sábado, 25 de agosto de 2007

Também para o bem dos americanos, vamos rejeitar o que os americanos nos propõem (25/08)

Na Folha de S.Paulo de hoje, o embaixador do Estados Unidos no Brasil nos faz uma proposta que devemos recusar. Em nome da defesa dos interesses nacionais e, por que não?, também dos verdadeiros interesses norte-americanos. Diz a Folha que

O Brasil poderá estreitar a colaboração com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e agir ao lado da organização como ator de uma "parceria global" -ao menos no que depender dos Estados Unidos. A idéia foi sugerida ontem em São Paulo por Clifford Sobel, embaixador americano no Brasil, que afirmou também que Brasília "poderá ajudar a convencer outros países com visões semelhantes a colaborar com a Otan". Criada em 1949 para se contrapor ao avanço da União Soviética, a Otan conta hoje com 26 países-membros ligados por acordos militares de proteção mútua e ação conjunta. Em palestra ontem na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em São Paulo, Sobel disse que não há um modelo para uma parceria com o Brasil, mas citou como exemplos colaborações da Austrália e do Japão. "Isso não significa trazer membros de fora do espaço euroatlântico para a aliança, mas facilitar a ação de uma Otan forte, que trabalha com parceiros globais."

Clique aqui para ler a reportagem completa. Eu proponho que o Itamaraty chame o embaixador Sobel e lhe diga algumas coisas. Uma delas é que o Brasil não tem interesse em se alinhar com a Otan, pois o objetivo estratégico do Brasil é manter a América do Sul fora da nova polarização militar Leste-Oeste (Estados Unidos contra a Rússia e a China). Seguindo a melhor tradição isolacionista da política externa norte-americana, o Brasil deve se concentrar na tarefa de co-liderar uma América do Sul democrática e pacífica e deixar que os Estados Unidos cuidem dos problemas dos Estados Unidos. Os norte-americanos acreditam que a maior ameaça de momento à sua segurança nacional é a combinação entre o terrorismo e as armas de destruição em massa. Pois bem, a América do Sul é o único continente livre desses dois vetores, e deve continuar assim. Esse é o interesse do Brasil e também -o embaixador Sobel certamente nos permitirá opinar- dos Estados Unidos. Ou será que o embaixador Sobel imagina ser possível que um dia soldados brasileiros estejam lutando ao lado dos marines em terras venezuelanas para garantir o fornecimento do petróleo daquele país caribenho para a superpotência da América do Norte? Se o embaixador Sobel pensa isso talvez esteja na hora de trocá-lo. Os Estados Unidos têm lá os seus problemas com a Venezuela. Eles se agravaram a partir do momento em que Washington adotou atitude no mínimo suspeita quando da tentativa de golpe contra o presidente Hugo Chávez, em abril de 2002. O que o Brasil tem a ver com isso? Nada. Rigorosamente nada. Há por certo quem no Brasil tente reavivar as chamas da guerra fria e fazer do nosso país uma plataforma para provocações contra a Venezuela e também contra Cuba. Com o propósito de buscar lá fora a força política que não conseguem reunir aqui dentro. Vide o caso dos dois boxeadores cubanos que desistiram de desertar e pediram para voltar ao seu país, no que foram prontamente atendidos pelo governo brasileiro. A mesma reportagem da Folha traz um trecho impressionante:

Presente na palestra ontem, o ex-embaixador brasileiro em Londres Sérgio Amaral afirmou que é preciso estudar a proposta de Sobel. Ele defendeu, porém, que as relações do Brasil com os EUA vêm melhorando ao lado da deterioração das relações dentro da América Latina. "[O presidente da Bolívia], Evo Morales, jogou na lata do lixo o mais promissor setor de integração da América do sul -o energético-, e Chávez desencadeou uma corrida armamentista sem precedentes."

Outro dia teve gente que se chateou quando eu falei dos embaixadores de pijama, uma turma do Itamaraty que depois de perder o poder redescobriu o alinhamento automático com os Estados Unidos como a maneira de permanecer no noticiário. Está em O "non-refoulement" e a liberdade individual, segundo o embaixador Celso Lafer. Deixa eu entender o que propõe o embaixador Sérgio Amaral. Ele pede que o Brasil se alie com os Estados Unidos contra a Bolívia e a Venezuela. Talvez o embaixador esteja pensando em apoiar, por exemplo, o movimento separatista da elite oriental da Bolívia, em Santa Cruz de la Sierra. O que o Brasil teria a ganhar se seguisse as orientações do embaixador Sérgio Amaral? Nada. Rigorosamente nada. O Brasil deve fazer é o contrário. Acelerar a entrada da Venezuela e da Bolívia no Mercosul e trabalhar por uma estratégia continental de defesa, por uma aliança militar regional que desfaça as nuvens de desconfiança criadas entre nós, sul-americanos, pelos Estados Unidos e por seus aliados. Na redemocratização conseguimos fazer isso com a Argentina. Vamos repetir aquela experiência exitosa. A Venezuela considera-se ameaçada pelos Estados Unidos e promove o reequipamento militar do país com armas russas e chinesas. Com especial atenção para uma eventual guerra assimétrica. Quem se concentra na possibilidade de uma guerra assimétrica é porque espera ser invadido -e não porque esteja pensando em invadir. Em vez de sairmos correndo para debaixo da asa do titio Bush, nós deveríamos fazer algo parecido com o que faz o presidente Chávez. Reequipar as nossas Forças Armadas com tecnologia a que pudéssemos ter acesso independentemente da vontade de Washington. Uma América do Sul militarmente forte, independente e coesa é a melhor maneira de preservarmos a paz na região. Como não vamos mesmo atacar os Estados Unidos, quem sabe eles deixam de lado a idéia de aventuras aqui. E todo mundo fica numa boa. E que a turma do pijama continue assim. De pijama. Para evitar que a América do Sul se transforme em território política e militarmente conflagrado. Querem voltar ao poder? Corram atrás dos votos, em vez de tentar nos empurrar para maluquices sem pé nem cabeça.

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11 Comentários:

Blogger Rafael Kafka disse...

O Brasil não pode tolerar a guinada autoritária de regimes pouplistas como o boliviano e o venezuelano.

Não há a mais ínfima chance da Venezuela ser invadida, os países produtores de petróleo disputam os EUA como clientes, nunca houve e não há escassez.Os EUA não precisam mover uma palha por petróleo, são a nação mais rica e poderosa do mundo.

sábado, 25 de agosto de 2007 23:07:00 BRT  
Anonymous trovinho disse...

A conversão das reservas do Iraque de dólares para euros coincidiu com o brutal tensionamento pré-Primeira Guerra do Golfo, só os anjos não viram.

domingo, 26 de agosto de 2007 04:58:00 BRT  
Blogger Frodo Balseiro disse...

Alon
Me desculpe, mas o Brasil só tem uma chance! Alinhar-se ao mundo livre, democrático, progressista, que representa os ideais de liberdade, democracia e progresso, em todos os sentidos.
Não se trata de alinhamento aos EUA, mas a algo mais amplo que é a civilização judaico/cristã ocidental.
Contra a barbárie dos suicidas facistas/islamicos, ou os mal disfarçados agentes "kagebitas" de Moscou, com seus envenenamentos sucessivos, seus métodos trogloditas de entender a liberdade!
O Brasil não pode embarcar nesse movimento regressista de retorno às cavernas, dos primordios da civilização representados pelos movimentos indígenas de Chavez, Moralez, e outros simpatizantes menos estrelados.
Temos que nos ajuntar àqueles que preservam o carater iluminista de nossa civilização!
Não podemos nos alinhar aos ditadores, aos assassinos de idéias e pessoas, aqueles que prendem seus cidadãos dentro de uma ilha, sem pesperctiva, sem liberdade, sem luz elétrica sem comida, sem tecnologia, enterrando esperanças debaixo da lama putrefata de ideologias falidas, que já demostraram seu único propósito: garrotear o povo, e se perpetuar no poder!

domingo, 26 de agosto de 2007 06:47:00 BRT  
Anonymous sergio g disse...

Vixe!
Só dá comentarista troglodita aqui!
Falando de alinhamento, a política externa brasileira vem trabalhando no sentido de diluir essas tensões provocadas pelos EUA e asseclas (incluo aí os de pijama). A opção sul-sul revela isso
O Atlântico sul deve ser uma área fora dos conflitos mas bem protegida.Sua ligação com o Índico e Pacífico idem. Daí alianças estratégicas com a África do Sul e Índia. O que também ajuda a neutralizar a China.
Enfim, salvo as bobagens desse tal de Amaral (fala tão pausado que parece lobotomizado)há um bom entendimento estratégico no Itamarati.
Quanto à Venezuela e Bolívia, apesar dos arroubos de Chavez e Morales (mais voltados ao público interno) temos tido um bom encaminhamento. O problema é que a mídia nacional transforma qualquer assunto interno deles em problema nosso. Vale tudo prá enfernizar o Lula.

domingo, 26 de agosto de 2007 08:56:00 BRT  
Anonymous Avi Emepeg disse...

Eu concordo com este post. Realmente o melhor para nós é unirmo-nos aos nossos vizinhos para fazer um mercado comum, protegido por uma sólida alian''ca militar. Quanto ao Frodo, lamento que suas legítimas convicções ideológicas o levem à cegueira política. Ô frodo, você quer reavivar a guerra fria na América do Sul? Esquece, cara, você não vai conseguir!

domingo, 26 de agosto de 2007 09:28:00 BRT  
Anonymous PériclesV disse...

Muito bom o texto. Daí que o Frodo só conseguiu responder xingando. Eu quero saber o que o Brasil ganha se inserir a América do Sul na lógica do conflito global entre os Estados Unidos e a Rússia (e a China).

domingo, 26 de agosto de 2007 09:30:00 BRT  
Anonymous Avi Emepeg disse...

Rafael, o que você quer dizer com "o Brasil não pode tolerar"? Sua colocação é retórica ou você defende que chamemos os americanos para juntos invadirmos os vizinhos?

domingo, 26 de agosto de 2007 09:31:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Pois é Frod Balseiro, essa gente "kgbista" é muito esperta.
Conseguem enganar todo mundo. Eu, por exemplo, acreditava que o Brasil vivia uma democracia de opinião plena, que o Brasil teria relações mais que cordiais com os ditos "países democráticos e progressistas".
Mas ainda bem que o senhor me lembrou que estamos caminhando a passos ligeiros para o modo de vida islâmicos. Acabou-se o carnaval, nossas mulheres usarão burcas e o próximo presidente será um pajé. Viveremos de artesanatos e cantaremos a internacional socialista sobre a supervisão dos agentes de Moscou.
Obrigado por iluminar minha mente, Frodo balseiro.
Agora vou tentar descobrir o que os agentes "kgbistas" estão pondo na água dos Brasileiros para que todos fiquem tão alienados!

domingo, 26 de agosto de 2007 10:50:00 BRT  
Anonymous Carlos Frederico disse...

Como sempre, Alon em defesa do militarismo, em torno do que considera uma verdade absoluta: "Uma América do Sul militarmente forte, independente e coesa é a melhor maneira de preservarmos a paz na região". Quanto mais forte o exército, maior a garantia de paz. Quanto mais polícia, mais paz! Quanto mais rigor nas leis, mais paz! Mais punição, mais paz! Impressionante como essa fórmula está dando certo demais!!!

segunda-feira, 27 de agosto de 2007 00:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Quem for contra mim, é autoritário. Quem for a meu favor, é democrata. O Millôr já denunciou esse tipo de contradição com palavras mais inteligentes, mas eu não lembro quais eram.

*

"O Brasil não pode tolerar a guinada autoritária de regimes pouplistas como o boliviano e o venezuelano."

segunda-feira, 27 de agosto de 2007 11:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"Pois bem, a América do Sul é o único continente livre desses dois vetores, e deve continuar assim."

Alon, as Farc não seriam um grupo terrorista? Talvez um dos mais antigos em atividade no mundo?

segunda-feira, 27 de agosto de 2007 14:26:00 BRT  

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