terça-feira, 18 de setembro de 2007

O PT de olho na cadeira de Renan (18/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição de hoje (18/09/2007) do Correio Braziliense:

Não faltam teorias a respeito de como pacificar o Senado. Uma delas afirma que é necessário convencer Renan Calheiros (PMDB-SP) a transformar sua vitória em derrota e licenciar-se da presidência da Casa. Seria uma maneira de a oposição parlamentar conseguir na mesa de negociações o que não obteve no campo de batalha. Vamos ver se o presidente do Senado aceitará a capitulação que lhe é proposta, entre outros, por segmentos do PT interessados em ter o petista Tião Viana (AC) na cadeira de Renan.

O debate sobre a pacificação do Senado sofre de um mal comum na política, que se manifesta quando lados opostos utilizam a mesma palavra com significados antagônicos. Para o governo, pacificar o Senado é fazê-lo votar os projetos de interesse do governo — em primeiro lugar a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e da Desvinculação das Receitas da União (DRU). Para a oposição parlamentar, a paz ideal estaria desenhada se o governo dependesse dela para aprovar qualquer coisa no Senado.

Vê-se, portanto, que tem dias difíceis pela frente a recente atividade neuronal em busca de um caminho do meio na luta política sem tréguas que consome o Senado. A não ser que o próprio Renan baixe as armas, contando com a garantia (?) do PT de que lá na frente as coisas se acalmarão. Se Renan não ceder ao canto de sereia das ambições petistas, a oposição no Senado estará encalacrada, pois ela foi longe demais para agora aceitar qualquer solução que implique manter o senador alagoano na cadeira de presidente do Senado.

Se Renan resistir às “garantias” do PT, o DEM e o PSDB pouco ou nada terão a oferecer ao Palácio do Planalto em troca de um acordo de bastidores para depor o alagoano. A oposição parlamentar cometeu o erro clássico de definir dois objetivos dos quais não pode abrir mão. A oposição quer afastar Renan e quer também derrubar a CPMF e a DRU. É a história do gato que deseja capturar dois ratos. O risco maior é deixar ambos escaparem.

O comando da oposição no Senado não tem, por exemplo, condições políticas de apoiar o governo na renovação da CPMF em troca de um empurrão do governo para que Renan saia. Nem o governo tem condições de oferecer à oposição o prêmio da derrubada da CPMF e da DRU em troca de a oposição recuar de sua intransigência e aceitar a permanência de Renan Calheiros na presidência do Senado até o fim de 2008.

Ou seja, a única opção que a oposição parlamentar oferece ao governo é derrotá-la, nos dois casos. Ela já foi derrotada na não-cassação de Renan e agora corre o risco real de ser batida na renovação da CPMF e da DRU, provavelmente com a ajuda de dissidentes da própria oposição e dos governadores do PSDB e do DEM. Quem conversa com os governadores da oposição sabe que eles não querem nem ouvir falar de verbas federais cortadas por falta de dinheiro que deixou de entrar no caixa do Tesouro Nacional.

A lógica dos movimentos recentes do comando da oposição no Senado indica que ela talvez esteja decidida a concentrar suas apostas na perenização da crise política. Há porém uma pedra no caminho dessa estratégia. Dois terços do Senado serão renovados em 2010 e as experiências eleitorais mais recentes dos adversários figadais de Lula e do governo não têm sido especialmente animadoras.

Decorre daí a distância prudente que os governadores do PSDB e do DEM com projeto para 2010 vêm mantendo em relação à tática de terra arrasada de seus correligionários no Senado. Claro que interessa aos presidenciáveis da oposição para 2010 que o governo e a base governista sofram corrosão política. O que não lhes interessa é serem confundidos com o antilulismo e o antigovernismo radical. Para desalento dos senadores do DEM e do PSDB, que agora esperam por uma vitória que lhes sorria de presente. No caso, a troca de Renan Calheiros por Tião Viana. Foi isso que sobrou para a oposição: torcer para que a presidência do Senado caia nas mãos do PT. Incrível.

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10 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Nada é incrível na política partidária brasileira. Quando a gente pensa que os nossos políticos esgotaram a sua capacidade de nos surpreender, logo aparece uma novidade.

Li a pouco na Folha on line:

"o ex-governador Geraldo Alckmin está flertando com o PMDB. Alckmin se reuniu domingo com o presidente estadual do partido, o ex-governador Orestes Quércia, a quem propôs aliança para 2008. Um acordo com o PMDB implodiria a tradicional composição do PSDB com o DEM.

Segundo tucanos, ele estaria disposto a oferecer a vice ao PMDB. "Alckmin disse que gostaria que caminhássemos juntos em 2008 e 2010", disse Hadad."

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u329263.shtml

Faz muito tempo, mas muito tempo mesmo, que o impoluto ex-governador de SP tenta o seu grande retorno. Até agora, o que apenas conseguiu foi consquistar vários fiascos eleitorais. Para quem não sabe, ou não lembra, o PSDB de SP alicerçou um dos seus pilares políticos no combate ao quercismo. E agora vem exatamente de um importante político do PSDB paulista a mão estendida que pode trazer de volta ao governo de SP o grande Orestes.

Como disse, Alon, nessa política nada é incrível porque tudo é possível.

terça-feira, 18 de setembro de 2007 13:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Olá!
Muito bom esse seu artigo e a forma clara e objetiva como você fala da atual situação em se encontra os partidos de oposição. A meu ver, isso apenas ratifica a conhecidíssima idéia de que a oposição (a parlamentar, em especial) não tem rumo ou plano. Fica claro que as bandeiras da oposição parlamentar foram astiadas pela imprensa que, se hesitações, caiu de pau em Renan e na contribuição provisória, que por sinal, nunca foi tão nociva ao bolso dos brasileiros quanto de 2003 para cá...
Abraços!

terça-feira, 18 de setembro de 2007 14:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O Alon é bem melhor quando descreve o que vê do que qdo toma partido. Mas é da vida.

terça-feira, 18 de setembro de 2007 15:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Nada disso, anônimo. É que vc não gosta das opiniões dele. Só isso.

terça-feira, 18 de setembro de 2007 16:07:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Minha aposta é que a oposição vai "perder" a votação da CPMF, em placar combinado, como um jogo de compadres (mais combinado ainda do que aconteceu na absolvição de Renan).

A oposição ficará com o discurso do contra, em troca da exposição na vitrine da mídia dos governistas que votarem a favor.
Talvez consigam negociar alguma emenda como redução gradual da alíquota no futuro.
É a única saída honrosa para a oposição, e a única que não traz maiores perdas eleitorais para a própria oposição.

A perda da CPMF dará a Lula e o PT o álibi para jogar no colo da oposição toda e qualquer responsabilidade pelas mazelas na saúde, no curto prazo.

Devolverá ao PT, o eleitorado de classe média insatisfeito com altos custos dos Planos de Saúde.

A oposição estaria fazendo o favor de transformar o limão em limonada par o governo Lula.

No caso do Apagão Aéreo e da ANAC o eleitorado da oposição pediu (mesmo sem se dar conta) mais serviços públicos, mais governo, mais regulação, e não menos impostos.

Imagine retirar dinheiro da saúde neste momento em que há explosão de casos de Dengue, filas excessivas em hospitais públicos, e muitos "apagões" na saúde.

Outra coisa: assim como a ANAC atendia mais aos investidores do que aos cidadãos e consumidores, um enfraquecimento nos controles de regulação governamental da Saúde, por falta de verbas, pode levar a episódios semelhantes ao Césio 137 de Goiânia e aos remédios falsos acontecidos poucos anos atrás.

Será que os Senadores goianos Demostenes Torres, Marconi Perillo e Lucia Vânia se habilitam a deixar esse tipo de risco ser auto-regulado apenas pelo mercado?

A retirada da CPMF certemente afetará govenadores, como você disse, mas sobretudo prefeitos que tentarão a reeleição em 2008.

Será que o Kassab, fora dos holofotes, ficará de fato contra os repasses da CMPF via convênios para o município em plena campanha eleitoral de 2008, quando SP sofre de crise de atendimento na Saúde?

terça-feira, 18 de setembro de 2007 16:19:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Concordo que o melhor Alon é o analista político. Já o econômico...

terça-feira, 18 de setembro de 2007 16:44:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, nem vou discutir. Depois que vc. acertou a salvação do Renan, vc. deve estar certo. Recomendo a leitura do editorial de hoje do Estadão. Dá uma explicação sobre a desorientação da oposição.
Sds., de Marcelo.
Obs.: se a opsição entregar o senado para o PT, com a câmara já dominada pelo PT, vai ser o maior atestado de suicídio político já visto nestepaiz.

terça-feira, 18 de setembro de 2007 17:57:00 BRT  
Blogger Cesar Cardoso disse...

A questão toda é que a oposição parlamentar apostou o que tinha e o que não tinha na deposição de Renan, como forma de recolocar o governo na parede e como forma de arrumar uma bandeira de luta. E aí é aquela história, perdeu sai pelado do cassino. E o pior: perdeu com o auxílio luxuosíssimo de seus próprios correligionários nos Executivos estaduais e municipais. E o pior 2: na CPMF está se encaminhando para ser a mesma coisa.

Mais uma vez: já está começando a passar da hora da oposição se reorganizar em torno de uma bandeira que não seja simplesmente o "Lula é feio, bobo, chato e tem língua presa". Isso tem que ser feito não para 2008, já que eleições municipais são sempre um caso à parte, mas para 2010. Mas a oposição, particularmente a parlamentar, está tão sorvida nos seus "planos perfeitos" de emparedamento do governo que vai deixando que o governo federal tome as bandeiras que interessam e jogue pra escanteio as bandeiras que não interessa; quando acordar, não vai ter nada para falar ao eleitor.

terça-feira, 18 de setembro de 2007 22:56:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Cesar Cardoso, você falou tudo!

quarta-feira, 19 de setembro de 2007 11:06:00 BRT  
Anonymous Artur Araujo disse...

Nada como a realpolitik! A acompanhar como será a condução do Minasgate, aquele ninguém quer para chamar de seu.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007 13:12:00 BRT  

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