segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Epílogo (10/09)

Termina nesta quarta-feira (tomara!) todo um lote de capítulos da novela Renan Calheiros. A epopéia começou há quase quatro meses, precisamente no dia 17 de maio, quando a Polícia Federal desencadeou a Operação Navalha. Na época, o que mais se ouvia no governo e arredores jornalísticos era a frase "não tem como não pegar o Renan". Mas o fato é que a Navalha, que implodiu os negócios da empreiteira Gautama, de Zuleido Veras, não "pegou" até agora o presidente do Senado Federal. A bala passou raspando em figurões do Executivo, bem situados na esfera federal e nas estaduais. Mas Renan que é bom, nada. A Gautama saiu do noticiário e Zuleido deixou de ser personagem quando emergiu algo mais apetitoso, semioticamente falando: a suposta ajuda em dinheiro da empreiteira Mendes Júnior a Renan para pagar despesas do senador com a mãe de uma filha dele fora do casamento. A entrada em cena da Mendes Júnior e do seu funcionário Cláudio Gontijo operou um pequeno milagre. A crise cruzou de vez a Praça dos Três Poderes e alojou-se no Legislativo, deixando para trás, inexplorado, todo um conjunto de possibilidades e dúvidas. Modéstia à parte, eu cheguei a prever essa migração. Está em Vamos atravessar, madame?, um post curtinho que reproduzo aqui:

Apenas para registro. Uma crise que atingia em cheio o Executivo e era medida em centenas de milhões de reais atravessou a Praça dos Três Poderes, concentrou-se no Senado e mede um milésimo do que media antes. Crises são assim. São como senhoras idosas paradas na calçada à espera de que um gentil e esperto escoteiro lhes estenda o braço amigo. Para que elas possam atravessar a rua (ou, de vez em quando, a praça) em segurança.

Bem, nesta quarta-feira, finalmente, o plenário do Senado vai decidir o que será de Renan Calheiros. O presidente do Senado é acusado de um conjunto de malfeitorias e é alvo de quatro representações no Conselho de Ética. A primeira delas, que será objeto de deliberação daqui a dois dias, é se ele recebeu ou não dinheiro da Mendes Júnior, via Cláudio Gontijo. Não há até o momento prova de que Renan tenha recebido dinheiro da empreiteira. Tanto que os relatores decidiram considerar "quebra de decoro" até o tipo de relação pessoal que Renan mantinha com Gontijo. Mas nesta altura do campeonato a existência ou não de provas transformou-se para muitos numa questão menor. Renan Calheiros entrou naquele beco escuro político-midiático em que cassá-lo ou não virou coisa de Fla-Flu. Em resumo, se o presidente do Senado perder o mandato e a elegibilidade, o consórcio que deseja cassá-lo poderá finalmente dizer que o país ficou melhor sem Renan. Se ele escapar, o consórcio dirá que aconteceu o contrário, que a ética foi derrotada. Escrevi em Tiro ao pato sentado sobre minhas dificuldades pessoais para participar desse tipo de consórcio. Um trecho:

Minha estréia jornalística em campanhas "pela ética na política" foi no impeachment do presidente Fernando Collor. Desde lá -e dentro das possibilidades, procuro manter alguma distância da modalidade, que gosto de comparar a um tiro ao pato sentado. Não condeno quem pratica o tiro ao sitting duck, mas devo admitir que minha experiência no ramo não foi boa. Por isso, não quero repeti-la. Derrubado Collor, percebi logo que o mais pato no caso tinha sido eu mesmo. Eu e muitos outros. Sim, pois, decorrido um tempo, rapidamente os mais radicais da "ética na política" passaram uma borracha naquela bobagem e se uniram ao núcleo duro da base collorista para alavancar a candidatura de Fernando Henrique Cardoso (FHC), cujo único objetivo era derrotar Luiz Inácio Lula da Silva. Aí eu pensei: se vale se juntar ao collorismo para derrotar Lula, é porque Lula deve ser pior do que Collor. Mas, se é assim, por que o pessoal se aliou ao Lula para derrubar o Collor? É de então que vem minha mania de querer saber sempre "o que está por trás" dos periódicos movimentos pela suposta faxina na política do Brasil. Vem dali minha mania de tentar visualizar a luta pelo poder que aparece embrulhada em apelos eloqüentes pela moralidade pública.

Aí está. Para você não dizer que fiquei em cima do muro, se eu fosse senador eu votaria contra a cassação de Renan Calheiros, pelo simples fato de que a representação em tela aponta-o como suspeito de receber dinheiro da Mendes Júnior e não há, até o momento, prova de que ele tenha recebido dinheiro da empreiteira. Obviamente, votar a favor de Renan seria um ato politicamente estúpido da minha parte, ainda mais se eu revelasse o voto, pois tal atitude me transformaria em alvo imediato da turma da ética na política. Que vive de achar periodicamente novos alvos para exibir o seu poder de destruição. Mas não tem jeito. Sempre que reaparece o assunto dos "processos políticos" eu tenho tomado aqui posição rigorosamente de acordo com a existência ou não de provas. Não vejo por que deveria mudar bem agora. Aliás, uma lembrança que tenho é do deputado federal Luís Eduardo Magalhães, altivo, votando contra o impeachment de Collor. Precisamos de mais políticos do tipo que era Luís Eduardo Magalhães. Gente capaz de pensar e votar pela própria cabeça. É gente rara hoje em dia.

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8 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Quem recebeu dinheiro da Mendes Jr. não foi o Renan e sim a "gestante".

segunda-feira, 10 de setembro de 2007 20:17:00 BRT  
Anonymous Aexandre Porto disse...

Esse, e outros julgamentos políticos, são absurdos. Deveria haver um rito de suspensão do mandato, defindo pelo Conselho de Ética.

Tirar o mandato de um cara por 12 anos deveria ser uma pena para um processo mais demorado.

Isso não é defesa de Renan, por quem não boto a mão no fogo, mas de respeito ao princípio da justiça.

Ele está sendo julgado porque não consegue provar sua inocência. É assim mesmo?

segunda-feira, 10 de setembro de 2007 20:47:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Oi Alon,
Em fim,quase! estou concordando com voce...........
Manda noticias....Alex F

segunda-feira, 10 de setembro de 2007 23:55:00 BRT  
Blogger Ivo La Puma disse...

Eu confesso, fiquei alheio a esse caso do Renan, só sabendo por cima o que estava acontecendo, por diversos motivos, dentre eles a minha desconfiança generalizada ante a mídia grande (ou grande mídia, tanto faz). Por outros motivos, que não cabem dizer aqui, comecei a prestar atenção no que estão dizendo por aí esta semana, e me parece que a sua síntese é a mais adequada. E o tema de fundo que você relatou também foi pego em cheio: quando falam muito em defesa da ética, estão fazendo somente jogo político.

Cassar o Renan é pura exibição de força por parte da mídia grande. A oposição vai na onda, para tirar uma casca do governo (senão, não é oposição, ora pois!). Mas prova contra o homem que é bom, até agora, necas!

[]s

terça-feira, 11 de setembro de 2007 15:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Você está errado Alon, profundamente errado, está se atendo a um 'legalismo' primário que só beneficia delinqüente. A analogia que faço é a de um sujeito investigado pela polícia por estelionato e ser acusado dessa maneira em processo legal, mas na seqüência se descobrir que o meliante é inocente da acusação de estelionato mas é culpado de crimes mais graves como homicídio, tráfico de drogas, etc. E daí? Deixar o bandidão solto só porque de estelionato, a acusação inicial, ele se safou? E os outros crimes? É a mesma situação do 'probo' Renan, pode não se ter encontrado o vínculo direto da grana dada à jornalista e recursos da empreiteira (mas também não de provou o contrário), mas encontrou-se na seqüência das investigações crimes e indícios de crimes bem mais graves cometidos pelo 'probo', isso sem falar no comportamento absolutamente INDECOROSO do sujeito mantendo-se teimosamente na presidência do senado e assim tisnando todos os processos e suas tentativas de intimidação de colegas, da imprensa e também tentativas espúrias de prejudicar as investigações. Ele merece ser cassado SIM.

terça-feira, 11 de setembro de 2007 16:06:00 BRT  
Anonymous Kitagawa disse...

Também acho sem cabimento se ater ao que está escrito na denúncia do PSOL. Renan, ao tentar provar que tinha rendimentos suficientes, apresentou ao conselho de ética um monte de papéis fajutos que praticamente o auto incriminam em outras esferas.

terça-feira, 11 de setembro de 2007 21:07:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Alon

1.Em relacao ao Renan, faco votos que seja cassado pelo Senado. Penso que foi politicamente muito acertada a decisao das oposicoes de fechar questao no voto pela cassacao do Renan. A posicao do PT de liberar a bancada e risivel.

2. Seu ponto de vista em relacao ao episodio Renan e coerente com o que voce ja expos aqui em outras ocasioes. Lembro que voce defendeu, com semelhantes argumentos, a anistia para os cassados no episodio mensalao. Logo, se voce se pronunciasse diferentemente em relacao ao episodio Renan, seria logico esperar de voce uma revisao sobre o que ja escrevera sobre a cassacao dos mensaleiros.

3. Meu ponto de vista sobre os seus argumentos e divergente. Nao concordo com os seus argumentos. Como alguem ja escreveu aqui, esses individuos foram julgados e condenados pelo tribunal da minha consciencia. No meu ponto de vista, o ostracismo politico desses individuos seria um bem para democracia brasileira.

No entanto, mesmo cassados, esses politcos continuam a exercer sua nefasta influencia na politica brasileira. O realismo politico sempre dira que e do jogo. De minha parte, quero que esse jogo se dane.

4. Concordo com voce que chega a ser desanimador continuar constatando que os grandes interesses economicos diretamente envolvidos(Mendes Junior, Gautama e etc) nao aparecam nessa historia como as outras pontas do grande iceberg da corrupcao brasileira. Renan, no caso, e apenas a parte visivel e menor daquilo que esta submerso. Nao e por acaso que mais uma vez o BMG surgiu tambem nessa historia. Ao contrario do que pensam e escrevem alguns, nao e a imprensa (e existe imprensa assim escrita com o artigo definido "a" no singular?) que cria os fatos que ela noticia. O que temos visto, na minha opiniao, e um belo trabalho de exposicao jornalistica dos constructos submersos nas porfundezas da corrupcao e que unem fortemente as pontas desse imenso iceberg. Enfim, nao existe, como pensam alguns partidarios das "teorias conspiratorias", a "midia golpista" a sevico da "elite branca". O que existe, sim, e um conluio politico vergonhoso que deliberadamente trabalha para manter nas profundezas os liames submersos da corrupcao. So tenhos elogios e agradecimento para os profissionais do jornalismo que trabalham para nos revelar tais constructos. Por isso os conluios vociferam "midia golpista". Num certo sentido, com razao. As reportagens sao mesmo um belo golpe no historico conluio.

Para mim, a novidade esta sendo observar como aqueles que no passado bradavam serem a farinha pura de um outro saco hoje revelam-se os grandes arrivistas mentirosos do "nunca antes nesse pais".

abs.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007 02:15:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
1) quanto ao Renan, concordo: esse já vai tarde.
2) quanto ao fato de as operações policiais não terem chegado ao Executivo: compartilho da sua perplexidade. Mas é fácil de entender: elas foram pilotadas para dar exatamente nisso.
3) quanto ao impiche do Collor (outro que foi tarde e, pior, voltou): a antiga base de apoio collorista hoje está na base de apoio ao Lula (a começar pelo Renan). Coincidência?
Sds., de Marcelo.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007 12:07:00 BRT  

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