sexta-feira, 7 de setembro de 2007

A boa notícia e a esquizofrenia ideológica (07/09)

A boa notícia da semana é que o governo brasileiro criou grupo de trabalho para elaborar um plano estratégico de defesa nacional. Esperam-se duas coisas de um plano com tais objetivos: 1) recriar a nossa indústria bélica e inseri-la como elemento nodal do projeto nacional de desenvolvimento e 2) dotar as Forças Armadas de dinheiro suficiente para cumprirem suas atribuições constituicionais. É bom que o governo esteja se mexendo nessa direção. A idéia de que um país como o Brasil possa abdicar de ter força militar correspondente a sua (do Brasil) extensão e importância estratégica uniu nas duas últimas décadas a ultraesquerda e a direita cosmopolita. A ultraesquerda compareceu a esse convescote movida por um misto de antimilitarismo e subestimação da questão nacional. Duas velhas e incuráveis doenças do ultraesquerdismo. A direita cosmopolita está nessa pois acredita que nossos interesses já estão bem defendidos no plano militar, pelo poderio bélico dos Estados Unidos. Também aqui a direita cosmopolita e a ultraesquerda andam de mãos dadas. Mas o governo federal, pouco a pouco, parece que vai se distanciando dessa lógica antinacional, que, pasmem!, econtrou eco até no Congresso do PT. Ainda bem que Lula não tem dado bola para o PT quando o assunto adquire alguma importância, como por exemplo na política econômica e na defesa do país. Mas pena que o presidente não tenha aproveitado este bom momento, de superação de velhas feridas, de reencontro progressivo entre o povo e suas Forças Armadas, para fazer um pronunciamento decente por ocasião do Dia da Pátria. O discurso de Lula em rede nacional de televisão na vépera do Sete de Setembro foi emblemático das dificuldades ideológicas do petismo: na mesma semana em que intalava um grupo de trabalho para cuidar da defesa do Brasil, e portanto da soberania do Brasil, Lula foi à TV para discursar no Dia da Independência do Brasil e não tratou da Independência do Brasil. Clique aqui para ler o pronunciamento de Luiz Inácio Lula da Silva. A fala de Lula percorreu cerca de um milhar de palavras (se eu não errei na conta) e só nove delas (menos de 1%) trataram do assunto. Foi bem no comecinho, quando Lula nos informou que

Há 185 anos o Brasil nascia como nação independente.

Para logo em seguida encadear que

Podemos dizer que, nos dias de hoje, também está nascendo um novo Brasil.

E Lula seguiu em frente, falando bem do seu próprio governo, até fechar com um óbvio e tímido

Viva o Sete de Setembro!

Há três décadas que se conhece a resistência do PT, e das correntes de esquerda nele hegemônicas, a admitir a importância da questão nacional. No plano cultural, por exemplo, é sabido que o petismo apresentou-se no nascimento como meio de negar, pela raiz, a chamada cultura nacional-popular. Obteve, com isso, também a simpatia velada de uma elite arrogante e (olha aí, de novo) cosmopolita, que se deliciou nas últimas décadas com a faina petista para, por exemplo, descontruir a herança de coisas como o Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE). Quase trinta anos depois, é sintomático que o petismo, quando precisa recorrer à cultura, ainda que instrumentalmente, necessite ir beber nas raízes nacionais e populares. Também é sintomático que o PT, mesmo tendo chegado ao governo, não tenha conseguido inscrever qualquer traço característico seu na anatomia cultural do país. Por uma razão simples: especialmente em nações de capitalismo retardado (nas várias acepções da palavra), não há como ser popular dando as costas ao nacional. Essa impossibilidade da vida material reflete-se, naturalmente, na esfera cultural propriamente dita. Mas este post não é sobre cultura, é sobre nacionalismo. Eu tenho esperança de que um dia o presidente do Brasil compareça à tevê no Sete de Setembro não para falar bem de si próprio, mas para falar bem de José Bonifácio de Andrada e Silva (no retrato). Ou para falar bem de D. Pedro II e de Caxias, e da gigantesca obra de ambos pela manutenção da integridade territorial do Brasil no Império. Ou para falar bem de Floriano Peixoto e Rui Barbosa, e de seus sonhos delirantes por um país industrializado e moderno. Ou para falar bem da expulsão dos holandeses de Pernambuco. Ou para falar bem de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, do trabalhismo e do pessedismo (a facção política mais democrática na trajetória de nossa elite). Ou para falar bem das páginas de heroísmo escritas na Itália pelos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Parêntese. É uma vergonha que o Dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial não chegue a merecer a cada ano uma bela cerimônia comandada pelo presidente da República, com a presença dos embaixadores dos Estados Unidos, da Rússia, da China, do Reino Unido e da França. Pouco a pouco, felizmente, o Brasil vai superando anos de miopia (ou esperteza) antinacional no terreno da vida prática. Parabéns ao governo e ao presidente da República por colocarem na agenda do país o reequipamento das Forças Armadas. É preciso, entretanto, que a esse movimento corresponda um outro, de recuperação e valorização dos símbolos nacionais e dos heróis nacionais. Como, por exemplo, os bandeirantes. Esse movimento, porém, não será realizado pelo PT, um partido preso à obtusidade das teorias sobre as "transições por cima". São teorias que servem ao discurso estéril da ultraesquerda, para quem nunca o povo foi protagonista de nada decisivo no Brasil. Para quem, até o surgimento do sindicalismo de São Bernardo, a História do Brasil era um desfile de movimentos elitistas destinados unicamente a ferrar os de baixo. Uma ficção estúpida e paralisante, que serve também (de novo) à direita cosmopolita, empenhada diuturnamente em nos provar que a busca de identidade nacional (e portanto popular) seria pura perda de tempo. Que somos supostamente um país fracassado, que a nossa cultura "nacional-estatista" está na raiz do nosso atraso e precisa ser eliminada. Da minha parte, estou cheio de tudo isso. Por mim, todo esse lixo ideológico deveria ser imediatamente varrido da nossa vida, do nosso pensamento e da nossa cultura. Minha esperança, minha certeza é que um dia será. Para o bem do Brasil. E que viva o Brasil!

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14 Comentários:

Anonymous José Augusto disse...

Alon, acho que você está pegando um pouco pesado com o PT, apesar do partido ter sugerido sandices como a "democratização das Forças Armadas". FFAA são instituições de natureza hierárquica e estritamente meritocrática em qualquer democracia do mundo.

José Dirceu, quando ainda Ministro, defendeu a integração militar sul-americana. Hoje (7), uma tropa de militares peruanos abriu o desfile cívico de 7 de Setembro, em Manaus, simbolizando o apoio das tropas de fronteira no policiamento nas áreas comuns do Brasil e dos demais países amazônicos (esse efetivo já participa das comemorações da Independência há mais de dez anos).

Em Julho último, uma comitiva brasileira esteve em Lima para apoiar a criação de um sistema peruano de proteção à Amazônia, nos moldes do brasileiro do SIPAM (antigo SIVAN).

Waldir Pires, apesar de não ter sido um bom Ministro da Defesa em minha opinião, quando era deputado oposicionista relatou sobre o pretendido aluguel da base espacial de Alcântara para os EUA e deu parecer negativo.

O governo Lula (e eu acho que a maioria do PT também) defende as pesquisas da Marinha de enriquecimento de urânio e do submarino nuclear.

Não foi o PT nem Lula quem lacrou a serra do cachimbo, nem assinou o tratado de não proliferação nuclear (apesar do apóio ao TNP de setores de PT como Luiz Pingueli Rosa).

O Brasil precisa de Forças Armadas bem equipadas, tecnologicamente avançadas e coesas para proteger o território nacional, e liderar um tratado de defesa sul-americana nos moldes Europeus.

Isso terá a função de erradicar conflitos bélicos entre os países membros, e dissuadir pressões políticas dos países imperialistas que costumam exercer a diplomacia do "porrete na mão", sobretudo contra os países mais pobres e fracos. Não teremos força bélica suficiente tão cedo para impor derrotas num confronto direto, mas com essa organização e coesão, teremos força política e união para dissuadir o emprego da força militar na América do Sul.

Outro ponto positivo da nova política de defesa é imitar o modelo dos países de primeiro mundo, cujas pesquisas para emprego militar acarretam uma política industrial benéfica à indústria nacional. Os investimentos militares no Brasil também função de levar infra-estrutura e desenvolvimento social em regiões isoladas do país.

sábado, 8 de setembro de 2007 02:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Não seria melhor parar de pensar as Forças Armadas como mais mecanismo de ação social ou de polícia e planejar para que tenham as funções a que realmente se destinam? Claro que não há, creio, o interesse em entrar em guerras para aquecer os músculos. Mas tb. quere que as Forças Armadas sejam uma enorme assembléia partidária, controlada por organização da sociedade civil etc. não se coaduna com a formação dos militares e suas funções. Na realidade inexiste planejamento e existe muita paranóia. Caso haja poder civil de fato, sem maniqueímos e demonizações, os militares atenderão as demandas naturalmente. É assim nas Democracias. Quando não há, surgem as vivandeiras e os chupins.

sábado, 8 de setembro de 2007 10:39:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, fico feliz em ver o seu retorno com o pique todo. Se há algo em seus textos que permite o diálogo é a exposição sem receios das próprias motivações. Quero contrapor alguns argumentos aos seus. 1) Não me parece lixo ideológico reconhecer que “nunca o povo foi protagonista de nada decisivo no Brasil”, ainda que o objetivo dos protagonistas da elite tampouco fosse o de “ferrar os de baixo”, mas resolver pendengas entre eles mesmos. A questão social, como disse um político da República Velha, era questão de polícia e não punha em questão a dominação política. Já, ideologicamente, sempre quisemos sair bem na foto da Civilização Ocidental e importamos todos os seus “ismos”: o liberalismo e o socialismo, mas também o nacionalismo de Vargas. A ausência de oposição relevante na sociedade sempre facilitou a aclimatação ideológica, em lambanças como nosso império liberal escravista. Em compensação, sempre foi difícil recuperar uma história épica, como o fazem europeus e americanos. Nossa história, na verdade, foi também um reflexo da história ocidental, mas um reflexo que vinha pela estrutura econômica, pelo lugar que conseguíssemos ocupar na divisão internacional do trabalho e que pouco tinha a ver com nossos desvarios ideológicos. 2) O nacionalismo a que você se refere é o nacionalismo que nasce com Getúlio Vargas e desemboca no desenvolvimentismo, que até a bem pouco tempo parecia muito bem de saúde. A idéia força inicial era a da industrialização, que conseguiu atrair a maior parte da esquerda de origem marxista (afinal precisávamos ter um capitalismo para poder derrubá-lo), e desembocou na defesa da indústria e da burguesia nacionais e no advento do “carro-carroça”, denunciado pelo ex-presidente Fernando Collor de Melo. Levantamos a indústria, mas nunca fomos capitalistas. De passagem, provamos que mesmo o grande capital internacionalizado sabe se servir das tetas do Estado. O problema é que a conjuntura internacional mudou e a estrutura que nós montamos – especialmente uma economia dividida entre o formal e o informal, os incluídos e os excluídos, os sindicalizados e os ao Deus dará, possível justamente porque o povo não é protagonista – nos deixa em desvantagem na divisão internacional do trabalho. 3) A origem do anti-varguismo petista remonta à história de seus líderes sindicais quando ainda faziam oposição aos que chamavam de “pelegos”, e a dificuldade que enfrentavam em lutar contra aqueles que dispunham das tetas do imposto sindical. A reforma sindical sempre foi uma bandeira do PT, mas ele talvez tenha descoberto que além de tomar o poder precisa também sobrepujar nossa corte. A propósito, faltou encaixar por ai que não desprezo a defesa da nacionalidade, e concordo com a necessidade de aparelhar as forças armadas e ocupar o espaço que podemos ocupar na organização dos interesses da região (mas talvez discorde do grau de prioridade que essa questão deva merecer).

sábado, 8 de setembro de 2007 13:07:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

O seqüestro do nacionalismo pelo estatismo - que me parece subjacente a muito do que você escreve - aliena da causa nacional a centro-direita, ou seja, 40% da população brasileira (a que votou em Alckmin) e 60% da população com 11 anos ou mais de estudo ou renda familiar acima de R$ 3.000 (está meio chutado/também número dos que votaram em Alckmin).

É possível ser simultaneamente cosmopolita e nacionalista, desde que a gente limpe da palavra nacionalista todo o lixo ideológico (para ficar na sua terminologia) do nacional-estatismo, que fez sentido econômico numa época e hoje não faz mais, e que não é uma condição a priori do sentimento nacional - se fosse, não haveria sentimento nacional em países onde prevalece o setor privado, como EUA e Inglaterra)

sábado, 8 de setembro de 2007 19:10:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon: Apoiado. Viva o Brasil!! (adoro essa frase).
Um abraço.

sábado, 8 de setembro de 2007 20:51:00 BRT  
Blogger Frodo Balseiro disse...

Alon
Gostaria que você explicasse o que vem a ser "questão nacional".
Não estou sendo irônico. Realmente não consigo entender essa coisa de nacionalidade. Alguem já disse que "o patriotismom é o último refúgio dos canalhas". Uns dizem que foi nelson Rodrigues, outros que não foi ele. Pouco importa!
O fato é que isso tudo me parece uma conversa medieval, com os cavaleiros do rei vestindo "as cores do vilarejo"! Que coisa mais rançosa!
Por um lado a esquerda quer ser internacionalista, por outro fica amarrada numa xenofobia de fazer dó!
Nossos pretos desdentados são mais dignos de dó, compaixão, solidariedade do que por exemplo os da Etiópia?
E esse "regionalismo" então? O que temos em comum por exemplo com a Bolívia? Ou Paraguai? Ou só porque são igualmente pobres configuram uma certa "identidade"? E identidade em que?

domingo, 9 de setembro de 2007 07:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Penso assim!
Se quiserem invadir a amazônia com exércitos, quebrarão a cara.
Se a Argentina quiser invadir o Brasil, estarão lá nossas forças armadas.
Quem quer invadir o RS?
Carros de combate não servem prá nada na amazônia.
Está sendo tomada de outra forma.
E nossos generais?
Esperam a invasão pela baia de Guanabara?
Risivel...
Há um militarisdmo no sul, que devido a nossa história, achavam que dali viria a ameaça.
A ameaça vem do norte. Mas quem quer ser um oficial de nossas forças armadas vivendo no calor e na dificuldade de comunicação da amazônia.
General quer mesmo é viver em lugar bom.

domingo, 9 de setembro de 2007 15:40:00 BRT  
Blogger Paulo Lotufo disse...

Alon, muito bom. Aproveitei a deixa e inseri seu comentário no meu blogue. Cada vez mais desconfio dos movimentos sociais que negam qualquer momento histórico, como é o caso dos movimentos da igreja católica. O revisionismo histórico chegou a um limite tal que tudo deve ser negado, a não ser claro, aassembléia de São Bernardo onde um desconhecido dirigente sindical denunciou o cálculo da inflação cinco anos antes.

domingo, 9 de setembro de 2007 23:42:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Lendo o seu blog, lembrei-me de Sérgio Porto:a fonte para compor o "Samba do Criolo Doido", deve ser a mesma.Sai a rainha Leopoldina, e o seu cortejo e ingressa José Bonifácio
de Andrada e Silva!

segunda-feira, 10 de setembro de 2007 10:19:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Alon,

Você já tem uma pauta para a TV Brasil. Só falta combinar com o Belluzzo.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007 11:10:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Alon

Concordo plenamente com a critica ao revisionismo e aos manuais de historia do Brasil que fazem a divulgacao rasteria dessa moda, que ganhou forte publicidade a partir de meados dos anos 70 atraves dos intelectuais marxistas ligados as universidades.

A rigor, nossa identidade nacional e uma construcao do seculo XIX, continuada por intelectuais de diferentes matizes no inicio do sec. XX.

Como curiosidade, cito Plinio Salgado, talvez o nosso principal pensador e ideologo da identidade nacional e primeiro critico do cosmopolitismo que voce abomina. Sim, Plinio era defensor do estado forte. Prestes tambem era. Ambos eram criticos radicais do liberalismo.

Plinio Salgado foi um influente jornalista. O capitao Joao Alberto, interventor em SP na ocasiao da revolucao de 30, fez questao de conhece-lo. Seus artigos era lidos com entusiamo em Buenos Ayres pelos antigos participantes da coluna Prestes. A Plinio Salgado foi confiada a redacao do Manifesto da "Legião Revolucionária" de Miguel Costa.

Sou um critico do autoritarismo e conservadorismo politicos no Brasil. Mas nem por isso me e permitido sair por ai dizendo que o Plinio Salgado foi o "fundador do fascimo brasileiro". Que ele era simpatizante do fascismo italiano todos que lemos seus textos sabemos. Vargas tambem era. Mas dai sair dizendo que foi um fascista... Li umas cartas do consul iatliano da epoca dizendo que os integralistas eram um perigo e um contraponto a divulgacao do fascismo italiano na colonia.

Outra curiosidade: recentemente um pesquisador da UNB disse que encontrou correspondencia de Juscelino Kubitschek na qual ele afirmava que a ideia de Brasilia nasceu apos a leitura de um livro do modernista Plinio Salgado. Tentei localizar a fonte, mas nao encontrei.

Um reparo. A expulsao dos holandeses, assim como os chamados movimentos nativistas e as Inconfidencias, nao sao a expressao do nosso nacionalismo em germe. Nao havia na cabeca dessa gente nada semelhante com a ideia de nacionalismo, que surgiu no sec XIX. Todos, incluidos os inconfidentes, viam-se como portugueses.

Ha dois livros muito interessantes para quem quiser saber mais:

A interiorização da metrópole e outros estudos
Maria Odila Leite da Silva Dias
Editora Alameda

"Maria Odila está preocupada com a continuidade das elites dirigentes antes e depois da Independência. Para ela, o projeto nacional de construção do Estado brasileiro nasceu do projeto ilustrado concebido pelo Marquês de Pombal. As elites coloniais viveram mais em conivência com as autoridades portuguesas do que em conflito. É o que torna sui generis o processo de separação de Portugal, que se deu quase a contragosto, diz a historiadora. As elites dirigentes do Império implementaram o seu projeto de nacionalidade através da consolidação da hegemonia do Rio de Janeiro sobre as demais províncias do Brasil, retomando o processo colonizador, as relações de nepotismo e de confusão do público e do particular."

O outro e o livro do historiador mineiro João Pinto Furtado: O Manto de Penelope. Cia das Letras

"Em confronto com a visão mítica e heróica criada em torno de Tiradentes, João Pinto Furtado retorna à historiografia da Inconfidência Mineira para dar contornos mais humanos à figura de Joaquim José da Silva Xavier. O autor mostra de que maneira, ao contrário do que se acredita, o alferes estava mais próximo das instituições do Antigo Regime português do que dos ideais do liberalismo, da democracia e da independência.
A partir da análise dos interesses e das convicções políticas dos expoentes do movimento - alguns deles mineradores e senhores de escravos -, Furtado levanta questões a respeito da suposta unidade do movimento. Não teriam surgido discordâncias e conflitos entre os conspiradores? A repressão empreendida pelo absolutismo real português teria sido efetivamente o fator decisivo para o seu fracasso?
Assim como Penélope tecia, desmanchava e voltava a tecer seu manto, à espera do retorno de Ulisses, o autor desfia a historiografia sobre a Inconfidência e empreende um jogo de luz analítico que distingue o que é próprio do evento daquilo que foi construído posteriormente. Aqui, separa-se o que é memória do que é mito, em nome de uma versão mais confiável da história, elaborando assim uma nova tessitura crítica sobre o movimento mineiro."

Sobre Pombal, que sabia da importancia dos cosmopolitas capitais judaicos para a modernizacao de Portugal e acabou com a denominacao "cristao novo" (proibiu-a em protigal. A plebe que insistisse era chicoteada em publico. Os nobres insistentes, perdiam titulos e bens) e com a proibicao aos judeus de lecionar e estudar nas universidades portuguesas:

“Há 500 anos uma multidão imbecil matou 4000 judeus em Lisboa, e expulsou de Portugal alguns dos seus mais cultos filhos. A perseguição durou séculos... até ao Marquês de Pombal a quem o rei D. José pediu que decretasse um distintivo obrigatório para quem tivesse sangue judeu. No dia seguinte, Pombal apareceu com três distintivos ao peito. O rei perguntou a razão e Pombal respondeu: “Um por mim, outro pelo inquisidor-mor e outro por Vossa Majestade.” Judeus somos, os portugueses, todos um pouco. Ignorantes de nós somos todos muito.”


Enfim, Alon nao da para falar de nacionalismo como um bem em si mesmo. No entanto, concordo bastante com o post. O problema e que voce, nao raro, levanta aqui questoes que nao sao simples.

abs.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007 13:41:00 BRT  
Blogger Joaquim disse...

Sei, Alon, que a imprensa sempre trabalha em cima de contradições, mas por que não explicar a "briga" do Jobim com os comandantes militares? Por que esses comandantes não querem dizer onde estão os corpos, se não lhes cabe culpa nenhuma pelo seu desaparecimento? Por que esse ranço?
Outra coisa: tá na cara que a oposição, ao vetar Sarney e indicar Jarbas, tá querendo mesmo é criar uma crise no Senado contra o governo Lula. Talvez, aí, Renan tenha razão - eles não querem moralizar o Senado coisa nenhuma.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007 19:12:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Para que possamos melhor analisar a proposta do Alan há um livro rescente que aborda a geo-política brasileira: Desafios Brasileiros Na Era dos Gigante, de Samuel Pinheiro Guimarães. É imperdível. Realmente nossos inimigos não estão nas fronteiras do sul, e sim no interesse sobre a Amazônia, e na disputa comercial mundo à fora.

Rosan de Sousa Amaral

segunda-feira, 10 de setembro de 2007 21:28:00 BRT  
Anonymous Richard Lins disse...

Talvez nosso maior e mais antio problema é que o povo nunca acreditou muito nos caminhos que lhe foram oferecidos. Sim, o Brasil parece que sempre foi um desfile de movimentos de elite.

terça-feira, 11 de setembro de 2007 14:55:00 BRT  

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