quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Desnuclearização (26/09)

A República Democrática e Popular da Coréia chegou, faz algum tempo, a um acordo com a comunidade internacional e decidiu interromper o seu programa nuclear. O desejável é que o Irã siga pelo mesmo caminho. Há poucas dúvidas de que um planeta com o Irã desnuclearizado é preferível a um planeta com o Irã nuclearizado. Esse é o ponto de vista dos Estados Unidos, da Europa, da China e da Rússia. Vê-se, portanto, que o debate em torno do tema não apresenta fronteiras propriamente ideológicas. É uma questão de ordem prática. O Irã tem o direito de decidir soberanamente a respeito de sua política interna. Do ângulo das relações externas, o Irã não é alvo da cobiça de nenhuma nação vizinha. Nenhum país tem ambições territoriais em relação ao Irã. A única nação que poderia promover um ataque militar com objetivos territoriais ao Irã, o Iraque, deixou de existir como uma potência militar regional. Vamos comparar, por exemplo, com a situação da Índia e do Paquistão. É razoável que ambos tenham a bomba, pois isso estabelece um equilíbrio estratégico que funciona como elemento de dissuasão. Paquistão e Índia acumulam contenciosos territoriais desde que foram fundados, quando o Império Britânico decidiu que era hora de cair fora. O Irã não está em situação semelhante. Nem a Arábia Saudita nem Israel, os dois principais aliados dos Estados Unidos no Oriente Médio, representam uma ameaça militar ao Irã. As outras potências militares regionais, Síria e Turquia, menos ainda. Os sírios estão ocupados em achar um caminho para retomar de Israel as colinas do Golan, anexadas pelos israelenses após serem conquistadas na Guerra dos Seis Dias. E os turcos só se envolverão num conflito com o Irã se este decidir apoiar a formação de um estado curdo. Não há sinal de que Teerã vá se meter por essa senda. Um argumento para que o Irã tenha armas nucleares é que Israel as têm. O argumento é fraco. Israel não irá atacar o Irã se não for ameaçado pelo Irã. O poderio nuclear israelense é estratégicamente defensivo, para contrabalançar a desvantagem territorial em relação a vizinhos potencialmente hostis. O caminho para o Oriente Médio não é nuclearizar os vizinhos de Israel, mas promover a desnuclearização israelense no âmbito de um tratado de paz regional que estabeleça um estado palestino pacífico e que reconheça o direito de Israel existir em segurança. A defesa da nuclearizaçào do Irã embute a ilusão de que o conflito entre Israel e Palestina pode ter uma solução no terreno puramente militar. Não terá. Se tiver, não será favorável ao campo antiamericano, a não ser num quadro de colapso planetário da hegemonia militar dos Estados Unidos. Coisa que, convenhamos, não está à vista. Então, a solução está necessariamente na mesa de negociações. Até porque faz muito tempo que nada se passa no front militar que seja capaz de alterar radicalmente o mapa territorial da região. A constatação de que uma solução militar é inviável está na base da cisão entre a Fatah e o Hamas na Palestina. Mas voltemos ao Irã. Há quem acredite que o programa nuclear iraniano tem fins pacíficos. Eu não acredito. Mas essa é uma diferença fácil de resolver. Basta o Irã abrir-se irrestritamente para inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e seguir as resoluções do Conselho de Segurança da ONU. O melhor é o Irã adquirir primeiro a confiança do planeta e só depois pensar em desenvolver o uso da energia nuclear para fins pacíficos. O desfecho do caso iraniano terá importantes conseqüências geopolíticas para a América do Sul. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, desenvolve parcerias com o Irã nos terrenos político e econômico. Chávez busca aliados entre os adversários dos Estados Unidos, num movimento legítimo de defesa. As digitais dos Estados Unidos estão bem marcadas no golpe que tentou derrubar Chávez em 2002. Estrategicamente, a Venezuela considera-se um alvo militar potencial dos Estados Unidos, pelo seu papel como fornecedor de petróleo para os americanos. Se os venezuelanos estão certos ou errados nessa avaliação, é problema deles. Mas as conseqüências regionais da política deles são assunto nosso, ainda que não apenas nosso. Também por esse motivo é urgente acelerar a entrada da Venezuela no Mercosul. O ideal seria ampliar a integraçào e estendê-la ao terreno militar. Uma América do Sul integrada econômica, política e militarmente, com uma política de defesa comum, será a garantia de que os venezuelanos precisam para não ceder ao canto de sereia de quem deseja transformar o território do país numa plataforma hostil aos Estados Unidos. A América do Sul não precisa de uma versão local da crise dos mísseis soviéticos em Cuba. Para recordar, a crise dos mísseis aconteceu porque Cuba era um alvo militar americano e e União Soviética decidiu instalar ali mísseis nucleares para evitar um ataque à ilha de Fidel Castro. Por causa disso, o mundo esteve à beira de uma guerra atômica. O problema só foi resolvido depois que, entre outras coisas, os Estados Unidos aceitaram assumir o compromisso de não invadir Cuba. Em troca, a URSS mandou os navios com os míssesis darem meia volta e retornarem ao lar. O acordo foi tão bom para as partes que vigora até hoje. A América do Sul é um continente livre de armas de destruição em massa. Deve continuar assim. Além do mais, uma América do Sul democrática e pacífica é o melhor cenário para que as demandas e anseios majoritários, de populações secularmente oprimidas, encontrem plena expressão no processo político.

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12 Comentários:

Anonymous Rodrigo disse...

Sei não Alon, a vizinhança do Irã não é tão tranquila assim. Os EUA estão atuando no Iraque e no Afeganistão, fora o próprio Paquistão. E depois a diferença de tratamento dos EUA dada ao Iraque e a Coréia do Sul foram um pouco reveladoras...

quinta-feira, 27 de setembro de 2007 11:27:00 BRT  
Anonymous Duda disse...

o Irã percebeu a diferença de tratamento entre o Iraque e a Coréia e, como terceiro participante do Eixo do Mal do tal do Bush, correu a acelerar seu programa nuclear. Não é só por causa dos vizinhos que se mostra estratégico - e inteligente - ter uma arma nuclear.
Além disso, o maior obstáculo ao aumento da influência do Irã no oriente médio - Israel - tem bombas. Neste caso, é importante atingir um equilíbrio, não vá Israel exacerbar seu poder de armas por aí, poderia criar uma confusão enorme.
Ou seja, o Irã tem todas as razões para criar e acelerar um programa nuclear, os vizinhos imediatos sendo o menos importante deles.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007 12:00:00 BRT  
Anonymous Frank disse...

Que mundo se está querendo, a seguir essa lógica dos comentários?

1) o velho conhecido “congelamento de poder” nuclear: os 5 vencedores da 2a guerra + Índia, Paquistão, Israel e Coréia do Norte (faltou alguém?)
2) soberania ilimitada: cada país deve ter direito incondicionado a sua ogiva nuclear, sob o argumento do "equilíbrio de poder"?

Não acho que a solução para dissuasão de conflitos e tensões deva ser a posse de armas nucleares por cada unidade política do globo – que é a situação limite de que resulta a busca desmedida pelo equilíbrio de poder.

Deve haver outra maneira.

A defesa de armas para alguns, dadas as circunstâncias especiais, como faz o Alon, é bastante subjetiva e passa pela questão da soberania: cabe, nessa ótica, a cada país avaliar as ameaças a que esteja submetido e proceder como melhor lhe aprouver, no que diz respeito à tecnologia bélica nuclear.

Eu discordo dessa linha de pensamento. Eu acho que os xerifes do CSNU (vencedores da 2ª guerra) deveriam impedir, em que pesem as restrições da realidade (é difícil constranger uma potência econômica) e os fatos consumados (Índia, Paquistão e outros), a aquisição/produção de armamentos nucleares ou de tecnologia para sua fabricação por parte de qualquer país.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007 13:44:00 BRT  
Anonymous José Policarpo Jr. disse...

Concordo integralmente com a análise.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007 14:33:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Muito bom o post.

“O caminho para o Oriente Médio não é nuclearizar os vizinhos de Israel, mas promover a desnuclearização israelense no âmbito de um tratado de paz regional que estabeleça um estado palestino pacífico e que reconheça o direito de Israel existir em segurança.” (Alon).

“Nós não adoramos o Irão, adoramos Allah… que esta terra [Irão] arda. Que esta terra desapareça em fumo desde que o Islão saia triunfante…” (Khomeini. Discurso em Qom em 1980).

Concordo com você. No entanto, não vejo do lado contrário a Israel qualquer manifestação favorável a essa tese. Quando o outro lado manifesta-se ele o faz sempre com o pressuposto de que a paz no oriente médio só será alcançada com a eliminação do Estado de Israel. No Irã, até prova em contrário, esse é um vasto consenso. Desconheço a existência de base empírica que possa sustentar a tese de que a mudança no regime dos aitolás, conduzida por uma classe média laica, terminaria por colocar um freio nos instintos de morte e destruição dos Mullahs.

O melhor para Israel e para os palestinos e, conseqüentemente, para o planeta seria a garantia de que a ONU tirasse do fogo a batata quente que é a nuclearização do oriente médio. No entanto, Israel (eu concordo) sabe muito bem sobre essa impossibilidade. Israel sabe que hoje sua existência está assegurada pela sua capacidade (juntamente com o seu principal aliado) de dissuadir pela força os inimigos que APENAS desejam a sua destruição.

O ataque israelense ao reator nuclear iraquiano de Osirak em 1981 ensinou a Teerã que o melhor seria multiplicar e espalhar as suas instalações nucleares e enterrá-las em bunkers profundos. Isso paraticamente anulou a capacidade de destruição da força aérea israelense. E mesmo que Israel insistisse num ataque os danos seriam irrisórios. Consumado o hipotético ataque, o governo de Teerã acionaria de imediato seus homens bomba. A Europa antisemita, acionaria o seu ódio milenar aos judeus. Tolos ou cínicos são aqueles que apregoam que o anti-semitismo que hoje se vive no mundo resulta exclusivamente do conflito israelense-palestino. O filósofo francês Alain Finkelkraut escreveu acertadamente que “a violência de que os judeus são hoje alvo apresenta-se sempre como solidariedade com a causa palestinina. Alimenta-se das imagens da intifada”.

O governo iraniano, eleito pelos iranianos, acredita fervorosamente que a destruição de Israel é APENAS o cumprimento de um supremo mandamento divino. Os efeitos colaterias (morte e destruição de judeus e palestinos e disseminação em escala planetária da poluição radioativa) serão sempre encarados como parte do necessário martírio pela nobre causa. Destruir o grande e o pequeno Satan impõe sacrifícios. No final, atesta essa forma explicitamente religiosa de realpolitik, o saldo cósmico será favorável. Como disse Khomeini, “que esta terra arda. Que esta terra desapareça em fumo desde que o Islão saia triunfante”.

Abs.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007 15:16:00 BRT  
Anonymous Na Prática a Teoria é Outra disse...

Concordo com quase tudo no caso do Irã, mas quero saber o que você entende por integração militar sul-americana, e porque isso diminuiria, e não aumentaria, o risco de nosso envolvimento em um conflito de Chávez contra os EUA.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007 16:50:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Tudo muito bonito, mas se o EUA empombar com algum país, como o Iraque, por exemplo, e resolver ataca-lo independentemente da vontade do CSNU, como aconteceu com o Iraque, por exemplo, o que fazer? Ficar tacando pedra? Dá um tempo, a tecnologia evolui, não dá pra congelar o mundo nos anos 50. A cada dia se formam mais físicos, os computadores ficam mais potentes, novos processos são desenvolvidos, é cada vez mais fácil construir uma bomba atômica? É uma questão de tempo. Qual a alternativa? Manter o Oriente Médio na idade da pedra? Tentar a paz, mas desde que seja atendido a agenda de hegemonia americana? Eu acho que a solução deve ser um pouco mais sofisticada do que sair por ai fazendo guerra ou ficar tentanto agradar um imperialismo americano, russo, europeu ou chinês.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007 17:42:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

NENHUM pais tem o direito de possuir armas nucleares.
Este deveria ser o ponto de partida para todas as negociações.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007 17:45:00 BRT  
Blogger Cesar Cardoso disse...

1) O Marcos tem razão: arma nuclear é um brinquedo perigoso demais para ficar na mão das crianças. Retiremos-as de todo mundo. Todo o resto é conversinha fiadinha e enrolação.

2) A lógica de Almadinejad, que, até onde a vista alcança, não come fezes, não rasga nota de 100 euros nem leva ao pé da letra o que o Khomeini dizia, é simples: se os EUA garantirem a continuação do regime dos aiatolás, da mesma maneira que garantiu o regime norte-coreano, não custa nada desistir desse negócio de arma nuclear. Lembrem-se que o Irã é um país que sofreu uma profunda transformação demográfica desde a Revolução Islâmica, com uma enorme população jovem, que começa a pressionar por participação política, e em algum momento essa pressão vai bater no regime dos aiatolás.
A diferença entre os dois casos é que o outro "power broker" no caso norte-coreano, a China, bancou a proposta americana, enquanto, no caso iraniano, a Rússia continua estimulando o regime iraniano.

3) Quanto à Venezuela, a lógica é simples: a integração do país, via Mercosul, serve como freio às viagens de Hugo Chávez e seu obscuro socialismo-século-21 (acho que ninguém, nem ele, sabe bem o que isso significa, mas isso é outro assunto). Isolar Chávez só serve aos mais duros do governo venezuelano e à criação de versões venezuelanas-no-exílio de figuras detestáveis como Jorge Mas Canosa.
Por isso não entendo a lógica do PSDB de transformar a adesão da Venezuela ao Mercosul (processo que começou, lembremos, quando os tucanos estavam no governo) em cabo de guerra. Só se estiver naquele processo de transformar o PSDB num DEM intelectual.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007 23:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

alon,
sempre curto e aprendo com seu raciocínio sentato a desenvolto.
aquele abraço,

sexta-feira, 28 de setembro de 2007 16:28:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Alon, os sirios e iranianos estão umas feras com os russos que venderam um sistema de misseis antiaéreos que não funcionaram no último raid israelense.

domingo, 30 de setembro de 2007 00:11:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

Você disse "há quem acredite que o programa nuclear iraniano tem fins pacíficos. Eu não acredito."

Abdul Qadeer Khan, fundador do programa nuclear do Paquistão, pode dar a resposta.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007 15:35:00 BRT  

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