre o Che. Comento rapidamente os pontos de crítica da Veja. No ponto 1, não enxergo muita valentia em tripudiar sobre alguém que supostamente deu sinais de fraqueza diante da morte inevitável. Do mesmo modo que não vejo coragem em fazer ironia com o eventual (mau) comportamento de quem esteve submetido a tortura. Não cabe a nós, mortais, julgar o limite do sofrimento suportado por nossos semelhantes. Tem algo de antihumana a arrogância de quem se coloca de um ponto de observação "superior" para fazer o juízo do comportamento de alguém prestes a ser privado da vida. Ou para fazer o juízo de alguém submetido à humilhação de implorar a seu algoz que interrompa seu sofrimento. Sobre o ponto 2, eu consideraria mais as críticas à suposta incompetência do Che ministro se fosse hábito dos críticos de Che julgar unicamente pela competência. No Brasil, por exemplo, os responsáveis por todos os desastres econômicos dos anos 60 para cá são tratados nos círculos dominantes como sábios, são ouvidos e respeitados como sumidades. Escrevem artigos de destaque em jornais e revistas e são figuras permanentes nas entrevistas de rádio e televisão. Enquanto isso, o governo atual, que conduziu o país à melhor situação econômica da nossa História, é tratado como um bando de incompetentes e trapalhões -na versão benigna da crítica. Por isso é que eu vejo o ponto 2 com reservas. Quanto ao ponto 3, diferentemente do que pretende a reportagem da Veja, Ernesto "Che" Guevara não virou mito porque a propaganda o despiu dos seus prováveis muitos defeitos. O Che virou mito porque sobreviveu e sobreviverá como símbolo da luta por mais justiça. Infelizmente, a direita sul-americana não tem um símbolo para contrapor ao Che. E dizer, como diz a revista, que Che foi um executor frio e sanguinário, nem faz cosquinha na imagem do argentino. O fato é que as pessoas talvez estejam dispostas a agüentar executores sanguinários e frios, se a ação deles for para "o bem". Não é isso, por sinal, que nos vendem todos os dias na política? Dia após dia justifica-se o assassinato "branco" de políticos em nome do "bem". Ou da "ética". Por essas e outras é que o capitão Nascimento é o novo herói brasileiro. Quando você vir o filme, você entenderá. Eu não vi, acredite em mim, mas quem viu me contou tudinho.

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33 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Não vou ler o post. Quero ver o filme antes.

abs.

domingo, 30 de setembro de 2007 18:19:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Che queria mais justiça e se tornou um assassino para tal....que beleza de conclusão.
Mas não esqueça que as drogas se tornaram o câncer social graças a patrulha ideológica "a la anos 60-70" que dividia o mundo entre os caretas (feios, sujos, malvados, indignos) e os não caretas (lindos, bacanas, legais, sempre antenados com um mundo melhor). Quem deu exemplo e introduziu a classe média foi a classe artística (que ainda hoje dá o exemplo e teve até estátua em praça pública)e os intelectuais que tambem sonhavam com um mundo melhor.

domingo, 30 de setembro de 2007 18:29:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Agora Alon, o mais engraçado é você justo falar do prestígio de Che Guevara, olhe de onde vem a palavra

Etimologia
Prestígio vem do Latim præstigiu ("ilusão", "truque efetuado com a mão"). A raiz da palavra é a mesma que nos deu "prestidigitação". Em muitas línguas neo-latinas como o francês e o italiano, o termo ainda conserva (em grande parte) esse sentido.

Logo, você mesmo chamou Che de um vendedor de ilusões.

domingo, 30 de setembro de 2007 19:09:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Matou a pau Alon! Perfeito!

domingo, 30 de setembro de 2007 19:17:00 BRT  
Blogger Andarilho disse...

Pior que vomitar Foucalt é vomitar Deleuze e Guattari.

A reportagem da Veja é importante por mostrar outro lado da figura histórica que é Che Guevara. Sinceramente, acho que ele é valorizado demais. Mas ela perde muita qualidade por causa da atitude de "portadores da verdade incontestável" de quem a escreveu.

De qualquer forma, excelente post. Mas vê se assiste o filme e larga dessa atitude "Sílvio Santos" sobre filmes!

domingo, 30 de setembro de 2007 22:32:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pois eu acho que o Alon assistiu ao filme. Só está dizendo que não assistiu porque a cópia deve ser pirata...

domingo, 30 de setembro de 2007 22:50:00 BRT  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Oficialmente, ninguém viu o filme, afinal só entra em cartaz dia 12. Mas o que todo mundo comenta dele é uma festa. E viva a ilusão de honestidade da mulher de César. Hehehe.

A matéria da Veja é aquilo que você falou, Alon: a direita latino-americana não tem seu herói e aí precisa destruir os heróis dos outros. A direita latino-americana é arcaica e medíocre, e enquanto for arcaica e medíocre a democracia nunca vai prosperar por aqui.

Quanto à relação drogas x burguesia, sempre me lembro daquela frase do Hélio Luz, quando foi chefe de Polícia do Rio: "Ipanema brilha à noite". A mais pura verdade.

Aliás, Alon, não é engraçado que só agora notaram que o Entorno do DF virou entreposto de drogas?

segunda-feira, 1 de outubro de 2007 00:30:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Alon, eu acho que a revista Veja está propositalmente direcionada a um público de extrema-direita. Seguindo a linha empresarial de atender ao cliente naquilo que ele quer ler.
Essa versão do Che atende às expectativas desse leitor.

Sobre drogas, da última vez a polêmica rendeu.
Eu mesmo entrei como uma posição mais conservadora por pragmatismo (manter a proibição) e saí mais maleável (o plantio de maconha para o consumo próprio ser descriminalizado. Consumo só em recintos fechados, nunca em público, incluindo o álcool - para desespero dos foliões dos blocos de carnaval de rua).

Mas acho mais importante do que a repressão (que também é necessária), é propagar uma cultura das pessoas aprenderem a usufruir de suas drogas produzidas de fábrica pelo próprio corpo (de nascença), ou seja, seus hormônios, seus sentimentos, suas emoções, seus sentidos, sem recorrer ao apoio de aditivos químicos.

Entenderem que o maior "barato" de fato é estarem lúcidos, no pleno funcionamento dos sentidos, quando sentirem as melhores emoções. Isso sim é viver intensamente, e o que deixa as melhores recordações, para si e para os outros.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007 00:50:00 BRT  
Anonymous Bora Baêa disse...

Alon,
Escrevo de novo porque na verdade o que mais me chamou atenção no teu artigo foi sua opinião sobre as drogas, ou na verdade sobre o usuário de drogas ilícitas. Não sei se tenho este direito, mas confesso que me causou uma certa decepção, pois teu pensamento neste quesito é muito semelhante ao dos setores mais conservadores da sociedade.
Acho fundamental salientar que não sou usuário de drogas ilícitas, mas isto não me impede e ter uma opinião diferente sobre a questão.
A apologia ao uso de qualquer droga é completamente reprovável, seja ela cigarro, cerveja, maconha ou cocaína, mas isto não quer dizer que devamos proibir o uso delas. Desde que o homem existe como ser racional ele faz uso consciente de substâncias psicoativas(drogas), e elas sempre estiveram presentes na cultura de TODOS os povos que habitam ou habitaram o planeta. Só para ilustrar sabe-se que Jesus abençoou o vinho e fez questão de transformar um barril de água em barril de vinho para animar uma festinha, e alguns estudiosos falam de trechos da bíblia que exaltam algumas ervas com capacidades "alucinógenas".
O alcóol é sem dúvidas a substância mais popular, e também a que causa mais estragos na humanidade(eu consumo álcool, não me orgulho disto mas também não tenho nenhuma vontade de parar, para mim é como comer a gordura do churrasco, ou seja, utilizo racionalmente porque gosto do gosto e da sensação que me dá). É fácil descobrir o que acontece quando se proíbe o uso dele, basta pesquisar um pouco sobre quais foram as conseqüências da lei seca americana. Seriam os "playboys" bebedores de cerveja e uísque os responsáveis culpados pela fortuna de Al Capone e pelos seus desmandos? Para entrar neste debate é preciso nos desnudarmos de uma série de preconceitos.
1º o Mito: é completamente mentirosa a idéia de que "enrolar baseado" é coisa de playboy. Trabalho com jovens da periferia, e a primeira coisa que se nota é que nesta questão eles são exatamente iguais aos jovens de classe média e aos ricos, ou seja, muitos não consomem drogas e tem preconceito com elas, uma grande parte consome álcool, e muitos consomem drogas ilícitas entre as quais a mais popular é a maconha. A única diferença é que "a baixa renda" os afasta da cocaína e dos ácidos tão populares entre os playboys.
Outra questão importante de salientar é que a proibição das drogas serve como pretexto para aumentar a repressão aos jovens moradores da periferia, pois um "playboy" pego com um baseado leva um "carão" solta uns trocados e volta pra casa, enquanto o pobre apanha, é humilhado, muitas vezes é preso e ainda é tachado de traficante.
Este debate é tão cheio de informações que já resultou em diversos livros e resultará em muitos mais, mas por enquanto prefiro encerrar por aqui. O trabalho com jovens me deu contato com diversos especialistas na área de drogas: médicos, psiquiatras, psicólogos, sociólogos, antropólogos e até juízes. Se quiser depois te arrumo uns artigos científicos sobre o tema, mas já de bate pronto te indico que pesquise sobre a história da chegada da maconha no Brasil e sobre os motivos que levaram à sua proibição na época do Estado Novo.
Me despeço cordialmente, voltando a enfatizar que não consumo drogas ilícitas, pois sei que sempre que alguém defende a legalização é logo tachado de usuário.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007 01:16:00 BRT  
Anonymous Edgard - RJ disse...

Me Perdoe, Alon....

Achei o filme muito bom (assisti a cópia pirata baixada do e-mule sim!) Mas existe algo mais degradante ali...O filme mostra uma polícia que para combater o tráfico de drogas e o roubo, comete crimes ainda piores que o tráfico e o roubo, quer seja, assassinato! A cada qual sua responsavilidade, mas o fato de Che, ou o Capitão Nascimento terem sua importância, não lhes dá salvo conduto para matar ninguém. O direito à vida precede todos os outros, ou não? Independe de quem detenha o poder.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007 02:01:00 BRT  
Anonymous trovinho disse...

A proibição das drogas no Brasil ocorreu por Getúlio, no início dos 30, na esteira do proibicionismo ianque. Era importante enquadrar criminalmente hábitos difundidos entre proletários, como a maconha, porque assim podia prendê-los mesmo sem encontrar, durante o "baculejo", o temido panfleto sindical então em ascenso, já que os "cigarros índios" eram, até a pouco, vendidos na farmácia e eram consumidos desde que os cristãos portugueses (alunos dos "muçulMANOS")distribuíam-lhes caridosamente para evitar surtos entre os escravos torturados. Emancipem-os, afinal somos seres simbólicos e necessitamos elaborar a dor dessa senzala, mas na legalidade, para evitar mais um pedágio que enfraquece o estado, pois estupidamente converte assassinos em facilitadores da compulsão experimentadora dos jovens.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007 04:32:00 BRT  
Anonymous JV disse...

|Se este filme tem patrocinio, estatal ( a Petrobrás é rainha de dar grana para filmes), se houve algum incentivo fiscal, eu deveria poder passar pela roleta de graça...se eu pagar ingresso, estarei pagando 2 vezes....

segunda-feira, 1 de outubro de 2007 08:38:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon:
1) De fato, os crimes do Che não arranham a sua popularidade pq. as pessoas se ligam aos símbolos e não à realidade. Ou seja, o neurônio Tico e o Teco não conversam. Por isso, o esquema mostro de cooptação política do atual governo não arranha a imagem do atual governante. Nada como uma barba, ainda que bem cortada, e emia dúzia de palavras de ordem toscas e sem-sentido...
2) Para vc. e para o diretos desse filme, só os ricos (playboys) consomem drogas. É a luta de classes até no caminho do vício. Lamentável a tibieza do argumento.
3) o comentário do jv está correto: a Petrobrás já pagou pelo filme. Pagar ingresso é bitributação.
Sds., de Marcelo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007 11:51:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Bora Baea,

Sua opinião e abordagem foi boa, independente de discordar em parte.

Mas um ponto acho importante destacar: Você diz que a proibição das drogas serve como pretexto para aumentar a repressão aos jovens moradores da periferia.

Eu acho uma simplificação. À polícia corrupta interessa o dinheiro, e quanto mais fácil, com menor risco, melhor. Então vamos às fontes:

1) O "playboy" abastado é melhor para ser extorquido do que o consumidor pobre de drogas favelado, por motivos óbvios.

2) Da mesma forma, o traficante também é ideal para ser extorquido, pois é nele que se concentra o dinheiro do tráfico, e é melhor para o policial corrupto fazer um acerto na vida mansa do que enfrentar trocando tiros.

3) O consumidor favelado pobre, sofre nas mãos dos maus policiais, quando é confundido com informante ou traficante, ou "inadimplente" ou rival da facção com quem a banda podre da polícia tem "acerto". Fora isso, pode ser tratado com desrespeito e "esculacho", como os pobres em favelas são tratados de forma geral, mas não desperta maiores interesses nos policiais corruptos. Tanto é verdade que dificilmente você vê prisão de meros consumidores de drogas de baixa renda, sem envolvimento com o tráfico.

Acho que existe duas vertentes do tráfico. O clandestino e o ostensivo. O clandestino só faz o mal que a própria droga faz a quem consome, e de certa forma é absorvido de forma tolerada nas relações sociais, a ponto de ter sua criminalização questionada.

O ostensivo é muito mais grave, pois é armado até os dentes, controla áreas arbitrariamente, entra em guerra com facções rivais, e submete as populações sob sua área de controle ao regime de terror.

A polícia precisa sim reprimir o tráfico ostensivo, e devolver o tráfico à clandestinidade, já que acabar de todo é praticamente impossível, enquanto houver consumidores ávidos pela droga.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007 12:39:00 BRT  
Blogger Sidarta Cavalcante disse...

Puxa, Alon, você começa o texto dizendo que o filme é "espetacular", e no final diz que não viu o filme? Sinceramente, não entendo como consegue fazer uma análise dessa forma...

segunda-feira, 1 de outubro de 2007 13:01:00 BRT  
Anonymous VJ disse...

Ô Sidarta, é porque ele assistiu numa cópia pirata e não quer dizer que cometeu uma transgressão. Leia nas entrelinhas...

segunda-feira, 1 de outubro de 2007 13:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Eu tampouco assisti o filme, não me julgo em condições de emitir opinião. Fico aqui pensando se não seria algo parecido com "O Homem do Ano", com o Murilo Benício.
Quanto ao Che, à Veja e suas sandices, é lamentar e dar combate. Mas confesso não saber muito bem o que foi feito em Cuba. Matou-se civis de baciada, condenou-se sumariamente pessoas inocentes? O Che saía às ruas de facão em punho matando camponeses e trabalhadores e estuprando mulheres grávidas?

Ignotus

segunda-feira, 1 de outubro de 2007 13:19:00 BRT  
Anonymous Adriano disse...

Acabei de descobrir o seu blog via Hermenauta. Excelente! É raro encontrar pessoas que escrevam tão bem na internet, e ainda sejam de esquerda. (não que eu o seja, não sou, mas me agrada o pluralismo democrático.)

Grande abraço.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007 14:47:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,

Sou seu leitor há bastante tempo, mas você sempre me surpreende: pelas análises políticas acuradíssimas que já me fizeram mudar de opinião várias vezes; e pelo seu moralismo surreal que lhe coloca em companhias muito estranhas - no pólo oposto do espectro ideológico. Sua posição sobre as drogas é triste - vamos estender seu raciocínio: as velhinhas que vão aos bingos são responsáveis pela lavagem de dinheiro; os donos de automóveis são responsáveis pela violência no trânsito; os eleitores de políticos corruptos são responsáveis pela corrupção... E o sujeito que toma suas três quatro doses de scotch todo dia quando chega em casa - será que ele é responsável pelo alcoolismo e todos os problemas que dele decorrem? Será que ele deveria ter interdito seu uso da droga álcool por conta do abuso de alguns? Tenha dó, por favor. Se o playboy pudesse plantar a sua maconha em casa, ou comprar sua cocaína na farmácia, a violência relacionada ao tráfico acabaria devido à sua transformação em comércio regular? Muito provavelmente não, teríamos, sim, uma diversificação das atividades criminosas - mais assaltos, sequestros, etc... Como, aliás, já ocorreu no RJ há algum tempo, quando ações policiais sufocaram os canais de distribuição. A sociedade não perde suas crianças para o tráfico, ela perde suas crianças simplesmente por não lhes propiciar oportunidades - o tráfico é só a instituição da vez. Agora, presta atenção no leque de "negócios" que os traficantes têm hoje: controle da distribuição via gatos de água e luz, controle da distribuição de gás, de telefone, de internet, de tv a cabo... - cada favela um pequeno Estado - você acha mesmo, que se não houvesse tráfico, a violência acabaria? O "portfolio" dos traficantes já é diversificado, a perda das drogas como fonte de renda não impactaria de forma significativa o domínio que construíram. E esse negócio de playboy comprando seu barato no morro, isso é coisa dos anos 70/80, meu caro. Os playboys hoje em dia compram Ectasy e outros mimos farmacológicos modernos de outros playboys que traficam para eles. E playboy que é playboy, não compra a maconha chulé misturada que é vendida nos morros e nas ruas, compram o super-skunk que é plantado em apartamentos, ou trazido de Amsterdã, por outros playboys e vendido a peso de ouro... Quem compra a maior parte da cocaína e da maconha vendida nas favelas, geralmente são os próprios moradores. Vai por mim, eu já fui em várias bocas, e você? A maior parte dos clientes é local. Os ricos contam com outros esquemas que muitas vezes nem passam perto dos morros. Não são só os playboys que usam drogas, pedreiros, pintores, garis, e mesmo PMs, também cheiram e fumam - ou você não tem nenhum disco do Bezerra da Silva em casa? Vamos ao ponto, drogas são nefastas em qualquer quantidade e circunstância, e o melhor seria que ninguém as usasse. Mas dado que elas atraem pessoas que encontram prazer em seu uso, temos que combatê-lo com a informação e regulação, não com proibição: como já fazemos com o álcool e o tabaco, duas drogas que são mais prejudiciais que muitas das drogas hoje consideradas ilegais.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007 14:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A politica economica vai de maravilha nao pela competencia do governo, mas porque ja encontrou a"cama feita" e agora esta cantando de galo!

segunda-feira, 1 de outubro de 2007 15:07:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
simplesmente ótimo o seu comentário.
como tambem de alguns leitores, até aquele da 3ª divisão (bora baêa)
mas, voce me lembra: não li, não gostei.
simplesmente espetacular.
e por falar em heroi da direita a folha reservar o espaço nobre para luciano huck.....

segunda-feira, 1 de outubro de 2007 18:08:00 BRT  
Anonymous bora baêa disse...

José Augusto,
Agradeço por responder ao meu comentário, e gostaria de fazer algumas considerações.

1º Com relação ao comportamento de maus policiais, à primeira vista parece até óbvio que estes estariam interessados em dinheiro, e por isto jamais interviriam em jovens pobres. No entanto a realidade é outra. Sabemos que as comunidades mais pobres do Brasil vivem praticamente em Regime Totalitário. Quando discutimos a questão das drogas, sempre caímos no exemplo dos morros cariocas e favelas paulistanas, mas a realidade nas outras cidades não é exatamente esta. Na maior parte das capitais, o foco central são os grupos de extermínio que atuam na madrugada invadindo casas e matando pessoas que sequer são capazes de ver os rostos de seus algozes. A juventude da periferia é exterminada em nosso país todos os dias. ESTE SIM É O VERDADEIRO REGIME DE TERROR. Mas este não passa na TV, no jornal nem na revista, porque será?

2º Achei que vc foi contraditório quando disse que a polícia deve combater o tráfico que vc chamou de ostensivo e permitir o clandestino. Se é para combater o tráfico que se combata todos, afinal porque o "playboy" pode vender as drogas sintéticas na "ceninha" e o favelado não pode vender pó no morro? pq ele tá armado? A questão é justamente essa! O traficante favelado só se arma pq o tratamento que a polícia dá a ele sempre foi diferenciado do tratamento dado ao traficante universitário. É luta de classes! É a polícia a serviço da "elite branca" que alguns insistem em dizer que não existe!

3º Aí que contradição de sua fala se acentua:
"A polícia precisa sim reprimir o tráfico ostensivo, e devolver o tráfico à clandestinidade, já que acabar de todo é praticamente impossível, enquanto houver consumidores ávidos pela droga."
Se sempre haverá "ávidos consumidores" o que justifica uma proibição cuja única real conseqüencia na sociedade é o fortalecimento da cultura do preconceito e do terror?

É neste ponto que entra minha divergência com o Anônimo que disse que a perda da renda das drogas não impactaria de forma significativa no tráfico. Claro que impactaria! Apesar de não ser a única fonte de renda, esta é sem dúvidas a principal fonte. Num primeiro momento provavelmente o aparelho militar do tráfico responderia com seqüestros e assaltos, mas só isto não é capaz de manter por muito tempo uma estrutura do tamanho das atuais estruturados de "donos do morro". No mais a política de fato eficiente pra diminuir a criminalidade é a inclusão social, e não o acirramento do conflito ASFALTO X MORRO.

OBS:José Augusto, desculpem se em algum momento eu parecí ofensivo. Tenha certeza de que esta não é minha intenção.

terça-feira, 2 de outubro de 2007 00:18:00 BRT  
Blogger jason judson disse...

Gostei muito do seu texto e de sua crítico acerca do filme. Eu o assisti e realmente toda a população deveria (provavelmente já está) ver o filme e adotá-lo como "livro" de cabeceira. Entretanto, não entendi muito bem a seguinte parte de sua crítica:

"Enquanto isso, o governo atual, que conduziu o país à melhor situação econômica da nossa História, é tratado como um bando de incompetentes e trapalhões -na versão benigna da crítica."

Este governo conduziu o país ao fundo do poço e, não satisfeito, ainda obriga seus cidadãos à cavar mais fundo só para ver o quanto eles cavam antes de se rebelarem.
Voltamos ao absolutismo monárquico, onde temos um boneco posando de Rei e a "tríade unida do demônio" Legislativo-Judiciário-Executivo é o titereiro.

Que saudade da ditadura militar, quando realmente se sabia quem eram os algozes...

terça-feira, 2 de outubro de 2007 11:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Penso que o problema está em como o enfrentamento aos traficantes é feito. Não acredito que Londres, Paris, Los Angeles, Nova Iorque e outras grandes cidades tenham menos usuários de drogas do que o Rio de Janeiro, mas em nenhuma dessas há o clima de guerra e os tiroteios constantes que há na capital fluminense. Será que, em vez de tropas de guerra, não deveríamos aparelhar e treinar (e em alguns casos criar) o setor de inteligência da polícia?

terça-feira, 2 de outubro de 2007 14:47:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Os únicos lugares que conseguiram acabar com os problemas de drogas foram aqueles que criminalizaram o usuário. Esta medicalização do vício, isto é, transformar um vício em patologia (com CID e tudo o mais) a priori, trouxe este descalabro que se vê. Há escritos de um psiquiatra ingles, Theodore Dalrymple -link: http://www.city-journal.org/html/eon2006-08-25td.html, que mostra bem o engodo em que caimos.

terça-feira, 2 de outubro de 2007 17:18:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Bora baêa,

Na verdade, em linha gerais, eu concordo bastante com tudo o que você disse, sintetizando que a vida e os direitos vale menos na periferia, às vezes quase nada. Mata-se até por engano, ou para dar exemplo, sem maiores consequências.
Sobre os grupos de extermínio, não são gratuítos também. Geralmente estão agindo contra algum infrator aos interesses ou regras do regime totalitário que lá vigora (sempre a serviço do poder econômico do crime). Esse infrator pode ser exatamente a família do trabalhador sem qualquer envolvimento com crime, que de uma hora para outra tornou-se suspeito de ser um denunciante (mesmo que seja só suspeito, ou mesmo que seja por engano), talvez uma testemunha. E tem até a matança de inocentes por demonstração de força, como já aconteceu casos.

Mesmo fora das favelas do Rio, como você disse, aqui na baixada fluminense, tem extermínio pagos comerciantes contra assaltantes e coisas do gênero, inclusive matando menores.

Quando eu disse devolver o tráfico à clandestinadede, eu não disse tolerar o tráfico no asfalto. Tráfico ostensivo é o tráfico geralmente armado, com endereço, onde mesmo a polícia honesta (e todo mundo) sabe onde funciona. Tráfico clandestino é o que é feito escondido. É aquele em que nem a polícia honesta, nem quem não está envolvido, tem conhecimento. Se tiver conhecimento, enquanto for ilegal, que tenha o mesmo tratamento perante a lei. Quero lembrar que a polícia federal tem prendido algumas quadrilhas de família abastada que faziam tráfico até pelo Orkut (internet).

Assim como você, eu também acho inócua incursões policiais descontínuas, que só lebvam desassossego às populações. O que eu defendo é combater o tráfico ostensivo de forma ao Estado ocupar essas áreas permanentemente, desalojando definitivamente quartéis generais do crime destas áreas.

Eu concordo com você que a polícia sempre foi usada como instrumento da classe dominante, mas o que o jovem favelado, que se torna traficante e enriquece faz? Ele promove uma luta de libertação contra a classe dominante? Não. Ele é cooptado pelo status quo da riqueza material. Ele se associa ao elo corrompido dessa polícia, e mantém seu status quo financeiro.

Essa escolha eu acho conservadora e reacionária, apesar de reconhecer (porque é fato) que o tráfico acaba funcionando por vias tortas como distribuidor renda. A economia de uma favela com tráfico é uma, e de uma favela sem tráfico é outra, bem mais pobre, onde circula muito menos dinheiro. Mas se quisermos combater a injustiça social por essa via, estamos mal. Estamos nos rendendo à lógica capitalista de mercado, onde o crime e o tráfico fazem parte desse mercado.

Eu prefiria que houvesse multas pesadas a quem consome drogas ilícitas (a discussão sobre quais deveriam ser é outro debate em si), além de penas alternativas, confiscos mais rápidos de bens de traficantes, que financiassem a promoção social de áreas carentes.

Mudando um pouco do crime para o social, eu não tenho números, mas o tanto de dinheiro que se aplica em algumas urbanizações mal feitas de favelas de difícil acesso, em contenção de encostas onde há deslizamento sobre moradias, ou nas margens de rios onde há inundações, junto com o tanto de verbas investidas por ONG's, não daria para contar o número de domicílios e reurbanizar nos moldes de bairros, construindo blocos residenciais, derrubando um pouco de casas em condições insalubres e preservando aquelas em melhores condições? Todos (digo, os mais pobres) saíram ganhando.

Em tempo: Não percebi nenhum tom ofensivo seu, e também espero não ter provocado sem querer. O debate às vezes é feito com veemência, mas pelo menos aqui no blog do Alon, quase sempre é honesto e todos costumam ter bons propósitos, por mais que divirjam.

terça-feira, 2 de outubro de 2007 19:32:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Onde que se resolveu os problemas das drogas? Nos EUA?

terça-feira, 2 de outubro de 2007 21:40:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

Você é petista? Vi este seu artigo no site do PT...

quarta-feira, 3 de outubro de 2007 02:22:00 BRT  
Anonymous VJ disse...

Está tmbém no site do PCdoB.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007 10:28:00 BRT  
Anonymous Richard Lins disse...

Alon, o filme foi feito p/ vc! Entendeu tudo direitinho!!! Só que não era absolutamente nada disto que o José Padilha pensou quando dirigiu o filme.
A questão é: ou ele não entendeu o que fez, ou tem gente que tá vendo coisas que não existem.
Eu achei o filme muito bom, mas acho que pela força da história combinada com uma narração "intimista", centrada em apenas 3 personagens. Assista Menina de Ouro, do Eastwood, e veja se não tem o mesmo andamento.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007 18:29:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

Voce diz "quanto ao ponto 3, diferentemente do que pretende a reportagem da Veja, Ernesto "Che" Guevara não virou mito porque a propaganda o despiu dos seus prováveis muitos defeitos. O Che virou mito porque sobreviveu e sobreviverá como símbolo da luta por mais justiça."

E o que é justiça?

E não sou um Pilatos...

sexta-feira, 5 de outubro de 2007 15:14:00 BRT  
Anonymous Paulo Drummond disse...

Eu só li o livro. Além do pano de fundo cíclico de Vidas Secas, eu diria que tem um pouco de Navalha na Carne no contexto do Tropa de Elite. E, sem dúvida, o Capitão Nascimento é um novo herói.

sábado, 17 de outubro de 2009 21:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, as drogas se tornaram esse flagelo graças à apologia feita pela própria esquerda festiva, que tanto cultuou a imagem de Che Guevara.

Quanto à abordagem da Veja, você tocou num ponto importante. De fato, expor a covardia ou a suposta covardia de alguém diante da morte é de uma desumanidade atroz. Porém, o propósito da revista me pareceu ser muito mais no sentido de desconstruir a mitologia da violência que embala o imaginário das esquerdas, em que a brutalidade muitas vezes é cultivada, romantizada, tratada como altivez e coragem, em contraposição aos bens comportados burgueses, caricaturizados de forma reducionista e grotesca como "babacas" ou, no caso dos apologistas da droga, "careta".

Ou seja, os valores plantados pela esquerda têm muito a ver com essa sociedade doente na qual agora vivemos, em que a bandidagem é glamourizada.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009 23:51:00 BRST  

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