sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Corrosão no núcleo da popularidade (21/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição de hoje (21/09/2007) do Correio Braziliense:

A pesquisa CNI-Ibope divulgada ontem deve acender a luz amarela no Palácio do Planalto. A preocupação das pessoas com a inflação e o desemprego está em alta, enquanto o prestígio do governo entre a população mais pobre desce a ladeira. Em junho, 40% achavam que a inflação iria aumentar. O número foi agora para 52%. Um ano atrás, apenas 30% apostavam na aceleração dos preços.

As taxas relacionadas ao desemprego são menos agudas, mas também apontam para cima. Chega aos mesmos 52% o número dos que prevêem mais desemprego. Eram 48% em junho, mas em setembro de 2006 atingiam apenas 37%. E o governo perdeu 12 pontos entre os que recebem até um salário mínimo. Nessa faixa, o “ótimo+bom” da administração Luiz Inácio Lula da Silva desceu de 54% para 42%, mesma queda da aprovação do governo (58% para 46%).


As novidades na pesquisa da entidade empresarial não chegam a provocar mais do que oscilações na avaliação geral de Lula e de seu governo, como informa a reportagem na página 2 desta edição. Por que então a luz amarela? Porque os sinais de corrosão política do presidente e de sua administração localizam-se em atributos e faixas de renda que compõem o núcleo duro do ativo político lulista.


O prestígio de Lula resistiu aos tufões da crise política e ao crescimento baixo da economia. Nenhum dos dois fatores foi suficiente para impedir a reeleição de um presidente que contava com apoio maciço entre os mais pobres. Há alguma polêmica sobre por que os pobres estão com Lula. A oposição tem preferido centrar as baterias nos programas sociais, o que talvez seja um equívoco. É mais provável que a popularidade do presidente esteja assentada principalmente na inflação baixa. Na vida real dos mais pobres, ela significa, em primeiro lugar, comida e material de construção mais baratos.


Os índices inflacionários das últimas semanas indicam não apenas que os preços estão acelerando. Eles mostram que a arrancada é maior nos itens mais importantes do portfólio de gastos das camadas populares. A comida está encarecendo mais rapidamente do que as outras coisas. Qualquer um que freqüente a feira ou o supermercado percebe. Só o governo parece não se dar conta. O ministro da Fazenda tem culpado a sazonalidade e procurado acalmar as pessoas. Parece pouco provável que consiga evitar a tempestade com discursos.


A inflação é hoje uma preocupação mundial. No caso dos alimentos, o temor está associado à insaciável demanda do crescimento asiático e também à substituição de lavouras destinadas a comida por outras voltadas à produção de matérias-primas de biocombustíveis. Até agora, o presidente da República vem repetindo o discurso ufanista de que não há motivo para preocupações, de que no nosso caso a abundância de terras vai evitar a pressão altista nos alimentos. Uma abundância que parece algo virtual. Lula diz que a cana para o álcool vai ocupar apenas terras de pastagens pouco produtivas. Mas, se é assim, se temos sobrando áreas de baixa produtividade, por que está faltando terra para a reforma agrária?


Na passagem do primeiro para o segundo mandato, Lula deixou um pouco de lado a obsessão com os preços e decidiu concentrar seu esforço principal no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A inflação baixa deu ao presidente mais quatro anos no planalto, mas agora é preciso mais. Por isso as obras do PAC. Por isso o aparente relaxamento presidencial e governamental com a inflação.


Entretanto, como não há mesmo almoço grátis, começam a aparecer as conseqüências políticas. Ninguém sabe até onde a deterioração do poder de compra dos mais pobres vai afetar politicamente Lula e seu projeto. Será que os beneficiados pelo PAC vão inclinar-se para o PT em 2010? E como vão votar os mais pobres? Para os curiosos, a História do Brasil oferece um exemplo paradigmático a respeito de como a inflação pode alterar rapidamente o humor do eleitorado. Em 1972, a Arena do presidente Emílio Médici colheu resultados brilhantes na eleição municipal. Dois anos depois, a mesma Arena do presidente Ernesto Geisel foi atropelada pelo azarão chamado MDB.


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7 Comentários:

Anonymous JORGE RODINI disse...

A QUEDA NA APROVAÇÃO DE LULA FOI MAIS ACENTUADA ENTRE OS HOMENS, ENTRE OS JOVENS , NA REGIÃO SUDESTE NAS PEQUENAS CIDADES , NA PERIFERIA E INTERIOR ENOS EXTREMOS DAS FAIXAS DE RENDA ( ATÉ 1 SM MAIS DE 10 SM ).

A PESQUISA REVELA UM COMPORTAMENTO MAIS CRÍTICO DOS BRASILEIROS EM RELAÇÃO A SAÚDE E EDUCAÇÃO E O COMBATE À FOME E À POBREZA.EM SETEMBRO, 46% DOS ENTREVITADOS DESAPROVARAM AS AÇÕES DE SAÚDE E EDUCAÇÃO CONTRA 41% EM JUNHO.NA REGIÃO NORDESTE, A APROVAÇÃO À ATUAÇÃO DO GOVERNO NESTA ÁREA ERA DE 70%, AGORA É DE 55%, O QUE COMPROVA QUE AS GREVES DE MÉDICOS E PARALIZAÇÕES NOS HOSPITAIS NESTA REGIÃO TIVERAM UM IMPACTO MUITO NEGATIVO.

EM RELAÇÃO ÀS QUESTÕES ECONÔMICAS, A ATUAÇÃO NO COMBATE À INFLAÇÃO, O DESEMPREGO, A POLÍTICA DE JUROS E IMPOSTO SÃO DESAPROVADOS PELA POPULAÇÃO.COM A PERCEPÇÃO DO AUMENTO DO DESEMPREGO, O DESENCANTO É MAIOR ENTRE OS HOMENSNUM PRIMEIRO INSTANTE: É BOM TERMOS EM MENTE QUE OS ELEITORES DO SEXO MASCULINO SEMPRE FORMA MAIS FIÉIS AO PRESIDENTE QUE AS MULHERES.

A EXPECTATIVA DE AUMENTO MAIOR DE PREÇOS É, HOJE, O CALCANHAR DE AQUILES DO GOVERNO.

DEMANDA ATENDIDA, NOVA DEMANDA. NÃO ADIANTA CHORAR SOBRE O BOLSA-FAMÍLIA DISTRIBUÍDO.ESTA PESQUISA ESCANCARA PARA QUEM QUER ENXERGAR: A POPULAÇÃO PASA A EXIGIR MELHORIAS NA SAÚDE, NA EDUCAÇÃAO E NA IMPLEMENTAÇÃO DE SOLUÇÕES DURADOURAS NO COMBATE À FOME E À POBREZA.

O GOVERNO LULA JÁ ESTÁ SENDO REPROVADO POR QUEM GANHA MAIS DE 10 SM E POR QUEM TEM NÍVEL SUPERIOR. É MUITO POUCO PARA LULA SE PREOCUPAR. É?

sexta-feira, 21 de setembro de 2007 09:26:00 BRT  
Anonymous Artur Araujo disse...

Alon, no geral concordando com a luz amareka,ainda que "É mais provável que a popularidade do presidente esteja assentada principalmente na inflação baixa" seja reducionismo: há que se levar em conta, talvez mais ainda, a numeralha do PNAD - redução de desemprego, aumento de renda, maior formalização do trabalho, etc.
Quanto à sua recorrente tese de "falta de terra para reforma agrária" é falácia, fraco argumento retórico no debate dos biocombustíveis. O entrave é de falta, sim, mas de vontade política e dotação de recursos para desapropriação e assentamento.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007 11:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Primeiramente afirmo que ganho mais de 20 salários mínimos, tenho curso superior em universidade federal.

A leitura de faço da pesquisa e seu conteúdo não aponta para esta tendência apontadas pelo Alon e pelo Jorge Rodini. Pesquisa é retrato do momento. E no momento daquela fotografia (14/09) havia nuvens negras decorrentes das reportagens acerca da crise financeira internacional, sobre as vias de fato ocorrida entre o Senado e a opinião publicada (e entre deputados e senadores), sobre o aumento dos preços agrícolas, e as greves nos hospitais públicos.

O que interessa no conteúdo da pesquisa (o aumento da inflação) era um fator sanzional, tanto que hoje foi divulgado o índice do IPCA-15 que é metade do índice detectado em agosto passado. Nesta semana, excetuando o preço do feijão, há queda nos preços da carne e do leite (que precionaram o índice de agosto).

As núvens negras no cenário financeiro internacional já se dissiparam e, com a redução de 0,5% do juros norte-americanos, o cenário internacional é de que a economia mundial continuará a crescer, e que o BC terá que continuar a reduzir a taxa selic para não continuar com a maior do mundo.

Apesar de tudo isto, o índice de aprovação do Lula é o mesmo apurado na reeleição de 10 meses atras.

Certamente daqui a 2 ou 3 meses, com a divulgação dos resultados sociais (PNAD) nesta semana, e a permanência da inflação dentro da meta, a possibilidade de uma aprovação maior grande.

Hoje deixo de apontar meu nome em decorrência do primeiro parágrafo.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007 11:59:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Concordo com o anônimo que a expectativa da crise internacional, fez passar na cabeça do eleitor a idéia de que "alguma coisa vai sobrar pra mim".
Coisas como o aumento do leite também deve ter afetado.
Preocupação maior com desemprego talvez o Rodini esteja certo. Os indicadores são favoráveis ao emprego.
Quem estava desempregado tinha expectativa de emprego. Quem está empregado só pode ter expectativa de desemprego ou de ficar como está.
Concordo também que demanda atendida significa novas demandas.
Isso faz com que pessoas que avaliavam como ótimo passa a avaliar como bom e quem avaliava bom passa a regular. Mas não tira o voto do eleitor.
O eleitor se afasta de fato quando ele via o governo como bom e passa a vê-lo como ruim para ele.
Se eu fosse Lula não me preocuparia além da precauções de rotina. Seguiria o governo no caminho traçado, exigindo resultados dos subordinados (coisa que parece estar fazendo neste segundo governo).
Os cuidados extras que Lula precisa é com a comunicação social. Não me refiro a aumentar propaganda. Me refiro a ter uma posição ativa diante do noticiário, com a SECOM e assessoria de imprensa dos órgãos federais respondendo aos veículos de comunicação quando faltarem com a informação correta, sobretudo quanto à dados irrefutáveis (o INCRA fez isso sobre uma matéria no Fantástico há pouco tempo).

sexta-feira, 21 de setembro de 2007 16:09:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, há dúvida que o plano Real atualizado na política de juros altos em 2003 foi que permitiu a reeleição de Lula?
Não há pavor maior do a volta da inflação. Os dados do PNAD mostraram bem o impacto enorme do plano Real.
Voltando a 2002, o erro dos estrategistas de Serra foi não ter ressaltado o plano Real e o trabalho de FHC.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007 16:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A Globo tem sido assim,com crítica parcial. Esta semana tem mostrado através do JN bom desempenho do governo na economia e índice de diminuição da pobreza.Isso é o que realmente chega a maior parte da população.Aproveito para dizer que a Veja tem uma reportagem sobre Renan. (tem quem não goste que fale de Renan)A Veja é assim, ela manda estas informações.

sábado, 22 de setembro de 2007 09:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon : o problema não são apenas
inflação e desemprego,mas suas
consequências mais funestas como a
violência ;esta sim no meu modo de pensar,o maior problema do
brasileiro hoje!

sábado, 22 de setembro de 2007 15:08:00 BRT  

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