terça-feira, 28 de agosto de 2007

Tautologias (28/08)

Eu gostei de ter participado do Roda Viva de ontem (veja o post anterior), com o professor Alberto Carlos Almeida, autor de A cabeça do brasileiro. Também porque o professor debateu democraticamente, procurou responder a todas as dúvidas e críticas. Em nenhum momento ele foi arrogante ou se colocou como detentor do único saber legítimo. Ele defendeu sua pesquisa e suas conclusões, como era natural, mas ouviu com atenção o que lhe perguntavam, não tergiversou nem fugiu dos questionamentos. Além do mais, o debate-entrevista não teve meias medidas, foi desprovido tanto de solenidades quanto de fricotes. Ao longo da discussão, eu consolidei minhas diferenças com a visão de mundo que o professor apresenta, bem como minhas diferenças com a pretensão ética presente em sua obra e seu discurso. Começo pela metodologia. Eu lhe perguntei como ele explicava que os menos instruídos aceitem mais o jeitinho se os de instrução mais elevada, paradoxalmente, são quem mais pratica o jeitinho, como ele próprio observou em sua pesquisa. O professor respondeu que o jeitinho é uma coisa para o menos instruído e outra coisa para o mais instruído. Aí o Cláudio Weber Abramo percebeu o problema lógico-metodológico e disse que se os conceitos de jeitinho são diferentes não dá para dizer que uns aceitam mais o jeitinho do que os outros. Se você a partir de hoje chamar as maçãs de bananas isso não implicará que quem gosta de maçãs passe automaticamente a gostar de bananas. Eis o problema central da pesquisa do professor: ele adota a visão de mundo da elite escolarizada como referência de modernidade e a partir daí conclui que a elite escolarizada é moderna. A ciência dá lugar à tautologia. Duas perguntas que fiz no programa convenceram-me disso. Perguntei ao professor por que a pesquisa não tinha se preocupado em medir valores como solidariedade, desprendimento, altruísmo, disposição para a filantropia. Ele disse que não dá para pesquisar tudo, que é preciso fazer escolhas. A resposta diz bem sobre os valores que o professor considera mais modernos e menos modernos numa dada sociedade. A modernidade cultuada pela obra do professor é uma modernidade dos séculos 18 e 19, fundada no individualismo, no hedonismo, no agnosticismo e na crença absoluta de que o indivíduo é capaz de salvar a si próprio por cima de todas as coisas. Vejamos, por exemplo, a questão do estado. A elite escolarizada cultiva o horror ao estado. Porque acha que não precisa do estado que ela sustenta com os seus impostos. Os de escolaridade menor gostam do estado porque percebem que só o estado pode lhes oferecer serviços de saúde, educação e segurança. De acordo com a elite escolarizada, essa última seria uma visão arcaica e menos democrática. Com o que parece concordar o professor. Então, como ele e a elite escolarizada concordam, isso naturalmente deve ser verdade. De volta à tautologia. Outro ponto que me chamou a atenção na pesquisa foi quando se perguntou sobre religião e Deus (a outra pergunta decisiva para que eu formasse a minha opinião). Os menos escolarizados têm mais religiosidade do que os demais. O professor considera que religiosidade é um fator de arcaísmo, e esse é um ponto a reforçar sua tese de que os menos escolarizados representariam a parte arcaica da sociedade brasileira. Eu penso o contrário, penso que a religiosidade e o reforço da família são modernos, porque ajudam a mitigar os impulsos individualistas, hedonistas e consumistas que ameaçam as bases da convivência social em sociedades como a nossa, especialmente entre os mais jovens. Nesse sentido, eu penso que o povo talvez seja mais moderno do que a elite. São dois pontos de vista. Mas eu não pretendo escrever um livro para dizer que os que pensam como eu são definitivamente os modernos e os que pensam diferente, os arcaicos. Ainda sobre religião, eu disse ao professor no programa que todas as grandes religiões monoteístas proíbem roubar. Há um mandamento específico sobre isso. Se os menos instruídos são mais religiosos, qual é o sentido de esse grupo social ser, segundo a pesquisa, mais tolerante à corrupção, que é roubo? A religiosidade do brasileiro é de fachada? O professor escapou dessa colocando a culpa no catolicismo, que segundo ele estabelece uma cultura do perdão. Pelo visto, trata-se de um seguidor de Martinho Lutero. Sinceramente, penso que nesse ponto o professor chutou. Concluo, para pegar o avião de volta a Brasília. A ética subjacente à obra do professor Alberto Carlos Almeida é a ética do grupo social a que pertence o professor. Segundo a plataforma ideológica exposta em sua obra, alcançaremos o paraíso quando todos pensarem como ele. Só que isso não chegará a acontecer. Pela mesma razão por que não é possível a parte pobre do mundo atingir os padrões de consumo da parte rica sem destruir o planeta. O sonho ideológico de um mundo homogeneamente desenvolvido com base numa cultura e numa economia fundadas no individualismo, no racionalismo, no consumismo, na recusa a Deus e às formas coletivas de convivência, na recusa ao reconhecimento dos limites do homem, tudo isso não passa de um sonho louco e irrealizável, uma caricatura pós-iluminista. Nesse sentido, professor, ao contrário do que o senhor afirma, talvez a consciência dos seus limites torne as pessoas menos escolarizadas mais modernas do que a arrogante, arcaica e prepotente elite que o capitalismo produz e reproduz diariamente.

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31 Comentários:

Blogger Ricardo disse...

Bem, poderia se dizer que uma sociedade baseada nos valores que você citou estão num plano mais arcaico do que o próprio mdoernismo científico: afinal, solidariedade, filantropia e os demais valores que citou podem ser encontrados nas tribos do Xingu, e nada leva a crer que se tratam de povos mais "modernos" e "avançados". Portanto, não vi tautologia alguma nos conceitos apresentados pelo pesquisador.
Além disso, seu conceito de que não é possível se viver melhor fundado no individualismo (que prego, por sinal, já que busco respeitar a primeira e única lição válida - respeite aos outros como respeita a ti mesmo) não tem sustentação nas sociedades mais avançadas, como a sueca e finlandesa - países claramente individualistas. Portanto, sua lógica é tão ou mais tautológica quanto a do pesquisador.

Volto à pergunta: você não acredita que povos mais educados são menos tolerantes à corrupção? É dessa "elite" que o pesquisador fala, não da elite petista, alagoana etc., por exemplo, que possuem dinheiro mas não educação.

terça-feira, 28 de agosto de 2007 11:46:00 BRT  
Anonymous Sofista disse...

Alon!

Concordo com a tua análise.
Este "sociólogo" parece o "farol":ilumina os "doutos".
Cruz-credo!
Para que estudaram "tanto"?

terça-feira, 28 de agosto de 2007 11:59:00 BRT  
Anonymous Ribas disse...

Alon, o que me chama a atenção nessa pesquisa é a velha cantilena de demonização do estado. Quando ouço e leio que a "nossa elite" dirige toda a sua fúria contra o estado, divirto-me, pois é esta mesma elite que canta loas à cultura, modo de vida e economia dos EUA, sem se dar conta (ou por falta de conhecimento) que não existe, hoje, estado tão forte, tão poderoso e intervencionista quanto o norte-americano. Minha vó diria “durma-se com um barulho destes!” . Parabéns pelo teu blog.

terça-feira, 28 de agosto de 2007 12:27:00 BRT  
Blogger Frodo Balseiro disse...

Ricardo
Muito boa a sua análise! Irrespondível!

terça-feira, 28 de agosto de 2007 12:41:00 BRT  
Anonymous Cadú disse...

Parabéns pela suas indagações feitas ao professor e pesquisador Alberto Carlos Almeida. Não sei se era a sua intenção, mas você acabou levando o professor a se posicionar sobre o que ele considerava como referência de valores ideais da modernidade. E nesse sentido, a pesquisa se torna viciada, pois que há uma tendência de homologia estrutural entre o sistema de valores subjetivos do pesquisador e o sistema de valores objetivo da "Elite". Assim, a pesquisa acaba reificando o conceito de moderno e desconsiderando os aspectos relacionais e culturais envolvidos na apreciação dos diversos agentes sociais sondados. Por outro lado, de certa forma a pesquisa faz emergir dois fenômenos importantes pouco problematizado nas ciências sociais brasileira: a existência de uma rede de solidariedade e sociabilidade bastante presente nas relações das camadas sociais mais "perífericas" no Brasil; E uma "resistência" por parte dessas camadas em interiorizar - sob a forma de percepção e ação - valores tais como individualismo, hedonismo e consumismo efêrmero. É lamentavel que, para o professor, a não incorporação desses valores represente sintomas de puro "arcaísmo"...!

terça-feira, 28 de agosto de 2007 12:48:00 BRT  
Anonymous Joel disse...

Olha Alon, eu concordo mais com o Alberto do que com você. Quem conhece o interior do Brasil percebe que, quanto mais pobre a região, seu povo é mais tolerante com a corrupção sim. Com isso não afirmo que "as elites" não tolerem delitos, só afirmo que, aquele que tem maior grau de instrução, tem uma tendência natural de se constranger com determinadas ações, mesmo que as pratique. Em outras palavras, a auto-censura do "culto" é mais forte que a do ignorante. Morei dois anos no nordeste e pude perceber isso. Lá as pessoas encaram com naturalidade o assalto aos cofres públicos por exemplo. Quando você deixa transparecer que os valores de solidariedade, benevolência são uma exclusividade dos mais pobres, enquanto que o individualismo é uma característica da classe mais rica, esquece que, quando perguntado aqueles de renda mais baixa o que fariam quando assumissem um cargo político importante, a grande maioria responde que tentaria garantir o seu lado, como faz a grande maioria da classe política.

terça-feira, 28 de agosto de 2007 13:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ensinemos aos pobres as virtudes do liberalismo clássico. Eles continuarão pobres, mas serão aliados nossos na crítica ao excesso de carga tributária e de atividades estatais.

terça-feira, 28 de agosto de 2007 13:36:00 BRT  
Blogger Nehemias disse...

Bom,

Sociedades escandinavas não podem ser tomadas como exemplo de pouca participação do estado na economia. Na Suécia, por exemplo, cerca de 50 % do que se produz fica com estado (que dá em troca excelentes serviços, diferentemente do Brasil).

Alías, o conceito de que sociedades protestantes tem menor afinidade pela atuação do estado (que foi repetido várias vezes na entrevista) é igualmente falso. De modo geral, os protestantes anglo-saxônicos sempre desconfiaram do estado (ex. EUA), mas os do continente europeu o abraçaram. Tanto é que, além dos escandinavos, os alemães mantem um "Welfare State", por excelência.

De fato, sociedades com maior escolarização são, em tese, menos tolerantes com a corrupção, ou práticas arcaicas. Mas isso pode ser explicado não pela melhoria do valores éticos básicos da população, mas pelo aumento da capacidade de reinvidicar e cobrar o governo.

Ou seja, mais educação é sempre desejavel. Mas não resolve tudo. Como vcs sabem, Cuba tem taxas de escolarização altíssimas, mas duvido que o professor considere esse um modelo de sucesso de sua teoria.

Nehemias

terça-feira, 28 de agosto de 2007 13:51:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
assisti o Roda Viva ontem e discordo da sua análise. O tal professor em nenhum momento ofereceu qualquer forma de recomendação ou avaliação de ricos e pobres. Ele apenas apresentou o livro feito com base nas pesquisas de campo feitas por ele mesmo e equipe. Os resultados, os que vi na Veja (que fez uma análise torpe dos mesmos), são quase óbvios ululantes. A melhor afirmação do professor foi a respeito da afirmação de que o Lual foi eleito pelos ignorantes: "Não só o Lula, mas o FHC e os próximos presidentes também o serão, por uma questão de número de eleitores". É óbvio, mas poucos entendem. Fiquei admirado como alguns de seus coleguinhas não sabem o que é média. Ficaram o tempo todo procurando exceções e extremos, que só corroboram a idéia das tendências tiradas pela média (esquecem-se de que médias e percentagens sempre carregam uma certa dose de falácia). No geral, valeu pela advertência do Da Matta: ninguém pode ser contra estender a educação para todos. O País vai ser melhor quando passarmos a acumular diplomas em vez de superávits primários.
Sds., de Marcelo.

terça-feira, 28 de agosto de 2007 14:06:00 BRT  
Anonymous Mateus Toledo disse...

Perfeito.
Voçê, definitivamente, conquistou um leitor.
Só acho que voçê deveria ter exposto isso no programa.
Apesar de terem saido de voçê e do Abramo as melhores perguntas.

terça-feira, 28 de agosto de 2007 14:16:00 BRT  
Blogger Sidarta Cavalcante disse...

Ricardo, você acha que individualismo combina com "respeite aos outros como respeita a ti mesmo"? É isso que é individualismo? Ou o que nós estamos querendo tratar aqui é o respeito tanto à individualidade quanto à coletividade? Nesse aspecto, e também dentro da frase citada por você, Ricardo, penso que o pensamento do Alon é mais sensato que o do professor.

terça-feira, 28 de agosto de 2007 14:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Prezado Alon, parabéns pelo post e pela participação no Roda Viva. Aliás, parabéns à produção do programa: Roberto DaMatta, Alon, Lobão...Finalmente caras novas no Roda Viva - que essa disposição venha pra ficar!
Z.E.H.

terça-feira, 28 de agosto de 2007 14:55:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Gostei da sua intervenção quando você colocou o amor dos mais pobres ao estado por questões práticas. Acho que é isso mesmo, assim como os empresários que lidam com o estado terem esta mesma "filia".
Mas esta história de que o povo é bom e as elites são ruins....não dá mais para aceitar. O povo e as elites financeiras compartilham do mesmo valor (contraria a conclusão do livro, esta minha opinião), quando o povo vira elite, age de modo semelhante ou ainda mais deletério.
O que o livro mede é que com o aumento da escolaridade formal, a noção de certo e errado se aprimora. Acho que é a única conclusão que se pode chegar com o livro.
Solidariedade, desprendimento, altruísmo, disposição para a filantropia.....Alon, de novo? De boas intenções o inferno está cheio. Deixe de bom-mocismo. Em relações internacionais, política externa e interna, administração pública, estas palavras simplesmente não tem lugar. Só em sermão de igreja.

terça-feira, 28 de agosto de 2007 16:15:00 BRT  
Anonymous Duda disse...

o interessante nos argumentos dos que concordam com o Prof. Carlos Alberto é a completa ausência de questionamento em relação ao seguinte: se os cargos de governo são, necessariamente, preenchidos pela elite de nosso país, porque diabos a corrupção aparentemente se espalha por todos os níveis de governo?
Se a elite é tão ética assim, porque todo mundo prefere dar um dinheiro ao guarda ao invés de pagar multa?
se a elite é tão cheia de bons valores, porque são os filhos da elite que saem de casa para espancar prostitutas e queimar mendigos?
se a elite é tão perfeita assim, porque o consumo de drogas aumenta assustadoramente nas festas e raves freqüentadas pelos filhos da elite?

Alon, acho que o problema não é só tentar definir modernidade a partir da visão da elite mas sim limitar a sua (dele) visão apenas ao que interessa à sua (dele) tese.

terça-feira, 28 de agosto de 2007 16:20:00 BRT  
Anonymous Marco Freitas disse...

Alon,
Pena que vc não comparou o "gato de energia" com a sonegação de IR generalizada (99,9%) e explicita (pois todos falam em alto e bom som) dos profissionais liberais. Todos com alto nível de educação (médicos, dentistas, advogados, etc..) Neste ponto não tem desculpa da média. Como explicar este "jeitinho" pelo raciocinio do professo.r

terça-feira, 28 de agosto de 2007 16:23:00 BRT  
Anonymous Einar Larson disse...

Lamentável o conjunto de considerações pseudo intelectuais de sua parte. É fácil perceber o viés político ideológico de suas colocações, embora vc procure ocultá-lo. Qualquer criança com mais de 10 anos sabe que, em geral, pessoas mais instruídas tendem a apresentar um comportamento mais ético, simplesmente porque foram educadas por mais tempo. Em outras palavras foram socializadas segundo valores cosmopolitas. Já a ralé, ou o populacho se preferir, tende a agir orientada por "valores" mais, digamos, imediatistas. Se quiser - egoístas. Daí que a tolerância com o jeitinho, a corrupção e mesmo a violência é muito maior entre os menos instruídos.
Mas claro que seria demais exigir que doutrinados pela "sharia pucuspiana”, como vc e sua claque, exerçam um mínimo de raciocínio lógico e pragmático. Depois vcs se espantam com o atraso de nosso país. Tenha paciência.
Einar
ps – Sou graduado, mestre e doutor pela USP, mas consegui me livrar do condicionamento a que fui submetido.

terça-feira, 28 de agosto de 2007 16:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, porque vc não escreve sobre o julgamento do STF?

terça-feira, 28 de agosto de 2007 17:28:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Escrevi um post (Um debate interessante no Supremo Tribunal Federal) e estava esperando a conclusão. Estou hoje no fechamento do Correio e devo escrever amanhã.

terça-feira, 28 de agosto de 2007 18:01:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Qualquer pesquisa em que o pesquisado se auto avalie em valores e gostos costuma ter pouco valor científico. O mercado publicitário sabe bem disso. Uma clássica vítima desse tipo de pesquisa foi a mudança da fórmula da coca-cola na década de 70 ou 80. Os pesquisados responderam massivamente que gostariam da mudança. O resultado da mudança foi a demissão do CEO, devido ao fracasso de vendas e a volta da fórmula clássica, para recuperar o mercado e atender ao verdadeiro gosto do consumidor.

Se você pesquisasse sobre gosto musical, entre as elites apareceriam muito mais apreciadores da música clássica do que o consumo tanto do mercado fonográfico como dos downloads comprova.
Entre os menos letrados também ocorreria a distorção, mas em menor escala, porque há menos conhecedores de música clássica. E muitos não teriam a percepção de "status" que o sim confere ao pesquisado.

O Alon já explicou isso com outras palavras em post anterior, citando o exemplo do interesso por sexo na internet.

Eu acho também que a compreensão da pergunta pode ser diferente conforme o contexto social.

Em classes pobres a corrupção permeia o dia a dia e é intitucionalizada: é a corrupção policial, milícias e ou tráfico que cobram pedágio. A internação em hospital público muitas vezes depende da carta de recomendação do político. O cidadão muitas vezes é apenas vítima e refém da corrupção. Não enxerga um ente estatal a que possa denunciar sem se dar mal. Tão pouco enxerga na admissão da existência dessa realidade algo que o embarace. A corrupção nem sempre é uma escolha para auferir um benefício com facilidade, como no caso da elite. É, muitas vezes, uma opressão. Daí enxergar a corrupção como algo sistêmico imposto ao seu cotidiano e responder com ceticismo quanto à sua inevitabilidade.
Não acho que isso denote aprovação à corrupção, denota mais submissão.
Paradoxalmente ao admitir que existe e tem que conviver com a corrupção estas pessoas podem estar sendo mais éticas, ao não mentirem.
E acredito que muitos que votaram no governo Lula, foi por enxergar uma esperança das coisas estarem mudando quando viu ministros do próprio governo serem denunciados. Dos casos virem à tona e seram alcançados pela justiça. Isso representaria uma esperança no fim da impunidade.

Já na elite a corrupção é vista quase sempre como uma escolha moral. Então o pesquisado claramente assume a posição defensiva de condenar a corrupção, pois declarar seu aceite, implica em auto condenação ética.

Os mesmos da elite que condenaram a corrupção na pesquisa, poderiam responder diferente diante de perguntas levemente modificadas, como se já foram "achacados" por algum fiscal ou policial. Ou se já fizeram alguma "desobediência civil" no pagamento de taxas ou na aquisição de imóveis por valor escriturado mais baixo, em relações trabalhistas com empregados, ou comerciais informais como serviços autônomos de pedreiros, encanadores, ou se sempre recolheram 20% ao INSS.
Certamente responderiam que já praticaram alguma destas desobidiências civis, não por se sentirem corruptos ao praticá-las e sim por achar a lei excessiva para cumprí-la.

terça-feira, 28 de agosto de 2007 18:04:00 BRT  
Blogger Cassio disse...

Alon, os EUA são o povo mais religioso do ocidente. São também, os mais individualistas (no sentido de que o coletivo não tem o direito de oprimir o individuo). E é no Bible Belt daquele país que se encontram os mais avessos ao governo. Falei bobagem ou esses fatos não contradizem essa história de religiosos-pró-governo? Além disso, se formos no sentido dos muito eruditos, não daqueles que têm um apenas diploma universitário, mas que possuem um conhecimento muito mais amplo, que dedicam boa parte da vida a iluminar um pouco suas almas, vamos encontrar muitos religiosos.
Sinceramente, e infelizmente, não vejo aqui a elite escolarizada cultivando horror algum ao estado. Ao contrário.
Pra finalizar, os usos de "arcaico" e "moderno" são ruins pra se categorizar qualquer melhora. Linha do tempo não garante nada além de melhoras tecnológicas, mas princípios podem ficar pra trás e nem serem lembrados de tanto tempo que fundaram as bases culturais das sociedades e, por isso mesmo, mais frágeis contra possíveis ataques na medida em que nem mesmo percebemos quando eles são atacados.

terça-feira, 28 de agosto de 2007 18:16:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Eu acho inacreditável o grau de hipocrisia que permeia toda esta discussão. Ricos roubam bilhões, pobres roubam centavos, e no entanto o "déficit ético" é favorável aos ricos ? A realidade é que nossa cultura é a cultura do "levar vantagem", e por isso quem pode mais rouba mais. Não vejo na prática absolutamente nenhuma diferença de princípos entre os vários estratos sociais: todo mundo quer levar vantagem. esta é a realidade. Ok, não é todo mundo, mas é a maioria, disso não tenho dúvida, independentemente do nível cultural ou econômico. Acho que o único resultado prático de toda esta discussão vai ser o aumento do preconceito das supostas elites contra as camadas mais pobres da população. (Isso ainda vai acabar sobrando pro Lula...)

terça-feira, 28 de agosto de 2007 22:13:00 BRT  
Anonymous O Renegado Graduado disse...

Esse foi o mais bonito libelo a favor da Revolução Cultural Maoísta que eu já li. Confesso que tenho diploma universitário. Que dia serei encarcerado no campo de reeducação junto a camponeses analfabetos?

terça-feira, 28 de agosto de 2007 22:57:00 BRT  
Blogger Jurandir Paulo disse...

Alon, vi o debate, sua participação e estou em acordo com sua análise aqui exposta. E dou meu tom: nossas elites são retrógradas, perversas e odeiam o andar de baixo, herança de nosso ainda recente passado colonial. Condenam o estado mas o cobiçam permanentemente no restrito cumprimento de suas demandas. Odeiam os despossuídos mas não têm a menor capacidade de atentar para sua responsabilidade na miséria que bate às suas portas, inclusive na forma da violência urbana. Nossas elites precisam voltar para a escola.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007 00:15:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Educação se aprende. Simples e direto. Não é genético, não passa pelo sangue, não se pega no ar, se aprende. para aprender tem que ter 3 coisas: 1. vontade, 2. ambiente 3 professor. senão o cara finge que está aprendendo. O máximo que o estado pode dar é professor, e geralmente dá um professor muito ruim.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007 00:43:00 BRT  
Anonymous trovinho disse...

Alon, achei repugnante a sua gravata dourada, parecia uma sucuri de ouro te aplicando um gogó...

quarta-feira, 29 de agosto de 2007 03:00:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro José Augusto, excelente comentário. Você vai fundo em mostrar as dificuldades semânticas que se escondem por traz de palavras aparentemente claras, e que essas dificuldades são tão maiores quanto maiores as diferenças de instrução e de experiência de vida na população pesquisada. Apenas um acréscimo, acredito que ninguém negaria que quanto maior a instrução maior a capacidade de raciocínio abstrato e maior a facilidade de elaboração discursiva, para o bem e para o mal, e portanto maior a possibilidade de sair bem no retrato de qualquer pesquisa.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007 07:35:00 BRT  
Anonymous JV disse...

a gravata estava bem.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007 09:24:00 BRT  
Anonymous tiago mesquita disse...

Penso que isso é mais uma reedição do pensamento autoritário que tanto encantou as cabeças do nosso país até os anos 50. Depois do período JK, o pessoal ficou envergonhado de dizer que pobre era pobre porque merecia, mas agora voltou. Logo logo, blogueiros e colunistas voltarão a citar o Silvio Romero como referência para as suas análises.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007 09:55:00 BRT  
Anonymous green_eyes disse...

fora toda essa discussao ideologica e metodologica, fico pensando se uma pesquisa com menos de 3000 pessoas eh valida para definir toda a populaçao brasileira... qualquer pessoa que jah estudou estatistica sabe que eh possivel influir no resultado pela escolha dos locais e pessoas a serem entrevistadas.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007 11:53:00 BRT  
Anonymous Jorge Maia disse...

Primeira visita ao Blog e certamente não a última. Excelente análise. Acho que acertas o alvo: tautologia, que está absolutamente clara no papel do Estado.

O comentário do Duda complementa e duvido que seja fácil de responder por quem concordo com o prof. Almeida.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007 15:56:00 BRT  
Anonymous renata disse...

Parabens, Alon, pela participação. Acho que só com o questionamento construtivo podemos chegar a algum lugar. Percebi que esse livro está dando o que falar e, embora não o tenha lido tenho a sensação de que a conclusão do professor não é realista. Mas o que mais me chamou a atenção foram as manifestações que tenho visto (da parte da elite Ética do professor) a respeito da "cultura da ignorância". É uma tese repetida por muitos de que no Brasil se valoriza a ignorância. Quem a defende invariavelmente repete o fato de o presidente Lula não ter estudado quando, segundo dizem (não são minhas palavras), poderia tê-lo feito, preferindo continuar como aposentado por invalidez e sustentado pelo PT.
Eu sinceramente não acredito que exista, da forma como se coloca, um preconceito contra os cultos e estudados. Vejo, sim, o preconceito como uma forma de cegar as pessoas, mas isso, me desculpem os que defendem a tese, não é exclusividade dos "ignorantes". Leio seu blog porque acho suas opiniões honestas, questionadoras e na medida do possível imparciais.
Fiquei curiosa para saber o que vc acha disso tudo.
Abraços,
Renta

quarta-feira, 29 de agosto de 2007 16:24:00 BRT  

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