terça-feira, 4 de setembro de 2007

Nas mãos do PT (04/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição de hoje (04/09/07) do Correio Braziliense:

Seja qual for o destino do senador Renan Calheiros, ele terá sido traçado com a colaboração decisiva do Partido dos Trabalhadores (PT). Quando as cortinas descerem sobre o drama político protagonizado pelo presidente do Senado, o desfecho da peça terá sido escrito pelas mãos dos correligionários do presidente da República. Nesta semana, o Conselho de Ética deve finalmente decidir se chancela o relatório de Renato Casagrande (PSB-ES) e Marisa Serrano (PSDB-MS), se leva a cassação de Renan ao plenário da Casa. Sem votos petistas, não há como o colegiado aprovar o texto da dupla. E sem votos petistas não há como o plenário do Senado cassar Renan. Tanto pelo lado da aritmética quanto pelo lado da política.

Restam poucas dúvidas no Senado de que o voto no plenário para cassar ou não Renan será essencialmente partidário. Poderá haver dissidências aqui e ali, mas elas não serão decisivas. Além disso, votando com a “faca da opinião pública” no pescoço, os senadores não poderão simplesmente resolver qualquer coisa e voltar para casa. Ou bem eles acham que há elementos probatórios suficientes para justificar a cassação do presidente do Senado ou acham o contrário. Seja qual for a decisão, ela terá que ser defendida publicamente pelo lado vencedor.

Se Renan for cassado, as possíveis dissidências entre os senadores da oposição virarão pé de página. Se for absolvido, a dureza dos governistas anti-Renan no Conselho de Ética deixará de ser assunto. Se o presidente do Senado continuar na sua cadeira, todo mundo vai querer saber quem da oposição votou com Renan. Se ele perder a cadeira (além do mandato e da elegibilidade), a curiosidade geral se voltará para entender por que a maioria governista na Casa não funcionou. Assim é a vida.

Como vai votar o PT na votação secreta no plenário do Senado sobre o destino de Renan? Formalmente, o governo tem maioria para impedir a condenação do seu aliado de Alagoas. Mas o governo também tinha maioria na Câmara dos Deputados para evitar a cassação de José Dirceu, dois anos atrás. Só que o governo não moveu uma palha. E Dirceu foi cassado por pouco, com os votos decisivos de parte da base governista, inclusive do PMDB. Será diferente agora?

A pista para descobrir como se comportará o PT está nos cenários de um eventual pós-Renan. Por exemplo, se o PSDB e o DEM assumissem o compromisso de apoiar o candidato de Luiz Inácio Lula da Silva numa hipotética sucessão no Senado, é possível que o dedo de senadores petistas fizesse cosquinha na hora da votação. Mas é preciso saber se, depois de todo o esforço investido, a oposição vai se contentar com uma vitória moral e deixar o prêmio político para o Palácio do Planalto. Se é verdade que a História se repete como comédia, seria um remake da queda de Severino Cavalcanti. Quando a oposição nadou, nadou e morreu na praia.

Desde o início das recentes acusações contra o presidente do Senado, sabe-se que o destino político dele está por um fio. Falta conhecer a resistência desse fio. Talvez o Palácio do Planalto esteja inseguro quanto a uma possível sucessão de Renan Calheiros. Talvez esteja com dúvidas sobre, por exemplo, o voto dos senadores do PMDB numa extemporânea eleição secreta para a Presidência do Senado. Na política, como se sabe, a vingança é um prato que se come frio. Mas também é possível que Lula esteja relativamente tranqüilo quanto ao futuro da sua relação com o Senado. Especialmente agora que não pára a revoada de senadores da oposição rumo ao Alvorada, em busca de um cantinho na nau governista para 2010. A prevalecer essa segunda hipótese, é bom o presidente do Senado já ir tratando de cair na real. E de ir reservando a passagem de volta para Maceió.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

10 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon,
li nos jornais desta semana que a senadora Ideli, em nome do PT, liberou a bancada para votar como quiser. Ou seja, o partido entende que o caso já passou da fase dos panos quentes. Pelo que leio, só alguns caciques do PMDB estão preocupados em salvar a pele do Renan, talvez porque isso signifique salvar a própria. Acho que sairá a cassação, e quem votar a favor poderá usar o surrado discurso de preservação da ética, ainda que tenha as mãos tão sujas quanto o cassado. E aí a poeira vai baixar.
Sds., de Marcelo.

terça-feira, 4 de setembro de 2007 12:15:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

O resultado final do caso Renan é um mistério. É só o que consegui ver até agora.

Aproveitando que o assunto é voto, Alon, você que tem opinião independente, houve a tal tentativa de "golpe da mídia" nas últimas eleições?

terça-feira, 4 de setembro de 2007 14:35:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

lembrei de um post sobre uma velhinha que, pela mão de um escoteiro metafórico, atravessou candidamente uma certa praça em Brasília. Pelo visto, a velhinha continua no lado de lá, aprontando das suas. Não sei bem o que pensam as pessoas em Brasília, sobretudo as que transitam pela praça. Do meu ponto de vista, que está bem mais distante, a situação do senador é crítica. Conhecendo o PT (o partido da ética), duvideodó que a valorosa agremiação política vai segurar a bucha. Vamos aguardar.

E o caso Gautama, que explodiu bem no meio do executivo? Que fim levou?

Abs.

terça-feira, 4 de setembro de 2007 17:54:00 BRT  
Blogger Frodo Balseiro disse...

Alon
A depender do PT, Renan Calheiros é história!
Quantos exemplos você tem nesse governo, de genuína(ops!) lealdade?
Lulla e seus capas-pretas administram a política com a mesma técnica de guerrilha empregada no passado: "companheiro caído, é companheiro a ser deixado para trás, quando não queimado e enterrado".
Renan já caiu, O PT sbae disso e esta desembarcando da sua defesa com a pussilanimidade habitual!

terça-feira, 4 de setembro de 2007 19:49:00 BRT  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Renan Calheiros já é um morto-vivo desde a desastrada defesa em cima dos tais bois; o único que ainda o defende de verdade é aquele suplente do Hélio Costa.

O que o PT e o Governo vão fazer, óbvio, é esperar o momento de que vão ter a garantia de que, se Renan sair, a oposição será derrotada numa by-election. O que, tendo em vista a desorganização do bloco da oposição nesse segundo mandato de Lula, não é algo muito difícil.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007 00:31:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

O desejo da oposição é um sinal claro que o PT tem que votar pela manutenção de Renam. Todo mundo sabe que aquela história da Monica Veloso foi tirado do baú para poder dar fôlego a oposição no senado. Como aquela história não colou, no melhor estilo do jornalismo "testando hipóteses", foram surgindo novas denúncias. O PT só pode estar louco se entrar na onda de uma certa midia partidária. No dia seguinte à queda de Renam, as baterias se voltarão contra o candidato governista. Caso a oposição emplacar o presidente do Senado, ai vai ser um Deus nos acuda.
E por outro lado, a manutenção de Renam na presidência vai trazer algumas dores de cabeça ao principal partido de oposição: "A revista Veja".

quarta-feira, 5 de setembro de 2007 08:13:00 BRT  
Anonymous Richard disse...

Algumas perguntas:
1) É preciso mesmo fazer nova eleição para presidente do senado?! O cara não tem vice!??!?
2) Que "revoada de senadores da oposição" é esta?! Sei que o Lula recebeu o Renan + o Sarney... depois mandou o Nelson Jobim dar um recado, a poucos dias.
3) Desde quando o governo tem maioria no senado??!?

quinta-feira, 6 de setembro de 2007 14:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A manutenção de Renan no Senado, se ocorrer, será mais um favor do PT ao País. Vai dar ainda mais orgulho de andar com a estrelinha.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007 19:41:00 BRT  
Blogger Andre Chen disse...

Mais uma vez o PT se meteu na famosa sinuca de bico...

sexta-feira, 7 de setembro de 2007 10:02:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Esse tipo de comentário torna claro que pouco interessa se Renan é ou não culpado. É impressionante como o Brasil perde tempo discutindo falsos escândalos, acompanhando um debate interminável que começou com um caso absolutamente particular, que só diz respeito à família do Calheiros. Se ele tem uma filha fora do casamento, se paga pensão de 3, 8 ou 12 mil, ninguém tem nada a ver com isso. Até porque nunca existiu qualquer prova de que esse dinheiro tenha saído da Mendes Júnior. Ou é crime ter amigo que trabalha na Mendes Júnior? Parece que o Conselho de Ética não se deu ao trabalho de examinar os documentos apresentados pelo senador Renan Calheiros. Quis foi fazer média com a opinião pública. Os brasileiros esperam mais dos seus representantes.
Em vez da mídia discutir e colocar em pauta educação, saúde e reforma política, prefere insuflar os ânimos da população com escândalos.
O resultado: o país perde, perdemos todos.
Alon, você um dos poucos donos de blog que discute assuntos seriamente e não passionalmente, que é o caminho mais fácil.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007 11:48:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home