quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Antiprotagonismo (19/09)

Confesso a vocês que escrevi pouco nos últimos dias porque ando meio enfastiado, meio cheio dos assuntos sobre os quais me sinto obrigado a escrever apenas para não me omitir. Eu gostaria de poder escrever apenas sobre coisas realmente relevantes, como por exemplo a abertura ampla e irrestrita na internet dos arquivos no The New York Times, desde 1851. Sim, o NYT digitalizou todas as suas edições e elas estão agora disponíveis. Bem como o conteúdo diário do jornal, em sua plenitude. Pela importância histórica do fato, transcrevo o comunicado do NYT aos seus leitores contando a boa nova:

A Letter to Readers About TimesSelect

Dear NYTimes.com Readers:


Effective Sept. 19, we are ending TimesSelect. All of our online readers will now be able to read Times columnists, access our archives back to 1987 and enjoy many other TimesSelect features that have been added over the last two years – free.

If you are a paying TimesSelect subscriber, you will receive a prorated refund. For more information, please go to our TimesSelect FAQ.

Why the change?

Since we launched TimesSelect in 2005, the online landscape has altered significantly. Readers increasingly find news through search, as well as through social networks, blogs and other online sources. In light of this shift, we believe offering unfettered access to New York Times reporting and analysis best serves the interest of our readers, our brand and the long-term vitality of our journalism. We encourage everyone to read our news and opinion – as well as share it, link to it and comment on it.

We welcome all online readers to enjoy the popular and powerful voices that have defined Times commentary – Maureen Dowd, Thomas L. Friedman, Frank Rich, Gail Collins, Paul Krugman, David Brooks, Bob Herbert, Nicholas D. Kristof and Roger Cohen. And we invite them to become acquainted with our exclusive online journalism – columns by Stanley Fish, Maira Kalman, Dick Cavett and Judith Warner; the Opinionator blog; and guest forums by scientists, musicians and soldiers on the frontlines in Iraq. All this will now reach a broader audience in the United States and around the world.

This month we mark the 156th anniversary of the first issue of The New York Times. Our long, distinguished history is rooted in a commitment to innovation, experimentation and constant change. All three themes were plainly evident in the skillful execution of TimesSelect; they will be on full display as NYTimes.com becomes entirely open.

Sincerely,
Vivian Schiller

Senior Vice President & General Manager
NYTimes.com

Bom proveito às novas gerações de leitores. Mas, como o título já deixa claro, este post não é sobre o NYT. É sobre o protagonismo jornalístico, que citei dois posts atrás. Vocês sabem que é raríssmo eu escrever sobre jornalismo. Em primeiro lugar, porque penso que jornalismo deveria ser como o futebol. Cada um bate a sua bola. E a torcida decide se é o caso de aplaudir ou de vaiar. Claro que vai ter sempre os que jogam melhor e são contratados pelo Milan. Como o gaúcho Alexandre Pato [corrijo: ele é paranaense, de Pato Branco]. Vai ter também o que não joga tão bem assim, mas dá para o gasto. E sempre existirá ainda quem consiga o supremo privilégio de, vestido inteiramente de branco, pisar o gramado da Vila Belmiro, onde jogou aquele que jamais será igualado. Jornalismo, assim como o futebol, é bola na rede (ou evitá-la). Não sei de boleiro que tenha se dado bem falando mal dos outros. A profissão de jornalista não se confunde com o ofício de comentarista jornalístico. Por isso é que resisto a discorrer sobre jornalismo. Quando o faço, procuro limitar-me ao conteúdo do trabalho jornalístico. Um debate que tento sempre evitar (e deleto um monte de comentários com essas características) é sobre por que fulano escreveu tal reportagem (ou comentário, ou editorial). Quem poderá afirmar certezas absolutas sobre as motivações últimas do jornalista? Ninguém. Nem ele próprio. De tempos para cá, virou moda dizer que fulano escreveu (ou deixou de escrever) isso ou aquilo para não melindrar suas fontes de renda -reais ou imaginárias. Parece-me uma discussão perigosa. Todo jornalista é pago por alguém para exercer a sua profissão. Por exemplo, tem jornalista que dia sim outro também escreve coisas com as quais o patrão dele concorda. E daí? Significa que ele só escreve aquilo só porque o patrão vai gostar? Nada disso. O sujeito escreve porque acha que deve escrever. E ponto final. Você consegue saber se a pessoa tem um compromisso verdadeiro e orgânico com a liberdade de imprensa quando ela não apenas defende que o sujeito tenha o direito de escrever o que quiser, mas quando respeita o que o sujeito escreveu, ainda que discorde. É fácil para qualquer um encher a boca e se declarar um paladino da liberdade de imprensa. O duro é você evitar sistematicamente a tentação de desqualificar o outro, o oposto, o adversário. Mas vamos ao protagonismo [Houaiss: diz-se de ou o personagem mais importante do teatro grego clássico, em torno do qual se constrói toda a trama]. Jornalista não é notícia. Quando passa a ser, é porque algo está fora do lugar. Jornalistas enganam-se quando imaginam que os leitores-consumidores estão ansiosos para saber a opinião dos jornalistas sobre os assuntos. Colocando as coisas com clareza, o jornalismo é apenas a arte de contar uma história com o objetivo de fazer o leitor ficar sabendo de alguma coisa que não sabia. E o jornalismo opinativo? E o jornalismo interpretativo? Os melhores professores dessas disciplinas sempre ensinam que a opinião e a interpretação, para serem eficazes, exigem de quem opina ou interpreta que alinhave informações e fatos que possam sustentar a opinião ou interpretação. O protagonismo é uma doença infantil do jornalismo. É o jornal ou o jornalista querendo ser mais importantes do que a notícia. É o jornal ou o jornalista querendo ser mais notícia do que o personagem da notícia. O que é mais relevante: saber se 1) o jornal "x" acha que o político "y" deve ser cassado ou 2) o leitor de "x" conhecer em profundidade os fatos que envolvem o pedido de cassação e a evolução do processo contra "y"? Naturalmente, você sempre poderá argumentar que a coexistência entre as duas coisas é possível. Eu tenho dúvidas. Jornais ou jornalistas excessivamente preocupados com sua própria opinião ou com suas próprias "causas justas" tornam-se "militantes" em excesso. Isso os empurra mais ainda para a subjetividade, além da conta. E a subjetividade é a mãe do arbítrio. Meu ponto de vista é que o bom jornalista deve relatar qualquer assunto com o máximo de frieza e distanciamento. Mesmo nos casos em que é quase impossível não ter opiniao forte e definida. Aliás, quando você tiver opinião sobre um assunto, diga claramente qual é, se for o caso de dizer. Vamos imaginar o repórter que acompanha tropas que encontram um campo de extermínio. O repórter vai chorar, vai sentir vontade de vomitar, vai revoltar-se. Mas, quando for fazer a matéria (expressão em desuso), sua tarefa central será descrever o que viu, contar o que viu. Com bem mais acertos do que erros, com bem mais vitórias do que derrotas, é isso o que o NYT faz há um século e meio. Agora que eles abriram os arquivos, vai ficar mais fácil para quem deseja estudar e aprender o que é jornalismo. Com a vantagem de que os materiais de 1987 para cá são de graça. É só se cadastrar.

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11 Comentários:

Blogger Cláudio Ladeira disse...

Êpa, êpa, êpa... Sem querer ser chato mas sendo, Alexandre Pato é paranaense de Pato Branco.
Abração

quarta-feira, 19 de setembro de 2007 23:30:00 BRT  
Blogger Cláudio Ladeira disse...

E no mais, parabéns pelo excelente post!

quarta-feira, 19 de setembro de 2007 23:33:00 BRT  
Anonymous Vera disse...

"...o bom jornalista deve relatar qualquer assunto com o máximo de frieza e distanciamento." Foi isso exatamente que me ensinaram, "séculos atrás", quando eu trabalhei em um grande jornal do Rio. E a síntese desse ensinamento me ficou na memória na frase de um copy-desk que revisava uma matéria minha: "Corte a maioria dos adjetivos. Fique com os substantivos. Adjetivos só os absolutamente indispensáveis para caracterizar uma situação observada." É isso, mas hoje em dia, há matérias na imprensa que uma sequência de adjetivos, opiniões, aparentando a descrição de fatos. Isso quando a escolha do assunto em si já não é produto de uma enorme adjetivação. Parabéns pelo post.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007 09:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O que é assunto relevante?Um blog que se intitula de esquerda e democrático não pode fazer este tipo de juízo de valor ou a democracia de esquerda não implica em consulta aos demais?Fazemos o que é certo porque achamos que é certo e isto é democrático.Menos,menos...

quinta-feira, 20 de setembro de 2007 10:47:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Nunca pensei que isso aconteceria um dia, mas ultimamente para ter um panorama real do que se passa de fato no Brasil, tenho que recorrer à imprensa estrangeira (além dos blogs, é claro). Em português, tem Reuters e BBC Brasil.
A própria Radiobrás tornou-se imprenscindível fonte de informações, senão não temos acesso a determinadas informações importantes, principalmente em políticas públicas. O lançamento do satélite CBERS-2B é um exemplo claro, o controle bimestral de frequência escolar para beneficiários do bolsa família é outro exemplo.
Até a imprensa Argentina tem dado furos sobre assuntos brasileiros e latino-americanos, sub-noticiados no Brasil.
Se sair de casa lendo ou assistindo apenas a mídia tradicional brasileira, saio muito mal informado, com um visão extremamente pessimista do Brasil que não corresponde à realidade.
Outra coisa estranha no Brasil, é como veículos da mesma Editora, tem viés diferentes. Um caso típico é o Valor Econômico, mas mais curioso é a imprensa popular.
No Rio O Globo atende ao que público conservador de direita quer ler. O Jornal Popular Extra, tem uma pauta popular que enxerga o governo de outra forma bem mais favorável.
Acho que em São Paulo acontece o mesmo com A Folha e o Agora SP. Ou com o Estadão e o Jornal da Tarde.
Para dar um exemplo recente, quando o governo incluiu na LDO contratação de mais pessoal, o Globo, Folha e Estadão condenam o aumento do Estado (de forma simplista até, sem analisar a susbstituição de terceirizados, e a necessidade de repor déficits de pessoal).
A mesma notícia no Extra, Agora SP e o JT é saudada como abertura de vagas em concursos públicos nas manchetes.
Os Blogs tem tido a função da antiga imprensa alternativa (Pasquim, Voz da Unidade, Repórter, etc). Não são agências de notícias, mas trazem diversidade à visão dos fatos.
Na época do Pasquim, etc, o problema era a censura do Estado. Hoje o problema é a censura das próprias empresas de mídia, nas linhas editoriais.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007 11:24:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Muito legal o post. Espero que sirva aos novos jornalistas. De minha parte (não sou novo e nem sou jornalista), te digo que aprendo muito aqui, concordando e discordando com você.

Certa vez citei aqui a anedota de Hegel sobre a a velhinha e a mocinha e os ovos podres ou não podres. O post (os princípios que você defende) é aplicação pura do ensinamento da anedota ao trabalho do jornalista.

Segue a anedota, contada pelo professor Roberto Romano:

"Havia uma velhinha que vendia ovos na feira e, um dia, uma mocinha bonita, elegante, bem vestida, chegou à sua venda e disse que os ovos que havia comprado na semana anterior estavam podres. A velhinha, então, começou a dizer à moça que todos na vila sabiam que a mãe dela havia fugido com um soldado francês e que todos também sabiam da maneira como ela arrumava dinheiro para se vestir bem e ser tão elegante - ou seja, a velhinha, para escapar da acusação de que havia vendido ovos podres, afirmou que a moça era prostituta. Ora, seja ela prostituta ou não, o que importa é que os ovos estavam podres. Quando se tem um veículo da mídia, ele pode ser até mesmo uma prostituta, mas é preciso checar se o que ele diz é verdade ou não."

PS: Agora entendi muito bem o sentido do post sobre o protagonismo.

PS: Mas fiquei novamente intrigado. Agora com a frase "Eu gostaria de poder escrever apenas sobre coisas realmente relevantes". Um corajoso desabafo, eu suponho.

Forte abraço. '

quinta-feira, 20 de setembro de 2007 11:39:00 BRT  
Anonymous Na Prática a Teoria é Outra disse...

Alon, me solidarizo com seu desânimo em comentar o noticiário atual. Projeto importante ninguém discute. Você abre o jornal e não tem nenhuma idéia nova. Está feia a coisa.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007 12:21:00 BRT  
Anonymous Artur Araujo disse...

Caro Alon, haja Stanislavski para treinar jornalistas segundo sua receita... e haja defensivo para combater a síndrome de mariposa.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007 12:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Aqui no Brasil se vc. só for escrever sobre o que é realmente importante vc. vai ficar à toa um tempão...
Somos a pátria dos discursos sem nexo e sem consequência. Da inaguração das pedras fundamentais, que nunca terminam em nada. Um xerox de jornal velho dá conta do recado, é só mudar a data.
Sds., de Marcelo.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007 14:50:00 BRT  
Anonymous guimas disse...

Parabéns pelo post Alon. Eu faria um adendo: essa coisa do protagonismo me chama atenção não só porque há um óbvio desdém por notícias importantes, mas parece que há um "Índice Provável de Polêmica (IPP)" embutido em cada notícia: quanto maior o IPP, maior é o esforço na cobertura da notícia.

Ultimamente, parece que se não pode se associar uma polêmica subjetiva, negativa e pessimista a uma notícia, sua cobertura definha e ela morre.

É triste, mas espero que os jornalistas "não-protagonistas" que estão por aí vençam e tornem a mídia um pouco mais digerível.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007 15:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, poupe o seu fígado. O assunto do momento é o Kerlon (do drible da foca). Você é a favor da caça às "focas", ou defende o futebol moleque, o futebol arte - veja que deixei apenas múlplica escolha de 2 opções.
Abraços,
Rosan de Sousa Amaral

quinta-feira, 20 de setembro de 2007 17:30:00 BRT  

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