domingo, 16 de setembro de 2007

"O Senado não existe para carimbar decisões tomadas pela opinião pública ou por parlamentares e jornalistas que se consideram seus porta-vozes" (16/9)

Em seu artigo dominical, Elio Gaspari faz referência ao discurso do senador Francisco Dornelles (PP-RJ) na sessão secreta do Senado que absolveu Renan Calheiros (PMDB-AL). Dornelles é a um tempo parente de Getúlio Vargas e Tancredo Neves. É, portanto, produto de uma linhagem de políticos de primeira. De gente que, entre erros e acertos, marcou com dignidade e patriotismo sua passagem pela História do Brasil. Nesta semana, Dornelles assumiu a presidência de seu partido. A tese central do senador Dornelles para defender a absolvição de Renan Calheiros foi a inexistência de provas de que tivesse havido quebra de decoro parlamentar. Com seus votos, os senadores em sua maioria deram razão a Dornelles. Mas voltemos ao texto de Gaspari. Há coisas ali de que discordo. Discordo especialmente do título "Há 46 senadores no lixo, mas não o Senado". Ninguém está "no lixo". Houve uma disputa política, com vencedores e perdedores momentâneos. Só isso. Aliás, o próprio texto de Gaspari sintetiza bem o que deve ser a relação entre o Senado Federal e a opinião pública num regime democrático:

O discurso de Dornelles poderia ter moderado a catadupa de adjetivos. Afinal, trazia a "voz do outro", coisa incômoda para quem prefere ser ouvido sozinho. (...). O Senado não existe para carimbar decisões tomadas pela opinião pública ou por parlamentares e jornalistas que se consideram seus porta-vozes.

Muito adequada essa observação do Elio. Ela ajuda a entender por que alguns senadores mentiram a jornalistas quando disseram no que tinham votado. Deu no G1:

Um dia após absolvição, senadores declaram votos suficientes para cassar Renan

Na sessão secreta, painel eletrônico registrou 40 votos pela absolvição e 35 por cassação. Ao G1, 46 dos 81 senadores declararam voto na cassação.

Do G1, em São Paulo e em Brasília

Na sessão secreta do Senado desta quarta (12), Renan Calheiros (PMDB-AL) foi absolvido. Mas, a julgar pelo que disseram os senadores ou as assessorias deles ao G1 nesta quinta (13), o presidente do Senado teria sido cassado. Dos 81 senadores que votaram na sessão, à qual somente parlamentares tiveram acesso, o G1 falou diretamente com 12 e com as assessorias de 69. Do total, 46 afirmaram à reportagem ter votado a favor da cassação do mandato de Renan (o mínimo necessário para isso eram 41 votos) e dez, contra. Três disseram ter optado pela abstenção e 22 que não iriam declarar o voto.


Ou seja, os senadores não disseram a verdade quando falaram ao G1. Eu aposto que mentiram alguns senadores que disseram ter absolvido Renan e também alguns que afirmaram ter condenado o alagoano. Houve espanto e revolta com o fato de os nobres parlamentares terem mentido aos jornalistas. Eu não me espantei nem me revoltei. São os ossos do ofício. Quando, numa determinada disputa, o jornalismo decide que o certo é adotar ele próprio o papel de protagonista político, o jornalismo deve saber que será tratado pelos agentes políticos como um deles. Como um igual. Políticos não têm a obrigação de serem sinceros com os adversários e inimigos. Eu até imagino o repórter chegando para o senador e perguntando:

- Senador, obrigado por aceitar participar da nossa pesquisa. Nosso jornal acredita que o presidente do Senado, Renan Calheiros, é culpado de quebra de decoro parlamentar e, portanto, deveria ter sido cassado. Nós também consideramos que os senadores que votaram para absolvê-lo são cúmplices dele. Também pensamos que a decisão dos senadores atirou o Senado na lama onde chafurdam os corruptos que desgraçam a vida do nosso país. Inclusive, senador, nós vamos fazer um quadro para contar aos nossos leitores quem são os senadores que votaram contra o Brasil. E então, senador, como o senhor votou? O senhor votou para condenar Renan, para absolver ou absteve-se? Aliás, senador, esse negócio de abstenção é uma vergonha. É uma atitude covarde. O senhor não acha?

Trata-se, obviamente, de uma caricatura. Entretanto, como dizia um folclórico presidente do Corinthians já morto, quem sai na chuva deve sempre ter em mente que pode se queimar.

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14 Comentários:

Anonymous paulo araujo disse...

Alon

Nao entendi muito bem o sentido do post. Nao entendi muito bem se voce pensa que a midia controla a opiniao publica ou se ela e uma das expressoes da opiniao publica.

Pelo que voce ja escreveu antes, me parecia que voce recusava essa identificacao ideologizada da midia como partido politico. Voce escreveu ate um post falando sobre isso na ocasiao das ultimas eleicoes presidencias, se nao me engano.

Pariculamente, fiquei muito intrigado com essa passagem do teu texto:

"Quando, numa determinada disputa, o jornalismo decide que o certo é adotar ele próprio o papel de protagonista político o jornalismo deve saber que será tratado pelos agentes políticos como um deles. Como um igual. Políticos não têm a obrigação de serem sinceros com os adversários e inimigos".

Mas politicos tem a obrigacao de nao mentir ao seu eleitorado. Tanto e assim que a mentira e considerada quebra de decoro parlamentar.

Se voce vai fazer a defesa do vergonhoso comportamento dos senadores, entao faca. Sempre admirei em voce a defesa firme, sem meias conversas, da imprensa. Enfim, nao entendi (ou talvez nao queira entender) porque a caricatura no final do post. Nao seria melhor voce dizer claramente que concorda com a tese da "midia como partido politico" (assumir clara e publicamente o seu gramscianismo) do que recorrer a metaforas ou caricaturas que nao combinam com o teu texto? Nao combinam no estilo, sempre muito claro, objetivo e bem fundamentado em fatos e logica.

Abs.

domingo, 16 de setembro de 2007 16:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Constitucionalmente o julgamento no Congresso Nacional É POLÍTICO. Já quem julga Cívil e/ou Criminalmente é o STF. Até porque se assim não fosse não haveria razão para julgamento nas duas Casas (Congresso e STF). Então, penso, que o Senador Francisco Dornelles agiu politicamente. Essa estória de provas é pura encenação. Desde o julgamento do Collor, passando pelos mensaleiros e agora no caso Renam que vejo esta confusão na mídia. Bem, só não sei se proposital ou não.

domingo, 16 de setembro de 2007 17:31:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Paulo, eu escrevi o que escrevi e não escrevi o que não escrevi. Eu não disse que a imprensa opera como partido político. Eu disse que em alguns casos ela age como protagonista do processo político (diretas já, impeachment de Collor, caso Renan). Ela faz isso porque acha que deve fazer e tem todo o direito de fazê-lo. Mas, como dizem os americanos, não existe almoço grátis. E, como como diz o sempre citado Conselheiro Acácio, as conseqüências vêm depois. Só isso. Um abraço.

domingo, 16 de setembro de 2007 20:07:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Boa idéia
Projetos dos senadores Tião Viana (PT-AC) e Waldir Raupp (PMDB-RO) abrem os vôos domésticos no Brasil para empresas aéreas estrangeiras .


JV- olha aqui, Alon, parece que me lerem aqui no seu blog. Assim se quebra um monopolio, um duopolio, um oligo polio.....

domingo, 16 de setembro de 2007 20:25:00 BRT  
Anonymous Aexandre Porto disse...

A reportagem da Carta Capital identificou duas correntes entre os senadores. “A primeira calculava os prejuízos para a imagem da instituição e dos políticos caso Renan fosse absolvido (...) No outro extremo defendia-se a tese de que ‘entregar a cabeça’ do presidente da casa, sem uma comprovação da sua culpa, tornaria os políticos ainda mais vulneráveis a denúncias que nem sempre se confirmam na Justiça. ‘Não podemos dar carne ao leão por que ele é insaciável. Depois de Renan a imprensa pode se voltar contra qualquer um de nós’, disse o senador Gilvan Borges”. A matéria levantou doze senadores com problemas variados com a Justiça. (do blog do Nassif)

domingo, 16 de setembro de 2007 21:34:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Defender o mandato de Renan, nunca foi defender Renan.
As pessoas podem fazer campanha contra ele nas eleições, mas quem é legalista defende mandatos até de inimigos, enquanto forem legítimos.

O caso do Renan ainda tem um agravante. Ele é Senador, representa um Estado: Alagoas. De repente, a imprensa predominantemente paulista e carioca (de outros Estados) resolveu derrubá-lo sem provas. E os eleitores de Alagoas, não valem nada?

Quando O.J.Sympson foi a juri popular nos EUA e os jurados o absolveram, ninguém disse que a Justiça estadunidense estava falida, nem questionaram a moral dos jurados.

Renan foi processado e julgado (politicamente), seguiu o rito. Poderia ser cassado ou absolvido. Foi absolvido. Estão reclamando de quê? Um julgamento só vale se for de cartas marcadas para cassar? Então pra quê julgamento?

A imprensa realmente vendeu um produto que não tinha para entregar.
A imprensa poderia denunciar à vontade (e responder por eventuais calúnias ou difamação). Há gosto para todo tipo de leitura.
Mas não deveria fazer campanha pela cassação, sem provas das denúncias.
Fazer essa campanha foi uma aposta de risco, e como aposta, pode ganhar ou perder. Perdeu.

Da próxima vez, que façam melhor o dever de casa, e façam mais do que apontar o dedo, para o que ESTARIA na frente. Mostrem que o que ESTARIA em frente ao dedo, realmente ESTAVA lá, ou contentem-se com a possibilidade de absolvição diante de meras hipóteses.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007 00:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
então a imprensa é o inimigo?
Acredito que o desvio ético de alguns (46) senadores não deve ser usado como argumento para acabar com o senado federal, uma instituição republicana de suma importância. Acontece que a imprensa livre é outra instituição fundamental para o funcionamento de uma república democrática. Preservem-se as instituições. Agora, não é possível sustentar o raciocínio inverso: para preservar o senado, que se mantenham os mandatos dos senadores, ainda que notoriamente corrompidos. Isso é a morte da instituição, gera um risco ético para toda a sociedade.
Sds., de Marcelo.

Em tempo: Parabéns ao Paulo Araujo pelo post inicial. Concordo e subscrevo.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007 11:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, de todo modo, algo de muito estranho está ocorrendo. Dentre as afirmações divulgadas do Senador Dornelles, constam separações que, no entendimento dele, são políticas, outros que são quebra de decoro e outras que não. Só intriga o fato de colocar-se algo igualmente grave como atenuante de outra atitude entendida como menos grave, mas igualmente punível. Só que não pune-se por falta de provas. As explicações de quem absteve-se e assumiu, então, é uma obra acabada de contorcionismo mental. Com tal grau de malabarismo mental, inaugurado por ocasião das investigações do mensalão, qualquer que seja investigado e levado a julgamento no Congresso por qualquer aspecto será absolvido. Quer as mídias alternativas e/ou as tradicionais queiram ou não qualquer desfecho.
Sotho

segunda-feira, 17 de setembro de 2007 12:00:00 BRT  
Anonymous Antonio Lyra Filho disse...

Independente de Renan ser culpado ou inocente para mim, querendo ou não o Senado disse quem determina as suas ações são os seus menbros e não a mídia. Da forma como vem agido a mídia, dentro em pouco ela determinara quem deve ser julgado e condenado. Do quarto poder, deseja passar a ser o primeiro.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007 14:43:00 BRT  
Anonymous Antonio Lyra Filho disse...

Independente de Renan ser culpado ou inocente para mim, querendo ou não o Senado disse quem determina as suas ações são os seus menbros e não a mídia. Da forma como vem agido a mídia, dentro em pouco ela determinara quem deve ser julgado e condenado. Do quarto poder, deseja passar a ser o primeiro.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007 14:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Então é pura manipulação da imprensa o que converso com as pessoas por ai? Nos bares, nas escolas...

Qdo a imprensa é pró-lula, tudo bem, mas, qdo é contra, é golpista. É lógico que o Alon não usa raciocínios rasteiros. Mas essencialmente é a mesma coisa.

O papo-furado do Dornelles é só um absurdo secundário que é repetido aqui.

Só para fins penais e fiscais é que seria necessário um auto de infração da receita.

Isto significa dizer que o Congresso teria de subordinar ao entendimento de um subordinado do Presidente da República.

É mentira do Dornelles!!! Pois, Congresso , o Ministério Público e o Judiciário podem formar convicção acerca da existência ou não de um ilícito tributário e penal independemente do conclui o Executivo.

Em estado democrático de direito, em algum momento, os jornalistas vão ter de tomar conhecimento da Constituição de 88. Parece que o modelo do Castelinho e suas fontes poderosas é o único.

Descumprir a Constituição é notícia. Alguém já viu democracia sem transparência? Alguém já ouvi falar do Princípio da Moralidade Administrativa

Alon, no seu modo de ver as coisas, o quê Renan fez não violou a Moralidade da Coisa Pública?

Até,

segunda-feira, 17 de setembro de 2007 16:42:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Chamar um ditador (Getulio Vargas) e um coronelzinho mineiro e governador medíocre (Tancredo neves) de primeira linhagem da política mostra o tipo de política que se tem no país.
Aliás, cabe lembrar que a tal "imprensa" reflete, sim, o pensamento de uma classe mais educada, e não a maioria da população, que recebe caraminguás e acha que a felicidade chegou. Sem essa elite pensante (cada vez menor no Brasil), não teríamos sequer chego na mediocridade que chegamos: seríamos uma Venezuela.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007 16:45:00 BRT  
Anonymous Richard Lins disse...

O que mais me irrita em Renan Canalheiros é a sua sobrevivência em um ambiente, teóricamente, pró-ético. Que eu me lembre, ele já foi Collor, puxa-saco de FHC e agora "aliado" de Lula.
Collor caiu por corrupção (pena que o STF da época não confirmou), FHC estagnou o País por 8 anos, sendo substituído pelo Novo, representado à época por Lula.
É inacreditável que após tantas reviravoltas político-éticas, ainda estejamos vendo Severinos, Renans, Jarbas Vasconcelos, etc... não foi p/ isto que votei em Lula todos estes anos!!!!!!!!

segunda-feira, 17 de setembro de 2007 18:31:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, há uma esquizofrenia de fundo, de natureza política, da qual ninguém parece escapar: o posicionamento pró ou contra o governo é sempre passional. A solução que você adota, como a do Gaspari a partir do pólo oposto da esquizofrenia, buscando “normalizar” a situação como fruto da disputa política, como se a disputa política levasse inevitavelmente a tal divisão dos ânimos, a meu ver apenas potencializa a própria esquizofrenia. É preciso enfrentar a questão substantiva: o senado tinha base em evidências para cassar o mandato de Renan? Caso contrário, se como diz o segundo comentário “essa estória de provas é pura encenação”, logo após cada eleição a maioria poderia reunir-se e, politicamente, defenestrar a minoria, não?

terça-feira, 18 de setembro de 2007 07:46:00 BRT  

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