terça-feira, 11 de setembro de 2007

O embaixador da inflação - ATUALIZADO (11/09)

Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva percorre capitais nórdicas (na foto de Ricardo Stuckert, da Agência Brasil, Lula cumprimenta o presidente do parlamento finlandês, Sauli Niinistö) como garoto-propaganda do etanol brasileiro, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) lança mais um alerta sobre os efeitos da massificação dos biocombustíveis. Está na Agência Reuters:

Biocombustíveis podem ser remédio pior que doença, diz OCDE

Por Sybille de La Hamaide

PARIS (Reuters) - Os biocombustíveis, festejados por reduzir a dependência energética, aumentar a receita agrícola e ajudar a combater as alterações no clima, na verdade podem acabar sendo prejudiciais ao meio ambiente e encarecendo os alimentos, indicou um estudo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). No relatório sobre o impacto dos biocombustíveis, divulgado nesta terça-feira, a OCDE disse que eles podem "promover uma cura pior que a doença que tentam tratar". "A pressão atual para ampliar o uso de biocombustíveis está criando tensões insustentáveis que vão abalar os mercados sem gerar benefícios ambientais significativos", disse a OCDE. "Quando se levam em conta a acidificação, o uso de fertilizantes, a perda de biodiversidade e a toxicidade dos pesticidas agrícolas, o impacto geral do etanol e do biodiesel sobre o meio ambiente podem superar fácil os do petróleo e do diesel mineral", afirmou a organização. (...)

Clique aqui para ler a reportagem completa, no UOL
. Claro que Lula e adeptos poderão sempre argumentar que as advertências sobre os efeitos nefastos da expansão desenfreada de culturas voltadas à produção de biocombustíveis são parte de uma conspiração planetária para impedir que o Brasil entre no primeiro mundo. Se você acredita nisso, paciência. Mas os fatos são os fatos. Os últimos números da inflação chinesa preocupam. Veja reportagem de hoje do site (sítio) português diarioeconomico.com:

China regista maior inflação mensal desde 1996


Rita Paz

A China registou em Agosto a inflação mais alta dos últimos 11 anos, chegando a 6,5%, devido ao aumento do preço de alimentos básicos como a carne de porco, informou hoje o Escritório Nacional de Estatísticas do país. Os preços do porco e outras carnes aumentaram 49%; o dos ovos, 23,6%, e o do óleo de cozinha, 34%. A média do aumento do índice de preços ao consumidor (IPC) dos alimentos ficou em 18,2% em comparação com Agosto de 2006. O IPC dos produtos de consumo subiu 8% em Agosto. A inflação é a mais alta desde Dezembro de 1996, quando o indicador chegou a 7%. O resultado de Agosto supera as expectativas da maioria de economistas, segundo o jornal oficial "China Daily". Segundo os analistas, a pressão inflacionista chegou a um ponto de inflexão, passando do sector do consumo para outros âmbitos da economia. O aumento do índice de preços de produção (IPP) foi de 2,6% em Agosto, 0,2 pontos percentuais acima do resultado de Julho.

Clique aqui para ler a reportagem completa do diarioeconomico.com. A inflação chinesa (ou o vetor chinês da inflação) tem raízes bem conhecidas. O crescimento econômico de dois dígitos não dá sinais de arrefecer (centenas de milhões de chineses ainda esperam sua inclusão no mercado de consumo de massa). A pressão chinesa por commodities, inclusive alimentos, impulsiona os preços, sem que o mercado mundial consiga suprir a demanda num ritmo que reduza as pressões inflacionárias. Aliás, a onda inflacionária já está entre nós. Alavancada exatamente pelos preços dos alimentos. O que pune em primeiro lugar os mais pobres. Mas Lula e adeptos têm uma teoria conveniente sobre a suposta ausência de relação entre o etanol e a inflação. Segundo o presidente, o Brasil e o mundo têm terras sobrando, ocupadas por atividades de baixa produtividade. Por isso, sempre de acordo com Lula, o etanol poderá expandir-se sem ferir o meio ambiente, sem implicar mais desmatamento e sem afetar culturas voltadas à alimentação (e portanto sem pressionar a inflação). Eu considero essa tese uma ficção (Governo vegetariano e terras finitas), destinada a jogar uma cortina de fumaça sobre os bons negócios do poderosíssimo lobby do etanol, que infelizmente parece ter feito a cabeça do presidente da República do Brasil. Afinal, quem melhor do que Lula para sair por aí dizendo aos pobres africanos e latino-americanos que eles não precisam se preocupar, que as críticas são infundadas, que o preço da comida não vai subir e que a pobreza não vai aumentar? Lula tem moral para defender essas coisas. O risco é desmoralizar-se logo adiante. Como agora, quando os números da inflação mostram uma realidade bem diferente da desenhada no discurso presidencial. É uma pena. Lula começou seu mandato em 2003 apresentando-se como o embaixador do combate à fome. Corre o risco de terminá-lo em 2010 como o embaixador da inflação.

Atualização às 10:54 de 12/09/2007: Estava a ler o artigo de Delfim Netto hoje na Folha de S.Paulo sobre o relatório anual do BIS e resolvi olhar o que o relatório traz sobre a inflação mundial. Vejam que interessante (em inglês mesmo):

In the second half of 2006, the restraining effect of lower energy prices was partly offset by accelerating food price inflation. This was especially visible in emerging market economies, where food typically accounts for more than 30% of the consumption basket, compared to about 15% in advanced industrial countries. Food prices increased by about 7% in emerging market economies, primarily due to a drop in supply. For instance, despite easing in early 2007, wheat prices remained about 25% higher in dollar terms than one year previously because drought reduced the crop in major producer countries such as Australia. To some extent, however, the increase in food prices might herald another more secular change in relative prices, similar to the observed rise in the prices of oil and base metal commodities vis-à-vis manufactured consumption goods. Prices of maize and soybeans have risen sharply because of strong demand growth. One important factor behind this development seems to be policies aiming at reducing oil dependence through the production of biofuel. Another factor which could gain importance over time is that rising income in emerging economies is lifting demand for high-quality food that is relatively scarce (such as fish) or whose production requires high feed input (such as meat).

Para fazer o download do relatório do BIS, clique aqui (arquivo de cerca de 7M).

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5 Comentários:

Blogger Jurandir Paulo disse...

Tenha lá algumas preocupações, não é mudança fácil, menos ainda imagino uma nova ordem econômica com o Brasil ocupando a posição energética da Arábia Saudita, mas há oposição articulada de velhos players, os mesmos que minaram o proálcool do Geisel. Sugiro a leitura do "O poder dos trópicos", do Bauptista Vidal.

terça-feira, 11 de setembro de 2007 23:48:00 BRT  
Anonymous Edivaldo Tavares disse...

Mal se começou a produzir biocombustíveis em escala que os apressados já estão dizendo que "o grande responsável" é o biocombustível.Pelo que me consta o enorme e crescente consumo chinês seria o principal responsável.Ou o alto e crescente preço do aço também é culpa dos biocombustíveis??.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007 06:41:00 BRT  
Anonymous carcamano disse...

Como a OCDE chegou à conclusão de que o uso de fertilizante e quetais é pior do que a queima de combustíveis fósseis? Os cientistas do IPCC recomendaram o uso do etanol como substituto da gasolina.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007 10:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É preciso analisar com alguma cautela esses dados todos. A comida ficou mais cara porque a produção caiu: por efeitos climáticos, por desistência de plantio/produção, por troca de cultivos (aqui entra, em parte, o efeito biocombustível). Pelo lado da demanda, ainda não há como responsabilizar o consumo de milho para produzir etanol pela alta de preços. A conta é simples: os maiores produtores mundiais de grãos e de carnes são os países do primeiro mundo, que carregam estoques homéricos. Eles conseguem isso oferecendo subsídios pornográficos aos seus produtores. O excedente deles, vendido a preço vil,sempre contribuiu para minar a lucratividade dos produtores brasileiros e terceiromundistas. Porém, os países desenvolvidos não têm mais como ampliar suas produções. Daí que a chegada dos biocombustíveis vai absorver os excedentes mundiais. Isso levará ao aumento da rentabilidade da atividade agropecuária em todo o mundo,incentivando plantios. Nesse quadro, será muito mais rentável plantar milho, soja e feijão, além de criar bois, do que plantar cana.
Do lado da demanda, cabe ressaltar o aumento do consumo de comida na China, país que não tem área agricultável suficiente para expandir sua produção. O Brasil terá a oportunidade de suprir essa demanda. A África (abaixo do Saara) terá um papel relevante também.
Sds., de Marcelo.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007 11:55:00 BRT  
Anonymous taq disse...

Não vou entrar nesse debate da inflação, mas vou a questão da produção do bio combustivel. O Brasil está querendo produzir e vender comodites, alias como sempre fazemos, em vez do produto de maior valor agregado que é a tecnologia, esta estamos entregando a todos. O mesmo acontece com os minerais e outros recursos que são exportados quase em natura ou com baixissimo valor agregado, em vez de produzir automovies, motores, etc venderemos cana, pois pode ter certeza que quando eles puderem processar vao comprar somente o produto e produzir lá o que precisam.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007 11:26:00 BRT  

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